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Full text of "Relação da embaixada a França em 1641. Reimpr. com noticias e documentos elucidativos por Carlos Roma du Bocage e Edgar Prestage"

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^'■í.: 






PRIMEIRAS EMBAIXADAS DE EL-REI D. JOÃO IV 



RELAÇÃO DA EMBAIXADA 
A FRANÇA EM 1641 



ACADEMIA DAS SCIENCIAS DE LISBOA 



PRIMEIRAS EMBAIXADAS DE EL-REI D. JOÃO lY 



vRelação da Embaixada 
a França em 1641 



/^^rr: 



«'JiHB^ ^ . —^^ 



1 JOÃO FRANCO BARRETO 

REIMPRESSA COM 

NOTICIAS E DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 

POR 

CARLOS ROMA DU BOCAGE 

E 

EDGAR PRESTAGE 

Sócios correspondentes da Academia das Sciências de Lisboa 




COIMBRA 

Imprensa da Universidade 

1918 



^ 19^ 'í 



PARECER 

Redigido pelo Sr. Joaquim Coelho de Carvalho 
àcêrca da reimpressão da obra intitulada 

«A embaixada do Monteiro-mór 
e do Doutor António Coelho de Carvalho» 



Haveis-nos dado a dupla tarefa de examinar um 
manuscrito, cópia do livro impresso intitulado A 
Embaixada do Motiteiro Mór e do Doutor António 
Coelho de Carvalho a França, e de dizer-vos em 
parecer fundamentado, se o temos por obra digna 
de ser, por conta da Academia das Sciências de 
Lisboa, reimpressa, como alvitrado nos foi pelos 
nossos ilustres consócios Srs. Carlos Roma du Bo- 
cage e Edgar Prestage. 

Lemos com toda a atenção o livro com a cópia 
manuscrita e consideramos que, fazendo-o reimpri- 
mir e correr, a nossa Academia prestará um bom 
serviço às belas letras e à história pátria; por- 
quanto é obra, pela vernaculidade e elegância da 
linguagem, digna do seu auctor, o clássico João 
Franco Barreto, o célebre erudito que compoz em 
oitava rima a Eneida Portugue\a^ a qual, mais 
dum século volvido, veiu a ser a mais copiosa fonte 



VI 



do diccionário de Morais e Silva. E sendo deste 
livro da Embaixada do Monteiro Môr e do Dou- 
tor António Coelho de Carvalho a tal ponto raros 
os exemplares impressos que Inocêncio disse cons- 
tar-lhe a existência apenas dum, o da biblioteca de 
Icrd Stuart em Inglaterra, mal fora não se facultar 
aos estudiosos da lídima linguagem portuguesa tão 
clara lição. É de notar a simplicidade ática desta 
narração escrita numa época em que, na Península, 
a clareza do conceito se afogava e perdia no refo- 
Ihado estilo de Luiz de Gongora e J. Argote. Mas 
além destas qualidades de estilística possuir, é o 
livro da Embaixada opulento repositório curioso de 
utilíssimas notícias de usos e costumes, de lendas 
e pragmáticas, tanto das províncias de França pela 
Embaixada percorridas, como da corte do seu então 
monarca Luís XIII. 

E, pois, meu parecer que se reimprima a obra; 
com a condição porém de os nossos ilustres con- 
sócios, que a reimpressão propuzeram, a opulenta- 
rem de anotações, indispensáveis especialmente 
para a identificação dos lugares (cidades, vilas, 
aldeias, herdades e castelos), onde os embaixadores 
se detiveram ao passar ou a que o narrador de suas 
jornadas faz referências, pois, na forma em que 
estão escritos nomes tais, difícil nos é hoje reconhe- 
cê-los, e até impossível será achá-los em alguma 
boa carta topográfica da França moderna, nem sobre 
ela seguir, por aqueles nomes, o itinerário dos em- 
baixadores de D. João IV ao rei de França, tanto 
na ida, desde o desembarque em La Rochelle até 
Saint Germain, onde entãoLuís XIII havia residência 



— VIÍ — 

e corte ; como na volta, regressando, por Orléans, 
àquele porto. 

Egual trabalho de identiticação muito convirá 
também, se possivel lhes for, em relação aos nomes 
de família dos senhores que intervieram a festejar 
os embaixadores de el-rei, em as jornadas verda- 
deiramente triumfaes, desde que em França entra- 
ram, até que a Lisboa volveram trazendo, de escolta 
de honra, navios franceses da real armada. 

E como o facto da cordealíssima acolhida que 
houve a primeira Embaixada do Portugal restau- 
rado, tanto pela parte do monarca e da Rainha, 
como pela dos nobres franceses, mostra só por si 
quão grande significação politica tinha para a pró- 
pria França aquela missão, cumpre-nos exigir ainda 
que os Srs. Roma du Bocage e Edgar Preslage nos 
dêem, em prefácio ou em posí loquia, a notícia 
crítico-histórica das relações da corte de Luís de 
França com a de Madrid na época em que Portugal 
foi restaurado do poder de Filipe IV de Castela; e 
ainda dizerem a influência que o acordo de Lisboa 
com Saint Germain, resultante da Embaixada de 
Monteiro Mór e do Doutor António Coelho de Car- 
valho teve na política externa da França e na dos 
dois reinos da península no decorrer do tempo que 
se seguiu até à paz definitiva com a Hespanha. 

Lisboa, 21 de Janeiro de 1913. 

A. Braamcamp Freire. 
Júlio M. de Vilhena. 
Joaquim Coelho de Carvalho (relator). 



PREFACIO 



Na liRelaçam da viagem que a França Jt^e- 
ram» os primeiros embaixadores enviados á 
corte de Luiz XIII pelo nosso D. João IV ape- 
nas subiu ao throno, tal como a escreveu e 
publicou João Franco Barreto, secretario par- 
ticular do embaixador Francisco de Mello, 
não se deve procurar uma noticia circunstan- 
ciada das negociações realizadas em Paris. 
Sobre ellas guardou o auctor a mais discreta 
reserva, não alludindo mesmo ás successivas 
e desencontradas variantes por que passaram 
e ás manifestas tergiversações dos negocia- 
dores francezes, influenciados por causas ex- 
tranhas ás relações entre a França e Portugal, 
como adeante veremos. 

O que nos dá Franco Barreto, bom escrip- 
tor, investigador curioso e erudito, é a nar- 
ração fiel de uma viagem tal como no anno 



de 1641 a fizeram os enviados do rei de Por- 
tugal ao soberano da França e o seu séquito 
luzido e numeroso. 

Constituiam a missão portugueza dois em- 
baixadores de egual cathegoria, o monteiro- 
mór Francisco de Mello e o desembargador 
António Coelho de Carvalho, entre cujos com- 
panheiros se destacava, com merecida pree- 
minência, o secretario da embaixada, desem- 
bargador também, porém da Relação do Porto, 
Christovam Soares d'Abreu, jurisconsulto aba- 
lisado e homem de boas letras *. 

Com elles ia Pedro de Mello, moço e bri- 
lhante fidalgo, filho do Monteiro-mór, desti- 
nado certamente a uma brilhante carreira, se 
a morte impiedosa o não tivesse arrancado 
prematuramente, durante a missão, aos aífec- 
tos paternos e á entranhada sympathia que 
despertara em todos os membros da embai- 
xada e até conseguira desde logo alcançar na 

^ Dos dois Embaixadores, de Soares d' Abreu, e de Franco 
Barreto nos occupamos na segunda parte da Inirodiicção re- 
lativa ao Pessoal da Embaixada. A Pedro de Mello, filho do 
Monteiro-mór, e aos que desde Portugal acompanharam a 
missão ou a ella se aggregaram em França refcrir-nos-hemos 
nos Personagens e logares citados. 



T— XI — 



sociedade franceza que tão pouco tempo fre- 
quentou. 

Como estribeiro do Monteiro-mór vemos 
mencionado Manuel Freyre de Macedo, sem 
que lográssemos obter acerca d'este perso- 
nagem, a que Franco Barreto apenas allude 
uma vez, qualquer noticia ou pormenor. 

Outro companheiro de viagem foi o ce- 
lebre polygrapho Padre Francisco de Santo 
Agostinho de Macedo, «que a negócios seus 
passou occulto a todos, em nossa própria nao, 
áquelle Reyno, pêra dali se ir a Roma», como 
d'elle diz Franco Barreto; e cujo extraordi- 
nário saber foi utilíssimo á missão portugueza, 
conforme claramente especificam tanto o se- 
cretario do embaixador como o próprio secre- 
tario da embaixada. 

Pois em tão brilhante companhia não se 
encontrava quem conhecesse a lingua fran- 
ceza, tão rara era então a practica de linguas 
vivas mesmo entre os homens de maior cul- 
tura ; sabiam latim e sabiam-no bem tanto o 
Padre Macedo como Franco Barreto, traduc- 
tor da Eneida, não podiam ignoral'o nem 
Coelho de Carvalho nem Soares d'Abreu e 
fallavam decerto muitos d'elles o hespanhol; 



— XII — 

do Monteiro -mór sabemos que se servia 
da lingua castelhana nas suas conversações 
com Anna d'Austria e com o próprio Ri- 
chelieu; mas do francez nenhum podia usar 
senão o interprete Pêro de Oliveiros, a 
quem a Relaçam por vezes se refere, sem 
que nos dê da sua pessoa desenvolvida no- 
ticia. 

Tal era, rapidamente enumerado, o pessoal 
da embaixada, a quem mais desenvolvida- 
mente nos havemos de referir, sobretudo pelo 
que toca aos dois embaixadores, ao secretario 
official e ao nosso auctor. 

Nas notas, muito numerosas embora ainda 
incompletas, acerca dos Personagens e la- 
gares citados por Franco Barreto ou por 
Soares d'Abreu, encontram-se os dados que 
sobre uns e outros alcançámos, recorrendo 
para os francezes, de quem não seria fácil 
encontrar em Portugal noticia segura, á ge- 
nerosa benevolência do illustre professor e 
notável escriptor francez, o Sr. Alfred Morei 
Fatio, particularmente competente em quanto 
respeita a manuscriptos e documentos por- 
tuguezes e hespanhoes existentes em França, 
a quem n'este logar consignamos a expressão 



— XIII — 

do nosso respeito e do nosso reconheci- 
mento *. 

Á Relaçam de Franco Barreto, pareceu- 
nos útil accrescentar alguns Documentos elu- 
cidativos; vamos enumerares dizendo sobre 
cada um d'elles o indispensável para se pode- 
rem apreciar. 

São bastante conhecidas as Instrucçôes os- 
tensivas da embaixada, transcriptas por Franco 
Barreto, (pagg. 71 e segg.), de que o Visconde 
de Santarém publicou no Quadro Elementar, 
um desenvolvido extracto e a que vários es- 
criptores se teem referido com o merecido 
elogio ^; mas, com ellas foram dadas aos dois 

1 Apesar da sua particular competência e amável dedi- 
cação, nem sempre o illustre professor conseguiu identificar 
os personagens mencionados por Franco Barreto, de quem 
diz: «Beaucoup de personnes mentionnées par Barreto n'ont 
qu'une três mince importance et on ne les trouve pas toujours 
recensées dans les ouvrages de Vépoque». Sirvam-nos estas 
palavras de desculpa se as nossas notas a alguém parecerem 
escassas. 

M'ellas procurámos identificar quanto possível pessoas e 
logares, orthographando correctamente os nomes sempre que 
os pudemos conhecer e algumas vezes adivinhar; não pensá- 
mos, porém, em corrigir erros históricos e geographicos, o 
que nos teria levado muito longe, deixámoros á responsabi- 
lidade de Franco Barreto. 

2 V. Quadro Elementar das Relações Politicas e Diplo' 



•^ XIV — 

embaixadores umas Instruções Seaetas que 
se conservam na Torre do Tombo, sem que 
tenham sido impressas na integra; damos-ihe 
o primeiro logar nos nossos Documentos Eluci- 
dativos (pagg. i53 e segg.) por nos parecerem 
interessantes tanto as referencias á Catalunha 
e á Hollanda, como as indicações e perguntas 
quanto ao soccorro de tropas e officiaes ; e 
bem assim as recommendaçóes que dizem res- 
peito á necessidade de coordenar os esforços 
das differentes embaixadas, mantendo entre 
todas uma útil correspondência, que a distan- 
cia da corte e a escassez de communicaçóes 
tornava indispensável *. 

maticas de Portugal pelo Visconde de Santarém, (Paris, Ail- 
laud, 1843), T. IV, P. I, pagg. 5 e segg. Também se podem 
ver estas InstrucçÕes Ostensivas resumidas e commentadas 
em ; Subsidias para o Estudo das Relações Exteriores de 
Portugal em seguida á Restauração, por C. R. du Bocage, 
(Lisboa, Academia, 1916), T. I, Gap. IV, pagg. 5g e segg. 

1 Não vem fora de propósito mencionar que durante os 
quatro mezes que a embaixada permaneceu em França apenas 
recebeu por trez vezes cartas de Portugal, devendo con- 
cluir-se do que diz Soares d'Abreu nas suas Advertências, 
(pagg. 199 e seg. infra),, que haveria em Lisboa negligencia em 
as mandar e que muito conviria estabelecer constantes rela- 
ções marítimas entre Portugal e a França. 

As únicas cartas que encontrámos, dirigidas aos nossos 
embaixadores, damoFas no Documento III, (pagg. iSg e segg.). 



— XV — 



A designação das attribuiçôes do secretario 
Soares d' Abreu e cuidados que se recommen- 
dam quanto ás contas, as mais minuciosas, 
provam que na chancellaria portugueza se 
mantinham as melhores tradições de ordem e 
de economia. 

O Documento II (pagg. i Sy e seg.) é uma 
simples noticia da chegada dos nossos em- 
baixadores á Rochella, extrahida do diário de 
um contemporâneo habitante d'aquella cidade. 
Foi-nos communicado este documento pelo 
Sr. Morei Fatio a quem tributamos por elle os 
nossos agradecimentos. 

Seguem-se, Documento III (pag. iSg e 
segg.) duas cartas, ambas de 7 de Abril, 
assignadas por D. João IV e dirigidas aos 
seus embaixadores em França; foi portador 
d'ellas o bispo de Lamego, D. Miguei de Por- 
tugal, que ia por embaixador a Roma e de 
via encontrar-se com a nossa embaixada em 
Paris. A primeira carta refere-se aos ser- 
viços d'esta missão e parece ser resposta a 
outras, que o Monteiro-mór e Coelho de Car- 
valho escreveram ao Rei, em 2 de Março, 
ainda da Rochella ; a segunda diz respeito 
ao infante D. Duarte e não parece ter sido 



— XVI — 

conhecida de Ramos Coelho, pois não a men- 
ciona. 

Ambas estão em cifra e em parte decifrada 
a primeira, o que nos permittiu achar a chave 
e decifrar completamente as duas ; conser- 
vam-se ambas na Torre do Tombo. 

Seguem, Documento /F(pagg. 164 e segg.) 
umas cartas de Gaspar Fernandes de Lião 
para Christovam Soares d' Abreu ; são curio- 
sas não só pelas noticias que nos dão da vida 
intima da embaixada e das suas relações so- 
ciaes, mas sobretudo porque mostram a accei- 
tação que o signatário d'ellas tinha na corte 
de França; e a parte que tomou mesmo nos 
trabalhos diplomáticos mais confidenciaes, 
um simples negociante, que nem era portu- 
guez nem francez, nem ao menos sabia bem 
qualquer das linguas, coisa que é fácil ver 
lendo o que elle escrevia, e que se mettia por 
pedido do próprio Chavigny a traduzir do- 
cumentos diplomáticos para serem communi- 
cados ao Cardeal, juntamente com um por- 
tuguez residente em França. 

Este ultimo, Manuel Fernandes Villa Real se 
chamava elle, que exercia não sabemos até que 
ponto as funcçóes do cônsul portuguez, que 



— XVIÍ — 



Soares d'Abreu designa por capitão, e que 
Frei Francisco de Santo Agostinho de Ma- 
cedo veiu mais tarde a denunciar como judeu, 
acabou por soíTrer pena de morte em Lisboa, 
em i652. 

Não é das coisas menos interessantes esta 
intervenção de ofíiciosos, ricos mas suspeitos 
de christãos novos, nas negociações d'aquelle 
tempo, em que elles, coniiecedores do meio, 
mettediços e pouco escrupulosos, suppriam a 
falta de preparação de improvisados diplo- 
matas e exploravam o seu desconhecimento da 
lingua do paiz em que negociavam, intervindo 
muito particularmente quando se tratava da 
acquisição dos valiosos presentes, que era 
uso trocarem-se quando se concluíam as ne- 
gociações. 

O Documento V, Advertências de Christo- 
vam Soares d' Abreu (pagg. 171 e segg.), se 
acaso não era inteiramente desconhecido, per- 
manecia inédito; e, quanto a nós, merece bem 
ser conhecido porque contém, a par de judi- 
ciosos conselhos dados por quem tinha adqui- 
rido a necessária experiência para os poder 
dar, noticias acerca do meio que não são para 
desprezar. As Advertências foram compostas 



— XVIII 



por Soares d'Abreu para D. Vasco Luiz da 
Gama, conde da Vidigueira e primeiro mar- 
quez de Niza, quando ia partir, em 1642, para 
a sua primeira embaixada em Paris, e tanto 
bastaria para que nos interessassem se não ti- 
vessem também particular utilidade para fi- 
carmos sabendo muitos pormenores da nossa, 
que a penna erudita de Franco Barreto dei- 
xara no olvido. 

A Relação da viagem e a parte narrativa 
das Advertências completam-se ; pena é que 
nem uma nem outra nos informem acerca da 
parte politica, das negociações e do seu re- 
sultado; mas esses assumptos bem claramente 
indicam tanto o secretario da embaixada 
como o secretario do embaixador que os con- 
sideravam vedados, eram segredos de chan- 
cellaria. 

Segue-se ás Advertências uma Memoria sobre 
as contas da Embaixada de Franca, do mesmo 
auctor, que publicamos no Documento VI, 
(pagg. 210 e segg.), em que Soares d' Abreu 
diz como foram gastos uns 6ooíí»ooo reis que 
lhe entregaram para a jornada de França. 

E digno de notar-se que o pedido de justi- 
ficação é feito em Novembro de 1645 e o se- 



— XIX — 

cretario da embaixada responde, de memoria, 
em 12 de Dezembro, lamentando que o não 
advertissem de que tinha de dar contas quando 
lhe entregaram o dinheiro pois, se o tivessem 
feito, teria elle trazido quitações e mais do- 
cumentos. A nota dos gastos é curiosa, não 
escapando mesmo ao Desembargador enu- 
merar os volumes da sua própria bagagem : 
«4 baús, duas arcas da minha cama, e dous 
caixões de miudezas» (pag. 21 1). 

Queixa-se por fim Soares d'Abreu de que 
se individou para pagar as suas despezas du- 
rante a embaixada, e queixa-se ainda mais 
amargamente de que fossem melhor recom- 
pensados os serviços de outros secretários, 
António de Sousa de Macedo e António Mo- 
niz de Carvalho; não entraremos a apreciar se 
teria razão. 

O Documento VII que publicamos (pagg. 
2 1 5 e seg.), é um breve extracto de um livro 
manuscripto a que terá loi çosamente de re- 
correr quem queira estudar os primeiros annos 
do reinado de D. João IV e, muito particular- 
mente, as relações exteriores de Portugal n'esse 
periodo; é um precioso manancial de infor- 
mações que nenhum outro, de nós conhecido. 



XX 



pode supprir. Surprehende-nos mesmo qué 
ainda ninguém se abalançasse á obra utilis- 
sima da sua publicação em edição commen- 
tada e acompanhada de documentos elucida- 
tivos; pois seria obra utilissima, tanto mais 
que o auctor, manifestamente contemporâneo, 
corrige muitas vezes erradas apreciações do 
conde da Ericeira, de quem toda a gente copiou 
sem mais exame, salvo muito raras e não me- 
nos meritórias excepções. 

Referimo-nos, sem ainda o ter dito, aos 
íiAnaes de Portugal restituído a Reis iiaturaes», 
códice n.° 6818, supplemento, da Bibliotheca 
Nacional de Lisboa, sem nome do auctor*, de 

^ O sábio académico Ramos Coelho, que bastante se ser- 
viu d'este códice para a sua Historia do Infante D. Duarte^ 
(Lisboa, Academia, 1889), manifesta (a pag. 709 do T. I) a 
opinião de que : «Os Annaes de Portugal restituído a reis na- 
turaes foram escriptos por um dos advogados dos réos da cons- 
piração de mil seiscentos e quarenta e um, como se colhe da 
pag. 174 dos mesmoso, onde, com eífeito, se lê o seguinte: 
«Não lansamos aqui as sete cartas», a que atraz alludira, «por- 
que posto que as ly quando se deu vista aos advogados dos 
reos, como fossem tantas e tão difusas e o tempo que se dava 
aos letrados para defenderem os presos fosse abreviado não 
ouve lugar de as copiar». 

Não tivemos occasião para levar as nossas indagações mais 
longe do que as levou Ramos Coelho; ficaremos portanto 
ignorando quem seria o advogado dos réus, na conspiração 



— XXI — 

mais de quatrocentas folhas, devidido em sete 
Livros e cada um d'estes em numerosos Ca- 
pitulos. Os cinco primeiros referem-se ao 
desastre de Alcácer, á conquista de Portugal 
por Filippe II e ao direito que tinham os por- 
tuguezes á sua independência, não teem par- 
ticular interesse e são brevissimos; mas logo 
o VI e o VII dão interessantes noticias acerca 
da acclamação de D. João IV, continuadas 
nos seguintes com pormenores que seria inútil 
procurar no Portugal Restaurado. Á nossa 
embaixada refere-se todo o Capitulo VII do 
Livro II (foi. 74 a 77), bem como o Capitulo I 
do Livro IV, (foi. 180 a 182), que trata do re- 
gresso dos embaixadores a Lisboa na armada 
do marquez de Brézé. 

Os últimos acontecimentos a que o inte- 
ressante manuscripto allude correspondem 
ao principio do anno de 1644; no Capi- 
tulo XIII do Livro VII, trata da partida de 
D. Álvaro Pires de Castro, conde de Mon- 
santo que acabava de ser elevado a marquez 
de Cascaes, como embaixador extraordinário 

do marquez de Villa Real e do arcebispo de Braga, que tão 
grande serviço prestou á historia dos primeiros annos do rei- 
nado de D. João IV escrevendo os Anaes. 



XXII — 



para dar os pêsames da morte de Luiz XIII, 
partida que foi em 1 2 de Fevereiro de 1 644 ; 
e nos Capítulos XIV a XVIII, que são os úl- 
timos, menciona as operações do conde de 
Castelio Melhor na província do Minho, na 
campanha de inverno de 16 43 -164 4. Po- 
demos assim definir exactamente o período 
que os Anaes abrangem : são os trez primei- 
ros annos do reinado de D. João IV. 

Do interessante códice apenas reproduzi- 
mos um trecho em que d'algum modo se atri- 
bue ao Monteiro-mór a culpa de se não ter 
feito a liga formal com a França; e ao Bispo 
de Lamego o mérito de ter mostrado a Fran- 
cisco de Mello o seu erro. É assumpto de 
que nos propomos tratar n'outro logar e que 
porisso não desenvolvemos aqui. 

A seguir ao breve extracto dos Anaes damos^ 
Documento VIII, um poema em castelhano es- 
cripto em louvor da embaixada, com todos os 
defeitos da epocha, estylo emmaranhado, rhe- 
torica desnecessária e exaggeradas louvami- 
nhas para todo o pessoal da missão ; démoFo 
por ser raríssimo e por conter uma descripção 
pormenorizada da recepção feita por Luiz XUI 
aos nossos embaixadores. 



— XXIII — 

Fecha a serie dos Documentos Elucidativos 
com que nos pareceu útil completar a Rela- 
çam de Franco Barreto, sob o n.° IX, com uma 
ii Carta regia em favor de Garcia de Mello >> 
filho do nosso embaixador, na qual se allude 
largamente aos serviços do pae e do avô, 
permittindo-nos assim juntar mais algumas 
informações, absolutamente fidedignas, ás que 
possuíamos com respeito á biographia d'aquelle 
fidalgo que, digam o que disserem os seus de- 
tractores, foi um zeloso servidor do seu paiz. 

Rapidamente enumerámos os elementos de 
informação que tivemos por necessário accres- 
centar á Relaçam da viagem; vamos agora, 
na primeira parte da Introducção, expor n'um 
quadro breve, mas de fácil comprehensão, a 
situação internacional dentro da qual a nossa 
missão se moveu e as Negociações Diploma- 
ricas que realizou, com maior êxito do que 
lhe foi attribuido ; por ultimo, n'uma segunda 
parte, referiremos quanto conseguimos saber 
acerca do Pessoal da Embaixada, comprehen- 
dendo só os dois Embaixadores, Christovam 
Soares d'Abreu e Franco Barreto. 

Com respeito aos outros membros da missão 
e aos numerosíssimos personagens e logares 



— XXIV — 

citados, tanto por Franco Barreto como por 
Soares d'Abreu, reunimos em breves notas, 
coordenadas por ordem alphabetica, todas as 
indicações que pudemos conseguir, lamen- 
tando não ter podido levar mais longe o nosso 
inquérito, apezar do auxilio valiosíssimo que 
nos prestaram os Srs. Morei Fatio e Dr. José 
Maria Rodrigues, illustre professor e acadé- 
mico, a ambos os quaes agradecemos aqui os 
valiosos subsídios com que para o nosso tra- 
balho concorreram. 

Para o estabelecimento do itinerário da 
embaixada servimo-nos de um antigo atlas 
bastante detalhado pertencente á Bibliotheca 
da Academia, a que também recorremos para 
a identificação de um grande numero de lo- 
gares mencionados por Franco Barreto ^ 

Cremos assim ter cumprido a nossa missão 
e seguido, tão de perto quanto nos foi pos- 
sível, as indicações do douto Parecer da Secção 
de Historia, approvado pela Segunda Classe 
da Academia. 

* Atlas contenant les cartes générales et particulières de la 
Fratice pour servir à VHistoire de 1'État présení et ancien de 
ce Royanne, t. II, suivant la collection dit Sr. de Beaurain, 
Géographe ordinaire du Roi, à Paris, i~5o. 



INTRODUCÇÃO 

I 

Negociações diplomáticas 

Qual fosse o intuito da embaixada a França é 
matéria demasiadamente conhecida para que nos 
cumpra n'este momento expoFa e desenvolvera: 
dizem-n'o as InstrucçÕes Ostensivas que Franco 
Barreto transcreveu na integra * e ainda o confir- 
mam as InstrucçÕes Secretas, a que damos o pri- 
meiro logar nos nossos Documentos Elucidativos ^ 
ao que ainda vêem accrescentar-se as indicações 
contidas em duas cartas de D. João IV para os 
seus embaixadores, escriptas muito depois d'elles 
partirem e que também inserimos no seu logar ^ 

Não renovaremos aqui as apreciações, já por 
muitas vezes feitas, d'essas instrucçÕes e do objecto 
da missão; apenas consignaremos que, de todos os 
artigos das InstrucçÕes, de todos os objectivos que 
se indicavam aos nossos diplomatas, um só ficou 

1 Pagg. 7 1 e segg. 

2 Documento )t.° I, pag. i33 e segg. 

í Documento n.° III^ pag. 159 e segg. 



— XXVI — 

sobresahindo no espirito do publico a todos os' de- 
mais, de um só se occuparam os auctores contem- 
porâneos e até os mais auctorizados e recentes. 
Tudo o mais esqueceram e desprezaram, subordi- 
nando o seu juiso a esse modo de ver, quanto a 
nós errado; e, accusando Francisco de Mello e 
Coelho de Carvalho pelo que não alcançaram, nem 
mesmo cuidaram de indagar o motivo da sua falta 
de êxito, quando tão facil se antolhava a todos esses 
escriptores o conseguimento do que era, para elles, 
para a voz publica, para a tradição, o verdadeiro 
e único intuito da missão que fora confiada aos 
nossos embaixadores. 

Era esse fundamental objectivo da missão: que 
entre as duas coroas houvesse «irmandade paz e 
liga», liga indissolúvel e completa sem que um dos 
reis pudesse fazer pazes com os inimigos do outro, 
nem guerra aos amigos d'elle. N'essa liga, assim 
formal e absoluta, entrariam todos «os Reys, Prin- 
ceppes. Potentados e Republicas» que tivessem 
«aliança, paz ou tregoas, com ambas as Coroas». 
N'ella seriam emfim: «admittidos especialmente os 
estados das Províncias unidas de Olanda, Zelanda 
e Friza, querendo entrar n'ella. . . » ^ 

Eis o que os nossos diplomatas haviam de con- 
seguir, desse por onde desse, a bem ou a mal ; 
como não o alcançaram, choveram sobre elles ás- 
peras censuras, que primeiro vieram a publico no 

' V, Imtnicções Ostensivas, a pag. y5. 



— XXVII — 

Portugal Restaurado e foram constantemente re- 
produzidas durante dois séculos. 

Procuremos nós apreciar agora o caso com a 
imparcialidade devida; sejamos justos senão bené- 
volos com quem fez o que poude, com esclarecido 
e patriótico zelo, e conseguiu, quanto a nós, o mais 
que era humanamente possivel conseguir. 

Vejamos, em primeiro logar, o que diz Ericeira: 
alJsou», o cardeal Richelieu, «com os Embaixadores 
agradáveis termos e excessiva cortezia, offerecen- 
do-lhes logo muito mais do que lhe pedirão: porém 
elles uzando de uma errada fantasia aceitarão muito 
menos do que era necessário á defensa de Portugal, 
dizendo que nenhuma couza lhes faltava : e o tempo 
trouxe comsigo o arrependimento de não saberem 
uzar do primeiro ardor do Cardial, em todas as 
operaçoens daquella nação sempre o mais útil» *. 

Um outro auctor de boa nomeada, Alessandro 
Brandano, ainda vae mais longe ; esse accusa os 
ministros portuguezes de terem confiado vaidosa e 
exaggeradamente nas próprias forças do Reino, 
para a sua defeza; «recusaram imprudentemente», 
diz, «acceitar o que, n'esse tempo, com mão gene- 
rosa lhes teria sido concedido, talvez superabun- 
dantemente», e, coisa ainda peor, prescindiram «.con 
stupido e pernicioso consiglion (vae mesmo na lingua 
original para não tirar á expressão o seu máximo 

* V. Historia de Portugal Restaurado, por D. Lui^ de Me- 
neses, CONDE DA Ericeira (Lisboa lySi), t. I, liv. iii, pag. 162. 



XXVIII — 



vigor), «de estabelecer uma liga oífensiva e defensiva, 
como facilmente teriam podido contractar. Erro 
foi tão grande», continiía, que depois o não puderam 
corrigir os outros embaixadores que D. João IV 
mandou á França, sendo assim Portugal abando- 
nado, por occasião da paz dos P3Teneus *. 

Esta sentença passou em Julgado sem que nin- 
guém a contestasse, e até o próprio visconde de 
Santarém arguia os nossos diplomatas : «como já o 
havia feito o conde da Ericeira, posto que sem 
apontar documento algum, de se não terem apro- 
veitado dos offerecimentos do Cardeal de Riche- 
lieu» 2. 

Isto diz o visconde de Santarém depois de ter 
examinado uma serie de documentos do Archivo 
do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França, 
que nos não foi possível consultar, comquanto co- 
nheçamos'indirectamente alguns d'elles pela corres- 
pondência de Richelieu publicada por Avenel. 

Em vista d'esses documentos concluiu Santarém 
que: «o Cardeal Richelieu estava determinado, ainda 
antes da chegada a Pariz dos nossos Embaixadores, 
a acceder a todas as proposições que lhe fizéssemos. 

1 V. Alessandro Brandano, Historia delle Guerre di Porto- 
galloy succedute per Voccasione delia separa^ione di qiiel Regno 
dalla Corona Cattolica. (Veneza, 1689), liv. 3.°, pag. 112. 

2 V. Santarém, Quadro Elementar, t. IV, p. 11 (Paris, Ail- 
laud, 1B44) ; Introducção, pag. v e nota 2.", em que faz refe- 
rencia a t. IV, p. I, pag. 27, onde vêem reproduzidas as pa- 
lavras de Ericeira por nós acima citadas. 



— XXIX — 

As primeiras e segundas instrucçÕes dadas por este 
Ministro ao Agente Saint-Pé, e as que foram dadas 
ao Marquez de Brézé, em 29 de Maio de 1641, 
assim noKo demostrão» *. 

São conhecidos e foram ainda ha pouco repro- 
duzidos os trez documentos a que se refere o eru- 
dito Santarém; vamos vêr portanto, e com a maior 
facilidade, o que elles dizem sobre liga- formal'^. 

As primeiras instrucçoes para o agente Saint-Pé, 
ou, para melhor dizer, para a pessoa que este 
mandaria em seu logar a Portugal com cartas suas, 
são de i5 d'Agosto de i638, escriptas sem mesmo 
se saber se o duque de Bragança quereria ser can- 
didato ao throno, e prevendo a hypothese, no caso 
contrario, de se mandar de França aos portuguezes 
que se quizessem levantar contra o dominio da 
Hespanha um pretendente eventual, que seria aim 
des héritiers de leurs derniers Rofsy>. N'estas ins- 
trucçÕes promettem-se soccorros de tropas e navios, 
e pergunta-se : «quelle assurance le pays de Por- 
tugal veiit donner aux François et aux Hollandois-» 
(já os hollandezes note-se) aou aux François seuls, 

1 V. Santarém, Quadro Elem.^ t. IV, p. 11, Introd., pag. vii. 

* V. G. R. Du Bocage, Relações Exteriores de Portugal: 
Gap. IV passim, Negociações entre Portugal e a França, Pri- 
meira Embaixada, pagg. 53 e segg. ; Appendice, Doe. n." I* 
pagg. i83 e segg., as primeiras Instrucçoes Saint-Pé; Doe. 
n." III, pagg. 189 e segg. as segundas ; e Doe. n° IV, pagg. 192 
e segg., as Instrucçoes para o marque^ç de Bréjé. Os trez 
documentos vêem todos reproduzidos na integra. 



— XXX — 

ainsi qu'ils estimeront plus à propôs, si on va les 
secourir avec une armée de douie mille hommes de 
pied, cinq cents chevaux, cinq cents hommes avec 
selles, armes et pisíolets, pour se monter étant dans 
leiír pays, et une armée navale de cinquante vais- 
seauxi). 

Do que se trata, vê-se bem, é de uma expedição 
armada, dirigida contra a Hespanha e tendo por 
base a conquista de atous lesforts qiii sont depiiis 
Vembouchure de la rivière de Lisbonne jusques à la 
tour de Belém» *; o que se pede é a cumplicidade 
dos portuguezes, que se sublevariam no momento 
opportuno e auxiliariam a empreza. Não ha a mais 
remota referencia a uma alliança formal com um 
poder constituído, nem de tal se poderia tratar 
porque semelhante poder não existia, nem se podia 
saber em França quem quereria e poderia vir a exer- 
ceFo. A única coisa que no documento se affirma 
é o desinteresse da França em matéria de con- 
quistas territoriaes ; estas seriam todas para os por- 
tuguezes, se os portuguezes adherissem ao movi- 
mento, se a expedição tivesse êxito, e se conquistas 
houvesse. 

Não cremos que ninguém, examinando despreoc- 
cupadamente estas primeiras instrucçÕes para Saint- 
Pé, pudesse nunca concluir de boa fé que n'ellas se 
contivesse, ainda mesmo no estado embryonario, 
uma promessa de liga-formal entre Portugal e a 

1 Loc. cit.^ pag. 184. 



— XXXI — 

França; o que havia n'ellas era um projecto de 
expedição, que não foi avante, e nada mais. 

Vejamos agora as segundas instrucções, datadas 
de 6 de Março de 1641 quando já estavam em 
terras de França os embaixadores de Portugal ; 
n'essas é que se exprime muito claramente quaes 
eram n'aquelle momento as intenções do governo 
francez ; teem um verdadeiro valor, que não pode 
ser contestado. 

N'este documento não se ordena já ao agente 
Saint-Pé que mande a Lisboa um emissário da sua 
confiança, tem de ir elle e o mais depressa que 
puder; e ha de dirigir-se ao Rei e ás principaes 
pessoas do reino em nome do rei de França, para 
saber o. que em Portugal necessitam e affirmar a 
amizade aque la France a toujours eue poiír la na- 
tion portugaise et pour leiírs derniers Roisy>, offere- 
cendo aos portuguezes, «de preiídre soin de ce qiii 
les íouche, et de lier leiais interêts auec ceux de la 
France si etroitement, qu'elle ne fera pas de diffi- 
culté de s'obliger à Jie traiter aucun traiié avec 
les Espagnols, sans que les Portugais f soient com- 
pris à leiír cojitentement». 

Logo a seguir se accrescenta que irá também 
alguém a Portugal da parte dos Estados Geraes 
das Provincias Unidas, para «y faire la même chose 
que fera ledit de Saint-Pé de la part du Roi^ ; e 
logo se accentúa que aSa Majesté avec la jonction 
desdits sieurs Etats, peut assister les Portugais d'un 
corps considérahle de vaisseaiix, ce qui se pourra 



— XXXII — 

ajuster et toutes auíres cJioses concernant cette 
affaire, avec leiír ambassadeur qui viendra icft» *. 

Por estas ultimas palavras se vê bem claramente 
que Saint-Pé não tem plenos poderes para tratar 
nem mesmo está auctorizado a fazer uma proposta 
formal de alliança; vae apenas encarregado de 
orientar o governo de D. João IV acerca das dis- 
posições da França a seu respeito e do que o go- 
verno francez será capaz de fazer, associado aos 
Estados Geraes das Provincias-Unidas, (convém 
não o perder nunca de vista), a bem da indepen- 
dência de Portugal. 

Eis o que realmente se contém nas segundas 
instruções para Saint-Pé, querer vêr n'ellas mais 
do que isto é exaggerar-lhes a importância; dizem- 
nos que a França, conjunctamente com as Frovin- 
cias-Umdas, iria eventualmente até á conclusão de 
uma liga-formal comnosco, e portanto até tomarem 
compromisso de não fazerem aquellas duas naçÔes 

1 Loc. cit.^ pag. 189 e segg., o documento citado. Com 
respeito ao emissário hoUandez que chegou a estar nomeado, 
o secretario Euskerke e, em geral, á attitude das Provincias- 
Unidas relativamente a Portugal veja-se loc. cit., Cap. vi. 
Primeira embaixada ás Provindas Unidas, f assim, pagg. 97 
e segg. Convém notar que este secretario Euskerke, devia 
ser um experimentado diplomata; pois já em i636, quando 
van Oosterwijck foi nomeado embaixador em Paris, fora Eus- 
kerke encarregado de o informar previamente acerca dos 
particulares do seu serviço. V. Waddington, La Republique 
des Provinces-Unies la France et les Pays-Bas Espagnols. 
(Paris, 1895), t. I, pag. 288, a que adiante nos referimos. 



— XXXIII — 

alliadas pazes com a Hespanha sem nós as fazer- 
mos também ; assim se pensava na corte de França 
no próprio momento em que os nossos embaixado- 
res chegavam á Rochella e eram alli gentilmente re- 
cebidos pelo Grão-Prior de França, tio do Cardeal. 

Vamos a ver agora o que dizem as InstrucçÕes 
para o marquez de Brézé, sobrinho de Richelieu, 
quando este está a ponto de partir para Portugal, 
com o caracter de embaixador e o commando da 
esquadra em que os nossos embaixadores regressam 
ao reino. Pretende o visconde de Santarém que 
essas InstrucçÕes demonstram, bem como as pri- 
meiras e segundas dadas ao agente Saint-Pé, a 
resolução de «acceder a todas as proposições» que 
nós fizéssemos; mas, por mais que se leia e releia 
o documento não vemos maneira de tirar d'elle 
semelhante conclusão. 

De que n'ellas se trata é do modo de tornar effe- 
ctiva a cooperação das forças navaes francezas com 
as de Portugal e da Hollanda, são instrucções para 
o almirante não são instrucções para o embaixador; 
e no emtanto são estas, as instrucções de 29 de 
Maio de 1641, as que vêem insertas no próprio 
códice que é citado pelo visconde de Santarém, no 
Quadro Elementar, e por Avenel, nas Lettres de 
Richelieu. Ha umas outras, confidenciaes, a que 
Santarém se não refere e que Avenel não trans- 
creve dizendo apenas o que n'ellas se contém : 
<ic'est une série de conseils pour se défendre vigou- 
reusement contre VEspagner). 



— XXXIV — 

Quanto a uma memoria a que Santarém allude, 
deve ser a mesma citada pelo Cardeal ao Secretario 
d'Estado Chavigny n'uma carta, de 27 de Maio, que 
acompanha as Instrucções ostensivas redigidas sob 
a sua direcção immediata; é uma memoria de ca- 
racter technico elaborada por um commendador des 
Gouttes, particularmente competente no assumpto, 
ao que parece, que ficava na Rochella e de quem 
se diz nas próprias Instrucções que: «s'// n'est en 
personne à la dite Jlotte, il y será de cceur et d'aff'e- 
ctiom *. 

1 As Instrucções ostensivas para o marquez de Brézé, po- 
dem vêr-se em Relações Exteriores de Portugal, 1. 1, pag. 192, 
reproduzidas de Avenel, em Lettres et Papiers d'Êtat du Car- 
dinal de Richelieu, que fazem parte da Collection des Doeu- 
ments Inédits relatifs à VHistoire de France (t. VII, pagg. 860 e 
segg.) ; foram extrahidas do códice citado por Santarém no 
Quadro Elementar, (t. IV, p. 11, Introducção, pag. vii, nota 2.»), 
e pertencente ao Archivo do Ministério dos Negócios Estran- 
geiros de França, [Correspondance de Portugal, t. I, foi. 48 e 
segg). Com respeito ás Instrucções confidenciaes para o mesmo 
Brézé, veja-se Relações Exteriores de Portugal^ (t. I, pag. 79, 
nota i.»). 

Santarém parece não ter tido conhecimento das Instruc- 
ções confidenciaes, pelo menos não lhes faz a minima refe- 
rencia; portanto só conhecemos a seu respeito o que diz 
AvENEL : «Après avoir donné au roy de Portugal les asseu- 
rances de Vaffection du roy de France, il iui dirá que je l'ay 
chargé de 1'asseurer de mon três humble service, et de le con- 
jurer pour Vamour de luy mesvie de ce qui s'ensuit». Cest 
une série de conseils pour se défendre vigoureusement contre 
VEspagnen (V. Lettres de Richelieu, t. VII, pag. 1048). 



— XXXV — 

A particular deferência que merece a opinião do 
visconde de Santarém levou-nos a examinar, com 
detenção talvez exaggerada os trez documentos a 
que allude; pois, na realidade, só um d'elles tem 
importância para o caso que nos interessa, as se- 
gundas instrucções para Saint-Pé, e d'esse mesmo 
unicamente se deduz que a França, «az^ec la jon- 
ction desdits sieurs Etaisr>^ estaria disposta a aassis- 
ter les Portiigais d^un corps considérable de vais- 
seaux», como realmente fez; e que poderia ir, até 
á liga formal, coisa que realmente não fez, embora 
estivesse muitas vezes a ponto de o levar a effeito. 

Saber porque o não fez por occasião da primeira 
embaixada é o que agora realmente nos importa 
por terem dito os contemporâneos que foi por culpa 
dos nossos embaixadores ; e convém mencionar entre 
estes o auctor dos Anaes de Portugal, tão bem in- 
formado na maioria dos casos que entendemos dever 
reproduzir nos Documentos Elucidativos, a sua opi- 
nião *. 

Ahi se lê ter dito Richelieu aos representantes 
de Portugal, logo na primeira audiência que lhes 
deu, (em quinta feira de endoenças), fazendo-lhes 
(.(extraordinárias coj^tesias)^ que «não só avia El 
Rey Christianissimo tnandar a annada que pro- 
mettera, mas por general delia e embaxador ex- 
traordinário ao Marques de Bresé seu sobrinho, e 
que frança avia faser liga formal cofn Portugal». 

1 Documento n.° VIJ, pagg. 2i5 e seg. 



— XXXVI — 

o resto do trecho é confuso e quasi incomprehen- 
sivel; d'elle se poderia deduzir que o Monteiro- 
mór se não atrevera a acceitar a oôerta do Car- 
deal sem consultar Tristão de Mendoça, que estava 
como embaixador na Hollanda, o que não tem 
razão de ser da parte de Francisco de Mello visto 
que lhe offereciam em França aquillo mesmo que 
nas suas próprias Instriicções se lhe determinava 
que pedisse. Também se não pode justificar que 
fosse necessária a chegada do bispo de Lamego 
para os embaixadores comprehenderem o seu erro 
e que o embaixador destinado a Roma interviesse 
na negociação dos seus coUegas; bastante tinha 
elle que pedir para o êxito da sua própria embai- 
xada e até para a segurança da sua pessoa, como 
em Portugal muito bem se sabia e os factos sobe- 
jamente provaram *. 

D'esta vez o auctor dos Anaes estava muito mal 
informado, ou algum copista infiel viciou o trecho 
primitivo, coisa que também pode ter succedido. 

O mais natural é que na audiência de quinta 
feira santa, Richelieu offerecesse a armada e os 

* Com respeito á embaixada do bispo de Lamego a Roma, 
ao acolliimento que teve em França e ao auxilio que recebeu 
do governo francez, pode vêr-se : Relações Exteriores de 
Portugal, 1. 1, cap. viii passim, (pagg, iSy e segg). Damos nos 
Documentos Elucidativos^ Documento n.° III, (pagg. iSg e 
segg.), uma carta de D. João IV para os nossos embaixadores 
em que se lhes recommenda que facilitem e accelerem a pas- 
sagem para Roma de D. Miguel de Portugal. 



— XXXVII — 

soccorros, dizendo sempre que seria necessário 
concertar o procedimento da França com o das 
Provincias-Unidas, quanto aos compromissos futu- 
ros; d'ahi resultaria escreverem os nossos embai- 
xadores a Tristão de Mendonça e Richelieu ao 
embaixador de França na Hollanda. 

E o que nos quer parecer, mas, por emquanto, 
apenas formulamos uma hypothese, nada mais; 
para mostrarmos desde já quanto ella é verosi- 
mil invocaremos a auctoridade do Conde Almi- 
rante D. Vasco Luiz da Gama, quarto conde da Vi- 
digueira e primeiro marquez de Niza, reproduzindo 
o que elle próprio escreveu no relatório das suas 
embaixadas, composto a pedido de Pedro Vieira 
da Silva, que então era secretario d'Estado, ao 
regressar definitivamente ao reino em Maio de 
1649. 

N'este interessantíssimo documento *, começa o 

' Faz este documento parte de um códice manuscripto da 
Academia das Sciencias de Lisboa, (Gab. 5, E. i3, n." y), com 
o titulo de Cartas de Francisco de Sousa Coutinho embaixa- 
dor em Holanda, França e Roma do Augusto Soberano 
Dom João IV; n'este interessante códice encontra-se, entre as 
cartas de Sousa Coutinho, a uCopia de hum Papel em que o 
Marque^ de Ni^a dá conta a El Rey do estado em que deixou 
os negócios ■.-'e França, e de tudo o que passou nelles, no tempo 
de suas Embaixadas naquella Corte, (pagg. iSy a i65 do Có- 
dice). Deve portanto ter sido escripto ao regressar o illustre 
diplomata da segunda embaixada, em Maio de 1649 ou pouco 
depois, e contém uma noticia muito completa acerca das duas 
missões de D. Vasco Luiz da Gama a França; merece bem ser 

D 



— XXXVIII — 

seu auctor, depois de indicar por quem lhe fora 
encommendado, dizendo : «Notório foi sempre, que 
os primeiros e mais necessários pontos que convi- 
nha ajustarem-se entre esta coroa e a de França 
erão a aliança preciza entre ellas para a segurança 
de huma mesma fortuna na paz e na guerra, e al- 
cançarem-se da coroa de França, ou(?) os soccorros 
que ella deu sempre aos outros aHados». 

«Estas duas columnas hião levantar os primeiros 
dois Embaixadores, que forão áquelle Reino, e tudo 
se podia prometer seguramente do aplauso com 
que forão recebidos e dos dezejos com que o Car- 
deal esperava; porém na mesma occasiao de se 
colherem os frutos da Embaixada. . . (sicj já pelos 
Francezes ; se embrulharão, e entrelaçarão de tal 
modo as duvidas de aceitar sobre se esperarem 
avisos de Olanda, e outros fundamentos que se 
considerão infelizmente, que sem culpa dos Em- 
baixadoresy» (o itálico é nosso) «foi fatal o successo 
com a dilação que houve nos acordos ; porque sa- 
bendo-se que estavão feitos em Olanda, tornarão 
atraz os Francezes, e não somente se resolverão a 
não fazer liga formal em que tomassem sobre si 
a obrigação de não fazer paz, ou tregoa sem nós, 
mas ainda não quizerão obrigar-se lisamente, nem 
a dar soccorros, nem a dizer quantos, mas só que 
procurarião liberdade com que os podessem dar 
quando fisessem paz com a Casa d' Áustria. . .». 

publicado, como decerto o mereceria também a correspon- 
dência de Sousa Coutinho. 



— XXXIX — 

Assim ficava a França com a faculdade de soc- 
correr ou não Portugal em tal hypothese ; e d'isso 
se gabava Richelieu, em Abbeville, ao conde de 
Morete, embaixador de Saboya, que o contou ao 
conde da Vidigueira ; porquanto disse ao diplo- 
mata italiano quando os nossos embaixadores par- 
tiram: «que ficara mui contente pois tinha a se- 
paração de Portugal, sem empenho nenhum de 
França». 

Para remediar estes males, diPo elle próprio, foi 
mandado o Conde Almirante a França, com ins- 
trucçÕes feitas em 27 de Março de 1642 ; e essas 
cifravam-se em que : «procurasse o melhoramento 
do artigo secreto, e algum soccorro de dinheiro, e 
finalmente que, não havendo Vossa Magestade de 
entrar nella, fizesse quanto podesse para impedir, 
e dilatar a paz da Coroa de França'^com Castella». 

Que não conseguiu emquanto á liga forinal 
êxito completo, é o Conde da Vidigueira quem o 
diz logo a seguir em termos inequívocos : «Para 
alcançar a alliança formal trabalhei com deiigencia 
e muitos papeis, e fiz continuas instancias, seguindo 
a Corte para todas as partes sempre com o mesmo 
requerimento até que tive resposta dei Rey escu- 
sando-se da liga, pelo encargo em que poria os seus 
alliados» (o itálico é nosso), «mas com grandes se- 
guranças de assistências, que daria a este Reino, 
sem embargo de que havia de fazer muito por dei- 
xalo incluído na paz». 

Não iremos mais longe na transcripção do pre- 



— XL — 

cioso documento; basta-nos o que fica dito para 
se saber que vieram de Hollanda, na opinião do 
Conde Almirante, as difficuldades para a negociação 
da nossa primeira embaixada ; e também que a 
França continuou indefinidamente a recusar-se á liga 
formal, pelo «encargo em que poria os seus alliados^y. 
O que não chegamos a comprehender é que dez 
annos depois de escripto o papel do marquez de 
Niza que acabamos de analysar, Duarte Ribeiro 
de Macedo, que foi com o conde de Soure como 
secretario da embaixada a França contemporânea 
das negociações para a paz dos Pyrineus, ignorasse 
quanto se passara anteriormente e se atrevesse 
a dizer no seu Discurso Politico: que Luiz XIII 
promettêra «com seguranças e firmas reaes» nem 
mais nem menos do que «não fazer paz, ou tregoa 
com Castella, sem incluzão dos Portuguezes muito 
a seu contentamento, unindo com estreito vinculo 
os interesses de ambas as Coroas». Pois ainda foi 
mais longe na sua ousadia permittindo-se afBrmar 
que o Duque de Bragança, «se não declarara rei de 
Portugal, entendendo, que desamparado da França 
havia de ver sobre seus Reinos unido todo o poder 
da Caza da Áustria; e o fez porque Lifiz XIII, com 
obrigação solemne, firmada por sua real mão, e 
pelo seu Secretario de Estado, o segurou, mos- 
trando que a conservação de Portugal era o maior 
interesse da França». Quem o resolveu, diz assim 
Ribeiro de Macedo a Luiz XIV, foram as obriga- 
ções contrahidas pelo seu antecessor e seu pae ; e. 



— XLI — 

para o dizer funda-se nas InstrucçÔes dadas, em 
i638, a Saint-Pé ! E accrescenta no seu livro im- 
presso que vae publicaPas, mas, de facto, não se 
encontra tal documento nem na edição de 1748 
nem na de 1767 *. 

A ousadia do secretario da embaixada de 1659 
teve prompta e merecida resposta; deu-lh'a o car- 
deal Mazarin em uma nota ostensiva datada de 
Saint-Jean-de-Luz, de 18 de Agosto de 1659, e di- 
rigida ao conde de Soure*. 

^ V. Obras do Doutor Duarte Ribeiro de Macedo, Lisboa, 
A. R. Galhardo, 1767, t. I ; a pag. io3 e seg, os trechos ci- 
tados; e a pag. 10 a referencia ás instrucçóes de Saint-Pé. 
V. egualmente sobre este assumpto Relações Exteriores de 
Portugal^ t. 1, pag. 72, nota 2.», em que as affirmações de 
Ribeiro de Macedo são apreciadas e discutidas, mostrando-se 
quanto eram insufficientes os seus fundamentos. 

* Este documento, bastante curioso, foi extrahido de um 
manuscripto in-folio^ intitulado Lettres et Mémoires de Mgr. 
le Cardinal Mazarin, que fazia parte da bibliotheca de D. An- 
tónio Gánovas del Castillo, e publicado por este insigne 
estadista e historiador nos seus Estúdios del Reinado de Fe- 
lipe IV (Madrid^ Coleccion de Escritores Castellanos, 1888, 
t. I, Apêndice, Documento iii, pagg. SSg e segg.). Vem alli 
transcripto na integra com manifestos erros de copia que 
entendemos não dever corrigir. 

Não nos consta que tivesse sido conhecida dos escriptores 
portuguezes que se occupáram do assumpto esta resposta, 
um tanto áspera, ás famosas allegações do Doutor Duarte 
Ribeiro de Macedo, que foram enviadas ao Cardeal pelo re- 
sidente Feliciano Dourado, em i5 d'Agosto de lõSg, segundo 
um documento do Archivo do Ministério dos Negócios Es- 



XLII 



Começa por lhe dizer que bem poderia dar a 
resposta á memoria de Ribeiro de Macedo o resi- 
dente que está em França, Feliciano Dourado, por 
quem havia sido enviado ao Cardeal o Memorial 
do Conde de Soure., em i5 do mesmo mez; mas 
nem porisso deixará de (frépliqiier à vostre Excel- 
lence que quelque chose qui arribe (sic) des Inte- 
rests de Portugal la Chrestienté aura peine à agoire 
les pas que le Rei moji maitre a fait pour obliger 
celuf d'Espagne à concluir e (sic) la paix laissant 
le Roi de Portugal paisible possesseur de tout ce 
qiCil a presentement jusqu'a siestre (sic por sy estre) 
avance d'offrir pour cela non seidement le fruit d'une 
guerre de vingt cinq ans, c'est à dire toutes les 
conquestes que l'on voit bien que VEspagne tojtibera 
d'accord de nous laisser, mais aussi de 7^establiri> 
o principe de Conde e o filho em todos os bens e 
cargos que possuiam, antes de se passarem para o 
serviço da Hespanha. 

Seria ocioso transcrever aqui todo o documento, 
bastará reproduzir o trecho mais elucidativo, 
(pag. 341): ((Et fe dirai de plus que le feu Roi de 
glorieuse ??iémoire ne s'y est pas aussj' engagé en 
aucune maniere car d'avoir fait esperer que Von 
traiteroit et conclurrait la dessus lorsque le Roi de 
Portugal envoj eroit un Ministre en France avecpou- 
voir sur cela, c'est une asse^ bonne preuve que le feu 

trangeiros de França, de que tomámos nota, inserto na Cor- 
respondance de Portugal., Supplément, t. I (i5io a 1662). 



— XLIII — 

Roí n'avoit rien promit (sic), et qu'il çroyoit bien de 
poiwoir ajuster ce point et s'engager a ce que sou- 
haitoit le Roi de Portugal pourveii qii'on luy 
accordast d'autres clioses qu'il croyoit aussi depou- 
voir pretendre, ce qui n'aj'ant pas este fait Vaffaire 
dejjieura satis aucune conclusion, comme il paroist 
asse\ par les diligences continuelles qui se sojit 
faites depiíts, durant ce règne, poiír obliger sa 
Majeslé par un noitveau traité de ne point faire 
d'accomodement avec VEspagne, sans que le Por- 
tugal f fust compris», 

a Et s'il estoit praj', comme il est porte sans 
aucun fondement dans le dit mémoire, que la France 
eiist promis de ne faire jamais la paix sans le Por- 
tugal, je ne comprends pas à quel propôs on aurait 
continuellement depuis dix-huit ans sollicité et 
pressé pour une chose qu'on presupposaií deja ac- 
cordée » . 

De resto, quando o Cardeal mandou a nota ao 
conde de Soure já tinha, (é a nota quem o diz a 
pag. 342), conversado com elle sobre o assumpto, 
parecendo-lhe nessa occasião que o conde de Soure 
<.m'y avoit point de replique, neantmoins fay bien 
voulu luy marquer succintement dans cette lettre 
ce que je ne pouvois pas m'empecher de luy repli- 
quer à cause du memoire qu'elle m'a envoyéy>. 

Também esta nota do Cardeal não ficou sem 
resposta; deu-lh'a o conde de Soure, logo no dia 
27, mas teve de confessar que o compromisso, a 
que a Memoria alludira estava representado : «Por 



— XLIV — 

un papel firmado por S. M. en San German a 6 
de ?nar:{o de 1641 sohescrito por el Secretario de 
Estado Bouíheliern do qual a consta que S. M. Chr.'^ 
enhió a de\ir ai Rej- D. Joan de gloriosa memoria 
que embiandole embajadores no ária dificuldad nin- 
guna a se obligar a no a^er tratado alguno con 
los castellanos sin que los portugueses fuessen com- 
prehendidos en el a su satisfaciont ^ 

Accumula em seguida o nosso embaixador nume- 
rosos argumentos para demonstrar o seu asserto ; 
mas a referencia ao documento citado, as segundas 
instrucções para o agente Saint-Pé, é o seu primeiro 
e principal fundamento. 

Parece-nos ter deixado sufíicientemente elucidado 
o assumpto, com que não podemos deter-nos muito 
mais; mas ainda queremos mencionar duas cartas 
da rainha D. Luiza, então regente, ambas de3i de 
Dezembro do mesmo anno de lõSg, dirigidas a 
Luiz XIV e ao cardeal Mazarin, em que agradece 
as diligencias anteriormente feitas para que Por- 
tugal fosse comprehendido na paz. 

Na primeira diz que eram inacceitaveis as pro- 
postas apresentadas pelo marquez de Chouppes, 
enviado a Portugal em fins de lõSg com o caracter 
de embaixador, que fora portador da noticia das 
pazes entre França e Hespanha; e accrescenta que 

1 Archivo do Ministério dos Negocias Estrangeiros de 
França, Correspondance de Portugal, t. IV (i656 a lõSg)^ 
Foi. 285 a 286 V. Carta do Conde de Soure ao Cardeal de 
27 de Agosto de 1659. 



J» 



— XLV 



O paiz está prompto para se defender e tem con- 
fiança no futuro. Na segunda, porém, mostra-se 
resentida do isolamento em que nos deixaram e 
pede ao cardeal Mazarin que soccorra estes reinos 
como tanto carecem *. 

Indirectamente e quanto possível a occultas Já 
esses soccorros estavam sendo fornecidos; d'isso 
temos numerosas provas, e uma d'ellas é uma carta 
de Feliciano Dourado ao Cardeal, de 6 de Setembro 
de 1659, em que o nosso residente recordava ao 
ministro francez ter-lhe dito em 27 de Agosto, por 
mandado do embaixador, que os castelhanos se 
preparavam para entrar na província de Entre 
Douro e Minho, facto este que muito penalizara o 
conde de Soure por haver elle escripto a el-Rei, 
da parte do Cardeal, que os hespanhoes não fariam 
invasão nem hostilidades em vista de estar Portugal 
tacitamente comprehendido na suspensão d'armas 
que a França havia publicado. Sua Eminência res- 
pondera n'essa occasiao que tudo estava em socego 
por aquellas partes pois assim lh'o assegurara 
D. -Luís de Haro; no en»tanto, as noticias que 
o embaixador tivera confirmavam-se agora, por- 
quanto constava que estavam passando tropas da 
fronteira de Catalunha para a fronteira de Por- 
tugal. 

Invocando este poderoso argumento Feliciano 

< Corr.e de Portugal, t IV, /o/. 3i2 e seg. Carta da Rainha 
a Luiz XIV de 3 1 de Dezembro de 1659. Loc. cit., t. i\,fol.3i4. 
Carta da Rainha ao Cardeal Mazarin, da mesma data. 



— XLVI — 

Dourado pedia ao Cardeal, em nome do embaixa- 
dor, para embarcarem em Nantes ou no Havre 
de Grace uns 2.000 homens que este ultimo tinha 
ajustados com o conde-Inchiquin e seu irmão. Pedia 
resposta o conde de Soure e iria elle mesmo sol- 
licitaFa pessoalmente se não estivesse com um ata- 
que de gotta *. 

Assim fica demonstrado que nem ignorava nem 
contrariava a organização da expedição o cardeal 
Giulio Mazarino, esse <íastiito e refalsado italiano-» 
de quem tanto mal teem dito os nossos historia- 
dores, de Ericeira para cá. Nem seria crivei que 
pudesse ser levada a efieito contra a vontade do 
governo da França, como aqui disseram, uma ex- 
pedição militar constituída em grande parte, é 
certo, por protestantes francezes mas em que íigu- 

* Correspondance de Portugal, Loc. cit. Carta de Feli- 
ciano Dourado ao Cardeal Mazarin de 6 de Setembro de 
iGfg. O conde Inchiquin a quem Feliciano Dourado se refere 
(escreve Enchequin) é Murrough 0'Brien, Earl of Inchiquin, 
que mais tarde veiu a servir jem Portugal, bem como seu 
irmão o major-general Christopher 0'Brien. Irlandezes e 
realistas, não é estranho que o primeiro se encarregasse em 
França de recrutar tropas para Portugal entre os emigrados 
inglezes; com effeito, em 1662, trouxe elle comsigo 400 ho- 
mens de cavallaria, tendo vindo antes mais i5o, e esperando-se 
pouco depois a infanteria (V. Christovam Ayres de Maga- 
lhães Sepúlveda, Historia do Exercito Portugue;{, Provas, 
t. II Lisboa, 1904). Com respeito ao conde Inchiquin e ao 
irmão podem vêr-se interessantes noticias em «-The Manus- 
cripts of I M. Heathcote. Esq.» publicados pela «Histortcal 
Manuscripts Commissionn^ 1^99» '^d. v. Inchiquin e 0'Brien. 



— XLVII — 

ravam antigos, e conhecidos officiaes, e cujo com- 
mandante era o conde Armando Frederico de 
Schõnberg, allemão de nacionalidade mas desde 
i65o ao serviço da França e que muito se illus- 
trára nas Flandres. D'essa expedição militar fora, 
á vista de todos, o verdadeiro organizador Henri 
de la Tour d'Auvergne, visconde de Turenne, tão 
illustre pelo sangue como pelas suas façanhas mi- 
litares, que vencera Conde na batalha das Dunas, 
em 14 de Junho de i658, tendo Schõnberg sob as 
suas ordens, e que no dia 5 d' Abril do próprio anno 
de 1660, fora elevado a marechal general, a mais 
alta dignidade nos exércitos da França. 

Mostrámos ha pouco, com documento inilludivel, 
que em Setembro de lôSg, já se pedia pela nossa 
parte licença para se preparar a expedição; pois, 
passado mais de um anno e até ao ultimo instante, 
ainda intervinha o cardeal Mazarin para lhe apres- 
sar a sahida. Em fins de Outubro de 1660 iam 
finalmente levantar ferro, devendo embarcar no Ha- 
vre, o conde de Soure que retirava para Portugal, 
e o conde de Schõnberg; com elles estavam na ci- 
dade umas quarenta pessoas, quasi todas antigos 
militares, nas aldeãs próximas haveria mais um 
cento de officiaes menos graduados e inferiores, 
(petits officiers é o termo), de artilheria e de sapa- 
dores. O embaixador ia n'um navio de 40 peças 
comprado em Inglaterra e levava mais outro de 
3o a 40 que Carlos II lhe emprestara; era possivel 
que do lado de Dieppe e de Nantes, por onde o 



— XLVIII — 

embaixador mandara as suas bagagens, partisse 
mais gente. 

Tudo isto contava ao Cardeal, em cartas de 26, 

27 e 28 de Outubro de 1660, um seu agente cha- 
mado Tronson, que fora mandado expressamente 
ao Havre para instar com o conde de Soure afim 
de que este não demorasse a partida. O mo- 
tivo de tal empenho por parte de Mazarin eram as 
reclamações constantes do conde de Fuensaldana, 
embaixador de Hespanha *. 

E não faltava razão ao representante de Sua 
Magestade Catholica para protestar contra uma 
expedição que fora preparada emquanto Mazarin 
negociava, nas aguas do Bidassoa, o celebre tratado 
conhecido na historia pelo nome de tratado dos 

* Correspondance de Portugal, Loc. cit. Cartas do agente 
Tronson ao cardeal Mazarin, datadas do Havre fem 26, 27 e 

28 de Outubro, na ultima das quaes diz que o conde de Soure 
está a partir. A expedição que estivera demorada pelo vento 
contrario, largou, com effeito, do Havre em 28 e chegou a 
Lisboa em 1 1 de Novembro. 

As cartas que citamos, e de que infelizmente não tirámos 
copias, dão interessantes pormenores acerca do que se pas- 
sava no Havre, onde foi preso um espião que Fuensaldana 
encarregara de vigiar o Conde de Soure; referem-se tam- 
bém a uns motins que alli houve por se suspeitar que um 
negociante portuguez mandava embarcar trigos para Portugal. 
É digno de notar-se que as cartas não estão em perfeito 
accordo com a versão de Ablancourt que os escriptores por- 
tuguezes teem seguido. (V. Mémoires de Mx d'Ablancourt, 
envoyé de Sa Majesté Très-Chrétienne Louis XIV en Portu- 
gal, I vol^ Amsterdam, igoi, pagg. 3 e segg.). 



— XLIX — 

Pyreneus, em que se pactuavam pazes entre a 
França e a Hespanha, cimentadas pelo casamento 
de Luiz XIV com Maria Thereza d' Áustria. 

O tratado assignou-se em 7 de Novembro de 
lôSg; o conde de Soure, com Schõnberg e a ex- 
pedição partiram em 29 d'Outubro de 1660, em 
plena vigência do tratado; taes são os factos que 
se deduzem da própria correspondência de Ma- 
zarin e hão de ser um dia convenientemente escla- 
recidos. 

Julgámos util contrapor aqui esta singela expo- 
sição de factos ulteriores aos preconceitos exis- 
tentes antes mesmo de procurarmos explicar, a 
nosso modo, o que se deve ter passado realmente 
com a embaixada do Monteiro-mór, apesar de tudo 
quanto se tem dito em contrario. 

Até aqui expuzémos opiniões alheias que fizeram 
fé; procuraremos agora fundamentar a nossa em 
documentos fidedignos e factos incontroversos, hoje 
conhecidos. 

O primeiro ponto assente é que o cardeal Ri- 
chelieu, em principios de Março de 1641, esperava 
com impaciência a chegada da nossa embaixada e 
que sentimentos eguaes pareciam animar os gover- 
nantes das Provincias-Unidas, cujo emissário, já es- 
colhido, devia acompanhar a Portugal o do governo 
francez. Ambos elles iriam dizer a D. João IV 
que a França, conjunctamente com os seus alliados e 
designadamente as Provincias-Unidas, estavam dis- 
postos a concorrer para que Portugal se mantivesse 



independente, auxiliando aquellas nações os portu- 
guezes na sua defeza contra os hespanhoes. Esta- 
vam mesmo auctorizados os emissários a incitar o 
Rei a que mandasse á França e aos seus alliados 
embaixadores com quem se poderia tratar de uma 
liga formal. Eis o que resulta de irrefutáveis do- 
cumentos *. 

Também sabíamos, e confirma -o amplamente 
a própria narração de Franco Barreto, que os 
nossos diplomatas gastaram umas trez semanas na 
viagem de La Rochelle a Paris onde fizeram a sua 
entrada solemne em 25 de Março, vinte e quatro 
dias depois de terem entrado no porto francez. 
Pelo contrario, nem Luiz XIII nem o seu ministro 
tiveram a minima demora em receber o Monteiro- 
mór e o seu companheiro; em 27 realizou-se a 
audiência regia apesar de ser quarta-feira de trevas, 
e no dia seguinte, em quinta feira santa, recebia-os 
Richelieu, cardeal da Santa Egreja Romana ! 

Não precisaríamos allegar mais provas da impa- 
ciência com que & grande ministro queria animar 
os esforços da nação portugueza para manter a sua 
independência, dar alento ao nosso nacionalismo, 
vincular Portugal ás nações que, conjunctamente 
com a França, procuravam diminuir por todas as 

^ Referimo-nos ás Instrucções, de 6 de Março de 1641, 
para M.r de Saint-Pé, já citadas, (pag. xxix, n. 2) ; e á reso- 
lução dos Estados Geraes de enviar a Portugal o secretario 
Euskerke, a que já também alludimos n'outro logar (pag. xxxii, 
n. I). 



— LI — 

formas o poder immenso que representavam, al- 
liados, a Hespanlia e o Império. 

N'essa impaciência, Richelieu não somente luctava 
contra a relativa inércia dos nossos diplomatas, que 
as fadigas da viagem tinham prostrado ; mas também 
contra a resistência, por emquanto passiva, que 
oppunham aos desígnios da França os Estados 
Geraes das Provincias-Unidas. 

E n'essa resistência que existe, quanto a nós, a 
verdadeira explicação das difficuldades que encon- 
traram os nossos embaixadores em Paris e na Haya, 
difficuldades que levaram os primeiros a acceitar 
por ultimo muito menos do que a principio lhes fora 
offerecido. Para justificar esta nossa opinião, sem 
a podermos documentar irrefutavelmente, vamos 
expor o estado das relações entre a França e as 
Provincias-Unidas, na primavera de 1641, e as 
ambições que as grandes companhias neerlande- 
zas nutriam com respeito ás possessões de Por- 
tugal. 

No principio do anno de 1641, Frederico Hen- 
rique de Nassau conservava-se inabalável na sua 
attitude de alliado da França; ás diligencias do 
Cardeal-Intante, regente dos Paizes-Baixos, para 
o malquistar com Luiz XIII, respondera o Sta- 
thouder que «estava ligado ao rei de França e nada 
faria sem elle» *; e, no emtanto, segundo as for- 

1 Para o estudo das relações entre as Provincias-Unidas e 
a França recorremos quasi exclusivamente á obra, abundan- 
temente documentada: La Republique des Provinces-Unies, 



— LII — 

maes palavras do professor Waddington: «Z)e i635 
à 1642, pas une année ne s'écoiila sans qu'il fut 
question de quelque tnírtgue en mie d'mie entente 
particulièrej sans que Philippe IV ou Vinfant Jit 
tâter le pouls à Vopinion dans les Provinces-Unies 
par un commis, iin marchand ou im ecdésiastique 
quelconque. Les aspirations pacijiques de la pro- 
vince de Hollande étaient avéreés, et nul ne savait 
si elles ne V etnporteraient pas à la langue sur les 
sentimejiis de lofauté qui liaient la Republique à 
la France-a *. 

Eis o motivo porque, no dizer do mesmo auctor, 
apezar da declaração do principe de Orange a que 
acima nos referimos de cardinal de Richelieu se 
troubla, quelqueslsemaines pliis tard, en apprenant 
que le roi d'Espag?ie et VEmpereur^ d' Allemagne 
allaient faire de concert une nouvelle tentative 
auprès des Hollandaisy) 2. 

Com eííeito o Imperador resolvera enviar á Haya 
um dos seus conselheiros aulicos, o conde de Auers- 
perg, com o fim de offerecer aos Estados-Geraes 

la France <& les Pays-Bas Espagnols de i63o à i65o par 
A. Waddington, t. I. (Paris, i8g5)^ já citada, cuja proveitosa 
leitura recommendamos a quem pretenda inteirar-se do as- 
sumpto. As palavras que citamos eacontram-se a pag. 355, 
extrahidas (n. 4) da Correspondance de Hollande, conservada 
no Archivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de França, 
sob a data de i de Fevereiro de 1641. 

1 V. Waddington, Provinces-Unies, t. I, pag. 3^5. 

2 V. Waddington, Provinces-Unies, t. I, pag. 355. 



— Llll — 

OS seus bons officios em vista de um accordo com 
a Hespanha; o emissário imperial levava por com- 
panheiro um agente officioso de Filippe IV, por 
nome Jean Friquet, natural de Dole no Franco 
Condado, advogado astuto que nos deixou da sua 
missão interessantes noticias. 

Informado a tempo da embaixada, Richelieu teve 
artes de se atravessar deante d'ella, exigindo dos 
Estados que não recebessem Auersperg ; chegaram 
á Haya os dois emissários alli por i8 de Março e 
retiraram-se no fim de Junho sem terem conseguido 
ser recebidos officialmente por Frederico Henrique 
de Nassau, que para lhes negar audiência invocara 
o fútil pretexto de um vicio de forma nas creden- 
ciaes de Auersperg. 

Entretanto os dois emissários foram vendo o 
maior numero possivel de hoUandezes e intrigando 
quanto puderam contra a França ; e decerto também 
contra nós, embora d'isso se não gabe Friquet na 
Memoria apresentada ao Cardeal-Infante em que 
dá conta da sua missão *. 

Principia logo o agente de Filippe IV o seu es- 
cripto felicitando-se da aproximação entre a Ingla- 
terra e as Provincias-Unidas representada, quando 
não motivada, pelo casamento do primogénito do 
Stathouder, Guilherme de Orange-Nassau, com Ma- 

* A Memoria interessantíssima a que alludimos foi publi- 
cada na integra porWAODiNCTON (Provinces- Unies, 1. 1, pagg. 489 
e segg). Friquet permaneceu quasi seis mezes na Haya, de 
Janeiro a Junho de 164 1. 



— LIV — 

ria de Inglaterra, filha primogénita de Carlos I; 
casamento este, começado a tratar em Janeiro e 
realizado em Maio d'esse mesmo anno de 1641, 
que desagradava profundamente ao cardeal Riche- 
lieu, porque devia acarretar comsigo uma sensivel 
diminuição na dependência da França em que esta- 
vam as Provincias-Unidas. 

Não contente com as circumstancias favoráveis 
que vae encontrando no seu caminho, procura o 
agente hespanhol, segundo conta, augmentaFas e 
ir destacando da França os seus aUiadoa; assim, é 
elle próprio quem se gaba de ter intrigado com o 
residente do Rei de Dinamarca junto das Provin- 
cias-Unidas para o induzir a fazer intervir aquelle 
soberano a favor d'uma trégua, d'onde afinal havia 
de sahir a paz; e taes argumentos empregou que o 
diplomata dinamarquez chegou a dizer, é Friquet 
quem o aflfirma : <s.qiie no se piiede hallar otro médio 
mas secreto ni mas efficai para penetrar la inten- 
cion dei príncipe de Orangey grangear sii volimtad 
sino que Su Magestad se fie dei Rey de Dinamarca 
y le pida que debaxo de mano proponga ai Prín- 
cipe lo que conpiene». 

Se por influencia das intrigas de Friquet o rei 
Christiano interveiu ou não junto do príncipe de 
Orange não averiguámos nós; nem precisávamos 
indagaPo porque já sabíamos que por esse mesmo 
tempo o velho Rei, que fora um dos mais poderosos 
sustentáculos da politica franceza, tinha pelo menos 
negociações officiosas com o Imperador e com Fi- 



— LV — 

lippe IV; e sabemoro porque elle próprio o mandou 
dizer ao nosso embaixador na Dinamarca, Francisco 
de Sousa Coutinho *. 

Tal era a situação, melindrosa em extremo no 
que toca ás relações da França com os seus alliados, 
logo no começo do anno de 1641 ; situação esta que 
se foi aggravando de dia para dia desde Fevereiro 
até Junho. 

Vejamos agora, pelo que diz respeito a Portugal 
e aos seus dominios d'além mar, a evolução que se 
ia dando ao mesmo tempo na Haya, desde o dia 
em que alli chegou a noticia da nossa revolução até 
áquelle em que foram cabalmente conhecidas as 

^ As palavras, que acima transcrevemos da Memoria de 
Friquet (Waddington, Provinces-Unies, t. I, pag. 441) estão 
plenamente d'accordo com o procedimento de Christiano IV, 
em princípios de Maio do mesmo anno de 1641, mandando dizer 
pelo governador de Copenhage ao secretario da nossa embai- 
xada, António Moniz de Carvalho, que : «vindo Elrrey da Dina- 
marca com Sua Magestade em qualquer tratado»» o Imperador 
«tomaria essa leve occasião para lhe faltar ás promessas e pre- 
tenções que no Império tinha»; accrescentando que nem em 
Copenhague sabiam ao que se teria compromettido o em- 
baixador que tinha em Castella. 

Reportamo-nos n'este ponto ao que diz o próprio secre- 
tario da embaixada, António Moniz de Carvalho, na sua 
Memoria da jornada e successos que ouve nas duas embaixa- 
das que Sua Magestade que Deus Guarde mandou aos Reynos 
da Suécia e Dinamarca (Lisboa, 1642). Sobre esta embaixada 
pode ver-se : Relações Exteriores de Portugal, 1. 1, cap. vn. 
/. Dinamarca^ passim^ P^gg- ii3 e segg. O trecho que repro- 
duzimos vem transcripto a pagg. 121 e seg. 



— LVI — 

intenções do governo portuguez com relação ás 
nossas possessões ultramarinas, algumas das quaes 
estavam nas mãos das Companhias das índias, 
pouco dispostas a abandonaPas. 

No primeiro momento, apenas foi conhecida a 
noticia da revolução do primeiro de Dezembro, da 
acclamação de D. João IV e dos esforços que os 
portuguezes estavam fazendo para manter a sua 
independência, houve em iodas as Provincias-Unidas 
um movimento geral de sympathia e de regozijo: 
surgia deante da Hespanha mais um inimigo, teria 
agora Filippe IV de luctar ao mesmo tempo no 
oriente e no occidente da Península, na Catalunha 
e em Portugal, e assim mais fácil seria ás compa- 
nhias neerlandezas conquistar vastas, ricas e cubi- 
cadas possessões de além-mar. As suas próprias 
menos bem as defenderia a Hespanha; e quanto ás 
dependentes da coroa de Portugal, nem de tal cui- 
daria já. 

Assim se pensava na Hollanda; e porisso trata- 
ram desde logo, Stathouder e Senhores dos Estados, 
de incluir Portugal na liga das nações inimigas da 
Hespanha, á testa da qual estava a França e em 
que as Provincias-Unidas occupavam o segundo 
logar, depois da morte de Gustavo-Adolpho da 
Suécia. 

Pouco a pouco, porém, foram chegando noticias 
de que as possessões ultramarinas de Portugal 
adheriam ao movimento do primeiro de Dezembro 
e sacudiam com patriótica energia o dominio de 



LVII 



Filippe IV. Umas após outras, á medida que lhes 
chegava a boa nova, iam as mais distantes colónias 
reintegrando-se no exclusivo dominio da coroa por- 
tugueza e acclamando D. João IV. Agora eram 
novamente portuguezas; e as Companhias das índias 
tinham de as arrancar aos seus antigos e legítimos 
senhores, com quem não estavam nem havia razão 
para que estivessem em guerra as Provincias- 
Unidas; a situação tornava-se mais difficil. 

Filippe IV vira immediatamente que o desmen- 
bramento de Portugal e das suas colónias devia ter 
uma influencia sensível nas disposições das Pro- 
vincias-Unidas e tornaPas menos intransigentes com 
relação á Hespanha, facilitando uma trégua, talvez 
mesmo uma paz definitiva. Este pensamento do 
Rei, ou de Clivares, acha-se expresso n'um docu- 
mento cujo titulo é já por si sufficientemente sug- 
gestivo : Discurso sobre lo que puede aver innobado 
en Olanda el accidente de Portugal, cerca de el 
tratado de trégua. Não conhecemos este docu- 
mento na integra ; mas sabemos que elle contém 
um certo numero de oíferecimentos feitos por parte 
do governo hespanhol, na esperança de vencer a 
resistência do príncipe de Orange e de fazer pre- 
valecer as tendências pacifistas dos Estados Geraes. 
No conjuncto das propostas subentendia-se que a 
estes ficava livre e fácil a conquista das possessões 
portuguezas, desde que Filippe IV deixasse de as 
defender; porisso que D. João IV tinha de luctar 
com todas as suas forças pela conservação da inde- 



— LVIII — 

pendência, tão facilmente restabelecida porém tão 
difficil de manter, do continente portuguez *. 

As condições de trégua oíferecidas pela Hespa- 
nha estavam no emtanto, muito longe de poder ser 
acceites pelas Provincias-Unidas e a influencia da 
França continuou a prevalecer; mas, pouco a pouco, 
as ambições coloniaes foram crescendo e as sym- 
pathias para com Portugal diminuindo, á medida 
que a experiência e a razão mostravam ás Compa- 
nhias coloniaes quanto era preferível ir alargando 
as suas possessões á custa do dominio collectivo de 
el-Rei Catholico, que «tratava de acudir ás con- 
quistas de Castella como suas e ás de Portugal 
para defendelas como alheias», como dizem os 
Annaes de Portugal-, ao passo que um governo 
genuinamente portuguez defenderia as portuguezas 
como próprias e até á ultima extremidade ^. 

Quando os nossos embaixadores na Inglaterra e 
na Hollanda iam a caminho de Londres e da Haya, 
ainda prevaleciam os mais amigáveis sentimentos 
dos hollandezes para comnosco, apressavam-se al- 
mirantes e diplomatas d'aquella nação em offerecer 

* V. Waddington, Provinces-Unies, t. I, pag. 355 e n. 5, 
em que cita o documento mencionado do Archivo de Bru- 
xellas; {Correspondence des Gouverneurs Généranx, LI, 
foi. 178 e segg.). O auctor dá perfeita idéa do documento 
porém não o transcreve. 

2 V. Anaes de Portugal. (Bib. Nac. de Lisboa, Cod. 6818J. 
P. I, Cap. IX, foi 80. Todo o Cap. IX {foi. 79 v. a 8y), 
trata da embaixada ás Provincias-Unidas e merece ser lido. 



— LIX 



aos nossos embaixadores os seus serviços, e não 
havia amabilidade que não tivessem uns e outros 
para com os representantes de Portugal ; não nos 
deteremos a apresentar provas e exemplos, limita- 
mo-nos a mencionar um facto conhecido e assente : 
«que os olandezes esperavam» (a nossa embaixada) 
«com grande gosto, pello haverem recebido de que 
este Reyno se livrasse da sugeição de Castella, por 
ficar o castelhano com menos poder» *. 

Tal era a situação até ao dia 12 de abril em que 
Tristão de Mendoça Furtado foi recebido pelos 
Estados Geraes, e lhes apresentou, com as suas 
credenciaes, um documento escripto constando de 
cinco artigos em que se continham as propostas 
do governo portuguez. Não as reproduziremos 
aqui, por serem já sufBcientemente conhecidas; na 
primeira tratava- se de uma trégua de dez annos, 
com suspensão de qualquer acto <rde hostilidade, por 
mar e terra em todos os logares e conquistas de 
Portugal daquem e dalém da linha» ; na terceira 
pedia-se a restituição a Portugal das «praças occu- 
padas no Brazil, costa de Africa e Guiné, enten- 
dendosse que por se haver exemido e libertado da 
injusta posse e dominio de Castella lhe tocava ver- 
dadeira restituição». Estas eram as relativas ás 
possessões ultramarinas. 

A clausula quarta referia-se ao restabelecimento 
de antigos privilégios e liberdades commerciaes; 

1 V, Anaes de Portugal, Cap. IX, foi. 80 v. 



LX 



não oíferecia matéria de grandes duvidas, pelo 
menos em principio, attenta a reciprocidade pre- 
vista. 

A segunda e quinta eram clausulas puramente 
militares, que representavam e importavam uma 
intima cooperação, pelo que ao continente europeu 
respeita, entre as duas nações; tratava-se de uma 
esquadra de «vinte nãos de guerra» que os Estados 
Geraes haviam de enviar aos mares e costas de 
Portugal para Juntar a outras tantas nãos e galeões 
da nossa armada e combatermos juntos os inimigos 
communs; e também se pedia a faculdade de re- 
crutar nas Provincias-Unidas officiaes do exercito 
de terra e tropas*technicas, bem como de adquirir 
armas e munições de guerra *. 

Como não fosse feita por parte do nosso embai- 
xador communicação alguma verbal na sessão de 
12 d' Abril, os Estados Geraes resolveram acto 
continuo submetter credenciaes e propostas a uma 
commissão, eleita d'entre os seus membros, que 
sobre os assumptos militares havia de conferenciar 
com o Stathouder e daria opportunamente o seu 
parecer por escripto ^. 

1 Estão publicadas na integra as propostas em Relações 
Exteriores de Portugal (T. I, Cap. VI, pagg. 104 e seg.); 
reproduzidas dos Anaes de Portugal {Cap. IX, foi. 81 e seg.). 

2 Referimo-nos, quanto ás resoluções dos Estados Geraes 
e dos representantes da Provinda de Hollanda, á reproducção 
photographica das respectivas actas, cujos extractos temos á 
vista e de que tencionamos servir-nos mais largamente quando 



— LXl — 

Das notas que possuímos acerca d'esse parecer 
conclue-se : quanto á trégua de dez annos, haver ac- 
cordo em que cessassem as hostilidades nos dois he- 
mispherios, ficando para ser negociados pormenores 
e consequências; quanto porém a restituir a Portugal 
qualquer praça nas índias Orientaes, no Brazil, na 
Guiné, na Africa, fosse onde fosse, a recusa é 
formal. O que se propõe é que cessem as hostilida- 
des entre as Provincias-Unidas e Portugal n'aquellas 
terras, acima nomeadas; e que se a guerra vier a 
passar para as índias Occidentaes hespanholas, as 
conquistas que vierem a fazer-se sejam amigavel- 
mente repartidas. A clausula quarta não offerece 
objecção de princípios; e emquanto ás clausulas 
militares apresentam-se modificações que permit- 
tem negociar. Em summa, a objecção irreductivel 
da commissão, refere-se unicamente á restituição 
das conquistas já realizadas. 

Em 1 1 de Maio, quasi um mez depois, voltou o 
assumpto das negociações com Portugal a ser de- 
batido em sessão dos Estados Geraes, sendo ou- 
vidos os pareceres do Stathouder e do Conselho 
de Estado, especialmente com respeito ás índias 
Orientaes; mas suspendeu-se o debate porque os 
representantes da província de Hollanda quizeram 
consultar os seus commitentes antes de votar, e a 
resolução ficou addiada sitie die, até que os hol- 



tratarmos em especial da Relação da Embaixada ás Provin- 
cias-Unidas^ para cujo estudo estamos reunindo elementos. 



— LXII — 

landezes se declarassem auctorizados a emittir o 
seu parecer definitivo. 

D'elles, ou, para melhor dizer, das Companhias 
das índias era a verdadeira opposição. Depois de 
acalorada discussão na Assembléa do Estado de 
HoUanda, ao que parece; tanto que só em 17 de 
Maio resolvem os representantes d'este Estado: 
«que haja tréguas dos dois lados do equador nas 
conquistas que seguirem a parte de Portugal contra 
a Hespanha, devendo essas tréguas ser por dez 
annos e começar nas índias Orientaes um anno, 
nos districtos da Companhia das índias Occiden- 
taes seis mezes, e na Europa immediatamente 
depois da ratificação do tratado; isto comtanto que 
se chegue a accordo com o embaixador com re- 
lação ás objecções apresentadas pelas duas Com- 
panhias, e ainda com excepção da restituição da 
Bahia pretendida pela Companhia das índias Occi- 
dentaes, e da indemnização por despezas feitas com 
equipamentos & pretendida pela Companhia das 
índias Orientaes». 

Para se chegar a esta resolução longos e labo- 
riosos tinham sido os debates na assembléa do 
Estado da Hollanda; principiaram em 20 de Abril 
quando foi dado conhecimento á assembléa de que 
o embaixador em Paris, van Oosterwyck, commu- 
nicára ter resolvido o Rei de França auxiliar os 
portuguezes com vinte náos e que Luiz XIII pedia 
com urgência que a Republica fizesse o mesmo 
em cooperação com elle. O Pemionario informa 



— LXIII — 

que o príncipe de Orange insta por uma rápida 
e acertada resolução d'este assumpto; e, ao mesmo 
tempo, dá conta á assembléa do que se tem pas- 
sado entre Tristão de Mendoça e os deputados 
dos Estados Geraes, encarregados de tratar com 
elle *. 

Não seguiremos passo a passo as deliberações 
dos hollandezes em numerosas sessões da assem- 
bléa Provincial, com audiência dos representantes 
das Companhias das índias apostados em demorar 
e contrariar a negociação ; bastará recordar que 
em IO de Maio já haviam adherido ás disposições 
favoráveis do Stathouder os representantes de cinco 
Provincias nos Estados Geraes, mas Zelândia he- 
sitava e HoUanda resistia ainda ^. 

' Pensionario de HoUanda, ou Grande Pensionario, é o 
titulo por que era designado o presidente do conselho da 
provincia de HoUanda, que representava esta província nos 
Estados Geraes, faliando em nome delia, e tinha uma grande 
influencia, ás vezes preponderante, sobre Suas Altas Poten- 
cias os Senhores dos Estados seus collegas. Em 1641 exercia 
este elevado cargo Jacob van Cats, notável homem de lettras, 
que o desempenhou de i636 a i65i. 

2 Assim consta de uma communicação do Pensionario ao 
conselho de HoUanda, acerca do que se passara na sessão da 
manhãa d'aquelle mesmo dia: «Cinco provincias (Gueldra, 
Utrecht, Groningen, Frisa e Overysel) tinham ficado muito 
surprehendidas com a resolução do Estado da HoUanda e 
tinham reclamado uma trégua formal, d'um e d'outro lado 
do equador, para todos os domínios que seguissem o partido 
de Portugal, Os deputados da Provincia de Zelândia, não 
estando auctorizados a votar, tinham manifestado o desejo 



— LXIV — 

Em 1 1 ha uma reunião dos Estados Geraes in 
plenis, cujo objecto é resolver sobre a resposta a 
dar ao embaixador de Portugal; todas as províncias 
menos a HoUanda estão de accordo, esta mantém-se 
na negativa, em vista do que o Grande Pensionario 
consulta uma vez mais a assembléa Provincial, que 
finalmente cede, em 17 de Maio, nos termos que 
acima indicámos. 

Pouco resta a fazer, o accordo em principio reali- 
zou-se, vae-se agora redigir o tratado; e em França 
Richelieu vae também concluir as negociações com- 
nosco mas sem incluir na convenção, que ha de 
assignar-se em i de Junho, compromisso algum 
relativo á liga formal, que já não poderia ser si- 
multaneamente com a França e as Provincias-Uni- 
das, solidarizadas n'uma resolução commum, como 
a que se antevia nas instrucçÕes que estavam sendo 
preparadas para Saint-Pé, em Março d'aquelle 
mesmo anno. 

Que essa aliança collectiva já não era possível 
bem o mostram as negociações da Haya; e uma 
liga-formal só com a França representava um en- 
fraquecimento tal na situação d'esta potencia que o 
ministro de Luiz XIII não podia consentir n'ella; 
os nossos embaixadores fizeram muito bem em não 
a exigir "porque nunca a alcançariam. 

Se o Monteiro-mór e Coelho de Carvalho, se 



de consultar previamente os seus constituintes. (V. Ex- 
tracto da Sessão do Conselho de Hollanda em 10 de Maio). 



— LXV — 

Tristão de Mendoça Furtado, se teem mostrado 
intransigentes que succederia ? Não tínhamos tra- 
tado com a França, porque as Provincias-Unidas 
pesavam muito mais do que nós na balança da Eu- 
ropa e Richelieu não podia romper com ellas e com 
todos os seus alliados, disse-o elle próprio ao seu 
confidente Chavigny e disse a verdade *. 

Pois sem tratado com a França também não 
tínhamos em Lisboa a armada do marquez de 
Brézé e o valiosíssimo soccorro de officiaes e de 
tropas, o auxilio material e o appoio moral, que 
ella nos trouxe. Sem o tratado com as Provincias- 
Unidas não conseguíamos a execução das clausulas 
militares propostas por nós, que nos eram favorá- 
veis, e não teria limites a ambição das Companhias 
das índias ; nem nos restava contra os seus abusos, 
contra os seus excessos, a faculdade de reclamar 
junto dos Estados-Geraes, e a possibilidade de re- 
primir os actos de má fé dos seus pouco escrupu- 
losos agentes. 

Confrontemos agora datas e factos ; combinemos 
o que occorria em Paris com o que se passava na 
HoUanda, e veremos como logo se torna facilmente 
comprehensivel toda a dupla negociação. 

Nos últimos dias de Março realiza-se a primeira 

^ Veja-se a carta de Richelieu a Chavigny, de Abbeville 
em 28 de Maio de 1641 ; por extracto em Relações Exteriores 
de Portugal (T. /, pagg. 66 e seg.); e na integra em Avenel 
Lettres de Richelieu [t. VII, pag. 85g e seg.). Apud. Arch. 
Aff. Etr. Portugal, {t. l,fol. 45, minuta de Chekré). 



— LXVI — " 

audiência dos nossos embaixadores; e logo nos 
principios d'Abril mostra Richelieu a maior pressa 
em iniciar as negociações comnosco ao mesmo 
tempo que activa as suas diligencias para que as 
Provincias-Unidas o acompanhem na sua politica 
relativamente a Portugal; em i5 d' Abril escreve 
elle de Ruel ao Secretario d'Estado que mande 
partir M/ d'Estrades com as instrucçÕes para MJ 
de La Thuillerie, embaixador na Haya, ao mesmo 
tempo que trata do assumpto em Paris com o em- 
baixador da Hollanda ^ 

Bem se explica o procedimento do Cardeal, se 
recordarmos de que elle tinha motivos para recear 
que as intrigas de Auersperg e de Friquet compro- 
mettessem d'algum modo a situação de Frederico 
Henrique de Nassau, ou que o casamento do filho 
d'este, Guilherme de Orange, com Maria de Ingla- 
terra diminuísse a dependência em que o Stathouder 
se mantinha para com a França. Porisso mesmo, 

1 11 faut faire partir M.r d' Estrades^ avec copie de Vinstru- 
ction envoyée à Mx de la Thuilerie pour le traicté des Por- 
íugais, afiyi qu'il sollicite de son costé le traicté des Hollan- 
dois avec les Portugais, duquel dépend la ruine de ITspagne 
s'il est bientost faict et qu'on Vexecutte. V. Relações Exte- 
riores de Portugal {t. I, pag. 5j e n. 2.*), onde se faz refe- 
rencia a outros interessantes documentos. Com effeito, na 
sessão de 20 de Abril do Conselho de Hollanda, dá conta 
o Grande Pensionario de duas cartas do embaixador em 
Paris, dirigidas aos Estados Geraes e ao Stathouder, infor- 
mando-os das disposições do governo francez a respeito de 
Portugal. 



— LXVII — 

apesar de ter visto e examinado já o nosso projecto de 
tratado em i6 d'Abril, não tem pressa agora em ne- 
gociar comnosco ; do que elle trata com o maior em- 
penho é de levar: «M''* les Estais à considérer Vim- 
portaiice de Vaffaire de Portugal, qui est telle qu'en 
la maintenant ou mine 1'EspagHe, et ce à Vapantage 
de M/^ les Estats à cause des Indes, dont apparement 
on déboutera aisément VEspagne, les Portugais en 
estant non seulement separes mais unis avec les Hol- 
landoisD. Infelizmente as diligencias e os argu- 
mentos ée Richelieu não conseguem convencer os 
negociantes de Amsterdam, que não vêem senão o 
seu interesse immediato e directo, no Brazil, nas 
índias Orientaes, na Africa; o que elles querem é 
apossar-se do que é ou antes do que fora nosso, e 
não cedem das suas ambições ^ 

No fim d'Abril parece que se resolve a questão 
da cooperação naval, La Thuillerie escreve que os 
Estados se mostram dispostos a conceder 20 náos, 
graças, decerto, á influencia do Stathouder que se 
manifesta como preponderante emquanto ás clau- 
sulas que representam a acção commum, naval e 
militar, na Europa; mas no tocante ás relações nas 
possessões d'além mar a Hollanda, as Companhias, 
resistem e as negociações estacionam. La Thuille- 
rie vem a Paris no principio de Maio e só volta 



* Richelieu a Chavigny em 23 d'Abril; citado em Relações 
Exteriores^ (t. I^pag. 5j n. 2.»^, apud Avenel, Lettres de Riche» 
lieu {t. VI, pag. 772). 



— LXVIII — 

para a Haya no fim do mez, quando a HoUanda 
cedeu. . . o menos que poude. 

Entretanto, em França, aos primitivos projectos 
de tratado succede um novo texto, em fins de Maio, 
que os nossos plenipotenciários não acceitam ; que- 
rem ir a Abbeville encontrar-se com o Cardeal, e 
este acha inútil que elles vão; «ainda que lá fossem 
elá ficassem cem annos», diz Richelieu a Chavigny, 
«não conseguiam a liga formal; porque não a po- 
diam conseguir, visto que o Rei de França, tendo 
compromissos anteriores com a Suécia e a Hollanda 
antes de entrar em negociações com Portugal, não 
pode fazer nada sem a participação dos seus alliados, 
tanto mais que os inimigos communs usam de todos 
os artifícios para as separar da França» *. 

Esta era a verdade; e nunca foi ignorada dos 
nossos diplomatas nem em Paris nem na Haya, 
temos d'isso prova cabal em cartas de Christovam 
Soares d'Abreu e do próprio António Coelho de 
Carvalho para António de Sousa Tavares, secre- 
tario da embaixada na Haya. Em 7 de Abril es- 
creve Soares d' Abreu: «Esperamos saber como 

1 « . . . Sa Majesté estoit engagée avec la Suède et la Hol- 
lande avant d'entrer en traitté avec le Portugal^ elle ne peut 
rien faire sans leur participation, d'autant que les ennemis 
usent de toutes sortes d' artífices pour les séparer de la France» . 
V. Relações Exteriores {t. I,pag. 64); extracto de uma mi- 
nuta do próprio punho de Chavigny, publicada por Avenel, 
{Lettres de Richelieu, t. Vil, pag. 85y e segg. ; Apud Arch. 
Aff. Etr. Portugal, 1. 1, foi. go). 



— LXIX —^ 

querem os HoUandezes entrar nas nossas alianças; 
para isto lhe tem escrito Sua Eminência e não sei 
se viria n'este correyo a resposta» ; e em i8 de 
Maio torna a dizer: «Estamos esperando cada dia 
aviso de Sua Eminência depois da vinda do ex- 
presso» (o correio que fora mandado a Hollanda), 
apara concluirmos as alianças conforme o que está 
proposto e com as condições dos Sres. Estados, 
etc, o que tem alcançado com o secretario que 
foi d'aquella embaixada». 

Finalmente, em 26 de Maio, ao fechar a nego- 
ciação em França, é o embaixador Coelho de Car- 
valho quem escreve: «Muito nos vay em que se 
concluão de todo os assentos das alianças d'esses 
Estados, porque os nossos se forao dispondo de 
modo assy ou assy, que pararão até chegar avizo 
do em que lá se acórdão, e em outro modo não ha 
mais que esperar e ter paciência por força, sendo 
que todas as razoens que V. M. nos dá são muy 
conformes a toda a razão, e no principio não faltou 
quem as apontasse, ou quem. gritasse com ellas; 
não pareceo seguillas, agora não ha lugar mais que 
o de esperar» ^. 

Não nos parece necessário accrescentar nem uma 
palavra mais para demonstrar quanto as negocia- 
ções da Haya influíram nas de Paris, e quanta 

* V. «Discurso Politico em aprovação do tratado da tregoa 
com os Estados das Provindas Unidas por António de Sousa 
de Tavares; inédito. Ms. 601, da Bibliotheca da Universidade 
de Coimbra. 



— LXX — 

razão tiveram tanto o Monteiro-mór e Coelho de 
Carvalho como Tristão de Mendonça Furtado para 
acceitar o que puderam conseguir, convencidos 
como deviam estar de que nem a França nem as 
Provincias-Unidas queriam dar-lhes mais. 

Se alguma duvida existisse ainda a tal respeito 
teria de desapparecer em presença de um docu- 
mento extrahido da Correspondência de Portugal^ 
no archivo do ministério dos negócios estrangeiros 
de França, que nos foi gentilmente communicado 
pelo Sr. Morei Fatio; não conhecemos a sua data 
mas deve ser dos últimos dias de Maio e certa- 
mente dirigido por Chavigny ao Cardeal, que estava 
com a corte em Abbeville. TranscrevemoPo na 
integra : 

^Mémoire sur les arttcles à insérer dans le Traité 
entre la France et le Portugah. 

«.Les Anibassadeurs de Portugal, après avoir con- 
sidere che:{ eux le projet de Traitté qui a este cf 
devant mis entre leurs mains, et le nouveau qui 
leur a este donné duquel on retranche Vai^ticle qui 
portoit que lhe Roy de Portugal ne pourroit faire 
auciin traitté sans le Roy, et que Sa Majesté se 
reserveroit par la paix la liberte de Vassister^ res- 
pondirent hier au soim. 

« Qu'ils faisoient leur principal fondement sur 
cet article, sans lequel tous les autres ne sont pas 
presque considerables. Qu'ils ont donné compte à 
leur Roy du premier projet, que comme il aura 
receu une três grande joie voyant par le dit article 



— LXXI — 

doní il est question la bonne inlention et affection 
du Roy, ih jugeoient que le changement que Vony 
apporte luy doimeroit grande mortiffication, et à 
tous les Portugais, parmi lesquels cela pourrait 
produire un grand refroidissementr>. 

tlls demanderent instamment de se rendre prés 
de Son Eminence pour luy representer leurs rai- 
sons sur cette affaire qui paroist les toucher sen- 
siblementi). 

tSur quoy leur ayant fait cogjioisíre que lors- 
qu'on leur avoit donné le premier projet on n'avoit 
jamais pense de le signer que conjouitement avec 
les Hollandois, et qu'eux ayant tesmoigné qu'ils 
désiroient passer un traitté presentemente on leur 
avoit donné le dernier projet, duquel on avoit osté 
Vartide susdit, pareceque le Roy ne pouvoit entrer 
dans cette obligation sans Vintervenlion de ses allie\, 
et que Sa Majesté faisoit beaucoup plus pour eux 
que lesdits Sieurs Estats qui n'apoient voulu con- 
venir d'autres choses que du secours de vaisseaux 
qu'ils envoient presentement en Portugali>. 

a Lesdits Sieurs Ambassadeurs, après grande con- 
testation, ont enjin consenty que Vartide soit osté 
du traitté, tnoyenant qu'il soit dit que Messieurs 
les Eiats consentans a un pareil article cy-après, 
le Roy de sa part le passera aussi)). 

dArtide secret qu'on pourroit signer avec les 
Ambassadei/rs de Portugal pour les contenter*. 
<tLe Roy par le present article secret demeure 



— LXXII — 

d'acord d'assurer le Roj- de Portugal, quand la 
paix se conclura, de faire tons efforts possibles 
affin de se reserver la liberte de Vassister tous- 
joiírs, pourveu que ledit Roy pro??iette de ne faire 
aucun traiité avec les ennemis sans le consentement 
de Sa Majestê, et ce toutesfois et qu antes que les 
allie^ de sa dite Majesté consentirojit d^entrer avec 
elle dans une pareille obligatiofD). 

auctor da memoria accrescenta, á maneira de 
commentario, o seguinte : 

(iJe mets les allie^ du Roy en general affin que 
Sa Majesté ait d'autant plus le mofen d'eviter de 
s'obliger à une telle condition, quand mesme les 
Holandois le voudroient admettre. Je ne sçay si 
les Ambassadeurs Portugais agreeront cet article 
secret comme il est, fnais il semble qu'ils desiretit 
passionnement de faire quelque traitté presente- 
ment)> *. 

Informados directamente por Mendonça Furtado 
do que ao mesmo tempo se estava passando na 
Haya; e talvez também do que occorrera na Dina- 
marca, onde Francisco de Sousa Coutinho nem 
mesmo chegara a ser officialmente recebido; os 
nossos embaixadores em Paris acceitáram, á falta 
de melhor, o artigo secreto que apenas soffreu li- 
geiras modificações de redacção ^. 

1 V. Archivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 
França, Correspondance de Portugal, 1. 1, foi. 40. 

' V. Archivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 
França, Correspondance de Portugal, t. I, foi. 86, d'onde ex- 



LXXIII — 

Que elles procederam acertadamente em concluir 
com o governo francez um pacto, que importava o 
reconhecimento da nossa autonomia e a promessa 
de importantes soccorros, foi a principio a opinião 
geral. A noticia da assignatura do tratado e da 
próxima chegada da armada franceza foi recebida 
com grande contentamento, mandando El-Rei por 
decreto de 2 de Julho que durante trez dias hou- 
vesse em Lisboa luminárias e repiques de sinos ^ 

trahiu a copia d'este artigo, na sua forma definitiva, o Sr. Mo- 
rei Fatio que noPo communicou. ' Encontra-se egualmente, 
transcripto na integra em Relações Exteriores de Portugal, 
t. I, pag. 66 e seg. ; e, com todo o tratado, na Collecção de 
Tratados de Borges de Castro, t. I, pag. 16 e seg. 

Devemos notar que Borges de Castro affirma ser em 
latim o texto official do tratado de i de Junho, sem comtudo 
nos dizer porque o affirma nem indicar onde exista seme- 
lhante texto, apresentando o que encontrou em Dwnont, em 
francez, e uma traducção particular, em portuguez. 

A titulo de informação acrescentaremos nós que no Ar- 
chivo Nacional da Torre do Tombo apenas existe uma copia 
em francez, no t. XIV da Cohlecção de S. Vicente; entretanto 
no Archivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 
França há varias copias em francez sem as assignaturas; e 
também as não tem o Ms. 3oS, fonds Colbert, da Bibliotheca 
Nacional de Paris de que se serviu Santarém, segundo as 
informações particulares que devemos a M.r Tausserat-Radel 
a quem muito particularmente as agradecemos. 

1 V. Ramos Coelho, (Historia do Infante D. Duarte, t. I, 
pag. 716), que cita a data do decreto, 2 de Julho de 1641 •, foi 
depois, muito depois, que trma vehemente opposição se mani- 
festou, contra os diplomatas e contra o secretario d'Estado 
Francisco de Lucena, que os invejosos levaram ao patíbulo. 



— LXXIV 



Depois, rivalidades e invejas, mesquinhas intri- 
gas e sórdidas ambições, desvirtuaram a obra dos 
nossos diplomatas, sinceros patriotas, bons e leaes 
portuguezes a quem não faltaram detractores. E 
tempo de que a posterioridade lhes faça justiça e 
para isso quizémos nós concorrer quanto coube em 
nossas forças. 



II 

Pessoal da Embaixada 

FRANCISCO DE MELLO 

Tendo de referir-nos ao pessoal da embaixada é 
justo que dêmos o primeiro logar áquelle dos dois 
embaixadores a quem a sua mais elevada cathe- 
goria naturalmente o attribuia, quando mesmo per- 
ceptivamente lh'o não dessem as instrucçÕes da 
Corte ; occupar-nos-hemos pois antes de todos do 
Monteiro-mór, Francisco de Mello, que já de seu 
pae herdara este cargo honorifico. 

Ignoramos a data do seu nascimento ; mas sa- 
bemos, por um documento que em seu logar publi- 
camos *, ser elle filho de um Manuel de Mello, 
Monteiro-mór em Portugal e do conselho de Fi- 
lippe II, fallecido em -28 de Novembro de iSgy. 

Ao pae do nosso futuro embaixador, em paga 

1 Documentos elucidativos, n.° IX. Carta Regia em favor 
de Garcia de Mello filho de Francisco de Mello, onde se re- 
ferem os serviços do Embaixador, pag. 25 1 e segg. 



— LXXVI — 

dos serviços d'elle e de seu irmão António de 
Mello, fora feita pelo mesmo Filippe II, em 25 
d'Abril de iSgS, a concessão de uma tença no valor 
de duzentos mil reis, com sobrevivência para a mu- 
lher ou filhos. Por morte, pois, do Monteiro-mór 
Manuel de Mello reclama para si o filho Francisco 
que herdara o cargo, decerto o primogénito, me- 
tade d'essa tença, passando a outra metade para 
seu irmão Jorge de Mello, por alvará de 3 de junho 
de iSgS. 

Sabe -se mais que, além da tença acima re- 
ferida, teve Francisco de Mello ainda sob o do- 
mínio castelhano duas commendas na ordem de 
Christo, a de Santiago na villa de Santarém e a 
do Pinheiro d'Azere no bispado de Vizeu*; e tam- 
bém consta que renunciou, em i6 de março de 
1626, a favor de Rui Dias da Cunha a capitania 
de Chaúl, que decerto lhe viera por sua mulher 
D. Luiza de Mendonça filha de Pedro de Men- 
donça Furtado, que era commendador de Mourão 
e capitão de Chaúl. E de crer que o sogro viesse 
a fallecer por esse tempo e que assim a capitania 
transitasse para o genro, ou que D. Luiza a le- 
vasse em dote, se o sogro de Francisco de Mello 
era o Pedro de Mendonça de quem adeante fallare- 
mos e não o pae d'este como também podia ser. 

que sabemos é que desde a morte do pae até 

1 Archivo Nacional da Torre do Tombo. Chancellaria da 
Ordem de Christo, Livro XXI, fols. 65 v.", 66 v.» 



— LXXVII — 

á data, i6 de março de 1626, em que renunciou a 
favor de Ru}- Dias da Cunha, á capitania de ChaúH, 
o nosso Monteiro-mór se não esquivou a prestar 
serviços ao paiz. 

Parece que principiou a sua carreira, fazendo o 
seu tirocinio militar nas armadas, como era costume 
com os jovens fidalgos do seu tempo, pois temos 
noticia^ d'elle ter entrado em 1607 na «armada 
das Ilhas», conservando-se ahi n'esse anno e no 
seguinte; e, tomando depois parte na «empresa 
de Larache» e na «armada da costa de seiscentos 
e des, sempre com criados a sua custa». 

E de suppôr que mais tarde fosse viver para a 
sua commenda de Santarém, talvez recem-casado, 
visto ser notório que alli fez por vezes importantes 
levas de gente, a quem sustentava «com grande 
despeza da sua fazenda». O inapreciável do- 
cumento que tudo isto nos ensina cita particular- 
mente duas expedições para que Francisco de Mello 
assim concorreu, uma em 1624, a recuperação 
da Bahia aos Hollandezes («quando foi da jor- 
nada da Bahia de Todos os Santos»); e outra no 
anno seguinte, «com occasião de se esperar a ar- 
mada ingreza», mandada contra a Hespanha por 
Carlos I e pelo seu valido duque de Buckingham. 



1 Archivo Nacional da Torre do Tombo. Chancellaria de 
Filippe III (em Portugal). Livro XXX, foi. 295. 

2 Documentos elucidativos, n." IX. Carta regia, etc, 
pags. 253 e sôg. 



— LXXVIII — 

D'essa vez levantou elle na comarca de Santarém 
nada menos de trezentos homens, «gente de ca- 
vallo» com que acudiu a Cascaes, alojando-se com 
elles em Oeiras «com grande despeza de fazenda, 
por dar a muitos meza». Era sempre assim: «es- 
tando prompto cada ves que se lhe avisou para 
acodir onde fosse necessário com a gente de ca- 
vallo que tinha a cargo». 

Não teve porém occasiao Francisco de Mello de 
combater os antigos alliados de Portugal, porque 
a armada ingleza em logar de vir sobre Lisboa 
dirigiu-se a Gadix, d'onde foi repellida, depois de 
ter tentado inutilmente interceptar os galeões car- 
regados de prata que vinham da America hespa- 
nhola. 

A partir d'esta data e durante alguns annos per- 
demos de vista o futuro embaixador, que só torna 
a apparecer-nos quando se aproxima a restauração 
da independência pátria, de que elle foi, bem como 
seu irmão Jorge de Mello a que atraz alludimos, 
um dos primeiros propugnadores e dos principaes 
agentes. 

E sabido que o ponto de partida para o movimento 
nacionalista, em que tomou parte preponderante a 
nobreza de Lisboa e que veiu a ter tão feliz resul- 
tado no dia primeiro de Dezembro de 1640, foi a 
nomeação do duque de Bragança para ir residir em 
Almada, com o titulo de governador das armas de 
todo o Reino e o encargo de cuidar da sua de- 
feza. Julgava-se esta ameaçada pela próxima vinda 



— LXXIX — 

da armada franceza commandada por Henri de 
Sourdis, arcebispo de Bordéus, com o intuito de 
atacar Portugal e causar á Hespanha sérios em- 
baraços, forçando-a a distraliir, chamando-as para 
o occidente da Península, as forças preparadas para 
resistir ás do príncipe de Conde, que na primavera 
d'esse anno de 1689, devia atacar o Russilhao e 
ameaçar a Catalunha ; isto para não fallar senão 
do que se passava na Península, sem cuidar dos 
exércitos que a Hespanha era obrigada a sustentar 
em outros theatros de operações variados e re- 
motos. 

Dando ao duque de Bragança, candidato even- 
tual ao throno, o encargo de defender Portugal 
contra os inimigos da Hespanha, auxiliares natu- 
raes de quaesquer movimentos de revolta que sur- 
gissem no seu próprio paiz, destribuia Olivares ao 
futuro rei o papel mais ingrato que era possível 
imaginar. 

Se D. João de Bragança organizasse como lhe 
cumpria a defeza do reino, mostrava-se submisso 
ás ordens de Madrid, súbdito fiel de Filippe IV, 
obediente servidor do seu poderoso ministro ; e 
tanto bastava para que perdesse entre os seus nu- 
merosos partidários todo o prestigio que a sua 
conducta, sempre hábil e prudente, lhe havia gran- 
geado. 

Mas se o Duque desobedecesse; se aquelle a 
quem fora confiada a guarda do valle do Tejo, o 
melhor e o mais seguro d'entre os caminhos estra- 



— LXXX — 

tegicos que ao coração da Hespanha conduzem, 
atraiçoasse o Rei; se o pretendente se puzésse a 
conspirar com os descontentes, fidalgos irrequietos 
e populares insubmissos para quem a regência da 
duqueza de Mantua e o governo de Miguel de Vas- 
concellos não eram a mais generosa das regências 
e o melhor dos governos possiveis: então o poten- 
tado de Villa Viçosa manifestava-se como um réo 
de alta traição, merecedor do mais severo castigo. 

Em tal caso não seria diííicil ao pouco escrupu- 
loso Conde-Duque apoderar-se, com justa razão, da 
sua pessoa e dos seus opulentissimos bens, quando 
andasse visitando alguma fortaleza bem guarne- 
cida de tropas castelhanas, ou quando entrasse a 
bordo de alguma náo d'aquella nação. Preso o Du- 
que, uma rápida e bem urdida devassa designaria 
os conspiradores seus cúmplices por demais conhe- 
cidos, que expiariam no patíbulo o crime de cons- 
piradores contra a real magestade de Filippe IV, 
legitimo soberano d'estas ditosas terras de Portu- 
gal que a generosa iniciativa de Filippe II e a 
espada do duque d' Alba haviam juntado, n'um ca- 
rinhoso e fraternal amplexo, ás outras terras da 
Hespanha, unificando a Ibéria. 

Era bem urdido o plano, mas as circunstancias 
não favoreceram o seu êxito; e d'esse mesmo plano 
resultou em grande parte, não a perda do prestigio 
ou a da liberdade e riqueza, talvez da vida, para o 
futuro D. João IV, mas precisamente o contrario: a 
sua ascensão ao throno. 



— LXXXI — 



O duque de Bragança obedeceu ás ordens do 
Conde-Duque, deixou a sua pequena e tranquilla 
corte de Villa-Viçosa, affastou-se da coutada que 
era o seu enlevo, e veiu habitar em Almada, como 
lhe cumpria. Mas Almada está a dois passos de 
Lisboa, é fácil a travessia do Tejo, e uns após 
outros os mais illustres e poderosos fidalgos foram 
cumprimentaPo. Uns, ou por serem seus parentes 
e adherentes ou por mais ousados, abriam-se com 
elle e deixavam-lhe entrever a posse eventual da 
coroa ; outros, mais prudentes, ou mais desejosos 
de conservar ambicionadas situações que a Hespa- 
nha lhes garantia, aparentavam certa reserva, mas 
iam sempre cumprimentando aquelle que, sendo 
agora o mais poderoso d'entre os fidalgos, poderia 
vir a ser um dia o soberano. 

Mais cauto, mais circumspecto, mais hábil que 
todos elles era o neto da infanta D. Catharina e 
herdeiro dos seus direitos : acolhia todos muito bem, 
ouvia-os com amável e sorridente attenção, e não 
se abria com ninguém. 

Um dia veiu a Lisboa visitar a duqueza de 
Mantua ; ella era senhora e princeza, elle um duque 
muito chegado ao throno e ambos sabiam practicar, 
sem quebra da própria dignidade, extremos de cor- 
tezia. Passou-se tudo muito bem na entrevista, o 
duque retirou para Almada e os fidalgos, o próprio 
povo, acclamáram-no ; não voltou a Lisboa. 

Também a armada franceza não veiu; e como 
já fosse entrando o inverno de 1639-1640 o Duque, 



— LXXXII — 

saudoso dos seus couteiros, foi pôr-se á frente 
d'elles ; recomeçaram as caçadas, Villa Viçosa re- 
animou-se. 

Entretanto os fidalgos de Lisboa ficavam discu- 
tindo se haveria no Duque excesso de prudência 
ou excesso de timidez ; e se elle, no fim de contas, 
acceitaria ou não acceitaria a coroa. 

É n'esta altura que nós vemos reapparecer o 
nosso Monteiro-mór, de quem andávamos desde 
1626 apartados e esquecidos; com effeito, d'entre 
os fidalgos que fizeram então maiores instancias 
com o duque D. João para que acceitasse a coroa: 
«Hum dos que mais vivamente as apertava era 
Francisco de Mello, Monteiro-mór: escrevia a 
D. Francisco de Mello Marquez de Ferreira, e a 
D. AíFonso de Portugal Conde de Vimioso, pedindo 
a hum, e outro que representassem ao Duque as 
moléstias que padeciam os Portuguezes, que de 
justiça nacerão seos vassallos; que tomasse a coroa 
que voluntariamente lhe offereciao, pois era a 
mesma que os Castelhanos roubaram a seus Avós; 
que a esta offensa se não devia antepor perigo 
algum, e que este se devia ter por muito remoto 
na consideração de se acharem os Castelhanos com 
o poder devidido por muitas partes, e que neste 
sentido nunca o tempo podia ser para a resolução 
mais opportuno» *. 

* Portugal Restaurado, P. I, liv. n, pag. 91 e seg. (Ed. de 
1751). António Caetano DE Sovsa confirma, transcrevendo-as 



— LXXXIII — 

Taes eram, segundo as formaes palavras do 
conde da Ericeira, as razões que o nosso futuro 
embaixador fazia valer junto do futuro rei, do mar- 
quez de Ferreira e do conde de Vimioso em nome 
de um escolhido grupo de conspiradores, de que 
faziam parte D. Miguel d'Almeida, Pedro de Men- 
donça Furtado, e D. Antão d'Almada, em cuja casa 
junto ás portas de Santo Antão passavam a encon- 
trar-se depois de terem tido por ponto de reunião 
a casa de Jorge de Mello, irmão do Monteiro-mór, 
que foi o encarregado de transmittir verbalmente ao 
duque de Bragança, ao marquez de Ferreira e ao 
conde de Vimioso, os poderosos argumentos dos 
fidalgos reunidos em Lisboa. 

O que deixamos dito, invocando o testemunho 
conforme do conde da Ericeira e de D. António 
Caetano de Sousa, parece-nos sufficiente para ajuizar 
do papei que teve na restauração o primeiro dos 
embaixadores a França ; não nos demoraremos pois 
a transcrever o que se passou, com a sua assistência 
e a de João Pinto Ribeiro agente da casa de Bra- 
gança, em doze de Outubro ; e menos ainda iremos 
narrar, na fé dos mesmos auctores, as variadas 
peripécias que acompanharam a acceitação do 
Duque, e os acontecimentos do dia primeiro de 
Dezembro de 1640, do qual bem se pode dizer que 
foi o dia de maior felicidade que a historia de Por- 

quasi palavra por palavra, as afErmações de Ericeira. (His- 
toria Genealógica, t. VII, liv. vii, pag. 69 e segg.). 



— LXXXIV — 

tugal conta, por ser aquelle em que a nação portu- 
gueza, libertando-se do amplexo ibérico, recuperou 
a perdida independência. 

Para a fortuna d'esse dia foram Francisco de 
Mello e seu irmão Jorge de Mello dos que mais 
contribuíram, tendo dado durante a sua preparação 
grandes provas de energia e capacidade. Razão 
havia pois para que aos dois irmãos fossem con- 
cedidas as merecidas recompensas pelos seus ser- 
viços, e que lhes fossem confiados cargos de repre- 
sentação e de responsabilidade. 

Coube ao Monteiro-mór a primeira pela impor- 
tância de todas as embaixadas, a de Paris. Para 
a de Londres, dirigida aos nossos tradicionais 
alliados, ia outro conjurado, D. Antão Vaz d'Al- 
mada, o representante legitimo de Álvaro Vaz d' Al- 
mada, primeiro conde d'Avranches e cavalleiro da 
Jarreteira, cujo honrado brazao figura no palácio de 
Windsor ao lado dos mais nobres e gloriosos de 
Inglaterra. Na Gran-Bretanha, onde nenhuma tra- 
dição se perde, havia de ser apreciada a escolha. 

Os restauradores, e á frente d'elles, o Rei, avi- 
zado e prudente, sabiam confiar aos mais compe- 
tentes os elevados cargos, eis porque a revolução 
portugueza vingou; inspirava-os o amor da pátria 
onão movido do premio vil», porisso a memoria 
d'esse punhado de bons portuguezes ha de ser 
abençoada emquanto portuguezes houver. 

Se pretendermos seguir o nosso Monteiro-mór 
no curto espaço de tempo que mediou entre o pri- 



— LXXXV — 

meiro de Dezembro e a sua partida para França, 
havemos de encontraro em todos os actos solemnes, 
e com elle o irmão Jorge de Mello, e um Pedro de 
Mendonça Furtado, alcaide-mór e senhor de Mourão, 
que não pode deixar de ser sogro ou cunhado de 
Francisco de Mello e que figura conjuntamente 
com um filho, Luiz de Mendonça, e com Tristão de 
Mendonça, decerto o embaixador ás Provincias- 
Unidas, bem como o filho d'este, Henrique de 
Mendonça, na hsta dos conjurados impressa em 1641 
e reproduzida na Historia Genealógica *. Como 
tinham ido incitar o Duque a que acceitasse a coroa, 
foram annunciar-lhe o que em Lisboa se passara, os 
mesmos emissários, Jorge de Mello e Pedro de 

i N'essa lista, tal como o reproduz a Historia Genealógica 
(t. VII, liv. vii, pag. 81), encontramos logo no terceiro logar, 
depois de D. Miguel d'Almeida e D. Antão d Almada, Jorge 
de Mello, porém não vemos n'ella o nome do Monteiro-mór, 
ao passo que alli se vêem os de Tristão de Mendonça (o 
futuro embaixador ás Provincias-Unidas) e seu filho Henrique 
de Mendonça, bem como Pedro de Mendonça Furtado e Luiz 
de Mendonça seu filho. O conde da Ericeira, porém, inclue 
na lista dos Fidalgos da Acclamação {Portugal Restaurado, 
p. I, liv. II, pag. 109 e seg.), depois de Martim AíTonso de 
Mello, alcaide-mór d'Elvas, um Francisco de Mello, que bem 
poderia ser o nosso embaixador; a seguir vem Luiz de Mello, 
que foi porteiro-mór de el-Rei e alcaide-mór de Serpa {His- 
toria Genealógica, pag. 226) com o filho Manoel de Mello, e 
logo depois Tristão e Luiz de Mendonça, ao passo que Pedro 
de Mendonça é dos primeiros mencionados e que Jorge de 
Mello não se encontra n'esta lista. O que devemos concluir 
d'aqui é que nem uma nem outra é completa. 

G 



— LXXXVI — 

Mendonça, e vieram com o Rei, no seu próprio 
coche *, conjuntamente com o marquez de Ferreira, 
D. Nuno Alvares Pereira de Mello, conde de Ten- 
túgal, que ia ser duque de Cadaval, e com o conde 
de Vimioso, D. Affonso de Portugal, que mais tarde 
foi marquez de Aguiar; acompanhavam o coche 
alguns creados a cavallo. Sem mais escolta, sem 
o minimo receio, vinha D. João de Bragança ao 
encontro da coroa de Portugal: não havia perigo 
de que attentassem contra elle parciaes da união com 
a Hespanha; se alguns houvera no triste occaso do 
século XVI depois do tristíssimo reinado do cardeal 
D. Henrique, sessenta annos de iberismo tinham- 
n'os feito desapparecer. Já os não havia quando 
foi acclamado D. João IV; e se alguns descontentes 
vieram a manifestar-se depois, quer emigrando para 
Hespanha, quer conspirando contra o seu rei legi- 
timo e nacional, devemos attribuir o caso a invejas 
e despeitos pessoaes, não a mais elevadas causas. 
Não tardou muito que se realizasse a coroação 
de el-Rei; logo em i5 de Dezembro se levou a 



í Para não termos de nos referir novamente a elles, dire- 
mos que Jorge de Mello foi feito general das galés, na au- 
sência do marquez de Porto Seguro que ficara em Hespanha, 
e membro do conselho de guerra {Historia Genealógica, 
pag. 232) ; e que Pedro de Mendonça Furtado, alcaide-mór de 
MourãOj foi nomeado por D. João IV «Guarda mór da sua 
pessoa» {Historia Genealógica, pag. 225), e já desempenhava 
este cargo de confiança na cerimonia da coroação. {Portu- 
gal Restaurado, pag. 122). 



— LXXXVIl — 

eíFeito esse acto solemne, com applauso de todos 
os bons portuguezes. Assistindo a elle na «parte 
esquerda do estrado grande» do throno *, vemos o 
nosso Monteiro-mór no exercício do seu cargo he- 
reditário; na lista das primeiras mercês não fora 
elle comprehendido, como o irmão, mas decerto 
ficou logo resolvida a sua nomeação para a embai- 
xada a França, cujas instrucçÕes foram assignadas 
em 21 e 23 de Janeiro, ainda antes da reunião das 
cortes que foi a 28 ^. 

Pois logo no domingo seguinte áquella importante 
cerimonia, «3 de Fevereiro, dia do glorioso São Brás» , 
segundo diz o nosso Franco Barreto no começo da 
naj-ração da viagem, foram os nossos embaixado- 
res despedir-se de el-Rei e da Rainha, e n'esse 
mesmo dia embarcaram nas gôndolas que os puse- 
ram a bordo da nao inglesa Maria João; na quarta- 
feira G foi el-Rei a São Gião e mandou buscar 
Francisco de Mello para jantar com elle ; na quinta 
tentaram partir, mas faltou-lhes o vento. E na sexta- 
feira largaram definitivamente o Tejo, no dia 8 
portanto e não no dia 28, como dizem, copiando 

* Historia Genealógica, pag. 102. 

* As InstrucçÕes Ostensivas podem vêr-se desenvolvida- 
mente reproduzidas no Quadro Elementar pelo Visconde de 
Santarém, (t. IV. p. i, pag. 5 e segg.) ; e também, mais resu- 
midamente, em Relações Exteriores de Portugal por G. R. 
Du Bocage, (t. I, pag. 59 e segg.). 

Damos na integra as InstrucçÕes Secretas nos Documentos 
Elucidativos, (Doe. I, pagg. i53 e segg.). 



— LXXXVIII — 

um do outro, Ericeira e D. António Caetano de 
Souza; a 2 de Março desembarcaram elles na Ro- 
chella *. 

Agora, quanto á viagem que os nossos embaixa- 
dores tiveram e ao mais que passaram, nada temos 
a accrescentar ao que diz Franco Barreto, pois não 
ha ninguém mais competente do que o nosso auctor 
para contar aquillo a que assistiu ; não deixaremos, 
porém de fazer notar que os embaixadores, tendo 
levantado ferro em Lisboa a 8 de Fevereiro, só 
desembarcaram na Rochella a 2 de Março e entra- 
ram em Paris a 26, gastando na viagem quarenta 
e cinco dias. Tiveram a sua primeira audiência 
de Luiz XIII, da Rainha e do Delphim, em S^ Ger- 
main quarenta e oito horas depois de chegarem á 
capital, na quarta-feira de trevas 27 do mesmo mez, 
e a do Cardeal Richelieu logo no dia seguinte, 
em 28, apezar de ser quinta-feira de endoenças ; o 
primeiro ministro estava com pressa, e viera de 
propósito de Ruel a Paris para se encontrar sem 
demora com os embaixadores de D. João IV. 

Estava reservada ao nosso Monteiro-mór, entre 
as gallas da sua viagem e as satisfações que não 

* É de notar que Ericeira dê erradamente a data de 28 
de Fevereiro para a partida da embaixada e a de 5 de Março 
para a chegada á Rochella {Portugal Restaurado, pag. 161). 
D. António Caetano de Sousa {Historia GetieaIogica,pag. 124), 
copia servilmente o que disse Ericeira, sem repararem, nem 
um nem outro, na extraordinária rapidez da viagem. O seu 
erro é manifesto. 



— LXXXIX — 

podiam deixar de proporcionar-lhe as provas de 
consideração com que era recebido, uma dor pro- 
funda, que certamente lhe amargurou os dias res- 
tantes e lhe exigiu um poderoso esforço de vontade 
para continuar tratando dos negócios do Estado; 
referimo nos á grave e rápida doença, uma febre 
de mau caracter, que acommeteu em Paris o filho 
primogénito do embaixador, Pedro de Mello. Veiu 
a fallecer este desventurado moço em 24 de Abril, 
tendo a prantearo todos os seus companheiros da 
missão portugueza, que muito o apreciavam, e sendo 
esta prematura morte occasião de que a corte de 
França desse aos enviados de Portugal inequívocas 
provas de consideração, cuja iniciativa tomaram 
desde logo o Rei, a Rainha e o Cardeal-Duque, 
que mandaram dar os pêsames a Francisco de 
Mello em 27. 

Nem assim as negociações se interromperam; 
lá vae o pobre pae a Ruel, quatro dias depois da 
morte do filho, para ter mais uma entrevista com 
Richelieu ; e em 9 de Maio vemoFo representar o 
seu soberano, assistindo a uma cerimonia religiosa, 
porque o seu companheiro Coelho de Carvalho 
adoecera e não poude comparecer. Tratava-se de 
uma missa em que oííiciava o Cardeal, e a que foram 
presentes Luiz XIII, Anna d' Áustria e Gastão d'Or- 
leans. 

Durante a cerimonia, o nosso embaixador «esteve 
sempre praticando com El Rey, que alli lhe tornou 
a dar os pêsames pela morte do filho, e perguntou 



— xc — 

muito particularmente por El Rey Nosso Senhor e 
pella Raynha, e quantos filhos tinha, machos ou 
fêmeas, de que tudo o Monteiro-mór lhe deu inteira 
relação». Decerto f aliaram castelhano, visto que 
Francisco de Mello não era forte na lingua franceza, 
e decerto não conversariam por meio de interprete 
na egreja, durante uma cerimonia religiosa de tanta 
solemnidade *. 

Francisco de Mello quiz aproveitar a occasiao de 
estarem Suas Magestades em Paris e jantarem no 
Louvre, para mandar á Rainha: «humas caixas de 
brincos de âmbar, com luvas do mesmo, e outras 
caixas de doces e frascos de agoas, que sua Mages- 
tade mostrou estimar muito» '. 

1 V. Relaçani.. .[pag. 96. 

2 V. Relaçai7i. .. pag. 98. A propósito do presente de 
brincos e luvas de âmbar, que os embaixadores ofFereceram a 
Anna d' Áustria, não deixa de ser interessante reproduzir aqui 
uma noticia que encontrámos no cod. 4178 da Bibliotheca 
Nacional de Lisboa (núcleo antigo), intitulado Do Governo de 
Portugal^ que contem as despesas da casa da Rainha D. Luisa 
de Gusmão e no qual, a folhas 77, vem o rol dos presentes 
mandados de Portugal á França por occasiao duma das em- 
baixadas alli enviadas em seguida á Restauração. Os presentes 
para a Rainha (Anna d' Áustria) são, alem duma cama de pao 
preto, 12 caixas concertadas de pivetes, pastilhas e brincos de 
âmbar, i36 dúzias de pastilhas em caixas, 6 dúzias de couros de 
âmbar, 2 caixas de púcaros de Estremos, 4 caixas de brincos 
de âmbar e outras 12 caixas de doces, quantidade de porce- 
lanas, 200 pentes de cara, 12 arráteis de benjoim de boninas 
e 6 frasqueiras de aguas de cheiro. O Cardeal recebeu, entre 
outras cousas, 12 caixas concertadas com pivetes e pastilhas 



— XCI — 

Foi gentilissima para com os nossos diplomatas 
a irmã de Fiiippe IV; pois, apenas entregue do 
presente, mandou logo chamar para que fossem vePa 
os dois embaixadores, dizendo que não queria reti- 
rar-se para S'. Germain sem novamente os ter re- 
cebido. 

Coelho de Carvalho, sempre doente, não poude 
assistir á audiência da Rainha; mas Francisco de 
Mello foi, e parece que, fallando sempre com ella 
em hespanhol, se sahiu muito bem da situação algum 
tanto difficil, e soube mostrar que era homem da 
corte e homem de espirito; veja-se o que conta o 
nosso Franco Barreto, que talvez exaggere um 
pouco, mas se não atreveria a dizer o que diz sem 
algum fundamento, pois era homem sincero e de 
boa fé. 

O tempo ia correndo, estamos agora em 22 de 
Maio ; as negociações avançam, sem se poder dizer 
que prosperam, porque as objecções vindas da Haya, 
como n'outro logar vimos, mostraram quanto era 

e brincos de âmbar, 2 caixas com 32 pares de luvas de âmbar 
e 18 bolsas de âmbar e bordados, 2 caixas com vários brincos 
de briscado e de âmbar e rosários. Ao Gram Prior foram 
ofFerecidos, entre outros presentes, 6 caixas grandes concer- 
tadas com pivetes, pastilhas e brincos de âmbar, 12 caixas de 
diferentes doces, 4 frasqueiras de 6 frascos cada uma de aguas 
de cheiro, 4 caixas de assucar, 2 pipas de vinho e 2 de azeite. 
Entre outros gastos que se registam neste códice vem a 
foi. 47 as contas do jantar que a Rainha mandou dar ás donas 
que vieram ao paço ver o Auto da fé de i5 de Dezembro de 
1647. 



— XCIl — 

difficil realizar a alliança formal, que a principio 
parecera a todos, incluso Richelieu, tão fácil de 
contrahir. 

N'este meio tempo tinha chegado o bispo de La- 
mego, D. Miguel de Portugal, na sua viagem para 
Roma, onde ia como embaixador, e que, logo no 
dia seguinte ao da sua chegada, seguira para Abbe- 
ville a encontrar-se com o Cardeal-duque. No 
mesmo dia 23 de Maio, os nossos embaixadores, 
já os dois, reunem-se em casa do chanceller Séguier 
com os dois Bouthilier, pae e filho ; estamos nos 
últimos dias da negociação, nove dias depois havia 
de assignar-se o tratado. 

Eis tudo o que Franco Barreto nos diz ; mostra-nos 
as negociações por fora, conta-nos o que se podia 
vêr do exterior, não nos revelia os segredo das chan- 
cellarias; quanto ás próprias negociações, se as 
queremos conhecer, temos de ir estudaFas na cor- 
respondência de Richeheu, temos de ir devassar os 
archivos de França e da HoUanda; pois documentos 
nossos, se os ha, ainda não foram descubertos. 

Assignado o tratado, começa a viagem de re- 
gresso; mas antes de a iniciarem, ainda, movidos do 
seu zelo pelo serviço real, resolvem os nossos diplo- 
matas ir até Abbeville, despedir-se de Luiz XIII 
e de Richelieu, e a S'. Germain, beijar a mão á 
Rainha. 

Para que foram elles a Abbeville ? Decerto que 
não emprehenderam essa viagem por simples cor- 
tezia, nem foi uma viagem de recreio, com dois dias 



— XCIII — 

de Jornada na ida e dois na volta, entre o dia 12 
de Junho em que partiram, e o dia 17 em que já 
estavam de regresso em S^ Germain. Se foram a 
Abbeville os dois embaixadores, um dos quaes 
apenas tivera tempo para convalescer da sua doença, 
e o outro mal pudera consolar-se do seu desgosto, 
é porque julgaram conseguir, fallando de viva vóz 
com Richelieu, alguma promessa verbal que o mi- 
nistro de Luiz XIÍI não tivesse confiado ao papel, 
que nem mesmo dos negociadores francezes fiasse, 
e que poderia repetir em Lisboa o sobrinho do 
Cardeal, o marquez de Brézé, embaixador e almi- 
rante, em cuia esquadra os dois diplomatas regres- 
savam. Se a houve, não o sabemos ; o que sabe-- 
mos é que, durante a vida do ministro e durante a 
vida do Rei, nunca o appoio da França nos faltou. 
Também sabemos, e convém dizeUo, quanto foi 
elevado o numero e escolhida a qualidade dos offi- 
ciaes e cavalheiros francezes, «Senhores e Mon- 
siures» lhe chama o nosso Franco Barreto, que 
vieram na armada de França e ficaram servindo 
em Portugal ; o nosso auctor menciona apenas uns 
trinta e tantos, além dos commandantes dos navios 
da esquadra, mas ha documentos que mencionam 
muitos mais, publicados graças ao trabalho intelli- 
gente e incansável do douto académico o Sr. Chris- 
tovam Ayres. Ha uma «Lista dos coronéis e capi- 
tães dos Regimentos france:{esy) muito completa, e 
um i<.Rol das pessoas que vieram de França na 
Armada do Sf Marque:^ de Bré:{é para servir em 



— XCIV — 

Portugal))^ documentos officiaes assignados por 
Francisco de Lucena, em que se contam uns cem 
nomes, entre os quaes, apesar de muito adulterados 
pelas successivas transcripçÕes, se reconhecem al- 
guns de officiais distinctos e de fidalgos francezes, 
representantes de familias conhecidas e ainda hoje 
existentes, prova manifesta da importância da 
missão que o sobrinho de Richelieu acaudilhava *. 
Chegados a Lisboa os nossos embaixadores, é 
de crer que António Coelho de Carvalho e Soares 
d'Abreu voltassem a desempenhar as suas elevadas 
funcções nos tribunaes a que pertenciam, ao passo 
que Francisco de Mello, antigo militar, mais dire- 
ctamente se occuparia da organização dos regimentos 
francezes e de dar emprego adequado aos nume- 
rosos officiaes a que acima nos referimos. Suppo- 
moFo sem documentos que nos permittam affir- 
maFo ; do que temos documentos é das nomeações, 
feitas a partir de 24 de Setembro, dos comman- 
dantes de regimento e capitães de cavallaria, e 

1 O Sr. Christovam Ayres publica na Historia do Exer- 
cito Portugue:^, Provas, tomos I a IV, numerosos e interes- 
santes documentos que dizem respeito a estes officiaes e 
que dão bem a medida dos serviços, quanto a alguns d'elles 
distinctissimos, que prestaram. A Lista e o Rol, que ci- 
tamos, bem como o decreto de 21 de Setembro de 1641, 
que determina a organização das forças commandadas pelos 
officiaes francezes, vindos com o marquez de Bré^é, encon- 
tram-se a pagg. 3o5 e segg. do t. I das Provas; são docu- 
mentos officiaes extrahidos do Archivo da Torre do Tombo, 
Documentos do Conselho de guerra, Consultas, maço I. 



— xcv — 

mais nos consta que sobre assumpto relativo a um 
d'estes foram consultados e déram parecer ambos 
os embaixadores, em Novembro do mesmo anno 
de 1641 *. 

Também se deduz de documentos que temos á 
vista o ter-se, no mez d'Agosto, «resoluto que neste 
reyno se levantem companhias de cavallos para a 
defensa d'elle» e, entre outras, «huma companhia 
de cavallos couraças ...» «a qual companhia se 
formará dos Estrangeiros que aqui se vão alis- 
tando». Devia ella ter por commandante um conde 
Francesco Fiesco, italiano, cuja patente tem a data 
de 14 d'Agosto, que não figura entre os que vieram 
de França, mas que nos apparece mencionado n'um 
dos regimentos francezes de cavallaria ligeira, sob 
o commando do coronel Ghantereine ^. 



1 A primeira patente, pela data, é a de Jean de Bucqiioy, 
senhor de la Motte, que vinha muito recommendado para que 
ficasse sendo o mais antigo (Historia do Exercito, Provas, 
t. I,pag. 3ijJ; o documento, digno de lêr-se, tem a data de 
24 de Setembro de 1641 e n'elle se determina que o soldo lhe 
seja abonado desde 29 de Agosto {Loc. cit.^ pag. 352 e seg.). 
Egual data vem fixada na patente de um outro official Bar- 
nabé Brisson {Loc. cit., pag. 347), sendo esta de 26 de Setem- 
bro, bem como muitas outras, de coronéis e capitães de ca- 
vallaria que vem mencionadas n'uma longa lista [Loc. cit.., 
pag. 3i8 e segg.). 

A consulta a que nos referimos vem publicada na integra 
na Historia do Exercito, Provas^ t. I, pag. 848. 

2 O despacho que manda passar a patente a este official 
designa-o por Francesco Fiesco, conde de Lavanha, Ginoves, 



— XCVI — 

Ás forças vindas de França, e a outros estran- 
geiros que tinham vindo anteriormente para Por- 
tugal, com que em Setembro começaram a consti- 
tuir-se cinco regimentos de cavallaria ligeira, um 
de carabineiros, um de dragões e quatro de infan- 
taria, juntáram-se em Outubro as que vieram de 
Hollanda, uns mil e quinhentos homens, formando 
um regimento de cavallaria hoUandeza montada e 
outro «de infanteria ou dragões», mas que parece 
não ter chegado a ser montado *. 



diz que elle se veiu offerecer para servir na guerra, e tem a 
data de 14 d' Agosto de 1641 (V. Historia do Exercito, Pro- 
vas, t. IV, pag. 280); a patente, da mesma data, é muito hon- 
rosa para Fiesco e manda-o servir na provincia do Alemtejo 
como capitão da companhia de cavaílos couraças a que no 
texto nos referimos (Loc. cit., pag. 281J. É de crer, porém, 
que mais tarde, no mez de Setembro, quando se organizaram 
regimentos com os officiaes vindos de França, n'elles se in- 
corporassem outros que de là não vieram, pelo menos na 
armada do marquez de Brézé, porquanto n'um dos regimentos 
de cavallaria, sob o commando de François de Huybert, se- 
nhor de Chantereine, vemos citado em primeiro logar entre 
os capitães nde fiesquen, na «Lista dos Coronéis e Capitães 
dos Regimentos franceses» (Historia do Exercito^ Provas, 
i. I, pag. 3oj) embora o seu nome não appareça no «Rol das 
pessoas que vieram de França na Armada do Sr. Marquez de 
Brézé para servir em Portugal» {Loc. cit., pag. 3og a 3ij). 

1 As forças vindas da Hollanda, na armada commandada pelo 
almirante Gysels e sob as immediatas ordens de D. Francisco 
Manuel de Mello: «constavam de um regimento de cavallaria 
hollandeza montada, e de outro de dragões, que entr'ambos 
passavão de i5oo homens, e duzentos soldados Portuguezes», 



— XCVII — 

Taes eram as forças que as nossas duas embai- 
xadas, em França e na Hollanda, tinham conseguido 
recrutar ; não nos pareceu inútil enumeraPas aqui 
para melhor se comprehender a obra dos nossos di- 
plomatas. Compostas de estrangeiros, em que abun- 
davam experimentados officiaes, chegaram tarde, é 
certo, para entrar em campanha n'esse mesmo anno 

vindos estes de Flandres, da Catalunha e até das índias, onde 
estavam servindo nos exércitos hespanhoes e d'onde tinham 
fugido para defender o seu paiz. ( V. Edgar Prestage, D. Fran- 
cisco Manoel de Mello, Esboço Biographico, Coimbra, igi4, 
pcig. i5g e seg.). A armada chegou em ic de Setembro de 1641. 
(Loc. cit , pag 161, nota i.'J; mas as forças hoUandezas só em 
Outubro vieram a ser organizadas em dois regimentos «um 
de cavalaria, outro de infantaria», constituindo uma mesma 
coronelia, como então se dizia, sob o commando superior de 
Lambert Floris van Til, valente e experimentado official que 
para tal efFeito recommendára o próprio príncipe de Orange, 
como se vê da sua patente, datada de 29 de Outubro (V. His- 
toria do Exercito, Provas, t. Ill, pag. 348 e seg.). Para o 
regimento de cavallaria vae como tenente coronel Hans Wi~ 
lelm van Til, irmão do coronel, por morte do qual vem a succe- 
der-lhe em Fevereiro seguinte [Loc. cit.,pag. 363 e seg.) ; para 
o outro regimento, que algumas vezes apparece designado 
como de dragões, mas que suppomos nunca ter sido senão 
de infanteria, vae um official que mais tarde se distinguiu bas- 
tante, cujo nome os nossos escriptores escrevem geralmente 
Pique, mas que assignava elle próprio Eustachiiis Pyech. 
{Loc. cit., pag. 335). Comquanto não diga propriamente res- 
peito ao nosso assumpto, pareceu-nos interessante apresentar 
este resumo do que apurámos com respeito ás tropas hoUan- 
dezas, consultando os numerosos documentos insertos no 
terceiro volume de Provas da Historia do Exercito. 



'— ■ XCVIIÍ — 

de 1641, pois tudo leva a crer que só nos dois 
últimos mezes, Novembro ou Dezembro, se com- 
pletariam e se distribuiriam pelas differentes fron- 
teiras, mas estavam a postos para a campanha da 
primavera seguinte, a de 1642. 

E não tinham, até então, feito grande falta, por- 
que em 1641 apenas houvera ligeiras escaramuças, 
mesmo na fronteira mais exposta, a do Alemtejoj 
comquanto logo no fim de Dezembro de 1640 tivesse 
ido para Elvas o conde de Vimioso, como capitão 
general do Alemtejo, e se tivesse tratado immedia- 
tamente de fortificar melhor aquella importante 
praça, para o que m uito contribuíram os _proprjos 
moradores, sendo especialmente encarregado de su- 
perintender nas fortificações Mathias de Albuquer- 
que. Ao mesmo tempo haviam sido nomeados 
'capitães mores para Elvas, Campo Maior e Oli- 
vença, D. Álvaro de Athayde, Gomes Freire d'An- 
drade e Francisco de Mello, de quem diz Ericeira : 
«estavão elles dispostos á defensa, esperando que 
o valor supprisse a falta de sciencia militar de que 
Francisco de Mello por estudo tinha muita noticia» *. 
Escusado será dizer não ser este Francisco de 
Mello o nosso Monteiro-mór, que ao tempo estava 

1 O que dizemos relativamente á campanha de 1641 no 
Alemtejo é tirado do Portugal Restaurado (Parte I, liv. iv, 
pagg. 118 e segg.), não fizemos do assumpto estudo especial. 
As palavras que transcrevemos relativamente a Francisco de 
Mello vêem a pag. 23o, E o mesmo Ericeira quem n'outro 
logar lhe chama Francisco de Mello Torres. 



— XCIX — 

em França, mas sim, segundo cremos, um outro 
diplomata e não menos illustre ; devia ser Francisco 
de Mello Torres o celebre embaixador em Londres, 
primeiro conde da Ponte e primeiro marquez de 
Sande, que pouco depois, graças á sua defeza de 
Olivença, foi nomeado mestre de campo, sendo-lhe 
entregue o commando de um terço de infanteria, 
que por bastante tempo conservou. 

Pois apesar dos nossos preparativos, n'um ataque 
dos hespanhoes á nossa fronteiriça de Olivença, em 
i6 de Setembro, num ataque nosso a Valverde, 
em 28 de Outubro, ambos sem resultado apreciável 
e n'algumas correrias que de parte a parte se em- 
prehenderam, talando as comarcas raianas, se cifrou 
a campanha de 1641 *. 

Tudo fazia prever que outro tanto não acontece- 
ria com respeito á de 1642: as nossas tropas, mais 
abundantes e mais bem organizadas, estavam a 
postos desde o principio da primavera; ao seu 
lado eníileiravam-se francezes e hollandezes, que 
d'algum modo lhes excitavam os brios; no com- 
mando das armas do Alemtejo estava Martim Af- 
fonso de Mello, que depois foi primeiro conde de 
S. Lourenço, disposto a atacar os hespanhoes em 
vez de esperar que nos atacassem, comquanto não 

1 V. Ericeira, (pagg. 244 e seg.J; onde se menciona a 
data do ataque a Olivença e se diz que Francisco de Mello 
deixara o governo da praça por ter ido occupar o posto de 
Mestre de Campo. 

Loc. cit., (pag. 25o e segg.J, quanto ao ataque de Valverde, 



faltasse perícia nem practica da guerra em D. Juan 
de Garay que os commandava ; não se atemorizava 
o nosso general com a fama do adversário. 

Até fins de Março ou princípios de Abril não 
houve combate algum de importância; mas a si- 
tuação mudou logo que chegou o nosso Monteiro- 
mór, nomeado general da cavallaria, «esperando 
el-Rey» segundo as palavras de Ericeira, «que o 
seu valor supprisse a pouca experiência que tinha 
d'este exercício». Com effeito «querendo hospe- 
dallo com alguma empreza», diz aquele auctor; 
satisfazendo ás instancias do que fora nosso embai- 
xador a França, para que se fizesse guerra offensiva, 
diremos nós sem poder documentaPo; logo a 25 de 
Abril mandou Martim Affonso de Mello atacar Co- 
deceira, pequena villa hespanhola entre Albuquerque 
e Arronches. O resultado não foi grande, os mora- 
dores retiraram para o castello, que a guarnição 
defendia, e os portuguezes não podendo tomaPo de 
assalto, contentaram-se em saquear e queimar o 
logar ^. 

Pouco tempo depois foi o governador das armas 
a Lisboa, e assumiu o mando o nosso Francisco 
de Mello; pois logo, sem m.ais delongas, partiu 
elle para Olivença, e reunidas as forças da praça ás 
d'Elvas e de Campo Maior, foi-se atacar Alcon- 

1 V. Ericeira, Portugal Restaurado, P. /, cap. vi, pag. 35o 
e segg. As palavras que transcrevemos e a primeira refe- 
rencia ao Monteiro-mór vêem a pag. 358. 



— cí — 

chel, de que era alcaide-mór D. João de Menezes 
Soto-Mayor, marquez de Castro-Fuerte ; repetiu-se 
o mesmo que succedêra em Codeceira, saque da 
villa, resistência do castello e retirada dos ata- 
cantes. 

Mas d'esta vez D. Juan de Garay não quiz deixar 
impune a ousadia do Monteiro-mór : no dia seguinte 
veiu sobre Olivença com looo cavallos e 200 in- 
fantes. Sahiu-lhe ao encontro o nosso embaixador, 
levando comsigo duas peças de artilheria, e o ge- 
neral hespanhol abandonou o campo. 

N'outro dia o Monteiro-mór foi novamiente sobre 
Alconchel, mas sahindo o sol antes d'elle chegar á 
villa, retirou sobre Valverde e foi degolando uma 
companhia de «infanteria de Waloens», que encon- 
trou no seu caminho. Gomo não gostava de perder 
tempo, foi o nosso general logo d'alli sobre Chelles, 
mas os castelhanos estavam prevenidos e resistiram 
n'um fortim que haviam construído ; os portuguezes 
incendiaram o logar, apezar das trincheiras que o 
defendiam, e retiraram sobre Telena; passaram de- 
pois o Guadiana e voltaram para Olivença. Garay 
correra logo em soccorro dos de Cheles com 1200 
cavallos e Soo infantes, mas já não encontrou os 
nossos, seguiu-os até ao Guadiana e estacou, vendo 
que elles tinham passado o rio. 

Estamos em pleno mez de Julho, mas nem o sol 
ardente do Alemtejo detém a fúria do Monteiro- 
mór; agora manda Gaspar Pinto Pestana com Soo 
cavallos e D. Diogo de Menezes com 5o mos- 

H 



— CII — 

queteiros atacar Figueira de Vargas, logar de 
35o vizinhos a quatro léguas de Olivença, léguas 
do Alemtejo. Foram de noite, ao amanhecer che- 
garam ao logar, saquearam-no e foram sobre 
Alconchel. Souberam entretanto os hespanhoes 
quanto era diminuta a força dos nossos, e vieram 
atacaPos n'um combate da rectaguarda, em que se 
distinguiu o coronel francez Chantereine com os 
seus 5o cavallos, e também se houveram muito 
bem os infantes de D. Diogo de Menezes ; larga- 
ram fogo ás searas, e ateou-se um incêndio que 
abrazou mais de oito léguas de terra. 

Para que havemos de continuar ? Quasi pelos 
dias se contam os combates : no dia de Sanctiago 
temos um entre Corchuela e Telena em que se 
distinguem dois coronéis francezes, o do segundo 
regimento de cavallaria ligeira François de Huy- 
bert, senhor de Chantereine, já citado, e o do regi- 
mento de carabineiros Edme de Pillavoine, senhor 
de Boisemont; eram assim testemunhas presenciaes 
da incansável actividade do nosso embaixador, po- 
diam mandar dizer para França no que elle se 
empregava *. 

Assim se foi passando o resto do verão; em Se- 
tembro vemos ainda o general da cavallaria ata- 
cando Villa Nueva dei Fresno, e por occasião das 



• V. Ericeira, Loc. cií., pag. 36o e segg.; a pagg. 364 e 
seg. vêem citados os dois coronéis francezes, Chantereine e 
Boisemont. 



— cm — 

vendimas, que os hespanhoes realizavam nos cam- 
pos de Telena protegidos pelas suas tropas, houve 
ainda mais um combate, que não queremos des- 
crever, para não alargar mais a narrativa d'esta 
campanha de 1642, em que Francisco de Mello deu 
inteira medida da sua iniciativa e da sua prudência; 
a experiência, que lhe faltava, pouco a pouco a foi 
adquirindo, e assim se desenvolveram n'elle as 
aptidões para o commando, porque nunca desam- 
parava as suas tropas, nem mesnio consta que fosse 
á corte ; os governadores das armas mudavam, mas 
o general da cavallaria era sempre o mesmo, sem- 
pre o nosso Monteiro-mór. 

Não pretendemos fazer a biographia militar do 
embaixador a França, e menos ainda a historia das 
campanhas que succederam á de 1642 ; bastará para 
o nosso propósito accentuar que na primavera se- 
guinte apenas houve pequenos combates ao longo 
da fronteira do Alemtejo, e que o nosso embaixador 
pouca ou nenhuma parte teve n'essas insignificantes 
correrias. A verdadeira campanha d'esse anno foi 
a do outomno. Com effeito D. João IV resolveu 
em Julho ir estabelecer-se em Évora, afim de melhor 
poder dirigir as operações do exercito do Alemtejo, 
governado pelo conde d'Obidos, que «havia servido 
no Brazil e em Flandres com muito bom procedi- 
mento» *, e tinha sob as suas ordens, como mestre 
de campo general Joanne Mendes de Vasconcellos, 

1 V. Ericeira, Loc. cit , pag. 36g. 



— CIV — • 

como general da cavallaria o Monteiro-mór, e como 
general da artilheria D. João da Costa, que havia 
sido promovido pouco antes a este posto. D'esta 
vez reunira-se na fronteira um verdadeiro exercito 
de 12.000 infantes e 2.000 cavallos, com 10 peças 
de artilheria de campanha, 2 morteiros e o mate- 
rial de sitio apropriado; nas forças de cavallaria 
figuravam francezes e hollandezes; numerosos vo- 
luntários, na sua grande maioria fidalgos de no- 
meada, se incorporaram n'este exercito, merecendo 
particular menção Mathias d'Albuquerque e D. Fran- 
cisco Manoel de Mello *. 

Em 6 de Setembro iniciou-se a campanha, sahindo 
o exercito de Elvas e indo atacar Valverde ; o conde 
de Santisteban, que substituirá no commando dos 
hespanhoes D. Juan de Garay, não se julgou no 
caso de soccorrer a praça, e esta rendeu-se de- 
pois de curta defeza, capitulando a guarnição. 

Entretanto retirava para Merida o general hes- 
panhol com a maior parte da infanteria e cavallaria 
de que podia dispor, deixando em Badajoz o conde 
de Torrejon, mestre de campo general, com muito 
pouca guarnição. 

Informado d'estas favoráveis circumstancias, re- 
solveu o conde d'Obidos sitiar Badajoz, sem pensar 
nas difficuldades da empreza e na falta de meios 

* V. Ericeira, Loc. cit. Quanto á presença de D. Francisco 
Manoel de Mello no exercito V. E. Prestage, Esboço Bio- 
graphico, pag. 171. 



— cv — 

para a levar a bom termo; e sem mesmo consultar 
el-Rei, que para poder ser consultado acerca das 
operações de guerra viera para Évora. Logo que 
os portuguezes começaram a investir a praça, re- 
solveu Santisteban vir em seu soccorro com quatro 
mil infantes e mil cavallos; e dahi resultou que o 
conde d'Obidos, reconhecendo o seu erro, aban- 
donou a empreza, assentando marchar sobre Alcon- 
chel, Cheles e Villanueva dei Fresno. Entretanto 
o rei, informado do modo porque se intentara e 
se abandonara o cerco de Badajoz, e irritado com 
o descrédito que um tal procedimento ia lançar 
sobre as nossas armas, resolveu tirar do exercito 
os dois principaes responsáveis, Óbidos e Joanne 
Mendes, e confiou novamente o governo das armas 
a Mathias d' Albuquerque. 

Com o novo commandante em chefe vemos assu- 
mir funcçÔes mais activas o general da cavallaria; 
mas a estação ia adiantada, estava-se no fim de 
Setembro, e já não dava para recomeçar uma ver- 
dadeira campanha; porisso apenas podemos registar 
numerosas e atrevidas correrias, em que ficaram 
desvastadas e incendiadas villas e aldeias frontei- 
riças: Albufera, Almendral e Torre, d'uma vez; 
d'outra Alconchel ; depois Figuera de Vargas e 
finalmente Villanueva dei Fresno, que se defendeu 
com energia e foi preciso sitiar. 

E esta a ultima operação do exercito, el-Rei vae 
para Villa-Viçosa matar saudades da sua antiga 
residência, e ao seu encontro Mathias de Albuquer- 



— CVI — 

que, recebido alli com merecidas honras ; entretanto 
o general da cavallaria, que fora assistir em Elvas, 
ainda teve ensejo de atacar Piedra Buena e de 
aprezar algum gado, que por alli passava; mas 
entrava já o inverno e não havia logar para novos 
emprehendimentos até á primavera de 1644*. 

Logo que o inverno acabou, principiou a nova 
campanha no Alemtejo, onde continuavam, no go- 
verno das armas Mathias de Albuquerque, á frente 
da cavallaria o Monteiro-mór, e commandando e 
artilheria D. João da Costa. Do lado dos hespa- 
nhoes o conde de Santisteban fora substituído por 
Carlos Caracciolo, marquez de Torrecusa, que, 
apesar de ser napolitano, creára boa fama em an- 
teriores campanhas e passava por ser muito dedi- 
cado ao serviço da Hespanha; sob as suas ordens 
exercia as funcçôes de general da cavallaria o barão 
de Molingen, pessoa muito da sua confiança, que 
pouco antes chegara das campanhas de Flandres, 
paiz d'onde era natural. 

Iniciaram as operações os castelhanos, atacando 
Ouguella, que resistiu ; respondeu Albuquerque, 
mandando saquear e queimar a villa de Montijo 
por D. Rodrigo de Castro, tenente general de ca- 
vallaria, com 2 5oo infantes e 260 cavallos, que o 
nosso Francisco de Mello devia logo appoiar com 
mais 800 cavallos. A villa estava defendida por 

^ V. Ericeira, Portugal Restaurado, t. I, liv. vi, pag. 42g 
a43g. 



— CVll — 

uma trincheira que a nossa infanleria transpoz, 
começando logo o saque e o incêndio. Sobrevie- 
ram então i.ooo cavallos hespanhoes, que tinham 
sahido de Badajoz ao primeiro rebate; retirou da 
povoação a infanteria portugueza, e as forças de 
cavallaria de D. Rodrigo e do Monteiro-mór, ambas 
reunidas, fizeram frente á cavallaria adversa, que 
preferiu evitar o combate. 

Em revindicta atacam os adversários Portalegre, 
e os nossos, logo a seguir, Membrillo, que saquêam 
e queimam. Dias depois, o general da nossa ca- 
vallaria faz o mesmo a Villanueva de Barcarota, 
povoação de 700 fogos e uma das melhores d'aquelle 
districto, retrocede sobre Alconchel e vae reunir-se 
em Campo Maior com Mathias de Albuquerque, 
que alli o esperava com o grosso das forças do 
Alemtejo *. 

A verdadeira campanha ia começar: com o ge- 
neral em chefe, estava reunido um exercito de 
6000 infantes, 1 100 cavallos, e 6 peças de artilheria, 
provido de munições e bagagens para vinte dias ; a 
primeira intenção do commando era atacar a praça 
de Albuquerque, que tinha 3ooo habitantes e era uma 
das mais importantes da fronteira, mas Torrecusa 
mandou-a guarnecer a tempo, e o nosso general 
preferiu marchar sobre o Montijo, queimando e 
saqueando as povoações que encontrou no caminho. 



i V. Ericeira, Portugal Restaurado^ t. II, liv. vii, pag. 5o 
a 53. 



— CVIII — 

Entretanto resolvera Torrecusa reunir sob o com- 
mando de Molingen todas as forças disponíveis, 
que montavam a 8000 infantes e 3ooo cavallos, no 
dizer dos hespanhoes *, e que o nosso Ericeira 

^ Referimo-nos particularmente a Estébanez Calderon. 
Obras; de la Conquista y perdida de Portugal, t. I, cap. iii, 
pagg. 107 a 124 e Apêndices^ F, G e H, pagg. 3o4 e segg., 
3ij e segg., 320 e segg.., onde vem muito desenvolvida a 
versão hespanhola, que considera a batalha do Montijo como 
uma victoria, dizendo mesmo, ao iniciar o cap. IV (pag. i25), 
que : <iEl ejercito castellano, llevando los prisioneros y hande- 
ras tomadas ai enemigo, dió la vuelta como en triunfo á Bada- 
jop). Verdade seja que logo acrescenta Calderon, auctor con- 
temporâneo, que Torrecusa, depois de fazer em publico gran- 
des elogios aos soldados, «reprendió en secreto ágriamente a 
Dionisio Gu^mánjefe de la artilleria, porque no cuidando-se 
de mandar volver las acémilas que con la artilleria habia en- 
viado á la otra orilla dei rio ai principio de la pelea, no pudo., 
después de lograda la victoria., transportar la artilleria portu- 
guesa, poniéndola á cobro en la misma ribera, lo que fué oca- 
sión para empenarse un nuevo combate, yl deslucirse en parte 
la gloria dei vencimiento». (Loc. cit.., P<^g- ^^5 e seg.). 

Aqui temos bem clara a origem da versão hespanhola: 
considera a primeira parte da acção e faz caso ommisso da 
segunda, para lhe poder chamar victoria. Entretanto os por- 
tuguezes lançam um véo sobre o primeiro embate das forças, 
não insistem sobre as perdas soffridas, e projectam toca a luz 
sobre o que os hespanhoes chamam «el nuevo combate», a 
segunda parte da acção, em que Mathias d'Albuquerque e 
D. João da Costa mostram presença d'espirito, valor pessoal 
e energia de commando dignas do maior elogio ; e alcançam 
a retirada das forças contrarias, as taes que vão triumphar 
para Badajoz, logrando portanto o vencimento da acção. 

A versão portugu -za que seguimos é a de Ericeira, por não 



— CIX — 

avalia em 6000 de pé e 2600 de tropas montadas ; 
e marcham os castelhanos ao encontro das nossas 
tropas, que os esperam a pé firme junto á povoação 
de Montijo. Era o dia 26 de Maio de 1644 e ia 
reah*zar-se a primeira batalha das guerras da res- 
tauração; até alli não houvera senão combates sem 
importância, pequenas operações, sem alcance apre- 
ciável, nem influencia decisiva. 

Não faremos aqui a descripção da batalha do 
Montijo, que não importa directamente ao nosso 
assumpto, por n'ella não ter tido o Monteiro-mór 
papel preeminente. Apenas d'elle sabemos que 
tinha sob o seu immediato commando a cavallaria 
da ala direita, e portanto não pode ser tido como 
responsável do que se passou com a da ala esquerda, 
que estava sob o commando immediato de Gaspar 
Pinto Pestana e ia compromettendo completamente 
o êxito da batalha pela desordenada fuga dos hollan- 
dezes, que romperam atravéz da nossa infanteria e 
abriram assim fácil caminho ao ataque da cavallaria 
hespanhola. Também não vemos o nosso Fran- 
cisco de Mello mencionado entre os que, depois de 

termos outra que nos inspire mais justificada confiança, com- 
quanto não concordemos com elle em que a batalha do Mon- 
tijo merecesse «ser celebrada como uma das mais insignes 
acçoens, que tem acontecido no mundo» ; procurando ser 
imparciacs, fazemos nossa a opinião de Torrecusa, (que elle 
certamente não apregoou), de que «nem os nossos soldados 
souberam dar-lhe principio, nem os Castelhanos acabá-la». 
(V. Ericeira, Portugal Restaurado, loc cit , pagg. 52 a 63). 



— cx — 

perdida a primeira parte da acção, a que pouco 
faltou para ser uma irreparável derrota, imme- 
diatamente se Juntaram ao general em chefe e a 
D. João da Costa para restabelecer a ordem nas 
nossas tropas, levando-as a acommeter de novo os 
hespanhoes, quando estes, julgando-se já senhores 
da victoria definitiva, se dispunham para saquear 
as bagagens do nosso exercito e despojar os mortos 
que jaziam no campo da batalha *. 

Uma natural inducção porém, leva-nos a crer, 
embora Ericeira o não diga, que fosse a cavallaria 
da ala direita, conservada intacta pelo Monteiro- 
mór no bosque do Xevora, quem, intervindo na 
ultima parte da acção, obrigasse o barão de Molin- 
gen a passar para alem do Guadiana, abandonando 
o terreno onde combatera; e quem, finalmente, 
protegesse a marcha das nossas tropas sobre Campo 
Maior, guardando livre para ellas a passagem do 
Xevora. 

O certo é que a batalha do Montijo, festejada por 

* É justo mencionar aqui um acto de corajosa dedicação 
practicado por um capitão francez, Henri de la Morlaye, ca- 
valleiro de Malta, que commandava a escolta de Mathias de 
Albuquerque, e, vendo-o desmontado por lhe terem morto o 
cavallo, lhe cedeu immediatamente o seu, defendendo ás cu- 
tiladas a vida do general com risco da sua. Novamente posto 
a cavallo, o futuro conde de Alegrete, com D. João da Costa, 
que havia de vir a serprimeiro conde de Soure, la Morlaye e 
poucos ofíiciaes mais que os acompanhavam, conseguiram elles 
mudar a sorte das armas. Merece s&r citado o cavalleiro de 
Malta. (V. Ericeira, loc. cit., pag, 6o). 



— CXI — 

nós como uma brilhante victoria, não foi para os 
hespanhoes um confessado revéz, e que as perdas 
de parte a parte foram importantíssimas, em mortos 
e prisioneiros. 

No numero d'estes contava-se um filho do Mon- 
teiro-mór, Jorge de Mello, o primogénito que lhe 
ficara depois da morte do que perdera em Paris ; 
foi para elle dolorosa a batalha do Montijo, ferido 
no coração de pae, nem ao menos uma apregoada 
gloria lhe foi bálsamo suavizador. 

A batalha do Montijo seguiu-se, ao que parece, 
um periodo de relativa tranquillidade, pois só em 
12 d' Agosto vemos Molingen novamente em campo 
atacando Santo Aleixo, que os habitantes defendem 
com energia; prepara-se Mathias d' Albuquerque, a 
esse tempo já conde de Alegrete, para ir ao en- 
contro dos hespanhoes, mas elles abandonam a po- 
sição e retiram; um pouco mais tarde vae o Mon- 
teiro-mór queimar Salvaleon e ainda depois atacar 
Talavera; como se vê, são tudo combates sem con- 
sequências. 

No fim de Novembro, porém, resolve Torrecusa 
atacar Elvas com todas as forças de que dispõe, que 
são 12.000 infantes, 2.600 cavallos, 10 peças de ar- 
tilheria « o competente material de sitio ; em 28 
de Novembro passaram a ponte do Guadiana em 
Badajoz para virem sobre a nossa praça fronteira, 
a que puseram cerco no dia primeiro de Dezembro, 
o glorioso anniversario. 

Entretanto preparara o conde d'Alegrete a defeza 



— CXII — 

da praça e mandara o Monteiro-mór com a sua ca- 
vallaria para Villa Viçosa afim de organizar, com 
as forças que el-Rei lhe mandasse, um exercito 
com que viesse soccorrePa. 

Nem tanto foi necessário ; pois no dia 8 de De- 
zembro Torrecusa levantou o cerco, reconhecendo 
que não tinha forças sufficientes para a empreza a 
que se abalançara, em vista da boa defeza da praça 
e das importantes forças que vinham em caminho. 
Assim terminou a campanha de 1644 *. 

Na de 1646 já vemos de parte a parte outros 
commandantps : no governo das armas do Alem- 
tejo é substituído o conde de Alegrete pelo de Cas- 
tello Melhor, que acabava de exercer as mesmas 
funcções com pleno êxito em Entre Douro e Minho ; 
do lado de Hespanha o marquez de Legaeés subs- 
tituirá o de Torrecusa. Nem porisso tomaram 
grande calor as operações d'esse anno; apenas in- 
tenta o novo general portuguez um ataque a Bada- 
joz, que não chega a realizar, e forma diversos 
projectos que a opposição da corte o impede de 
executar; assim decorrem a primavera e o verão, 
no outomno é Leganés que se prepara para inva- 
dir-nos, mas as suas tentativas tão pouco dão re- 
sultado^; em resumo um anno perdido e um anno 
em que não encontramos a mais leve noticia do 

i V. ERiCEiRAy Portugal Restaurado, p, II, liv. yu,pagg. 64 
a jô, onde vem exposto quanto occorreu no Alemtejo em 
seguida á batalha do Montijo e até ao fim de 1644. 

2 V. Ericeira, Loc. cit,, liv. VIII, pag. 110 a 121. 



— cJciit — 

nosso Francisco de Mello; é de crer que estivesse 
ausente por doença ou outro impedimento, visto 
que só no anno seguinte, na primavera de 1646, 
vemos mencionada por Ericeira a resolução de el- 
Rei de «que se passasse patente de governador 
da cavallaria a D. Rodrigo de Castro, com o mesmo 
soldo de oitenta mil reis cada mez que levava o 
Monteiro-mór, general d'ella, que se havia deso- 
brigado d'aquelle posto a respeito da sua muita 
idade» *. 

Acabara a carreira militar do nosso embaixador 
começada em 1607 «na armada das Ilhas» ; havia 
quasi quarenta annos ! Dos seus trez annos de cam- 
panha no Alemtejo, e vimos com quanta actividade 
os passara, só levava como recompensa uma mercê, 
uma commenda de Christo, concedida em Outubro 
de 1642, com respeito á qual ainda se pôde entrar 
em duvida sobre se era destinada a recompensar 
os serviços prestados em campanha já n'esse anno, 
ou os que prestara um anno antes na embaixada 
de França 2. 

Em matéria de graças e mercês não fora dos 
mais felizes o nosso diplomata, a quem taopouco 

1 V. Ericeira, Loc. cit., liv. IX, pag. 162 e seg. 

2 Referimo-nos á commenda dos Altos Céos, do logar da 
Lousa no bispado da Guarda, pertencente á ordem de Christo, 
que foi concedida ao Monteiro-mór Francisco de Mello por 
alvará de 12 de Outubro de 1642. (F. Archivo da Torre do 
Tombo, Chancellaria da Ordem de Christo, liv. XXXVI, 
foi. 86). 



-^ CXlV — • 

ízéram justiça os historiadores, que até o accusáram 
de pouco atilado. 

Pois melhor o apreciava, e tinha em alta conta 
os seus serviços o próprio Rei, pois consta de um 
officio do encarregado de negócios de França, La- 
nier, para o seu governo, datado de 4 de Janeiro 
de 1642 e dirigido já a Mazarin, citado no Quadro 
Elementar, que D. João IV se queixara áquelle 
diplomata de que o abandonassem alguns dos que 
mais haviam contribuído para que elle acceitasse o 
throno e citara pessoalmente Francisco de Mello, 
que se havia retirado para a sua quinta *. 

Pois não se tinha retirado muito tempo antes, por- 
que em Novembro o vemos nos assignar, com o seu 
companheiro Coelho de Carvalho, um documento 
relativo a um official francez ^ ; e em fins de Março 
ou princípios de Abril seguinte vemoPo já nomeado 
general de cavallaria no Alemtejo, portanto se elle 
se retirara para uma quinta, não teve por lá grande 
demora; talvez que o próprio Rei o mandasse 
chamar. 

Também ainda não foi definitivo o seu retrahi- 
mento de 1646, porque em 1648 vemoFo nós entrar 
outra vez na vida activa como governador do Al- 
garve « logar que exercitou com grande prudên- 
cia e trabalho» como se lê n'um documento que 

1 V. Santarém, Quadro Elementar, t. IV, p. w, Introd., 
pag. XI. 

2 V. Christovam Ayres, Provas, Historia do Exercito, 1. 1, 
pag. 65. 



— cxv — 

adiante transcreveremos *. Alli se conservava elle 
ainda em i65o, visto que em carta de i8 de Junho 
d'esse anno lhe recommenda el-Rei que auxilie 
António de Sousa de Macedo, que ia ao Algarve 
em missão do governo ^. 

D'essa data em deante é que nada mais d'elle 
sabemos, senão que em 1662 o substitue no seu 
elevado cargo [hereditário o único filho varão que 
lhe restava, Garcia de Mello, a quem n'esse anno é 
concedida a successão no cargo de Monteiro-mór ^. 

Infelizmente nem conhecemos a data do nasci- 
mento, nem a da morte do embaixador e militar 
illustre que foi Francisco de Mello, apenas nos 
consta que teve quatro filhos e uma filha * do ca- 
samento a que n'outro logar alludimos. 

1 Documento IX, pag. 264. 

2 V. Archivo da Torre do Tombo, Collecção de S. Vicente^ 
t. XIV, foi. 84. 

^ O officio do Monteiro-mór respeitava antigamente só á 
caça de montaria, assim como o de Caçador-mór á de vola- 
taria, que depois se vieram a reunir. A Francisco de Mello, 
o Embaixador, seguiram no officio seu filho, Garcia de Mello, 
que o foi com os Reis D. João IV, D. AfFonso VI e D. Pedro II, 
e seu neto Francisco de Mello, com D. Pedro II e D. João V. 
Politica Moral e Civil de Damião António de Lemos Faria e 
Castro (Lisboa, 1751), tomo iv, pag. 5o5. 

♦ Foram elles: Garcia, que lhe succedeu como Monteiro- 
mór; Manoel, que foi para o Brasil com o Conde da Torre 
morrendo na viagem ; Pedro que acompanhou o pae na em- 
baixada a França e a cuja morte em Paris nos referimos; e 
Jorge que serviu nas guerras da restauração, foi feito prisio- 
neiro na batalha do Montijo e veiu a morrer das feridas rece- 



— CXVI — - 

Também casualmente consta que foi sepultado 
no convento de S. Francisco de Santarém, porque 
d'isso nos informa o elegante prosador Frei Manoel 
da Esperança: «finalmente aqui na capella-mór veiu 
esperar a ressurreição geral Francisco de Mello, 
Monteiro-mór do Reino, governador do Algarve e 
embaixador em França, cuja piedade grande de 
todos foi conhecida» *. 

D'elle se pode dizer com justiça que foi um bom 
portuguez e serviu honradamente a Pátria e o Rei; 
se os contemporâneos lhe não fizeram inteira jus- 
tiça, hão de fazer-lh'a os vindouros, que melhor 
estudarem e mais exactamente conhecerem a sua 
campanha diplomática e os seus serviços militares. 



bidas em combate; teve também uma filha D. Marianna Jo- 
sepha de Mendoça, a quem Franco Barreto dedica a sua 
Re laçam. 

^ V. Historia Seráfica, t. I, pag. 4']i. Da, sua fidelidade 
aos preceitos da Igreja refere um caso Franco Barreto, 
e pode-se dizer em geral que os embaixadores portuguezes 
da Restauração todos se estremavam na observância reli- 
giosa, dando assim bom exemplo nas cortes em que assis- 
tiam, quer catholicas, quer de protestantes. A este propósito, 
basta citar os nomes de Francisco de Sousa Coutinho e de 
António de Sousa de Macedo. 



— CXVII — 



ANTÓNIO COELHO DE CARVALHO 



Comquanto não pertencesse, como o seu compa- 
nheiro Francisco de Mello, á primeira nobreza do 
Reino, era também de boa familia António Coelho 
de Carvalho, natural de Gouvêa, e fidalgo da Casa 
Real, por ser filho de Feliciano Coelho de Carvalho 
e D. Maria Monteiro. 

Não conhecemos a data do seu nascimento; mas 
podemos calcular que seria nos últimos annos do 
século XVI, porque sabemos ao certo ter elle sido 
nomeado desembargador para a Relação do Porto 
em 162 1 *, depois de se ter formado em direito na 
universidade de Coimbra e de ter sido collegial de 
S. Paulo, cujas collegiaturas se distribuíram a pes- 
soas já graduadas em sciencias. Foi rápida a sua 
carreira na magistratura, passando a desembargador 
dos aggravos na Relação do Porto em 1623^, d'onde 
foi transferido para a Casa da Supplicação em 1625 \ 

1 Carta de 10 de Septembro de 1621 (V. Archivo da 
Torre do Tombo^ Chancellaria de D. Filippe Hl, Liv. IX, 

foi. 47 V.)- 

2 Carta de 3o de Março de 1623 (Chancellaria de D. Fi- 
lippe 111, Liv. XV 111, foi. 1 10 V.). 

' Carta de 5 de Junho de 1625 (Chancellaria de D. Fil- 
ippe 111, Liv. XI, foi. Sob). 
I 



— CXVIII — 

e depois nomeado juiz das Coutadas do Reino em 
1626 *. 

Menciona- o a Historia Genealógica na qualidade 
de juiz dos aggravos, entre os representantes dos 
tribunaes que assistiam á acclamação de D. João IV 
em i5 de Dezembro de 1640^; e sabemos finalmente 
que foi elevado ao Dezembargo do Paço em i5 de 
Janeiro de 1641 ^ e nomeado para o conselho d'Es- 
tado em 23 do mesmo mez *, quando já estaria 
talvez indigitado para a embaixada a França. 

Professara o nosso embaixador na ordem de 
Christo em 16 de Fevereiro de 1634^, e fôra-lhe 
conferida, por alvará de i5 de Março do anno se- 
guinte, a commenda de S. Martinho das Moutas 
no bispado de Vizeu^, não constando que outra lhe 
fosse concedida na sua longa carreira. Que tam- 
bém foi familiar do Santo Officio consta dos docu- 
mentos da sua habilitação que se consefvam na 
Torre do Tombo ^. 

i Carta de 14 de Septembro de 1626 (Chancellaria de 
D. Filippe III, Liv. XVI, foi 128 v.J. 

2 V, D. António Caetano de Sousa, Historia Genealógica 
da Casa Real Portuguesa, t. VII, liv. vii, pag. 104. 

3 Carta de i5 de Janeiro de 1641 (Chancellaria de 
D. João IV, Liv. XII, foi. 8 v.J. 

* Carta de 23 de Janeiro de 1641 (Chancellaria de 
D. João IV, Liv. XI, foi. 87). 

5 Archivo da Torre do Tombo, Chancellarid da Ordem 
de Christo, Liv. XXV, foi. 36g v. 

6 Chancellaria da Ordem de Christo, Liv. XXV, foi. 36g v. 
Liv. XXVII, fols. i52-3 e Liv. XXVIII, foi. 11 v. 

7 Habilitações do Santo Oficio, Maço I, Diligencia 48. 



— CXVIX — 

Pouco mais teríamos a dizer com respeito a 
Coelho de Carvalho se não tivesse acontecido ser 
nomeado governador das terras do Maranhão e 
Pará, que em i623 tinham sido erigidas por Fi- 
lippe III em governo distinto do resto do Brasil, 
um filho illegitimo do nosso embaixador, Francisco 
Coelho de Carvalho *, e se este não tivesse, na di- 
visão em capitanias, que fora auctorizado a fazer 
das terras do seu governo, em virtude da provisão 
regia, conferido ao próprio pae a capitania de 
Cumá, com cincoenta léguas de costa, vastíssimos 
terrenos para povoar e incalculáveis riquezas ^. 
Eram condições da doação, na qual se incluia a 
jurisdicção civil e criminal, que os herdeiros e suc- 
cessores na capitania haviam de usar o nome e as 
armas do primeiro governador e capitão general. 

Como por vezes succedia n'estas remotas e vas- 
tíssimas concessões, a capitania trouxe ao donatário 
mais despezas e vexames do que lucros. Eram 
constantes as contendas com os visinhos sobre os 
limites das terras, eram por vezes exaggeradas e 
intoleráveis as exigências das auctoridades supe- 
riores, e, sobretudo, era quasi invencível a difficul- 
dade de encontrar braços, quer entre os indígenas, 
pouco numerosos e rebeldes ao trabalho regular e 
á cultura das terras, quer por meio de immígrantes, 

' Segundo o Barão do Porto Seguro, era irmão e não filho 
do embaixador. 

2 Carta de i5 de Março de 1639 (Chancellaria de D. Fi- 
lippe ni, Liv. XXXIV, foi ySJ. 



— cxx — 

difficeis de contractar e de transportar, como de 
aclimar e dirigir, para d'elles se alcançar qualquer 
proveito. 

As terras eram muitas ; mas nas cincoenta legoas 
da costa não havia uma povoação, e terras sem 
braços não dão riqueza, consomem-n'a; foi o que 
succedeu ao respeitável desembargador. 

Porisso, em 1644, desejoso o donatário de conti- 
nuar com a povoação das suas terras, que a guerra 
com os hollandezes cada vez mais dificultava, pediu 
e conseguiu um alvará régio * em que se mandava 
ao governador do Maranhão, decerto já não seria 
o filho, que não impedisse de passarem á capi- 
tania os Índios das aldeãs que o donatário con- 
tractára com grande despesa sua ; mas somente 
el-Rei lhe dá essa auctorização, «querendo elles vir 
para ella por sua livre vontade», e ainda manda 
ao vigário geral do Estado «que nomee pessoa 
ecclesiastica de boa satisfação que vá em sua com- 
panhia, e faça averiguação se os ditos índios e 
Aldeãos baixão voluntariamente, ou violentados ou 
captivos». A clausula é certamente muito louvá- 
vel e demonstra os sentimentos humanitários do 
governo de Lisboa; mas não havia de ser muito 
fácil conseguir que se cumprisse: de duas uma, ou 
os Índios não vinham cultivar as terras, ou vinham 
em tão onerosas condições que não era possivel 
exploral-as. 

* Alvará de 4 de Novembro de 1644 fChancellaria de 
D. João IV^Liv. XVI, foi. ^^6). 



— CXXI — 

E de crer que assim tivesse succedido, porque já 
em abril do anno seguinte de 1645, apparece um 
outro Alvará * mandando ao governador do Mara- 
nhão que dê «ajuda e favor» ao Dr. António Coelho 
de Carvalho, documento em que se registam as 
grandes despezas por elle realizadas com o fim de 
povoar a sua capitania, fundando villas na ponta 
de Quitapera, agora chamada de Santo António de 
Alcântara, situada na barra do Cumá e na ilha de 
S. João. 

Não ficam por aqui as tribulações do antigo di- 
plomata com respeito á sua capitania, cujos direitos 
pareciam não ser muito respeitados pelo governador 
do Maranhão; com effeito em todo o anno de 1646 
succedem-se os diplomas emanados do poder central 
que lhe dizem respeito', acabando por uma sen- 

* Alvará de 3 de Abril de 1645 (Chancellaria de D. Fi- 
lippe III, Liv. XXXVI, foi. 161). 

2 Por carta de 10 de Janeiro de 1646 (Chancellaria de 
D. João IV, Liv. II, foi. 277 vj, é confirmada por D. João IV 
a doação da capitania feita a António Coelho de Carvalho 
pelo seu antecessor Filippe III. 

Em carta de 8 de Março de 1646 (Chancellaria de 
D. João IV, Liv. XVI, foi. 404 v-J^ «constando que certas 
pessoas tinham induzido os Índios a sairem da capitania», or- 
dena- se ao Governador do Estado do Maranhão que os mande 
tornar para lá. 

Em 20 de Agosto, do mesmo anno, obtém oDr. António 
Coelho uma sentença contra os officiaes da camará de S. Luiz 
do Maranhão, que lhe tinham embargado a posse que preten- 
dia tomar e conservar da capitania, e consegue que esta sen- 



— CXXII — 

tença de 12 de dezembro contra o governador, que 
então era António Teixeira de Mello, por ter des- 
respeitado a jurisdicção de Coelho de Carvalho 
sobre a villa de Santo António, mandando prender 
alguns moradores da capitania *. 

Verdade seja que a respeito do acto do gover- 
nador e da sentença alcançada pelo desembargador 
do Paço, corre uma outra versão que a probidade 
histórica nos obriga a não occultar; é a que apre- 
senta um consciencioso escriptor brazileiro, o Barão 
do Porto Seguro no seu livro acerca das Liictas 
com os Hollande\es no Brasil '^; ahi se lê que Tei- 
xeira de Mello mandara prender os colonos de 
Coelho de Carvalho para os mandar servir na 
guerra contra os hollandezes, que então occupavam 
a cidade de S. Luiz e a capitania do nosso diplo- 
mata. Afinal o governador conseguiu expulsar o 
inimigo, mas o Dr. António Coelho, em logar de 
mostrar-se grato, processou-o, sendo este condem- 
nado por um tribunal de Lisboa a pagar quatro 
mil cruzados por perdas e damnos ao capitão mór, 
ficando o pobre Teixeira de Mello reduzido à mi- 
séria. 

Damos a opinião de Varnhagen sob a sua res- 
ponsabihdade, sem ter feito do assumpto, que não 

tença seja copiada no livro da Chancellaria, para que a todo 
o tempo conste o seu direito (Chancellaria de D, João IV, 
Liv. IV, foi. 45 V.). 

1 Chancellaria de D. João /F, Liv. IV, foi. 64. 

2 Op. cit. (2.^ ed.), pag. 2.55. 



— CXXIII — 

nos interessava directamente, mais detido exame, 
tanto mais difficil quanto parece incontestável a má 
vontade das auctoridades locaes, que exigia a cada 
momento a intervenção da coroa. 

Assim, no anno seguinte de 1647, sabemos que 
o Dr. António Coelho de Carvalho contractou nos 
Açores, Ilha de Santa Maria, uns cincoenta casaes 
de colonos para irem povoar as terras, cerca de 
duzentas pessoas, e fretou um navio inglez, do com- 
mando do capitão Jorge Broutão (Bruton ?), para 
lh'os ir levar a S. Luiz do Maranhão ; o navio 
tinha de ser veleiro, seguro e bem artilhado, por 
causa dos corsários hollandezes que infectavam 
os mares do Brazil, de modo que não seria obra 
de pouca monta o transporte dos emigrantes aço- 
rianos. 

Para a ida do navio e para facilitar ao capitão o 
cobramento das fazendas que lhe eram devidas no 
Pará, teve António Coelho* de sollicitar e obteve 
dois alvarás régios. 

Qual fosse o êxito da empreza não o sabemos 
nós, apenas nos consta que, pouco tempo depois, 
já em 1648, tendo fallecido Francisco Coelho de 
Carvalho, foi confiada ao Dr. António Coelho a 

• Alvará de 10 de Julho de 1647 (Chancellaria de D. João 
IV, Liv. XIX, foi. 241) concedendo licença para mandar ao 
Brazil o navio; e Alvará de i5 do mesmo mez fIbid.,/ol.24'i), 
dando instrucções ao Governador e Officiaes do Estado para 
facilitar ao capitão do navio a cobrança de certas dividas no 
Pará. 



í 



— CXXIV — 

administração da capitania de Camutá ou Cumutá, 
até o sobrinho António de Albuquerque Coelho 
tirar carta em forma ^; e logo dois mezes mais - 
tarde se ordena ás auctoridades locaes que guardem 
ao Desembargador os privilégios da capitania. 

Pois apesar dos seus direitos sobre a sua tão 
vasta e importante capitania e do favor régio 
com que elles foram amparados e defendidos, não 
morreu na abastança o antigo embaixador; pos- 
suía, que nos conste, umas casas em Lisboa, na 
rua das Salgadeiras ao Bairro Alto *, mas decerto 
não tinha grandes bens de raiz, a julgar pelas mercês 
de que encontramos vestígio feitas a D. Maria Ma- 
nuel, sua viuva, e a duas filhas solteiras, em seguida 
à sua morte, que parece ter occorrido em 1649. Á 
viuva são concedidos, por pedido d'ella, cem mil 
reis de tença cada anno n'um dos almoxarifados 
«em attenção aos serviços do marido». 

A filha D. Inez Coelho de Carvalho faz El-Rei 
mercê, para seu casamento, da commenda paterna 
(a que atraz nos referimos) com cincoenta mil reis 
de renda, em virtude do pae «ter servido desde 
162 1 com limpeza e se ter valido da legitima da 

* Chancellaria de D. João IV, Livro XX, foi i2j v. Al- 
vará de 6 de Outubro de 1648. 

' Pode vêr-se a este respeito o Alvará de 1 1 de Outubro 
de 1644 (Chancellaria de D. João IV, Liv. XIX, foi. 2), aucto- 
rizando Francisco Tavares da Costa a aforar ao Dr. Coelho 
de Carvalho bens da Capella instituída por Luiz de Figueiredo 
Falcão, 



— cxxv — 

filha», certamente para as despesas que fez na em- 
baixada, deixando-lhe em testamento a caução» dos 
serviços referidos e o dote diminuido. Finalmente 
a uma segunda filha, que era freira em Lorvão, 
mandou dar D. João IV vinte mil reis de tença 
emquanto viva fosse *. 

Nada mais teríamos a dizer sobre o magistrado- 
embaixador, se nos não julgássemos na obrigação 
de reproduzir aqui uma noticia que encontramos a 
seu respeito na Corographia Portugne'{a do Padre 
Carvalho da Costa ^ que, n'uma noticia acerca da 
sua ascendência diz ter sido casado António Coelho 
de Carvalho com D. Brites de Barros, filha de um 
Arnaldo de Hollanda, filho elle próprio de Henri- 
que de Hollanda, barão de Rhensberg e de Mar- 
garida de Florença, irmã do Papa Adriano VI. 
Pela nossa parte só nos cumpre accrescentar que 
Adriano VI, filho de um tecelão e nascido em 
Utrecht em 1469, foi preceptor de Carlos V, e por 
sua influencia elevado á Sede Apostólica em 1622. 
Morreu em i523. 

A ser verdadeira a noticia dada pelo Padre Car- 
valho da Costa, seria D. Maria de Barros primeira 
mulher do nosso diplomata. 



1 Portarias do Reino, Liv. II, foi. 240 v. 
* I.* ed., vol. III, pagg. 532-3. 



— CXXVI — 



CHRISTOVAM SOARES D' ABREU 



Pouco nos diz Franco Barreto acerca das pessoas 
dos seus companheiros, e menos ainda com respeito 
aos serviços por elles prestados durante a embai- 
xada ; teremos portanto de procurar por outro lado 
noticias, infelizmente escassas, acerca de cada um. 
Dos dois embaixadores dissemos quanto pudemos 
averiguar, e alguma coisa diremos também do se- 
cretario da embaixada, que, a julgar pelas provas 
de competência dadas em outras missões e que a 
sua correspondência tornou bem patentes, deve ter 
sido um valioso auxiliar para os dois embaixadores. 

Ignoramos a data do nascimento de Christovam 
Soares d'Abreu, apenas sabemos que foi natural de 
Ponte de Lima e filho de Francisco Soares d'Abreu, 
provedor da fazenda do Estado do Brazil. 

Consta também que foi cavalleiro da ordem de 
Christo; estudou direito na universidade de Coim- 
bra, e, depois de formado n'essa faculdade, desem- 
penhou vários cargos, vindo nós a encontral-o como 
desembargador da Relação do Porto, quando foi 
nomeado para fazer parte da embaixada do Mon- 
teiro-mór. 

Diremos desde já, para não voltar ao assumpto, 
que passou para a Casa da Supplicaçao em 23 de 



— CXXVII — , 

novembro de 1646, na occasiao em que era man- 
dado para Osnabruck afim de substituir o dr. Ro- 
drigo Botelho de Moraes, sahindo de Lisboa em 19 
de dezembro d'esse mesmo anno, na companhia de 
D. Vasco Luiz da Gama, conde da Vidigueira, recen- 
temente elevado a marquez de Niza, illustre diplo- 
mata que o honrava com a sua particular confiança. 

Que essa confiança era merecida, provam-n'o as 
Advertências que adeante reproduzimos ^, em que 
o secretario da primeira embaixada a França trans- 
mittia ao novo embaixador, que para alli ia partir 
em 1642, o conde da Vidigueira, noticias, informa- 
ções e conselhos, com os quaes o dr. Soares d' Abreu 
abonou o seu zelo e competência. 

A redacção d'estas Advertências tem uma historia 
que merece ser contada e se deduz das próprias 
cartas de Soares d'Abreu para o futuro marquez 
de Niza 2: parece que o embaixador quizera levar 
comsigo Soares d' Abreu como secretario, mas este 
recusou o posto, porque ainda não tinha podido li- 
quidar as dividas contrahidas na embaixada de 1641, 
para satisfação das quaes foi forçado a recolher-se 
durante mais de dois annos á sua quinta de Vai de 
Flores, no termo de Alemquer 3, como elle próprio 

* Documentos Elucidativos, V, pcigg. iji e segg. 

' V. Cartas de Soares d' Abreu ao Conde da Vidigueira, 

Códice da Bibliotheca de Évora ' ^' , foi. 1-8. 

2.7 ' 

3 Informa-nos o Sr. Gommendador Guilherme Henriques 
que se encontram no livro 7.° de notas do tabellião de Alem- 
quer Jorge d'01iveira de Carvalho, escripturas de compras 



— CXXVIII — 

refere ao dar contas de uma verba de seiscentos 
mil reis, que lhe fora confiada para despezas da 
embaixada do Monteiro-mór antes da sua partida 
para França, contas estas que só lhe foram pedidas 
em novembro de 1645 *. 

Por essa occasião se queixa o nosso Soares 
d' Abreu da parcimonia com que tinham sido remu- 
nerados os seus úteis serviços ; é de esperar, porém, 
que lhe fossem augmentados os vencimentos, quando 
foi mandado para o congresso de Munster e Osna- 
bruck, com residência n'esta ultima cidade. Não 
encontrámos acerca d'este ponto informação espe- 
cial; o que nos consta é que não foi longa a sua 
demora entre os representantes das nações não Ga- 
tholicas no congresso, porque em 1648 já o vemos 
servindo em Paris como residente, conservando-se 
alli n'essa quahdade até á chegada de Francisco 
de Sousa Coutinho, que foi nos princípios de i65i. 

Tudo nos leva a crer, portanto, que sejam da 

feitas pela esposa de Soares d' Abreu, D. Maria do Amaral 
durante a ausência do marido no estrangeiro, com o intuito 
de alargar a quinta de Vai de Flores. Na igreja do convento 
da Carnota, agora propriedade do referido cavalheiro, havia 
um jazigo onde por todo o século xvii se enterraram membros 
da familia Amaral, como se v8 do cartório da igreja paroquial 
de N. S. d'Assumpção dos Cadafaes. 

É de crer que a quinta viesse á posse de Soares d'Abreu 
pelo seu casamento com D. Maria do Amaral, em vista d'esta 
interessante indicação que muito agradecemos ao nosso 
amável informador. 

1 Documentos Elucidativos, VJ, pagg. 210 e segg. 



— CXXIX — 

sua lavra e destinadas a este diplomata umas novas 
Advertências para França, sem assignatura, mas 
com a data de 19 de Setembro de i65i, que se 
encontram reunidas com as Cartas de Francisco 
de Sousa Coutinho, embaixador em França e vá- 
rios papeis pertencentes á mesma embaixada n'um 
códice existente na Academia das Sciencias de 
Lisboa *, documento este que um dia e em seu 
logar contamos publicar. 

São estas Advertências, de sua natureza confi- 
denciaes, ainda mais interessantes do que as pri- 
meiras e revelam da parte do auctor um incontes- 
tável tino diplomático e um profundo conhecimento 
do meio onde exerceu as suas funcçÕes de resi- 
dente, qualidades estas largamente comprovadas na 
sua própria correspondência, que fornecerá, quando 
um dia for publicado como merece ser, não somente 
bastantes materiaes para uma sua desenvolvida 
biographia, mas também abundantes subsídios para 
a historia diplomática de Portugal no interessante 
período, infelizmente tão pouco conhecido, que vae 
da Restauração a i65i 2. 

* Mss. da Academia das Sciencias de Lisboa, Gab. 5, E. i3 
n." 7. Correspondência de Francisco de Sousa Coutinho, 
pagg. 5 e segg. 

* Vide os cod. 49\X\ioai4da Bibliotheca da Ajuda. Con- 
teem estes códices os papeis relativos ás ministrarias dos seus 
avós e d'elle, cartas originaes que lhe foram dirigidas, minutas 
e borrões das cartas por elle escriptas a vários diplomatas e 
litteratos (entre os quaes M. Godefroy, historiographo do Rei 



— cxxx — 

Pena é que d'aquella data em deante fossem tão 
mal aproveitados os serviços de Soares d'Abreu, e 
tão pouco utilizada a sua experiência, que o não 
vemos nomeado para nenhuma importante missão 
no estrangeiro. 

Durante mais de trinta annos, ao que parece, o 
deixaram esquecido, de muitos certamente igno- 
rado, na sua quinta de Vai de Flores, cultivando 
as lettras, no remanso do lar, d'onde acaso sahiria 
para fazer parte do senado da Camará de Lisboa 
e recitar a «Oração» ^ com que o primeiro muni- 
cípio do paiz saudou, em 29 de agosto de 1666 o 
enlace, bem pouco auspicioso por certo, de el-Rei 
D. Affonso VI com D. Maria Francisca Isabel de 
Saboj^a. 

Nos dezoito annos que ainda teve de vida, pois 
veiu a fallecer em Lisboa ^ em 4 de junho de 1684, 
teve tempo de sobra o velho diplomata para obser- 

de França), bem como os seus diários dos annos de 1648 e 
1649, minuciosos e importantes documentos para a historia 
diplomática, que merecem ser impressos. 

1 Com effeito Soares de Abreu publicou : Officium in lau- 
dem Sacrosancti Eucharistiae Sacramenti cum litania, preci- 
bits et hymnis in usiim privatum devotorum (Lisboa, i63o); e 
anonyma, Oração em nome da Camará de Lisboa a El Rei 
D. Affonso VI e á Rainha D. Maria Francisca Isabel^ entrando 
na dita cidade em 2g de Agosto de 1666 (Lisboa, 1666). 

Também, segundo a sua própria declaração, imprimiu a 
Arvore Genealógica dos Reis de Portugal. 

2 É de crer que fallecesse em Lisboa, pois consta ter sido se- 
pultado na capella de S. Francisco do Convento de Santa Anna. 



— CXXXI — 

var quanto eram falliveis os seus vaticínios espon- 
salicios ; mas também ainda lhe chegou a vida para 
vér consoududa a independência pátria, e em paz o 
Reino, que os inteUigentes esforços do secretario 
da primeira embaixada a França, do amigo e con- 
fidente do primeiro marquez de Niza, do residente 
em França, tão bem haviam defendido contra as 
acommettidas do iberismo, mantendo-se elle sempre, 
zeloso collaborador dos nossos mais inteUigentes e 
patrióticos diplomatas, entre os defensores do na- 
cionalismo e os propugnadores da nossa boa intel- 
ligencia com a França e, mais tarde, com a França 
e a Inglaterra, quando esta ultima nação, restabe- 
lecida a dynastia de Stuart, serenadas as iuctas 
civis e as Iuctas religiosas, poude retomar o papel 
que lhe pertencia na politica internacional e reatar 
a alliança tantas vezes secular, solida base da nossa 
politica externa. 



— CXXXII 



JOÃO FRANCO BARRETO 



Sabemos muito pouco do nosso autor, e não seria 
este o logar próprio para darmos da sua obra lit- 
teraria uma desenvolvida noticia critica. Conten- 
tar-nos-hemos pois com indicar os titulos das suas 
producções do que temos conhecimento, remettendo 
o leitor particularmente interessado no assumpto, 
quer para a noticia publicada na Bibliotheca Lu- 
sitana de Barbosa Machado, quer para o extenso 
juizo critico sobre os méritos e defeitos de Franco 
Barreto como poeta e traductor, com particular re- 
ferencia á sua traducção da Eneida^ que se encontra 
no Ensaio Biographico Critico de Costa e Silva *. 

No próprio anno em que deu á estampa a Rela- 
çam ^ publicou Franco Barreto um Catalogo dos 
Christianissimos Reis de França e das Rainhas 
suas esposas, prosápia sua, com os annos de sua 
vida e reinado e onde estão oiterrados^ obra que 
certamente foi redigida em presença dos elementos 
de informação que o auctor colheu durante a sua 
viagem, n'aquella anciã de illustrar-se e de adquirir 

* T. V, pag. 267. 

2 A sua primeira publicação foi um poema em oitava rima, 
Cyparissa, fabula mythologica, impressa em Lisboa em i63i, 
que não pudemos ver. 



— cxrxiii — 

erudição de que elle dá tão significativas provas na 
noticia da sua viagem. 

Mencionaremos em seguida a sua traducção por- 
tuguesa da Eneida de Virgilio, livro muito conhe- 
cido e apreciado, em duas partes, publicado em 
Lisboa em 1664- 1670 e dedicado a Garcia de Mello, 
que veiu a ter mais duas edições ; é certamente a 
obra mais conhecida do auctor e em que elle me- 
lhor abonou os seus méritos litterarios. 

Depois d'esta publicou o nosso auctor a sua Or- 
tographia da língua poy^tugueia, dedicada a Fran- 
cisco de Mello, filho de Garcia de Mello e portanto 
neto do embaixador, que ao pae e ao avô succedeu 
no cargo de Monteiro-mór ; e bem precisava Franco 
Barreto expor as regras a que, no seu entender, 
devia obedecer a escripta da lingua portugueza, por- 
que dos seus livros impressos é difficil deduzir como 
escrevia o auctor; e d'isso elle próprio se queixa 
na sua Oi't1iop'aphia, attribuindo a culpa aos revi- 
sores, como se deduz das suas palavras : «o que 
tudo succede por falta de correctores que assistam 
ás emendas das erratas que nossos impressores 
cometem exorbitantemente, como se verá da minha 
Eneida Portugue^a^ de que nenhuma folha pude 
emendar, por viver fora de Lisboa» *. 



* Comprehende-se bem quanta razão tinha Franco Barreto 
para se queixar, vendo os erros que os seus revisores e talvez 
elle próprio deixaram escapar ; quando publicou a Eneida 
estava elle residindo no Barreiro, mas succedeu-lhe o mesmo 



CXXXIV — 

Lancemos, com o nosso auctor, as culpas de 
quantos erros pudessem ter-se accumulado na pri- 
meira edição da Relaçam da viagem aos revisores 
do século XVII, e, para descargo de consciência do 
auctor vamos também attribuindo áquelles a forma, 
por vezes phantastica, por que alli vêem reprodu- 
zidos os nomes francezes, de personagens e loga- 
res, mesmo alguns dos mais conhecidos, que o 
auctor decerto viu escriptos e bem escriptos. 

A ultima publicação que traz o nome de Franco 
Barreto foi uma obra grande, a traducção portu- 
guesa do Fios Sanctorum do jesuita hespanhol 
Pedro de Ribadeneyra, impressa em Lisboa em 
1674, que teve segunda edição em 1704. Resta-nos 
mencionar o Discurso Apologético sobre a vi^ão do 
Indo e Ganges^ (a favor de Camões, contra os re- 
paros de Manuel Pires de Almeida), cujo manuscripto 
original, que se suppÕe autographo, pertence ao 
S/ Visconde da Esperança e por muitos annos se 
julgou perdido. O Discurso foi impresso em 1881, 
no Porto, no Annuario da Sociedade Nacional Ca- 
mojieana, sobre uma copia imperfeita, e novamente 
mandado imprimir conforme o original pelo Vis- 
conde em Évora em iSgS, sob a direcção de 
António Francisco Barata. D'esta ultima edição 
tiraram-se apenas i5o exemplares; é portanto bas- 
tante rara. 



com a Relaçam (como notámos a pagg. 102 e 109), e, no 
emtanto é de suppor que estivesse então residindo em Lisboa. 



— cxxxv — 

Que diremos agora da própria Relaçam ? Quanto 
ao seu estylo, nada poderiamos acrescentar ao elogio 
que d'ella faz o próprio auctor: «Conto o que vi, 
e refiro o que ouvi, sem acumular palavras inchadas 
e arrogantes... Só tive respeito á verdade, e á 
authoridade de alguns Authores que consultei, acerca 
de algumas antiguidades e historias, que de caminho 
toco, por não molestar com o fio seco de huma 
relação o spirito de quem a lesse, como se verá 
no discurso seguinte» *. 

Assim é; Franco Barreto escreve singelamente 
em boa linguagem portugueza, despretenciosa e 
correntia, sem aquelles pretenciosos trocadilhos, 
sem aquella adjectivação exaggerada e ridícula, que 
tão frequentemente tornam enfadonhos os escri- 
ptores do seu tempo. 

Pena é que o secretario do Monteiro-mór se não 
julgasse auctorizado a revelar-nos alguma coisa 
acerca das negociações a que assistiu e que certa- 
mente conheceu em todos os seus pormenores ; mas 
a tal respeito nem uma palavra sequer escapou á 
sua discrição. Bem fez elle em intitular o livro 
Relação da viagem. . . ; é isso e nada mais do que 
isso ; não é uma relação da embaixada, não dá a 
menor noticia diplomática; mas conta-nos com um 
admirável sabor de verdade, forma agradável, dizer 
por vezes pittoresco, todos os incidentes que podem 
ser divulgados sem perigo de indiscrição e alguns 

^ Relaçam da viagem.. ., pag. 6. 



CXXXVI — 

com manifesto interesse para o leitor, como a cura 
das alporcas *, a cerimonia religiosa em que officia 
Richelieu, as recepções de Anna d' Áustria... Não 
iremos mais longe na exemplificação; o leitor verá e 
não perderá o seu tempo, e mesmo quando lhe pare- 
cer fastidiosa a erudição de Franco Barreto, terá 
de a deitar á conta da época em que o livro foi 
escripto. Não deixará de haver interesse em saber 
o que se pensava e o que se sabia no meado do 
século XVII, como tem interesse saber de que modo 
se viajava, e até o que se comia e se bebia n'esse 
tempo na corte dos reis de França, onde o nosso 
narrador, amigo de beber agua, não encontrou esse 
liquido precioso, e em casa de fidalgos francezes, 
cuja hospitalidade generosa ficamos conhecendo 
como se tivéssemos [feito parte da comitiva dos 
nossos embaixadores. 

Pouco poderemos dizer agora da vida do próprio 
auctor; são escassíssimos os dados biographicos que 
encontramos a seu respeito. Segundo Barbosa Ma- 
chado ^ nasceu João Franco Barreto em 1600, de 
familia nobre, sendo seus pães Bernardo Franco 
e Maria da Gosta Barreto; foi educado pelos jesuítas 
no collegio de Santo Antão, de Lisboa, e ccfmeçou 
por seguir a carreira das armas, servindo na celebre 
expedição que, em 1624, retomou a Bahia de Todos 
os Santos de que os hoUandezes se tinham apossado. 



1 Cf. Shakespeare, Macbeth, acto iv, scena 3. 

2 Bibliotheca Lusitana. V. João Franco Barreto. 



CXXXVII — 

Trocando depois as armas pelas lettras, foi cursar 
direito canónico na Universidade de Coimbra^ mas 
teve de interromper o curso em 1640 para acom- 
panhar á capital os filhos do Monteiro-mór, de quem 
era mestre. 

E natural que já ligassem quaesquer relações de 
gratidão o futuro secretario ao futuro embaixador, 
quando o primeiro tão devotadamente seguiu a sorte 
do segundo e tão fiel lhe foi no decorrer da vida, 
que o vemos dedicar a Relação á filha de Francisco 
de Mello, Dona Maria Josepha de Mendoça, logo 
ao regressar de França, a Garcia de Mello a Eneida 
e ao filho de Garcia de Mello a Ortografia. 

O que ainda não dissemos, é que Franco Barreto 
foi casado, e ao enviuvar, tomou ordens sacras e 
foi nomeado, em 1648, vigário da vara na villa do 
Barreiro. Ignora-se a data da sua morte e não 
consta do Fios Sanctorum, que examinamos, se 
elle chegou a vel-o impresso. 

Eis o que sabemos do auctor da Relaçam da 
viagem, que reproduzimos por nos parecer interes- 
sante, e serem raríssimos os exemplares conhecidos 
da primeira edição * ; apenas nove conseguimos 
contar, apezar de termos procurado informar-nos 
junto de vários possuidores de importantes biblio- 

* Ao reimprimir a Relaçam da viagem . . . procurámos re- 
produzir a folha do rosto da primeira edição, sem comtudo 
respeitarmos as suas dimensões, que são muito menores. Dos 
exemplares que pudemos examinar, o menos aparado, que é 
o do S.r Francisco van Zeller, mede o",! 93 por o°,i40. 

K 



— CXXXVIII — 

tecas, que amavelmente nos informaram de que não 
possuíam o livro ; aqui lhes agradecemos a amabi- 
lidade das suas respostas. 

Os exemplares da primeira edição de que temos 
noticia são os seguintes : 

Do Archivo Nacional da Torre do Tombo. 

Da Academia das Sciencias de Lisboa. 

Do Sr. Francisco van Zeller (Lisboa). 

Do Sr. Anselmo Braamcamp Freire (Lisboa). 

Do Sr. Motta Gomes (Lisboa). 

Da Livraria Coelho (Lisboa). 

Do Sr. Abel de Andrade (Lisboa). 

Do Sr. António Pereira da Nóbrega Sousa da 
Camará (Villa Viçosa). 

Da Bibliotheca de Évora. 

Não o possuem, nem a Bibliotheca da Univer- 
sidade de Coimbra, nem a Biblioteca PúbHca do 
Porto, nem a de Lisboa. 



NOTA. — Devido á sua morte repentina, o meu amigo e 
collaborador General Bocage, auctor do Prefacio e Introdu- 
cção^ só poude emendar as provas desta até a pag. cxi. A 
secção de Personagens e Lagares citados é também de sua 
lavra e já estava impressa antes. Cabe-me a mim a respon- 
sabilidade da recção dos Documentos e dos apontamentos 
biographicos sobre o pessoal da embaixada. A revisão do 
texto da Relação e a organisação do mappa (gravado com 
muita perícia pelo Sr. Manuel Igreja) foi obra commum. 

E. P. 



RELAÇAM 

DA VIAGEM 

QUE A FRANÇA 

FIZERAM FRANCISCO DE MELLO, 

Monteiro mòr do Reyno, & o Doutor António 
Coelho de Carvalho, indo por Embaixadores ex- 
traordinários do muito Alto, e muito Pode- 
roso Rey, & Senhor nosso, Dom Ioam 
o IV. de gloriosa memoria, ao muito 
Alto, & muito Poderoso Rey de 
França Luís x 1 1 1 . cogno- 
minado o lusto, este pre- 
sente anno de 
1641. 

"DEDICADA qA SENHORA 

Dona Mariana losepha 

de Mendoca. 
> 

ESCREVEOA IOAM FRANCO 
Barreto, Secretario do Monteiro mòr. 

Com todas as licenças necessárias 

EM LISBOA. 

Na Oíiicina de Lourenço de Anveres 
& á sua custa - Anno 1642. 



A SENHORA 
D. MARIANA lOSEPHA 

de Mendoça, Dama da Raynha nossa 
Senhora, & filha de Francisco de 
Mello, do Concelho de S. Mag. 
seu Monteiro mòr, & Gene- 
ral da Cavallaria 



Não tivera confiança para tirar a lu{ em 
meu notne este papel, a que agora me obrigão 
alguns respeitos, senão me prometera do favor 
de V. S. o patrocínio e amparo, de que neces- 
sita, quem iío theatro do mundo se entrega 
a jui^os diversos : que se a Águia illustrada 
com os rayos do Sol (como di^em os naturais) 
causa tam grande horror e espanto ás ser- 
pentes, que as fa^ fngir; que obra, por falta 
e imperfeita que seja, haverá, que pondo-lhe 
V. S. os olhos, a não redima das serpentinas 
linguas dos detractores ? 

Mas se em o pouco que offereço, acumullo, 
e não pago obrigações, desejo com tudo que 
V. S. veja, que quando não igualo favores^ 
conservo pello menos a memoria. 



Nem quero dilatarme em publicar as excel- 
lendas de que o Ceo dotou a V. S.^ porque 
são ellas taes que nem podem crecer com meus 
louvores, nem diminuir com meu silencio. So- 
mente pedirei a Deos conserve a vida de V. S. 
por muitos annos, com os augmentos que seus 
criados lhe desejamos. Do cubiculo, a 7 de 
Novembro de 1641. 



Criado de V. S. 

João Franco Barreto. 



A TODOS 



Por entender faria á Pátria algum serviço em 
darlhe conta dos grandes júbilos e alegrias, com 
que em o Reyno de França forao geralmente ou- 
vidas as felices novas de nossa Restauração, sacu- 
dido o tyrannico jugo de Castella, me movi a es- 
crever esta Relação da viagem que a elle fizerão 
os senhores Embaixadores, Francisco de Mello, 
Monteiro mór do Reyno, do Conselho de Sua Ma- 
gestade Sereníssima, e o Doutor António Coelho de 
Carvalho, do mesmo Conselho, e Desembargador 
do Paço: que os grandes contentamentos, disse hum 
discreto, se hão de celebrar, pêra dobrarse com os 
que participão delles. 

Se lhe faltar o atavio e ornato, que pêra apare- 
cer em publico com a decência conveniente, lhe era 
necessário, sirva-me de desculpa a tenção, pois agora 
me anima a romper cúmulos de desconfianças, que 
não ha veneno mais frio que o medo, e esta seja a 
satisfação de ser tam tarde. 

Parecer largo, ou breve, numa cousa, ou noutra, 
he me até forçado, porque he casa na praça, e como 



— 6- 

disse o Poeta Lyrico, os gostos são mui vários ; mas 
com huma medicina, e mais a hum mesmo tempo, 
não se podem curar todos os humores. 

Conto o que vi, e refiro o que ouvi, sem acumu- 
lar palavras inchadas e arrogantes ; e os que com 
ellas querem fazer ostentação de sua sabedoria, 
advirtão que differe muito huma Relação de huma 
Gigantomachia; porque, como disse Altamero: «Ri- 
dicidinn est in oratione nihil aliiid spectare, qitam 
verborum ornatum*. Só tive respeito á verdade, e 
á authoridade de alguns Authores que consultei, 
acerca de algumas antiguidades e historias, que de 
caminho toco, por não molestar com o fio seco de 
huma relação, o spirito de quem a lesse, como se 
verá no discurso seguinte. 

Em Domingo, 3 de Fevereiro, dia do glorioso São 
Brás, deste presente anno de 641, forao (como he 
notório) pellas 3 da tarde os senhores Embaixado- 
res, Francisco de Mello, Monteiro mór, e o Doutor 
António Coelho de Carvalho, beijar a mão a elRey, 
Nosso Senhor, e a Raynha Nossa Senhora, e ao 
Príncipe ; e assi o fizerão o Doutor Christovão Soa- 
res de Abreu, Secretario da embaixada, e Pêro de 
Oliveiros, interprete, ambos pessoas muito benemé- 
ritas de seus cargos, e algumas pessoas mais da com- 
panhia ; donde nos fomos embarcar em as gando- 
las (i), que esperavão á Campainha (2), e nos puserão 

(i) Deve ser: gôndolas. 

(2) Ponte dos Embarques Reaes junto ao jardim do Paço 
da Ribeira. 



— 7 — 

a bordo de huma nao Inglesa, por nome Maria João, 
de 26 peças de artilharia, que para esta viagem se 
fretou por conta de Sua Magestade. 

Desamarramos do porto de Lisboa ao outro dia 
pella manhã, e o mesmo fizerão em outras duas nãos 
Inglesas os senhores Embaixadores de Inglaterra e 
Olanda: e em hum churrião mais os capitães mores 
de Ceita e Tanger, e outras embarcações, que hião 
pêra diversas partes, fazendo todas numero de i3; 
e por acalmar o vento, demos outra vez fundo em a 
enseada de São Joseph. 

A quarta feira seguinte, foy Sua Magestade, em a 
galé Real, jantar á Fortaleza de São Gião, e pas- 
sando ao longo das nãos em que hião seus Embai- 
xadores, se lhe fez a devida salva por tão assina- 
lado favor. Mandou huma gandola em busca do 
Monteiro mór, e o teve consigo na fortaleza até a 
noite que voltou ao Paço. A quinta feira tornamos 
todos a dar vella, com vento Noroeste, mas acal- 
mando logo, lançamos outra vez ferro em a mesma 
enseada; somente sairão os ditos Capitães de Ceita 
e Tanger, levando consigo outros fidalgos de compa- 
nhia em huma lancha ligeira (que talvez se dá pressa 
ao danno próprio); os quais, deixando sua verdadeira 
derrota, forão voluntariamente dar consigo em Cas- 
tella; porque muitas vezes procede mais o medo dos 
que temem de seu pouco valor, que do muito do 
temido. 

A sesta feira, 8 do mes, botamos de foz em fora, 
engolfandonos na volta de Loeste cento e tantas le- 



-8- 

goas ao mar; e entrando o vento largo, mareamos 
em popa na volta do Nordeste quarta do Norte. E 
com esta bonança se dividirão todas as i3 nãos re- 
feridas, e seguio cada qual sua derrota ; pello que 
daqui por diante tratarei somente da nossa. 

Ao Domingo, que forão lo, pello meyo dia, saltou 
o vento a Nordeste com hum chuveiro grosso; mas 
dando lugar a se tomar o Sol, acharão os Pilotos 
havermos então ganhado de nossa derrota 49 le- 
goas. Em este dia á tarde, 4 legoas pouco mais ou 
menos a nosso sotavento, descobrimos huma vella, 
que devia ser alguma das companheiras, e vimola 
também o dia seguinte. 

A terça feira, que forão 19, tivemos linda viração: 
durou até á tarde, em que o vento saltou a Norte, 
e á quinta feira pellas 9. 10. horas do dia, tornou 
assoprar em popa por espaço de 24 horas, porem 
á sesta feira, entre as 1 1 e as 12 do dia, toda esta bo- 
nança se converteo em huma tempestade desfeita. 
E foi tanto o trabalho da nao em este tempo, que 
admira como não se fez em pedaços. Quebraráo- 
senos três cavilhas da enxárcia do masto grande, e 
três curvatões da proa, por onde abrio muita agoa, 
sem que pêra ella nos pudéssemos valer das bom- 
bas, porque estavão entupidas com a área do lasto: 
e assi nos ajudamos de baldes, em o qual trabalho 
os Ingleses se portarão com muito valor e indus- 
tria. Pellos bordos entravão mares tam grossos, 
que verdadeiramente nos ouvemos muitas vezes 
por perdidos j mas duas principalmente, vendo a nao 



-9 — 

adornada a hum bordo, por grande espaço. Não 
faltarão votos, confissões, e promessas: mas todos 
a huma voz recorremos á Virgem Nossa Senhora 
da Penha de França, pêra cuja casa tiramos entre 
nós huma esmola, e entendemos que por sua inter- 
cessão foy Deos servido livramos de tam evidente 
perigo; pois nada tinhao obrado as muitas e san- 
ctas relíquias, que ao mar lançávamos; nem muitos 
exorcismos e esconjuros, que os Religiosos, que 
acompanhavão ao Monteiro mór, pessoas de muy 
exemplar vida, faziao. Durou este infortúnio até 
segunda feira ás mesmas horas em que começou, 
e neste tempo esteve o navio sempre á capa; daly 
por diante fomos seguindo nossa viagem com pouco 
panno, por razão de alguns tufões de vento, que de 
quando em quando nos assaltavao tam furiosos, que 
a todos enchião de temor e de espanto. Conti- 
nuarão até terça feira á noite, em a qual, por enten- 
dermos estar muy chegados á terra, nos pusemos 
também á capa; e á quarta pella manhã desco- 
brimos mais de cem vellas, as quais, segundo os 
Pilotos dizião, levavam a derrota de Bretanha, car- 
gadas de sal da Rochella, e Ilhas adjacentes. 

A quarta feira, pellas duas da tarde, ouvemos 
vista de terra, e disserão ser a Ilha de Belilha, que 
contem sete legoas de terra, em a qual ha muito 
pasto pêra os gados, que cria em grande numero, 
e assi tem outros muitos bens, que a fazem rica. 
Nella dizem alguns historiadores habitarão molhe- 
res, que não consentindo entre sy varões, vivião á 



— IO — 

maneira de Amasonas. Neste dia vimos mais 
quatro vellas, que devião levar a mesma derrota das 
outras ; e todo elle andamos á vista de Olona, vendo 
claramente em terra andar os moinhos de vento, 
que por aquella parte sam innumeraveis. 

A quinta feira foy vespora do entrudo dos Ingle- 
ses, e assi pêra o celebrar com mais festa, matarão 
huma porca que em a nao trazião, e a sesta feira a 
guisarão e comerão, com grande quietação de suas 
consciências. Na quinta feira descobrimos lá sobre 
a tarde huma vella, e era a que de Lisboa sahio com 
titulo de nossa Almiranta; e junto á noite ouvemos 
vista da Ilha de Rey, a cuja vista demos fundo, 
por ser o vento contrario, e andarem os mares 
muito grossos. Tem a Ilha de Rey sete legoas em 
circuito, e nellas sinco lugares, dos quais o princi- 
pal se chama de Sam Martinho, e posto que os 
moradores da Ilha pella mayor parte são Calvinis- 
tas, ha junto deste lugar hum Mosteirinho de Capu- 
chos barbados, da Ordem Seraphica, Religiosos de 
muito santa vida. A terra he abundantíssima de 
vinho e sal, que se leva pêra Inglaterra e Olanda. 
E da parte que olha pêra a Rochella, de que está 
distante duas legoas, tem hum bizarro forte, quasi 
pella traça do nosso de São Gião. Pela meya noite 
da quinta pêra a sesta feira, primeiro de Março, por 
nos favorecer a maré, levámos ferro, e fomos lan- 
çallo em o porto da Rochella, huma grande legoa 
ao mar. 

Tratarão logo os senhores Embaixadores de fazer 



— II — 

sabedor de sua vinda ao Governador da terra, e 
assi ordenarão fosse o mensageiro Pêro de Olivei- 
ros, interprete, e o Mestre Inglês. Lançouse ao 
mar o bote, embarcaraose nelle, e apenas desamar- 
rarão do bordo da nao, quando os ventos come- 
çarão assoprar de maneira que por mais que seis 
fortes marinheiros puxavao pellos remos, jamais 
pudérão bogar avante ; e em quanto andarão com 
os ventos á porfia, começou a decer a maré com 
tanto Ímpeto, por ser delles ajudada, que se lhes 
não largáramos com grande acordo o batel mayor 
per huma espia, sem duvida se irião perder em o golfo 
do Oceano, pêra onde forão descaindo; e erão as 
ondas tam grandes, que muitas vezes os vimos nellas 
somergidos, mas finalmente meyo alagados os tira- 
mos á nao pella espia (que quis Deos alcançasse o 
batel), porque os marinheiros já não podião menear 
os braços. 

Em o mesmo tempo chegou a nosso bordo em 
huma fragata de guerra, das que ali ha naquelle 
porto, o Marques de São Christovão, filho natural 
do Governador, e de sua parte visitando aos se- 
nhores Embaixadores, e dandolhes as boas vindas 
da parte de todo aquelle povo, lhes pedio quisessem 
sair logo em terra, porque estavão todos muy alvo- 
raçados, e desejosos de os ver. Os senhores Em- 
baixadores, dandolhe os agradecimentos devidos 
pello trabalho que tomara, e pella boa vontade 
que lhes manifestava, sua, do povo, e do Governa- 
dor da terra, lhe pedirão os desculpasse de não 



— 12 — 

sair logo em terra, por razão do tempo, que lhes 
não dava lugar ao fazerem com sua gente, como 
convinha; mas que ao outro dia, abonançando o 
tempo mais alguma cousa, o farião, e iriáo beijar as 
mãos a sua Excellencia, a quem tornarão mandar, 
em companhia do dito Marques, a Pêro de Olivei- 
ros; o qual, saindo em terra (não sei se imaginarão 
que era o Embaixador) foy recebido com grande 
salva de artilharia e mosquetaria, e levado em os 
braços de todos ao Governador, a quem disse o que 
os senhores Embaixadores lhe ordenarão; e com 
resposta sua tornou em o mesmo dia a bordo, posto 
que o Governador lhe requereo e pedio muito 
quisesse descançar aquella noite com elle em 
terra. 

Em companhia do Marques veyo também a nosso 
bordo o Capitão Ruy de Brito Falcão, pessoa de 
muitos merecimentos, pellos muitos e bons serviços 
que a esta Coroa tem feito por discurso de muitos 
annos, a quem os Franceses tomarão, vindo de índias 
de Castella, onde fora com nossa infelice armada, 
e estava prisioneiro avia alguns 5 meses na Rochella. 
Delle se informarão os senhores Embaixadores de 
algumas cousas daquella terra, e da pessoa do Gover- 
nador delia, que ao presente he hum Cavaleiro de 
Malta, por nome Amador de la Porte, grão Prior 
de França, Embaixador da Ordem de S. João de 
Hierusalem, Intendente general da navegação e 
comércios de França, e Governador por sua Mages- 
tade Christianissima de Brouage, Rochella, paiz de 



— i3 - 

Aulnis, e Ilhas adjacentes, de idade de oitenta annos, 
boa estatura, alegre e venerável na pessoa, e en- 
tende muito bem a lingoa Castelhana, e se deixa 
nella entender, irmão da may do eminentíssimo 
Cardeal Richieliu. 

Ao Sabbado, que forão dous de Março, tornou 
o dito Marques em a mesma fragata, acompanhado 
de alguns Capitães e pessoas graves da terra, em 
busca dos senhores Embaixadores; e assi nos em- 
barcamos todos, parte em a fragata, e parte em os 
bateis da nao, e outros que de terra vierão ; e fomos 
desembarcar em hum posto distante da cidade três 
tiros de mosquete, onde sua Magestade Christianis- 
sima, quando tomou esta praça, mandou fazer o 
dique, que foy das principaes causas de seu venci- 
mento. Aqui estavão três coches esperando os 
senhores Embaixadores e sua gente, e era tam 
grande o tumulto do povo, que aly concorre© a nos 
ver, que difficultosamente poderão suas Excellencias 
chegar a elles, por mais que em lhes abrir caminho 
trabalhassem alguns officiaes de justiça e milicia, 
que pêra esse effeito aly vierão. Não se podem 
contar as acclamaçoens e vivas com que este povo 
nos recebeo, tanto que chegamos a desembarcar, 
nem poderão dar mayores mostras de alegria e con- 
tentamento se todos fossemos seus irmãos e pa- 
rentes, que de longas terras chegássemos a descan- 
çar a nossas casas, cheyos de despojos e trofeos 
inimigos. Ouve grande salva de artilharia no mar, 
e as companhias da terra estavão todas postas em 



- 14- 

ala pellas ruas por donde havião de passar os senho- 
res Embaixadores, e dando muitas cargas de mos- 
queteria, lhes abatião as bandeiras. 

Chegarão á casa da Vilia, que assi chamao aos 
Paços em que vive o Governador, levando trás sy 
innumeravel gente ; e o Governador veyo á porta da 
rua a recebellos, tam alegre e contente, que já nos 
pronosticava os anúncios de nossos bons despachos. 
Passarãose de parte a parte largos comprimentos, 
posto que o Governador não he de cerimonias, como 
geralmente são os Franceses, e finalmente sobirão, 
e entrarão numa camará, onde assentados, despois 
de haverem brevemente tratado dos successos da 
viagem, o Governador lhes perguntou muito pello 
miúdo dos da nossa Uberdade, e o modo que se 
teve para conseguir huma cousa tam grande e rara, 
ou pêra milhor dizer, nunca no mundo vista; do 
estado do Reyno, idade, e disposição dei Rey Nosso 
Senhor e da Raynha, e se tinhaÕ filhos, e quantos ; 
a que os senhores Embaixadores responderão com 
toda prudência devida, dandolhe de tudo inteira in- 
formação, e o dia se gastou em semelhantes pra- 
ticas. 

As mesmas tínhamos nós todos em diversos 
corrilhos com varias pessoas, que ainda que he na- 
tural nos homens o desejo de saber, he mais pró- 
prio em a nação Francesa, e deixando as razoes 
que de nossa parte se lhes podião dar, que facil- 
mente poderá cada qual colligir, considerando as 
que também daria, achandose em semelhante occa- 



- i5 — 

sião, com animo e zello de verdadeiro Português, 
as suas erão todas encaminhadas a diversos louvores 
dos Portugueses, e assi diziao que sempre espera- 
rão delles, havião de lançar de seus colos o pesado 
jugo da tyrannia de Castella, porque não era seu 
animo valeroso pêra estar sugeito a mando e Im- 
pério de Príncipe estrangeiro, e mais tendo entre sy 
o Príncipe natural e legitimo, que Deos quizesse 
conservar por largos annos; em quem confiavão se 
havião de renovar as antigas amizades e lianças, 
que sempre ouve entre os Reynos de Portugal e 
França ; pois era de maneira, que se conta de Car- 
los VIII. que dizendolhe como os Príncipes todos 
de Europa faziao liga contra elle, respondeo: «Não 
importa, que eu tenho da minha parte os Portu- 
gueses.» E Francisco Primeiro mandou levar desta 
cidade o retrato natural do famoso Capitão António 
da Sylveira, que venceo aquelle grandioso e pri- 
meiro cerco de Dio, em tempo que governava a ín- 
dia o grande Nuno da Cunha, e no de Dom Garcia 
de Noronha, reynando el Rey Dom João o III, e o 
mandou pôr em França, em huma casa que havia 
feito, com os retratos de todos os mais famosos 
homens do mundo. E assi diziao que o mesmo 
era dizer Portugal, que porto de Galha, ou França; 
e o mesmo era dizer Lisboa, que boa Lis, ou boa 
flor de lis, querendo mostrar que o nome de Lisboa 
se dirivava de França. E se prezavão muito de 
que os Portugueses éramos origem sua, e os Reys 
de Portugal descendentes dos Reys de França, di- 



- i6- 

zendo como o muito religioso e sábio Roberto Rey 
de França, filho de Hugo Capeto, foy pay dei Rey 
Henrique Primeiro, e de Roberto Duque de Bor- 
gonha; como de Henrique descenderão até o pre- 
sente 27 Reys de França, três Emperadores de 
Constantinopla, muytos Reys de Sicilia, Nápoles, 
Ungria, Polónia, e Navarra, e numero de grandes 
Duques e Príncipes, e entre outros os Duques de 
Borbon, Bretanha, e os quatro últimos de Borgonha, 
três do Paiz Baixo; e como de Roberto vierão não 
somente os Duques de Borgonha do primeiro ramo, 
André, Guido e loão, Delphins de Vienna, mas tam- 
bém os Reys de Portugal, porque Henrique filho 
do Duque Roberto tivera três filhos, a saber, Eudo 
e Hugo Duques de Borgonha, e Henrique Conde 
de Portugal, que foy pay dei Rey Dom Affonso 
Henriques o I, com outras muitas particularidades 
que por brevidade deixo. 

Naquelle tempo, a companhia dos Juizes, que faz 
a Justiça Real naquella cidade, escolheo em nome 
dei Rey Christianissimo quatro pessoas de seu corpo, 
pêra ir beijar as mãos a suas Excellencias, e darlhe 
as boas vindas, a saber; o senhor de Remigius, lu- 
gar tenente particular daquella cúria presidiai; o 
senhor de la Motte Aigron, Conselheiro dei Rey, e 
Capitão de Cavallaria na mesma cidade; o senhor 
Gressean, e o senhor Durant; os quais, despois 
de haver buscado a suas Excellencias em as casas 
que lhe estavão preparadas, se forão a casa do 
Governador em sua busca, e chegando a sua pre- 



— 17 — 

sença, o senhor de Remigius, em sua lingoa natural 
Francesa, disse o que em Português soa desta sorte. 
«Senhores lUustrissimos, nossa companhia, a quem 
«el Rey tem honrado de sua justiça Real, e dado 
«poder de a fazer a seus súbditos e vassallos desta 
«cidade e governo, nos manda a vossas Excellencias, 
«pêra lhes certificar a grande alegria que tem de 
«tam boa e desejada nova, qual a da entrada de 
«vossas Excellencias em este Reyno e cidade; prin- 
«cipalmente porque entendemos, que com aquella 
«generosidade que he natural dos Portugueses, elles 
«lançarão de seus colos o jugo intolerável da tyran- 
«nia de Castella; e são aqui vindos, por ordem de 
«seu Rey poderoso e sábio, pêra renovar as amiza- 
«des e boas correspondências, que sempre se achá- 
«rão em todos os séculos passados, entre as casas e 
«Coroas de França e Portugal; e essa he a causa 
«que nos obriga a vir offerecer a vossas Excellencias 
«tudo que Deos nos ha dado de poder e autoridade 
«neste lugar, pêra lhes fazer todos os serviços possi- 
«veis e devidos, e com estas verdadeiras protesta- 
«çóes, queremos ficar eternamente de vossas Excel- 
«lencias humihssimos e obedientissimos criados.» 

Em acabando de fallar, o senhor de Remigius, 
tomou a mão o senhor de la Motte Aigron, e logo 
deu a entender a suas Excellencias em Castelhano, 
o que não avião alcançado em Francês. 

Comerão este dia os senhores Embaixadores com 
sua Excellencia o grão Prior, e com ser na Qua- 
resma, forão muytas e muy diversas as iguarias. 



- i8- 

A gente do Monteiro mór foy agasalhada por 
ordem e conta do grão Prior em huma boa casa de 
pousadas, e a gente do Doutor António Coelho em 
outra; onde todos forão servidos com muita libera- 
lidade e grandeza, todo o tempo que estivemos na 
Rochella. 

Ao Domingo foy o grão Prior em busca do Mon- 
teiro mór a sua casa, donde se forão ouvir Missa ao 
Collegio dos Padres da Companhia, que o recebe- 
rão com extraordinárias mostras de alegria, e os 
condusirão ao capítulo, por terem ordenado hum 
dialogo Latino entre os estudantes; o qual, che- 
gando o Doutor António Coelho de Carvalho com 
o Secretario, repetirão os mininos com muita 
graça, dizendo mais alguns Epigramas em as lin- 
goas Latina, Grega, Hebrea, Francesa e Vasconha, 
em os quais se continhão muitos louvores dos Por- 
tugueses, e grandes vivas a elRey nosso Senhor. 

Foy este dia pêra os Catholicos de muita solem- 
nidade e alegria, pella conversão de hum herege 
(homem de letras e authoridade entre os hugono- 
tes) á nossa sancta Fee Catholica, por nome Joseph 
de Radolpho, o qual na Igreja dos Padres da Com- 
panhia, em presença dos senhores Embaixadores, 
Governador, e pessoas mais calificadas daquella 
terra, e de mais de quatro mil Catholicos, que as- 
sistirão áquelle acto de piedade, abjurou publica- 
mente as heregias na maneira seguinte : «Eu Joseph 
«de Radolpho, reconheço, e confesso de hum cora- 
«ção humilde e arrependido, diante da Sanctissima 



— 19 — 

cTrindade, e de toda a Corte celeste, e vós, que 
«aqui estais presentes como testemunhas, que eu 
«ignorantemente pequei, chegandome aos hereges, 
«e crendo seus erros e heregias, principalmente as 
a de Luthero e Calvino. Agora pois, tornandome 
«ao bom caminho, detesto e anathematiso as sobre- 
ffditas heregias, e todas as outras ceitas, crendo 
«na muito Sancta Igreja, Catholica, Apostólica e 
«Romana, sem a qual nam pôde haver salvaçam; 
«e fazendo profissam de tudo que ella crê e pro- 
«fessa, adoro particularmente a sanctissima Eucha- 
«ristia e sancto Sacramento do Altar, em a qual se 
«contem o verdadeiro Corpo e Sangue de Jesu 
«Christo, com sua alma e divindade, debaixo das 
«espécies de pão e de vinho. Invoco também a 
«todos os sanctos do Paraiso, pêra que me ajudem 
«e socorrão; e sobre todos a bemaventurada Virgem 
«Maria, Mãy de Deos. Creo que ha sete Sacramen- 
«tos, pellos quais se nos communica a graça, e que 
«ha um Purgatório, aonde as almas são purgadas 
«depois desta vida; e reconheço a nosso sancto Pa- 
«dre o Papa por soberano Pastor da Igreja univer- 
«sal, successor de São Pedro, e Vigairo de Christo: 
«e assi prometo de guardar e seguir inviolavelmente, 
«de hoje em diante, a Fee que a Igreja Apostólica 
«e Romana, coluna e fundamento da verdade, tem, 
«e prega. E assi o juro diante de Deos, sobre os 
«sanctos Evangelhos, em que ponho a mão.» E feito 
hum acto, se assinou de seu próprio sinal, e como 
testemunhas se assinarão também os senhores Em- 



— 20 — 

baixadores, o Governador, Pêro de Mello filho 
do Monteiro mór, a quem acompanhou nesta jor- 
nada, e o Secretario Ghristovão Soares de Abreu. 
Esta conversão de Monsiur de Radolpho, tivemos 
todos por bons annuncios dos successos de nossa 
negociação em França. 

Jantarão estes dias os senhores Embaixadores 
com o grão Prior. Ouve sobre mesa esgrima; e 
logo se forão ao jogo da pella, que os Franceses 
jugárão com muita destreza. Daqui forão a casa 
do Marques de São Ghristovão, onde estavão juntas 
as principais damas do lugar, acompanhadas dos 
melhores da terra, amigos e parentes ; e todos sairão 
á porta da rua a receber a suas Excellencias, com 
muita festa e alegria; e dada a acostumada paz (i), 
entrarão para huma sala de hum quarto baixo, 
que estava muito bem adereçada, e se assentarão 
as damas a hum lado, e os homens a outro, ficando 
como na cabeceira deste nobre ajuntamento os se- 
nhores Embaixadores e o grão Prior, assentados 
em cadeiras de espaldas. Soarão logo as violas de 
arco, e começarão a dançar de dous em dous, dama 
e varão, sem ficar na sala quem o não fizesse, 
excepto suas Excellencias. E não bastava haver 
dançado huma vez, que no arbítrio de cada qual es- 
tava tirar, ou desafiar, a quem mais queria. E assi 
Pêro de Mello, filho do Monteiro mor, quasi sempre 

( I ) O autor refere-se ao costume de saudar com um ósculo, 
que se chamava a «paz de França». 



1 



— 21 — 

estava no campo; que como era moço, e filho de 
hum Embaixador, todas querião fazerlhe aquelle 
favor; e o bailo se rematava sempre com o osculo 
de paz, o qual (segundo Plutarcho em a vida de 
Rómulo) parece teve principio com a mesma cidade 
de Roma. Durou o festim até a noite, e se rema- 
tou com muita variedade de doces e confeitos, que 
para mostras de mayor alegria se deitavão ás reba- 
tinhas, e se fez a razão com agoa de limão somente. 
A cea foy em casa do grão Prior, com a diversi- 
dade de pratos acostumada, e ao som de alguns 
músicos instrumentos. 

A terça feira vierao aquelles que fazem o corpo 
da cidade, que seríao mais de vinte homens, a dar 
aos senhores Embaixadores, em nome de todo o 
povo, os parabéns de sua vinda áquelle Reyno, com 
extraordinárias mostras de alegria. 

A quarta feira tivemos novas de como na tor- 
menta passada se haviao perdido entre Sam João 
de Lus e Bordeos i6 navios; e neste dia chegarão 
a Rochella alguns soldados Portugueses, que vinhão 
de Catalunha. E á quinta vierão alguns mais, pellos 
quais tivemos novas do Padre Ignacio Mascare- 
nhas. 

A sesta, 7 de Março, saimos da Rochella, acom- 
panhados das pessoas mais graves da terra, e o 
Marques de S. Christovão nos acompanhou duas 
legoas. Mas antes que passemos avante, pêra sa- 
tisfação dos curiosos, em memoria do muito que a 
todos os deste lugar devemos em amor e benevo- 



— 22 — 

lencia, quero dar alguma breve noticia desta cidade, 
qual se vê ao tempo presente. 

A cidade da Rochella, cuja fundadora foy huma 
irmã de Guilhelmo, quarto Duque de Aquitania, por 
nome Maria, cognominada a Melusina, peritissima 
na arte magica, a qual se finge aver sido meya ser- 
pente, está em o Paiz de Aulnis, de que he cabeça, e 
posta sobre hum golfo de mar, onde forma hum cabo, 
e faz hum canal de mais de mil passos em largo; 
cujo porto he capaz de receber em sy toda sorte de 
baixeis, como não sejão em grande numero. 

A entrada delle ha duas grandes torres, que el 
Rey de França Carlos Quinto fundou das ruinas 
do antigo Castello da cidade, com duas janellas 
sobre o mar, e artilharia pêra defender a entrada. E 
assegurase o porto com huma grossa cadea de ferro, 
que vay de huma torre a outra, da qual tomou o 
nome huma das torres, e a outra se chama de S. Ni- 
colao. Estas duas torres estão cercadas de huma 
forte e grossa muralha, que se junta á outra torre, 
que chamão do Garrote, a qual domina sobre todo 
o canal, e he como o arsenal da cidade. Hum só 
homem pôde largar a cadea, e abrir o porto pella 
manhã, mas pêra o fechar, e cerrar a cadea, são 
necessários sinco homens, os quais se ajudão tam- 
bém de certas maquinas, que pêra isso tem. Aquelle, 
a cujo cargo está fechar e abrir o porto, tem de 
cada baxel grande que sae, sinco soldos, que fazem 
40 reis, e pellos pequenos, ametade. Os pescadores 
também, que vem do mar, lhe pagão certo tributo 



— 23 — 

em peixe, que lhe põem em um saquitel, que por 
huma corda está pendurado de huma janella. 

A mais nova fortificação era de sete bastiões, com 
suas cortinas e repairos, e quatro bastiões mais 
acompanhados de fossos, repairos e corredores, re- 
vestidos por fora de sua contra escarpa. E no es- 
tado de suas primeiras fortificaçoens sofreo, no anno 
de mil e quinhentos e setenta e três, o cerco de huma 
armada Real, e descançou de seus assaltos. Des- 
pois, no anno de mil e seiscentos e vinte oito, El Rey 
Luis, que agora vive, e viva por muytos annos, para 
augmento da Sancta Fé Catholica e extirpação das 
heregias, a redusio a sua obediência por hum di- 
que admirável, de que atras faço menção, que im- 
pidia o socorro dos estrangeiros, e por fome cons- 
trangeo aos moradores a se renderem a descrição 
de sua Magestade, que em castigo de sua rebeldia 
lhe mandou arrasar todas as fortificações velhas e 
novas, deixando só as que estão desde a torre de 
São Niculao até á torre da Lenterna, pella banda 
do mar, e alguns pedaços mais de muros e portas, 
que hoje se vem, em torno da Cidade, como tro- 
pheos de tão insigne victoria. O circuito da Cidade 
he de três mil passos, em forma quasi quadrangu- 
lar, e toda lhana; tem algumas ruas largas, e guar- 
necidas de bons edifícios. Seus habitadores forão 
sempre, e são de presente dados, ao comercio e na- 
vegação. E noutro tempo erão soberbos e inso- 
lentes, donde passou entre nos por provérbio, que- 
rendo notar a alguém destes vicios, dizermos que 



— 24 — 

he hum Arrochalês. Mas agora, ou seja pella mu- 
dança dos negócios, ou do estado presente, ou (como 
he mais crivei) pela suavidade do Evangelho e Fé 
Sagrada, com tanto fervor em aquella cidade intro- 
dusida, são tão benignos e affaveis, que levam tras 
si os coraçoens dos estrangeiros, que ali chegão a 
communicallos. E muytas vezes dissemos, que ha- 
vendo de viver em França, escolhêramos antes a 
Rochella que outro algum lugar, pello bom modo 
e trato de seus illustres Cidadãos. 

Treze annos ha que nella não havia templo algum 
que não fosse de abominação; e ao presente (gra- 
ças sejão dadas ao Ceo, que assi os dispôs, por 
virtude de hum Rey, cujos encómios publica o 
mundo, e por valor de hum privado, que pode ser 
espelho de todos os varões illustres deste século) 
ha já sete mosteiros de Religiosos e dous de Reli- 
giosas, além de cinco freguesias, onde com muyta 
devoção e exemplo se frequentão muyto os officios 
divinos e mais Sacramentos ; e os hereges tem fora 
da Cidade só huma casa, a que chamãp prece, em 
a qual certos dias da somana fasem assemblea; 
e nella, como em todas as suas, não ha mais que 
bancos e mais bancos e hum púlpito, que fica quasi 
em meio, donde o seu cacis, ou como diabo o 
chamão, lhes lê a escritura, qual Deos melhore, 
como nelle confio, e que no mesmo lugar hão de 
os Catholicos daquella Cidade ver muyto cedo arvo- 
rado o estandarte real de nossa Fé sagrada, o Al- 
" tissimo e Divinissimo Sacramento, pella doutrina 



— 25 — 

dos Padres da Companhia e dos mais Religiosos, 
que ali, quais valerosos soldados em as fronteiras 
de seus inimigos, de contino estão combatendo com 
os contumases Calvinistas e Lutheranos, não sem 
grande honra e louvor da verdadeira Igreja, e fruyto 
maravilhoso das almas. 

Porem tornando a nossa viagem, saindo, como 
fica dito, da Rochella a sete de Março, fomos dali 
a cinco léguas alojamos a hum lugar por nome a 
Surgiera, em huns fermosos apozentos de huma 
senhora, que se tinha por meya Portuguesa e se 
chama Helena da Fonseca, viuva do barão de Reole 
(lugar de Gascunha) Miguel de Xavier, parente 
ainda do Grão Patriarcha do Oriente; a qual o 
Monteiro mor visitou despois em Paris. Da Sur- 
giera, fasendo jornada de cinco para seis léguas, 
fomos dormir a Agri, que são três ou quatro esta- 
lagens, muyto más, e ficão duas léguas de Niort, 
Cidade do pais de Poetú. Ao Domingo fomos ou- 
vir missa a huma Igreja tão pobre como o lugar Fó, 
em que está situada; se bem ha nelle hum edifício 
soberbo e magnifico, que disião ser de hum Luthe- 
rano : não entramos nelle, com a pressa que levá- 
vamos, por irmos dormir ao lugar da Motta, em 
que haverá quatro para cinco mil visinhos; e foy a 
jornada deste dia de oulo léguas. 

Está a Motta em o pais ou provincia de Poetú, 
que he huma das boas de França, por ser muyto abun- 
dante de todas as cousas necessárias para a vida e 
commodidade dos homens; e particularmente se 



— 26 - 

fasem nella muytas teas, que vendem aos Mercado- 
res de Espanha, de que tirão grandíssimo proveito; 
e se achão nella muytas biboras, que para a con- 
feição da triaga se levao para toda França e Vene- 
za. Dividese esta província em alta e baixa: a 
alta comprende Putiers, Niort, Setelerao, Lusinhã, 
Thurs, Argentou, antiga baronia, e outras muytas 
Cidades e villas. A baixa visinha com o mar, e 
começando em Niort, chega até ás prayas de Olona, 
e comprende Fontané Condado, que he principal 
Cidade, Malezes e Luson Bispados, e outras muytas 
boas e antigas baronias e terras, que gosao titulo 
de principado, como são Roxesurion, Luc, Marsi- 
Ihac, Talmont etc, contendo entre todos numero de 
mil e duzentas freguesias, com três Bispados e vinte 
e hum lugares murados. Comprendiase antiga- 
mente Poetú dentro de Guienna, e debaixo de seu 
governo, mas foy delle separado por El Rey Carlos 
o nono; e de presente tem dous lugartenentes Ge- 
neraes por El Rey. O Governador que hoje he de 
Poetú se chama Henrique de Bodean, e vive em o 
lugar da Motta de que se intitula Marquês, e he 
também Conde de Parabère, Cavaleiro das Ordens 
de El Rey, a saber de São Miguel e de Sancto Spi- 
rito, Capitão de cem homens de armas ; e com o 
governo de Poetú, tem também o de Setelerao, 
Artoes e Ludumoes. 

E esperando ja os senhores Embaixadores, sa- 
bendo que vinhão chegando á Motta, acompanhado 
do senhor de Braxat seu irmão, cuja molher he 



- 27 - 

actualmente Camareira mór da Raynha de França, 
e de João de Bodean, Marquês da Motta, e de 
Alexandre de Bodean, Bisconde de Parabère, seus 
filhos, e vinte e quatro homens de cavallo, e cara- 
vinas, que são os de sua guarda, sahio com dous 
coches a esperallos fora do lugar, e os condusio a 
sua casa, ou Castello, que assi chamão em França 
as casas de campo dos senhores, a cujas portas 
achamos sua própria molher e filhas, com toda a 
mais familia de casa, e outras pessoas que estavão 
convidadas, segundo o uso daquellas partes ; e che- 
gando os senhores Embaixadores, a Condeça e filhas 
os abraçarão, dando a costumada paz com tanto 
amor e Ihanesa, como se fossem parentes muy che- 
gados e de muyto tempo amigos. A Condeça, 
tomando pella Mão ao Monteiro Mór, os condusio 
a huma sala grande e bem concertada, e por ser ja 
tarde, despois de breves praticas, se assentarão á 
mesa, que estava posta com grande magnificência, 
os senhores Embaixadores, Pedro de Mello filho do 
Monteiro Mór, Christovão Soares secretario, Fr. Ma- 
noel de Jesus e Fr. António dos Sanctos, confessor 
e capellão do Monteiro Mór, o Conde de Parabère, 
seu irmão o senhor de Braxat, seu filho mais velho, 
a Condeça, suas filhas e huma sobrinha, e outras 
muytas Madamas e Monsiures, que para esta occa- 
sião forão chamados, por mayor ostentação e gran- 
desa, ambição natural daquella nação. O fausto 
com que forão servidos foy grande, as iguarias pas- 
sarão de setenta, e a copa estava guarnecida com 



- 28 — 

duas ricas baixellas, e muytos vasos de prata. Em 
outra sala de hum quarto baixo, se pos outra mesa, 
não com menor grandesa, para a gente de suas ex- 
cellencias, em a qual comeo também Alexandre de 
Bodean segundo filho do Conde, que foy o primeiro 
que em França se oífereceo para vir a Portugal, 
servir a el Rey nosso Senhor em as fronteiras ini- 
migas. 

Acabada a mesa, vierao violas de arco, com as 
quais se deo principio a hum alegre festim, que 
durou grande parte da noite; e nelle por muytas 
vezes sairão a dançar as filhas e sobrinha do Conde, 
hora com os irmãos, e hora com Pedro de Mello, 
e com o secretario, e mais pessoas circunstantes, 
conforme seu costume. E o próprio Conde sahio 
muytas vezes a dançar com as filhas, e com a so- 
brinha, que a um laude cantou despois perigrina- 
mente. Em fim, não posso contar a muyta alegria 
e contentamento de toda esta casa em nosso hos- 
pedage ; pois todos juntos, e cada qual de per si 
trabalhavão por nos dar gosto e praser; de ma- 
neira que todas suas acçoens erão pregoeiras do 
muyto que interiormente desejavão satisfazemos; 
e assi querião nos detivessemos ali alguns dias, 
ou pelo menos o seguinte, mas os Senhores Em- 
baixadores, levando diante dos olhos o serviço de 
seu Rey, por cujo mandado fasião aquelle caminho, 
não tratavão de mais que chegar a Paris ; e assi 
dando primeiro suas desculpas, responderão que 
antes lhes convinha madrugar, e por esta causa se 



— 29 — 

recolherão mais cedo, e a mesma Condeça os acom- 
panhou até ás camarás, que lhes estavão prepara- 
das ; e a Condeça, dando volta por outra porta á 
mesma sala, fes em huma viola alguns rajoens * á 
Portugueza, e cantou algumas letras Francesas, por- 
que he muy destra na solfa e toca bem os instrumen- 
tosmusicos, figura das virtudes, em que a alma se 
exercita. Chamase Caterina de Pardilhan e de 
Armignac, antiquíssimas famílias em o Reyno de 
França, e ouverão entre ambos onze filhos ; a sa- 
ber, João de Bodean, Alexandre de Bodean, Fi- 
lippe de Bodean, Cavaleiros da Ordem de S. João, 
César, Aquiles, Carlos, Luis e Henrique, e assi 
Luisa de Bodean, Caterina de Bodean, e duas, que 
são religiosas em a província de Xentonge, por 
nome Carlota e Dorotea. O Castello, que aqui 
tem estes senhores, he muyto sumptuoso, e está 
cercado de dous altos e profundos fossos, em que 
ha innumeraveis peixes; e de presente está o Conde 
fundando huma fermosa casa de prazer, com grutas, 
fontes e tanques, em que andam muytos cisnes. 
Tem beUissimos jardins, alamedas e florestas, com 
muytos coelhos e veados. 

A segunda feira ouvimos missa em huma capella, 
que fica em o pátio do edifício antiguo, a qual está 
toda adornada de beUissimas pinturas, onde se vem 
as historias da Escritura, desde a criação do homem, 

* Deve ser: rojões; sons arrastados que se tiram da viola. 
Tocando á maneira de Portugal. 



-Bo- 
ate o ultimo mysterio de sua redempção, e he a mais 
coriosa e rica de ornamentos que nunca vi. Acabada 
a missa, fomos todos jantar em a conformidade da 
cea passada, e forão os pratos innumeraveis ; despois 
dos quais ouve hum breve festim, e acabado elle, nos 
pusemos a caminho, muy satisfeitos do amor, 
grandesa e perfeição daquella casa. 

Acompanhounos o Conde, seu irmão, e filhos, com 
muyta mais gente de cavallo, alem dos de sua guarda, 
por espaço de huma légua, e fomos dormir á Cidade 
de Lusinhã, que está da Motta quatro léguas, e cae 
também em a provincia de Poetú, como atras fica 
escrito, e segundo alguns historiadores foy sua fun- 
dadora a dita Melusina, irmã de Guilhelmo IV. 
Duque de Aquitania, da qual veyo a Illustrissima 
Familia de Lusinhã, que deu ja Reys a Chipre, 
Hierusalem, e Arménia. He de presente Gover- 
nador de Lusinhã Monsiur de Xamerat, Axiliers de 
Barbezier, Cavaleiro de Malta, cujo avô foy aquelle 
que por mandado da Raynha Caterina de Medicis 
foy de Paris a Polónia dentro de 14 dias (como em 
sua historia conta o presidente de Thou) em busca 
de Henrique III, que succedeo a seu irmão Carlos 
o nono em o Reyno de França, deixando por 
elle o de Polónia; e sua mãy foy segunda vez ca- 
sada com o senhor de Duver, primeiro presidente 
do Conselho de estado em França. E porque 
quando ali chegamos estava o Governador ausente, 
em seu lugar veyo dar as boas vindas aos senhores 
Embaixadores o senhor de Trimulha, acompanhado 



-Bi- 
dé alguns nobres da terra, e dali a pouco tornou 
com sua molhar e huma irmã ; tanta he a facilidade 
e Ihanesa daquellas terras. 

Ao outro dia saimos de Lusinhã, e a cinco legoas 
fomos dormir a Putiers, cidade capital de Poetú, 
a qual está posta sobre o Rio Clym, que nasce das 
montanhas de Lymosin, cercada de muralhas vas- 
tas, e despois de Paris disem não ha outra igual 
em França ; se bem o povo não corresponde bem 
ao circuito dos muros, porque dentro delles ha 
também Jardins, pumares, vinhas, e terras de pam; 
e das guerras civis para ca deceo muyto de sua 
antigua grandesa e fermosura. Sua situação he 
parte em plano, como de parte do Occidente, onde 
elles na sua lingua chamão la Tranchée parte sobre 
hum cabeço e comprido cerro, incluso entre o Glyn 
e humas alagoas e tanques; e como tem as ruas mais 
baixas, dificultosamente pode ser situada *. Alguns 
affirmão que primeiro foy edificada pellos antigos 
Balões, habitadores do pais, em hum lugar que hora 
chamam Putiers o velho, Ptolomeu Augustoritum, 
e outros muytos Pictavium; e que os mesmos a 
reedificarão despois em o lugar onde agora está, 
imperando Cláudio, successor de Calígula. Tem 
muyto bons edificios, e entre outros a Igreja Ca- 
thedral de São Pedro he de structura magnifica, 
toda de pedra mármore. Começoua Henrique II. 
Duque de Normandia, Rey de Inglaterra, que teve 

* Deve ser: sitiada. 



— 32 — 

o Duquado de Guienna por sua molher Eleonor, 
que el Rey Luis de França, VII do nome, cogno- 
minado o moço e o piedoso, havia repudiado ; mas 
acabouse 200 annos despois, e nella se guardão al- 
gumas reliquias do Apostolo São Pedro. A Igreja 
de Notra Dama, he a saber de nossa Senhora, dita 
a grande, está na praça mayor, e na parede que 
para ella está fronteira, se vê a estatua do Empera- 
dor Constantino a cavallo, com huma espiga na mão. 
Nella he costume oíFerecer solemnemente todos os 
annos a molher do Mere, ou presidente da Cidade, 
huma capa de grande preço. A Igreja grande de 
Santo Hilário esta no mais alto da Cidade, aonde 
se mostra huma pedra, que dentro de vinte e quatro 
horas consume os corpos, que lhe metem dentro. 
Aqui se vê o tumulo de Geofredo, cognominado «o 
dente grande», filho de Melusina, e ha huma casa 
em a qual se guarda hum tronco de arvore, todo ouço, 
que communmente chamão o berço de S. Hilário, 
onde levão os doudos, para os fazer dormir dentro ; 
e com algum.as devoçoens e huma missa, só com 
esta crença cobrão o perdido siso. E quando nesta 
terra quer alguém zombar de outrem, o manda ao 
berço de Santo Hilário. He esta Igreja Collegial, 
e immediata ao Papa. 

Tem a cidade de Potiers vinte e cinco fregue- 
sias, as quatro ordens mendicantes, e outras muy- 
tas de frades e de freiras; e assi o Collegio da 
Companhia, onde se ensina Gramática, Rethorica, 
Filosofia, e ha outro Collegio, onde está o geral das 



- 33 - 

Leis, que he muyto fermoso e magnifico; reedi- 
ficouo o Duque de Suily, Governador de Poetú em 
tempo de Henrique o Grande. O paço da Justiça 
era antiguamente hum Castello grandioso, e agora 
se vê nelle huma sala considerável. Junto á ribeira 
do Clin, onde chamão a Plataforma, ha huma fonte 
de boa agua, que trasem a vender á Cidade, por 
aver dentro muyto pouca. Ao lado do paço está 
a antigua torre de Maubergeon, que hum Conde de 
Poetú fes edificar, e ao redor delia se vem os sete 
antiguos biscondes do pais. 

Os sinaes da antiguidade de Putiers se vem em 
hum castello velho e derribado, que dizem ha- 
ver sido paços do Emperador Gallieno, e em pa- 
redes de hum Amphiteatro, que está detrás da 
Igreja dos Padres da Companhia, que chamão as 
áreas * : e assim também em alguns pedaços de 
Aqueductos, que aparecem fora da villa, aos quais 
vulgarmente chamão os arcos de Parigué. Ha 
nesta Cidade Bispo, e o de presente se chama Luis 
Xantanhier de la Roxepuzuy; ha também cadeira 
presideal e Universidade, que em os tempos pas- 
sados foy já muy celebre. O Mere, ou Presidente, 
o anno de seu cargo he tido pello primeiro barão 
de Poetú; e elle e os Senadores, que são vinte e 
cinco, gosão com sua posteridade do titulo e qua- 
lidade de nobres. 

Tanto que chegamos a Poetiers, veyo o Mere, 

' Deve ser : arenas. 
3 



-34- 

com os ditos Senadores e os mais que compõem 
o corpo da Cidade, que são setenta e cinco cida- 
dãos, dar as boas vindas aos senhores Embaixadores, 
e fizerão em Francês huma oração muyto elegante, 
em a qual nos davão os parabéns de nossa liber- 
dade, com muytos vivas e louvores da nação Por- 
tugueza e novo Rey Dom João, a quem forão com- 
parando com os passados Monarchas e Varões, 
em aquellas virtudes que a cada hum delles forão 
mais peculiares, e commemorarão muytas empresas 
nossas por diversas partes do Mundo ; e despedi- 
dos, logo nas suas costas vierão quatro homens 
vestidos com as insignias da Cidade, em forma 
que remedavão os nossos Reys de Armas, e em 
nome da Cidade apresentarão a suas Excellencias 
duas dúzias de frascos de vinhos de Orliens, que 
em França são os gabadinhos, e duas caixas de 
vellas de cera branca, dizendo que aquelle era o 
presente que aquella Cidade costuma fazer a seu 
Rey, quando por ella passa, e que o mesmo fasião 
a suas Excellencias como Embaixadores dei Rey 
de Portugal, de quem o seu era irmão e parente. 
Os senhores Embaixadores, com a authoridade 
devida e muyta prudência, responderão por meyo 
do interprete Pedro de Oliveiros o que convi- 
nha. 

Também os Padres de Sancto Agostinho, esco- 
lhendo seis padres, os mandarão em nome de toda a 
ordem visitar a suas excellencias e darlhes as boas 
vindas; e hum delles lhes fez huma oração emlingua 



- 35 - 

Latina cheya de muyta elegância. Os Padres da 
Companhia de Jesus pertenderão levar a suas Ex- 
cellencias a sua casa, para o que tinhao feitos diá- 
logos e vários epigrammas; mas suas Excellencias 
se desculparão com a pressa que levavao em seu 
caminho; e os estudantes lhe vierao pedir quises- 
sem alcansarlhes do Reitor vacação aquelle dia, 
(honras que Anaxágoras pedio para o dia de sua 
morte, recusando todas as outras que o povo lhe 
dava em sua vida, segundo conta Plutarco na Poli- 
tica) como alcançarão, pello que fizerão grandes 
aclamaçoens e vivas. 

Não se pode encarecer quanto o povo desta Ci- 
dade desejava que os senhores Embaixadores se 
detivessem ali alguns dias, porque parece se não 
fartava (digamos assi) de os ver e de os ouvir. E 
assi era a gente, que á estalagem onde estávamos 
concorria, tanta que não nos podiamos nella revol- 
ver, bem como se alli viessem a ganhar algumas 
indulgências e perdoes. Onde foy muyto de notar 
hum cego, que apalpandonos huma e muytas vezes 
com as mãos, mostrava maravilharse muyto, di- 
zendo : «estes são os Portugueses ?» como se de nos 
tivesse outro conceito acerca da composição dos 
membros. Deixo de diser a diversidade de instru- 
mentos, bellicos e festivos, que aqui forão trasidos 
e tangidos ; porque não ha affecto de todos os 
humanos de que mais nos deixemos enganar que o 
da esperança, se bem na liberalidade e grandesa 
de suas Excellencias lhes não sahio a elles frus- 



— 36 — 

trada ; e o mesmo era em todos os lugares popu- 
losos por onde passamos. 

Ao outro dia pella manha sahimos de Putiers 
a tempo que o Bispo com o Cabido, porteiros da 
maça, Cruz alçada, e toda a Clerezia, vinha em 
busca dos senhores Embaixadores, porem não se 
encontrarão, e fomos dormir a Setelaráo, que são 
sete léguas ; e ás portas da Cidade achamos os Ma- 
gistrados da terra, que erao seis personages de 
garnacha, onde hum delles fes aos senhores Em- 
baixadores huma elegante oração em Francês pello 
theor das passadas ; e despois de já estar em a es- 
talagem, tornarão os mesmos, e apresentarão a suas 
Excellencias vinte frascos de vinho, dizendo tam- 
bém como aquelle era o presente que a Cidade 
costumava fazer a seus Reys e Príncipes, e que o 
mesmo fasião a suas Excellencias, como se fora a 
el Rey Dom João em pessoa, cujos Embaixadores 
suas Excellencias erão. Grande foy também o 
tumulto do povo que aqui concorreo, e em ne- 
nhuma outra parte tantas gaitas e samphoninas, que 
não parecião senão que de huma Cidade a outra nos 
vinhão seguindo e perseguindo, ao cheiro dos rea- 
les de Espanha, porque dizem que Portugal tem 
muyto argem *. 

Está a Cidade de Seteleráo posta ao longo do 
Rio Vienna, que vem das montanhas de Lymu- 
sin, assas mal edificada; e o Rio se passa por 

* Decerto : argent. 



I 



-37- 

huma ponte de nove arcos, a qual tem cento e 
trinta passos de comprido e sessenta e seis de largo. 
Deulhe principio a Raynha Caterina de Medicis e 
fim o Duque de Sully, Governador da província em 
tempo de el Rey Henrique o grande, como teste- 
munha huma inscripção posta nas torres que estão 
alem da ribeira. Dentro dos muros de hum Cas- 
tello velho, que está fora da Cidade, se vem certas 
pedras pequenas consideráveis, porque são tão fer- 
mosas que parecem verdadeiros diamantes, donde 
vulgarmente são chamados os diamantes de Sete- 
eráo. 

Tem a Cidade três mosteiros de frades. Ca- 
puchos, Franciscanos e de São Francisco de Paula, 
e hum mosteiro de freiras, e quatro freguesias; 
e fora dos muros também os Calvinistas o seu 
prece • : fora do mundo fora melhor. Mas como 
el Rey Luis o Justo he tão catholico, ja que de 
todo pellas guerras em que justificadamente se 
occupa ha tantos annos, não pode extinguir esta 
má semente de Calvino e Luthero de seus Reynos, 
ao menos não consente que dentro das Cidades 
tenhão os seus sequases as casas de abominação 
em que se ajuntão, que não servem de mais seus 
nefandos templos. E ainda passa avante o grande 
zelo que el Rey, e seu digníssimo privado o Car- 
deal Richieiiu, tem da honra e ley de Deos; por- 

1 V. pág. 24. Deve provir do francês prêche (s. m.). Templo 
protestante. 



— 38 — 

que aos taes não os occupa em cargo ou dignidade 
alguma da republica, como a membros podres e inú- 
teis, mas so lhes da os officios na guerra, onde 
mais brevemente possão acabarse. Singular rasão 
de estado de Rey Catholico. 

Fasemse nesta Cidade muyto boas armas, e se 
lavrão lindissimas facas e estojos; e assi, tanto que 
chegamos á estalagem, se encheo logo o pátio 
delia desta mercaduria e se armarão diversas ten- 
das; mas em o que nos pedião por qualquer peça, 
não parece senão que devião de cuidar que cada 
hum de nos era hum Embaixador. Daqui vem a 
Portugal o lenço que chamamos setelarao. 

Ao outro dia, i5 de Março, fomos dormir a Por- 
tepila, que he hum lugar pequeno, mas de excel- 
lentes pousadas, e foy jornada somente de 4 legoas, 
porque saimos muy tarde em rasão de nos faltar 
hum coche. E de Setelarao até Ulmi de S. Mar- 
tinho, pequena aldeã huma légua antes de Porte- 
pila, caminhámos sempre ao longo do rio Vienna 
por hum caminho muyto alegre e fermoso. 

O seguinte dia, que foy sábado, saindo de Por- 
tepila, passamos huma grande ribeira por nome 
Creusa, a qual atravessa o lugar e nasce junto a 
Volfranche no pais de Berry. Nella havia antigua- 
mente huma fermosa ponte, mas os hereges a der- 
ribarão no tempo de suas facções e rebelioens; e 
assi agora se passa em barcas com muyta facili- 
dade, porque nellas sem algum trabalho entrão 
de huma vez dous coches, assi como vão com os 



-39- 

cavallos e gente; só o tivemos com os grandes 
atoleiros que estavão de huma e de outra parte, e 
com a muyta neve que aqui nos cahio; mas fa- 
zendo a jornada de sete léguas fomos, dormir a 
Leíó, pobre aldeã pella qual passa outra grande 
ribeira, que chamão Leret-ablerè, e tem também 
a ponte quebrada pellos mesmos hereges; que 
estes são como os cães, que não podendo morder 
a quem temem, convertem seu furor e sanha con- 
tra as duras pedras, mais brandas que seus cora- 
çoens ; passamos a ribeira em as ditas barcas. 

Ao Domingo, 17 do mes, fasendo jornada de sinco 
léguas pella manhã e cinco á tarde, fomos ouvir 
missa e jantar a Amboesa, e dormir a Eclusa. 
Amboesa he huma Cidade do pais de Turena, não 
muyto grande, mas bem assentada, em lugar são e 
agradável; e assi os Reys de França a tem ja es- 
colhida, como Bloe, para criação de seus filhos. 
Tem hum Castello muyto bom, com grossas e 
altas torres lançadas ao longo do rio Loere, que 
dos antigos foy chamado Ligeris por sua celeri- 
dade, e nasce das montanhas de Montpesat. Mos- 
trase aqui huma cornadura de veado, de tantas pon- 
tas e grandesa, que se duvida se he natural, se 
feita per artificio. Sobre este rio ha huma fermosa 
ponte, ou para melhor diser duas, huma continente 
á outra, porque no meyo delias fas o rio huma ilha, 
onde sobre a ponte ha de huma parte e outra muyta 
casaria, com portas e pontes levadiças, que parece 
as dividem. He muyto para contar que á entrada 



— 40 — 

desta Cidade ha muytas vinhas, que ficão muito 
superiores e eminentes á estrada, e todas tem por 
baixo de si as suas adegas. Eclusa não são mais 
que humas estalagens, postas ao longo do mesmo rio 
Loere, bem como as de porto de Muge ao longo 
do Tejo, mas com tanta diferença entre si quanta 
pôde haver entre Lisboa e Almada. 

Toda esta jornada foy de excellente caminho e 
muyto aprasivel por ser ao longo do Loere, que de 
huma, e outra parte tem bellissimas quintas. Este 
dia encontramos a Marquesa de Serralvo, cujo ma- 
rido havia sido Visorey em índias; e, por se haver 
morto em Flandes, a molher, com seu filho her- 
deiro e toda sua familia, se passava a Espanha. E 
de sua companhia nos disserão que Dom Philippe 
da Sylva ficava á sua partida prezo em Gantes. 

Segunda feira, i8 de Março, fazendo jornada de 
9 léguas, fomos dormir a hum lugarejo que se 
chama Sindié, em o qual ha gentis estalages e as 
melhores que achamos em todo nosso caminho ; e 
a quatro léguas de Eclusa passamos por Bloe, ci- 
dade em que reside Monsiur Gastão João Bautista, 
único irmão de El Rey. Está em o pais de Beauce, 
conforme alguns, posta sobre o rio Loere; e á sua 
banda esquerda ha um lanço de Burgo, que se 
junta á Cidade por huma ponte de pedra, sobre a 
qual se vê hum pirâmide levantado, e ao pé de 
hum Crucifixo de bronze, huma inscripcão que diz 
como sendo aquella ponte arruinada em o tempo 
das guerras civis, foy reedificada por Henrique o 



— 41 — 

Grande, sendo Governador da Província Philippe 
Huralto Xevernio, no anno 1584. As ruas são es- 
treitas e mal dispostas, mas limpas ; e as casas 
todas de pedra e cubertas de piçarra negra. O 
Castello foy edificado por dous grandes Reys, Luis 
Duodécimo e Francisco Primeiro, e pella Raynha 
Gatherina de Medicis; e á entrada delle se vé o 
primeiro a cavallo. 

Monsiur, irmão dei Rey, fez derribar o lanço feito 
pela Raynha Gatherina, e tem começado hum edi- 
fício magnifico, ao moderno, com bella pedraria, 
pello que assiste aqui a mayor parte do anno ; mas 
os senhores Embaixadores, não o sabendo, passarão 
sem lhe fallar, de que despois mostrarão grande 
sentimento. Junto ao Gastello está o jardim, sepa- 
rado em duas partes, alta e baixa; e Monsiur o 
tem hoje enriquecido de muitos ^simples raros e 
exquisitos, que com grande curiosidade e despesa 
fez vir de diversas regioens em grande numero, e 
adornado de muitas antiguidades, de mármore e 
bronze, as quais não faltão também em a galeria 
da ala direita, que tem de comprimento trezentos 
passos e foy feita por Henrique Quarto seu pay, 
com muytos painéis e peças curiosas. Fora do jar- 
dim se vem muitas ruas, com arvores de huma 
parte e outra, que chegão até a Floresta, espaço 
que será de meya legoa. Do jardim alto se dece 
ao baixo, em huma rua do qual se vê a esculptura 
de hum cervo, tomado em o tempo de Luis Duodé- 
cimo, o qual tinha a cornadura de 24 pontas. Em 



— 42 — 

o primeiro pátio do Castello está a Igreja Collegial 
de São Salvador, onde estão as sepulturas de alguns 
Condes de Bloe. O bom ar da terra he preferido 
a todos os outros de França, que foi a causa porque 
aly os Reys íizerão sua morada e mandão criar seus 
filhos. O território he todo cuberto de vinha, donde 
se tira vinho muito bom e sam; he abundante de 
leite, e as suas natas são affamadas naquelle Reyno. 
A lingoa Francesa dizem estar aqui em sua pu- 
reza e dilicadeza, assi na cidade como nos seus con- 
tornos; e os habitadores são muito corteses para os 
estrangeiros, e muito dados ao trato e agricultura. 

A duas legoas de Bloe está Orcheza, antiga praça 
chamada os Sileiros * de Júlio Gesar; e a duas legoas 
da cidade se tira a terra, grossa e viscosa, que com- 
parão ao bolo de Levante. 

A três legoas fica Busy, castello magnifico e es- 
paçoso, em meyo de cujo pátio, sobre huma coluna, 
se vê a imagem dei Rey David feita de bronze, 
peça de grande preço que se trouxe de Roma, e se 
vem também os retratos de muytos Reys e Empe- 
radores, com o do frade Furstemberg, inventor da 
pólvora e artilheria. 

A terça feira, 19 de Março, fomos ouvir missa a 
Clary e jantar a Orliens, que fica de Bloe 7 léguas. 
Clary he huma aldeã em que ha hum templo magni- 
fico, antiga baronia, com 10 Cónegos. Tem huma 
imagem de Nossa Senhora que de contino obra 

* Decerto : celleiros. 



-43- 

muitos milagres; seu altar fica no alto do arco da 
capella mor e se vay a elle por duas escadas de 
pedra. O fundador desta Igreja foy Philippe o 
Bello, mas sendo arruinada com outras muitas pellos 
herejes, a reedificou el Rey Luis Undécimo e a 
reformou na maneira que hora se vê; e está nella 
enterrado com sua molher e o coração de Carlos 
o Septimo, seu pay, em huma sepultura de mármo- 
res brancos, com a sua effigie do mesmo mármore 
posta em cima, de joelhos, e a cada canto hum 
Anjo do mesmo mármore; a qual obra mandou 
fazer el Rey Luis o justo, que hoje reyna, no anno 
de 1622, e foy o artífice Miguel Bordim Aurélio; 
antigamente era toda a sepultura de bronze, mas 
os herejes a desfizerão também e assolarão. E 
neste Templo me affirmarão haver sido instituída 
a Ordem de Sancto Espirito por Henrique III, se 
bem não o achei escrito em os Historiadores Fran- 
ceses. 

A cidade de Orliens he muito magnifica, tanto 
pella fermosura do sitio, quanto pella grandeza dos 
habitadores ; porque alem de ter três milhas de cir- 
cuito, tem de fora muy grandes arrabaldes. He 
alem disto cheya de povo industrioso, e inclinado 
ao comercio e trato, pela commodidade do rio 
Loere, de que já tenho feito menção. A região he 
das mais felices de França, principalmente pella 
copia de pSo e vinhos excellentes (contados entre 
os melhores e mais dehcados de França) que se 
levão pello rio e pello mar a diversas províncias de 



— 44 — 

Europa septentrional, que deve ser a razão princi- 
pal porque os daquellas partes, principalmente os 
Alemaens, a descrevem tam curiosamente em todas 
suas viages impressas. Fora da cidade ha entre as 
vinhas postos muytos jardins e pumares, com toda 
sorte de fruytos, que são os melhores do Reyno. 
Em o meyo do rio, á vista de Orliens, está huma 
ilha muyto agradável, cuberta em parte de grandes 
e fermosas arvores, parte de altos e bellos edifícios, 
e se ajunta de hum lado á cidade por huma fermosa 
ponte (que nenhum rio, como notou Botero, tem 
tantas e de tanta grandeza) e de outro lado a hum 
burgo chamado Ponteró, aonde ha quantidade de 
hosterias pêra os vilões, que aly concorrem de So- 
lona, com a fruyta que trazem a vender. A en- 
trada da ponte he defendida de algumas torres e 
baluartes, com portas e com pontes levadiças. So- 
bre a ponte principal se vê huma estatua de bronze, 
em a qual se representa a Virgem Maria, com a 
de seu amado Filho decido da Cruz entre seus bra- 
ços; e a hum lado delia posto de joelhos el Rey 
Carlos o Septimo armado, e ao outro lado a Pon- 
cella Joanna armada, com botas e esporas como 
hum cavalleiro, e os cabellos lançados para traz 
sobre as espaldas. 

A historia he memorável, que por valor e conse- 
lho desta donzella, que isto significa em Francês o 
vocábulo Poncella, el Rey Carlos o I (sic) lançou fora 
do Reyno de França os Ingleses, que se lhe avião 
apoderado da mayor parte delle, e o tinhao posto 



-45- 

em tanto aperto e necessidade que, estando dentro 
em seu próprio Reyno, apenas dizem tinha pêra 
comer hum pedaço de carneiro. E estando huma 
noite el Rey considerando em os grandes trabalhos 
que elle e os seus padeciao, se levantou do leito em 
camisa, e posto de joelhos diante de huma Ima- 
gem de nosso Salvador, lhe pedio quisesse socor- 
rello, pois sabia quão justificado era o seu direito. 
E ao outro dia pella manhã lhe foy apresentada 
esta moça Joanna Poncella, que teria de idade qua- 
torze ou vinte annos, que nisto diferem os Histo- 
riadores Franceses, natural de huma aldeã por 
nome Dompremyo ou Droemy, que Pineda em sua 
Monarchia Ecclesiastica chama Damprenio, ou se- 
gundo outros, de Vocolor, em Lorena, cujo exercício 
era ate li guardar humas poucas ovelhas em casa de 
seus pobres pays, Jacques Darc e Isabel de Vauter. 
A qual, em chegando á presença dei Rey, posto 
que nunca o tinha visto, nem estava vestido melhor 
que os outros com quem estava, lhe disse ser ali 
mandada por Deos, para o ajudar a cobrar o seu 
Reyno; que lhe fosse dada gente de guerra, que 
ella faria levantar o cerco de Orliens e sagrar a 
S. Magestade, a pezar dos Inglezes, dentro em Re- 
mes (segundo o antigo uso dos Reys de França 
seus predecessores) onde se guarda a milagrosa re- 
doma, vinda dos Ceos por mysterio dos Anjos, com 
o olio divino, com que se ungem os Reys de 
França. Mas tendo alguns isto por zombaria, lhe 
fizerão algumas perguntas sobre cousas divinas e 



-46- 

humanas, e a iodas respondeo com tanto saber e 
prudência que admiravao todas suas acçoens. 

Pedio logo a el Rey que por hum de seus ar- 
meiros quisesse mandar buscar em a Igreja de 
santa Catherina de Forboe, entre outras antigas ar- 
mas, huma espada, em a qual estavão de cada lado 
impressas sinco flores de Lis, porque com ella avia 
fazer quanto prometia. Fesse assim, e achouse ser 
verdade tudo que a Poncella dizia, como por espi- 
rito prophetico. Ávida a espada e armada como 
hum homem, se pos a cavallo, e com a lança em 
punho começou a perseguir aos Ingleses, inimigos 
seus, com tanto valor e coragem, que não havia 
homem no mundo que a igualasse em valentia e 
destreza. Fes primeiramente levantar o cerco de 
Orliens, que durava havia sete meses, em cuia me- 
moria se ias todos os annos em Orliens huma pro- 
cissão aos doze de Mayo, em a qual se achão todas 
as ordens da Cidade, e vão até a ponte, onde se diz 
huma missa. Tomou por assalto a torre de São 
Lupo, matando todos os Ingleses que dentro achou; 
tãobem a lorgeo, onde forão presos e mortos muy- 
tos senhores, com três ou quatro centos Ingle- 
ses. 

Despois, acompanhada de muytos príncipes e se- 
nhores Franceses que sustentavão a parte dei Rey, 
desfes os Ingleses em huma batalha junto a Patê em 
Beauce, matando dous ou três mil delles e aprisio- 
nando alguns senhores Ingleses. E logo correndo 
a comarqua, redusio á obediência de Carlos muytos 



— 47- 

lugares que os Ingleses occupavao; fez sagrar a el 
Rey em Remes, e finalmente emprendeo e conse- 
guio cousas que não parecião suas acçoens menos 
que milagrosas e divinas, e se não podem referir 
em huma breve relação. Ultimamente a colherão á 
mão os Ingleses por traição de hum Guilhelmo de 
Flavy, Capitão de hum povo chamado Compendio, 
que ella estava defendendo com extraordinário va- 
lor; e pello grande ódio que lhe tinhão, despois de 
a ter em prisoens largos tempos, cruel e injusta- 
mente a queimarão viva em Ruam no anno de 1480, 
levantando-lhe que era feiticeira ; mas muytos dou- 
tos daquelles tempos, famosos em Theologia, affir- 
marão em seus escritos que morreo innocente, e o 
confessarão despois seus próprios inimigos, como 
mais largamente se pôde ver em a Historia Uni- 
versal de Charron, o qual, entre outras virtudes que 
delia escreve, celebra muito a de sua castidade e 
honestidade, pella qual entendo socedeo aquella tão 
rara maravilha em sua morte, que sendo queimada 
e redusido a sinsa seu corpo, lhe acharão despois o 
coração ileso e inteiro. 

A Cidade he guarnecida de muyto boas muralhas 
terraplenadas e com muytas torres redondas, cheyas 
tãobem de terra, posto que em parte arruinadas 
dos golpes dos canhões, despois das guerras civis. 

E assi Carlos o Nono, conhecendo de quanta im- 
portância era, e que não havia outra em França 
mais apta a sustentar guerra e a trabalhar o Reyno, 
como se vio em diversos tempos, principalmente no 



-48- 

anno de 460, no de 1428 e no de i563, a ajuntou á 
Coroa, estando em costume darse ao segundo genito 
dei Rey Christianissimo com titulo de Duquado; e 
a possue hoje Monsiur Gastão por seu morgado, 
com os Duquados de Xastres e de Valões, Condado 
de Bloe, e os donativos de Montargis, e de Gyen. 
Fazemna mais fermosa * a sagraçao de muytos Reys, 
e os diversos concilios que ali forão celebrados. 

Tem huma antiga Universidade, fundada por Phi- 
líppe IV, cognominado o Bello, no anno de i3i2, a 
qual gosa de autorisados privilégios, que o mesmo 
Rey e o Papa Clemente V lhe concederão. Ha 
nella grão numero de estudantes, separados em 
quatro nações, a saber: Franceses, Alemães, Nor- 
mandos e Picardos, acerca do que havia muyto em 
que dilatarse a penna. Authorisãona muytos e fer- 
mosos edifícios, dos quais o mais sumptuoso he o 
da Igreja de Santa Crus, posto que em o tempo 
das alterações, recebeo notável danno pellos here- 
ges. O seu campanário e grimpa era o mais alto 
que havia em França, como o de Strasburg era 
mais alto de Alemanha; nella ha sincoenta e nove 
cónegos, e doze dignidades. A igreja coUegial de 
S. Aignam, Abbade que depois foy Bispo na mesma 
Cidade, foy antigamente mosteiro e edifício de 
grande magnificência, mas padeceo a mesma inju- 
ria dos hereges que o de Sancta Crus no anno de 
i565; ha nella 3 cónegos, e outras dignidades. 

1 Deve ser : famosa. 



-49- 

A casa que chamão da Cidade tem huma torre, 
donde se descobre toda a Cidade. As casas são 
todas muito boas, as ruas largas, direitas e bem 
calçadas, principalmente onde chamão a Cidade 
nova. Não lhe faltao praças, e algumas cubertas 
de arvoredo, que as faz muy diliciosas. Junto da 
Cidade ha huma fonte que lança agoa em abun- 
dância, tanta que alli logo onde sae faz huma ri- 
beira navegável, que se chama Leret. 

Daqui despahcarão os senhores Embaixadores o 
secretario Christovão Soares de Abreu a Paris (em 
companhia de Manoel Fernandes Villareal, que ali 
veyo de Paris esperar a suas Excellencias), para 
fazer a sua Magestade Christianissima sabedor de 
sua chegada e esperar ordem sua para entrarem na 
Corte ; e fomos dormir a hum pequeno burgo cha- 
mado Artenê, que de Orliens fica 6 léguas, de ma- 
neira que andamos este dia i3. 

O seguinte, que forão 20, fomos dormir a Etam- 
pes, Cidade do pais de Xartrê, ou Beauce, e se- 
gundo outros Gatonoes, que foy jornada de i3 le- 
goas, e toda a tarde nos choveo grossa agoa. De 
Orliens a Etampes he o caminho muyto agradável. 
Tem esta Cidade titulo de Duquado, e de hum tem- 
plo dedicado a nossa Senhora se descobrem muytos 
lugares, entre outros Angervilla, Turim e Artenê. 

Ao outro dia, que forão 21, jantando em Anger- 
villa, onde fazem sete legoas, fomos dormir a Paris, 
que são outras sete; e, três antes de chegarmos a 
Paris, em hum burgo que chamão Pont Antoni, 



- 5o — 

achámos o secretario Christovão Soares, que disse 
tinha ordem para suas Excellencias se retirarem a 
huma casa particular por três ou quatro dias, em 
quanto se acabavão de aparelhar algumas cousas, e 
suas Excellencias descansavão do trabalho do ca- 
minho. 

Fizerãono assi suas Excellencias, entrando de 
noite em Paris; e logo ao dia seguinte o Conde 
Brulon, a cujo cargo esta conduzir os Embaixado- 
res naquella Corte, com hum tenente seu, por nome 
Monsiur Giro, veyo visitar a suas Excellencias e 
darlhes as vindas da parte de sua Magestade, e 
lhes perguntou como querião fazer sua entrada, se 
occultos, se á Real, (dizem á Real com apparato de 
coches), e o Monteiro mor lhe respondeo que os 
Embaixadores dei Rey de Portugal não entravao 
senão de publico, pêra que os vissem todos. O 
Conde Brulon lhes disse o estimava muito, e hia 
logo avisar a S. M. que estava muy impaciente de 
sua tardança, (termo seu de fallar para encarecer 
desejo grande de ver e fallar a alguém), e tornaria 
assentar com suas Excellencias o dia. 

Em o mesmo vierao também fazer sua visita os 
três Deputados de Catalunha, e em nome daquelle 
Condado offerecerse a servir e ajudar, em tudo 
que seu poder fosse, a el Rey N. S., sobre o 
que o Deputado Ecclesiastico fez huma elegante 
oração. Depois lhe pedirão também quisessem ser 
seus intercessores com el Rei Christianissimo. Em 
o mesmo dia, por via de Ruam, tivemos huma 



— 5i — 

carta em que nos davao por novas certas que o 
senhor Dom Duarte estava por ordem do Empera- 
dor reteudo em Ratisbona, e que dali tratava de o 
levar para Áustria a alta, a hum Castello que cha- 
mão Nuestat, á instancia de hum Português rene- 
gado; que também dos Portugueses, alguns traido- 
res ouve algumas ve\es^; mas comfiança em Deos. 

Também nos chegarão canas com a"viso de que 
os senhores Embaixadores de Inglaterra e Olanda 
haviâo chegado a Inglaterra, onde do parlamento 
forão com grande aplauso recebidos; que o tempo 
e a justiça favorecem sempre ao Príncipe legitimo. 

Forão avisados suas excellencias que aos 25 do 
mes havião de fazer sua entrada, pello que tratarão 
logo de o faser saber aos demais Embaixadores 
estrangeiros residentes naquella Corte, e para isso 
forão decretados Pedro de Oliveiros interprete, 
Manoel Freyre de Macedo estribeiro do Monteiro 
mór, e João Franco Barreto seu secretario, os quais 
forão primeiramente á casa do Núncio de sua San- 
ctidade, que lhes fez muytas honras e lhes pergun- 
tou muyto pelo miúdo o successo de nossa restau- 
ração, estado do Reyno, idade e disposição dei Rey 
nosso Senhor, se tinha filhos e quantos, a que tudo 
se deu reposta conveniente; e o Núncio ultimamente 
lhes disse como o Marques de Castello Rodrigo fora 
chamado de Roma a Nápoles, donde despois o fa- 
zíão hir a Germânia ; e dandolhes duas cartas para 

* Camões, Lusíadas, Canto IV, xxxiii. 



— 52 — 

Dom Vincelo Mobile, agente do Colleitor passado, 
os veyo acompanhando até á sala. 

Forãose logo daqui os três a casa do Embaixador 
de Inglaterra, a quem não puderao falar por estar 
com o de Suécia em conferencias, e assi deixarão o 
de Suécia e forão ao de Olanda, o qual, chegados os 
Portugueses a sua presença, erguendo as mãos ao 
Ceo, com a boca chea de riso, e com grande admi- 
ração, disse: que de inimigos que éramos, viéssemos 
a ser amigos ! Detiveraose com elle muyto em lhe 
dar relação do socedido em a acclamação delRey 
nosso Senhor, que elle ouvia com tanto gosto e con- 
tentamento como se Olanda fora a que cobrara ta- 
manho bem; á despedida os acompanhou até á es- 
cada. 

Tornarão outra vez a casa do Embaixador Inglês, 
e ao recado de suas excellencias respondeo: que 
elle e toda sua casa estavão prestes ao serviço de 
suas Excellencias, mas que os advertia que nenhum 
dos Embaixadores avião de hir acompanhalos, em 
rasão das preferencias, em que havião socedido 
muytas desgraças ; o que, considerando suas Excel- 
lencias, como prudentes que erão, lho devião per- 
doar se elle o não fizesse, mas que mandaria o 
coche; acompanhounos até a escada. 

Forão logo ao de Suécia e desculpou-se de lhes 
não fallar, por estar indisposto em cama; e assi forão 
ao de Saboya, e logo ao de Florença, que lhes fizerão 
grandíssimas honras; logo ao de Génova, que por 
haver ja estado em Lisboa, no tempo que el Rey 



— 3 - 

Philippe Terceiro de Castella veyo a ella, conhecer 
e haver fallado a el Rey nosso Senhor, quando Du- 
que de Barcellos, lhes não quis fallar sem primeiro 
com elle se acentarem ao lume, porque era grande 
o frio que então fasia, ao qual os entreteve grande 
parte do dia em varias perguntas e respostas, e á 
despedida os acompanhou até a escada. O Embai- 
xador de Mantua, o Tenente do Lantgrave, e o se- 
cretario de Parma, que logo forão buscar, estavão 
ausentes da Corte. 

A 25, pois de Março, dia da Anunciação da Vir- 
gem Nossa Senhora, em cujos dias succederão quasi 
todas nossas felicidades e bons successos, forão os 
senhores Embaixadores, despois de jantar, que por 
esta razão foi mais cedo, occultos aonde chamão 
Villete, alguma meya legoa fora de Paris, e numa 
casa de prazer de hum homem meyo Português, 
que em seus princípios foi lapidario em Hespanha 
e agora ourives naquella Corte, esperarão a ordem 
de Sua Magestade. E entretanto aquelle honrado 
homem, que chamão Monsiur de Jardim, fez pôr 
na mesma sala onde suas Excellencias estavão e 
muita gente que a vellos ocorria, Madamas e Mon- 
siures, huma mesa redonda, que logo se cobrio de 
vários doces de Hespanha, Itália e França, para 
que os senhores Embaixadores tomassem primeiro 
huma refeição ; e porque elles a recuzavão, por ser 
Quaresma e dia de jejum, se levantarão algumas 
damas da obrigação ou amisade do próprio dono da 
pousada, e tomando os pratos, os levarão a offere- 



-54- 

cer a suas Excellencias, que ouverão mister muito 
pera lhes fazer crer que não os recusavão por in- 
chação Portuguesa, mas por obrigação da Igreja, 
cujo preceito de nenhum modo quiserão violar. E 
tudo foi logo distribuido por todos os circumstantes, 
pera cujos postres avião muito bons vinhos, Malva- 
sios. Canários e do País. 

A esta casa chegou pellas três da tarde o Mari- 
chal de Xatilhon, pessoa de idade de sessenta annos, 
valerosissimo soldado; decerao suas Excellencias ao 
pátio a recebello, e elle lhe disse como em nome 
de sua Magestade vinha para os acompanhar; agra- 
decerão suas Excellencias a mercê que sua Mages- 
tade lhes fazia, em lhes mandar pessoa de tanta 
authoridade e nome, e despois dos devidos compri- 
mentos, subirão á sala, onde estiverão em conver- 
sação aguardando viesse o Conductor, que chegou 
daly a huma hora; e avendose ja ajuntado muytos 
coches de senhores, e muytos senhores em seus 
coches, partirão suas Excellencias de Villete pellas 
quatro da tarde, e a ordem que os coches levarão 
foy esta. O primeiro coche era dei Rey, em o 
qual hia o Monteiro mór com o Marichal num 
estribo, e o Doutor António Coelho de Carvalho 
com o Conde Brullon em outro, e no espaldar 
hum Deputado de Catalunha, que servia de in- 
terprete. O segundo coche era da Raynha, em o 
qual hia Pêro de Mello, filho do Monteiro mór, e 
o Secretario Christovão Soares de Abreu e três 
filhos do Marichal. O terceiro era da sobrinha dei 



— 55 — 

Rey, Anna Maria Carlota de Borbon, filha única de 
Monsiur Gastão. O quarto do Monteiro mor, o 
quinto do Doutor António Coelho de Carvalho, o 
sexto de sua Eminência, o septimo do Príncipe 
de Conde, primeiro do sangue * naquelle Reyno, 
cuja molher, por elle estar ausente, mandou por 
um seu gentilhomem visitar aly a Villete a suas 
Excellencias, e a lhes offerecer, alem do coche, tudo 
o mais que necessário fosse de sua casa. A estes 
seguio a demais turba de coches, os quais me affirma- 
ram muitas pessoas que os contarão, que passavão 
de cento e sincoenta, os mais delles de seis cavai- 
los. A gente que a esta entrada acodio não tinha 
numero, qual a pé, qual a cavallo e qual em coche. 
E se affirmou, que de 40 annos a esta parte não 
entrou naquella Corte Embaixador algum com igual 
magnificência, e a quem tanta honra e festa se 
fizesse. 

Forão suas Excellencias aposentados em humas 
casas dei Rey, que servem de agasalhar os Embai- 
xadores extraordinários, e assi tem sobre a porta da 
rua hum letreiro, com letras de ouro sobre negro, 
que diz : Aposento dos Embaixadores extraordiná- 
rios; e em Paris são muito usados estes letreiros 
em casas nobres, e assi lemos por vários bairos da 
cidade: Casas do Principe de Conde; Casas do Du- 
que de Longavilla : Casas do Conde de Suason, etc. 
E os mecânicos tem cada qual á janella, ou porta, 

* Deve entender-se ; primeiro principe do sangue. 



-56- 

huma taboa com sua insígnia, como em Lisboa 
vemos as janellas dos bordadores e vestimenteiros. 
E assi he muito fácil acertar com a casa de quem 
queremos, sabendo a rua e a insígnia; e tudo he 
necessário pêra a confusão daquella Babylonia. 
Está este aposento dos Embaixadores extraordiná- 
rios no burgo de Sam Germão, em a rua de Tur- 
non, junto aos Paços da Raynha mãy, chamados o 
Luxemburg, de que adiante farey menção; e avia 
sido do Marichal de Anchra, o qual morrendo o 
anno de 1617 ás punhaladas e pistoletadas, como o 
Secretario Miguel de Vasconcellos, foi seu corpo 
arrastado pelas ruas da cidade, esquartejado e 
queimado, sua casa saqueada, e confiscados seus 
bens para a Coroa. Os três primeiros dias da en- 
trada de suas Excellencias fez sua Magestade Chris- 
tianissima o gasto conforme a sua grandeza. 

A quarta feira de trevas 27 * de Março, sendo avi- 
sados o dia de antes, forão suas Excellencias a Sam 
Germão beijar a mão a sua Magestade e propor- 
Ihe sua embaixada. Foi seu conductor o Duque de 
Xevrosa, tio do Duque de Guisa, o qual os veyo 
buscar em hum coche dei Rey, e noutro da Raynha 
veyo também o Conde Brullon; e, com sete coches 
mais, partimos de Paris pellas oito horas e chega- 
mos a Sam Germão, que está de Paris sinco legoas, 
pellas onze. 

1 Foi aos 27, enão aos 24, como diz o texto da i.* Edição, 
por engano do autor ou erro de composição. 



-57- 

Tinha el Rey já comido, e assim em suas Excel- 
lencias chegando, logo lhes deu audiência. Espe- 
rouos em huma camará, onde estava assentado em 
huma cadeira de veludo carmesi ao lado de hum 
leito guarnecido do mesmo, o que he costume 
daquelle Reyno, porque assi o fizerao todos os 
grandes delle a quem os senhores Embaixadores 
visitarão, e ainda os mesmos estrangeiros que por 
Embaixadores assistem naquella Corte ; como des- 
pois os nossos fizerão algumas vezes, seguindo o 
uso da terra. 

Entrando os senhores Embaixadores, com os 
ditos Duque de Xevrosa e Conde Brullon, e nós 
todos diante, sua Magestade se ergueo, e dando três 
ou quatro passos apressados, que assi são suas 
acções todas, os levou nos braços, mostrando gran- 
díssimo contentamento de os ver; que o Príncipe 
soberano tanto mostra sua tenção por suas acções 
como por suas palavras; porque, como disse hum 
discreto, cada sentido tem sua lingoagem particu- 
lar. 

Quis o Monteiro mór propor a embaixada, se- 
gundo levavão por regimento, mas el Rey o não 
quis ouvir, sem que primeiro ambos de dous se 
cobrissem ; fizerãono assi, e proseguindo o Monteiro 
mór, conforme a instrucção, lhe deu ultimamente a 
carta dei Rey nosso Senhor, cujo theor he o se- 
guinte: 

«Muito alto e muito poderoso e Christianissimo 



— 58 — 

fltPrincipe, Irmão e Primo. — Eu Dom João, por 
«graça de Deus Rey de Portugal e dos Algarves, 
«daquem e dalém mar em Africa, Senhor de Guiné, 
«e da conquista, navegação e comercio da Ethio- 
«pia, Arábia, Pérsia e da índia etc. Envio muito 
«saudar a Vossa Magestade como aquelle que muito 
«amo e prezo. Avendome Deos Nosso Senhor feyto 
«mercê de me restituir á Coroa destes meus Rey- 
«nos, que por Elrey de Castella erão injusta e tyra- 
«nicamente usurpados ; e dos quais sem contradi- 
«ção, e com geral aplauso e contentamento de meus 
«vassalos, estou de posse; e lembrandome da ir- 
«mandade, paz e alianças, boa^mizade e correspon- 
«dencia que entre os senhores Reys nossos prede- 
«cessores sempre ouve, e das mayores rasões e con- 
«veniencias que agora se offerecem, para se averem 
«de renovar e estabelecer entre nós com dobrados 
«vincules e seguranças, me pareceo enviar logo a 
«Vossa Magestade por meus Embaixadores a Fran- 
«cisco de Mello, do meu concelho e meu Monteiro 
«mór, e ao Doutor António Coelho de Carvalho, 
«do meu conselho e meu Desembargador do Paço, 
«dos quais, por suas qualidades, partes e experi- 
«encia, faço toda a mayor confiança, pêra que em 
«meu nome dem conta a V. Magestade de minha 
«restituição a esta Coroa, e lhe signifiquem o bom 
«animo e particular desejo com que estou para aver 
«de confirmar e restaurar as antigas amisades e 
«confederações, e as acrescentar muito em beneficio 
«de nossos Reynos e vassallos. 



-59- 

«A tudo o que os mesmos meus Embaixadores 
«disserem e propuserem de minha parte, que peço 
amuito encarecidamente a V. Magestade que mande 
cdar inteira fee e credito, como á minha própria pes- 
«soa; e o que elles assentarem, prometerem e capitu- 
«larem, cumprirey e mandarei cumprir, manter e 
«executar, sem duvida nem falta alguma, ao que 
«por esta carta me obrigo e o prometo debaixo de 
«minha palavra e fee Real, tendo por certo que 
«receberão de Vossa Magestade o favor, bom trata- 
«mento e breve despacho que he razão. 

«Muito alto e muito poderoso e Christianissimo 
«Principe, Irmão e Primo, Nosso Senhor aja a 
«pessoa de Vossa Magestade e seu Real estado 
«em sua sancta guarda. 

«Escrita em Lisboa a 22 de Janeiro de 1641 
annos.» 

As honras que sua Magestade em esta occasião 
fez aos senhores Embaixadores, forão tantas que 
não as posso relatar. Finalmente prometeo logo 
mandar em soccorro nosso a armada com que 
neste porto entramos; e todo favor e ajuda que em 
seus Reynos ouvesse, até vir elle em pessoa, sendo 
necessário; que a atadura da irmandade, como em 
hum de seus Pane g}'ri cos disse Monsiur de la Marca, 
nos obriga a que ajudemos aos que estão traba- 
lhados com sobrada violência ou extrema tyrannia. 
E á despedida os tornou abraçar, com a boca sem- 
pre cheya de riso, 



— 6o — 

O tumulto de gente, que comnosco entrou naquella 
camará dei Rey, que não era grande, não tinha 
conto; porque os Reys de França sãotam familiares 
e communs aos olhos de seus vassallos (como já 
alguém notou) que a todo homem, e de qualquer 
estado e condição que seja, permittem penetre até 
sua camará, veja o que faz e ouça o que diz; da 
qual brandura e estillo de condição dizem alguns 
que nasce ser a nação amantíssima de seus Reys, 
se bem não falta quem crea que isto os faz menos 
respeitados. 

Erão horas de Jantar, e assim o mesmo Duque de 
Xevrosa e o Conde Brullon condusirão os senhores 
Embaixadores a huma casa, dentro dos mesmos 
Paços, onde se lhes pos a mesa, a que elles janta- 
rão lauta e magnificamente ; e nós outros todos em 
outra casa aly próxima da mesma sorte, se bem 
nesta segunda mesa ouve pessoa que deixou de 
comer por falta de hum púcaro de agoa, que nem 
por Deos nem por Sancta Maria lhe quiserão dar, 
sendo que a pedia como lá o avarento da Escriptura 
ao pobre Lazaro; de maneira que estando a mesa 
com tantas e tam excellentes iguarias diante de sy, 
padecia as mesmas penas de Tântalo; vinho quanto 
quiséssemos, e o melhor de França. 

Acabando de jantar, fomos todos logo ver o Cas- 
tello novo, que he hum edifício magnifico e real, 
onde se vem seis gallarias muito famosas e quatro 
ou sinco grutas sotteráneas, feitas de rocha artificial 
e engenhosamente guarnecidas de embrechado, em 



-6i - 

o qual se representão varias figuras que de sy lan- 
ção muita agoa. A primeira gruta chamão de Or- 
pheo, por huma estatua que aly se vê sua do 
tamanlio de qualquer homen, com huma viola de 
arco em as mãos, acentado em a borda de hum 
tanque, que cobrem muitas arvores, em as quais se 
mostrão diversos pássaros, e por entre ellas vários 
animais ; e aberto o registo, começao a correr gros- 
sos tornos de agoa sobre o tanque, toca Orpheo a 
lira, saltão nagoa artificiosos peixes, meneãose as 
arvores como que querem dançar, ouvemse nellas 
varias aves, e por entre as artificiosas rochas, a 
hum lado e outro do musico Orpheo, sae toda espé- 
cie de animaes, tão próprios que parecem vivos. E 
abrindose a penha, que lhe fica nas espaldas, se re- 
presenta o inferno, e em companhia de Plutão e de 
Prosérpina, se vê logo vir Euridice para ser entre- 
gue a seu fiel amante, se bem com aquella dura ley 
tam sabida. Mostrase mais Hercules trazendo a 
rastos por huma cadea ao cão Cerbero, e seus ami- 
gos Thesseo e Perithoo roubando a Prosérpina. 
Apparecem Tântalo de bruços sobre o rio, Ixiam 
na Roda, Prometeo debaixo da Águia, e outros mi- 
seráveis, que a antiguidade fingia serem condenados 
a diversos tormentos no inferno. Cerrouse outra 
vez a penha, e tornandose a abrir, se representou 
hum fermoso Ceo, e nelle el Rey, a Raynha e Del- 
phim, e outras personages, muitos navios embaixo 
por mar, e muitos coches e cavalleiros por terra. 
E tanto que daqui sairão suas Excellencias e os 



-62 — 

demais senhores que os acompanhavão, foy tanta a 
agoa que por entre os busios, conchas e pedrinhas 
do embrechado sahio, como do sólio e paredes, que 
os demais sairão, como dizem, feitos huns pati- 
nhos. 

Em a segunda gruta se representão huns órgãos, 
com o organista, os quais por engenho de agoa 
soão suavissimamente, e a seu som respondem de 
huma e de outra parte artificiosas aves. 

Em a terceira gruta se mostra hum Neptuno com 
seu Tridente, sobre o carro, o qual ao som de huma 
buzina, que diante vem hum Tritão tocando, he ti- 
rado de dous cavallos brancos ; e, dando huma volta 
ao redor do tanque com muita solemnidade, se 
torna a recolher em o concavo daquellas mentirosas 
penhas. 

Em a quarta gruta apparece huma Andromeda 
atada a huma rocha, e levantando-se da agoa de 
hum tanque que representa o Oceano hum monstro 
marinho, dêce Perseo no cavallo Pégaso, e dando- 
Ihe com a espada grandes golpes, se representa por 
artificio e movimento das agoas quanto acerca disto 
contão os Poetas em seus versos. 

Em a quinta gruta está hum dragão, que pellos 
mesmos artifícios move as azas, levanta a cabeça e 
a abaixa, vomitando quantidade de agoa, e em o 
Ínterim se ouyem artificiosos roixinois, que cantão 
muy docemente. 

Ha outra gruta seca, para tomar fresco em os 
calores do Estio. As gallarias e camarás são todas 



-63 - 

ornadas de bellissimas estatuas e pinturas ; obra 
tudo de Henrique IV, pay do Rey que ora vive. 

O Gastello velho he devido a el Rey Carlos V, 
dito o Sábio. Tem hum grandissimo bosque de 
azinhaes em o qual ha muita caça, e se ve aly 
huma grande pedra, onde foy tratada alguma trai- 
ção, pella qual se chama o bosque da traição. 

Vistas as grutas, forão os senhores Embaixadores 
beijar a mão á Raynha. Estava assentada em huma 
cadeira raza de veludo carmesi (porque em França 
não ha uso dos estrados de Espanha) e noutra junto 
a ella huma senhora, que dizião ser filha de hum 
Príncipe de sangue, porem descuideime em pergun- 
tar de qual delles o era. Chegando os senhores 
Embaixadores, se levantarão, e S.Magestade muito 
alegre e risonha deu três ou quatro passos, onde se 
deixou ficar a recebellos. Quis o Monteiro mór 
darlhe conta de sua embaixada, mas S. M. o não 
quis ouvir, até que elle, e o Dr. António Coelho de 
Carvalho, se não cobrirão; e, ainda que S. M. sabe 
muito bem a lingoa Castelhana, como quem naceo 
e se criou nella, ouvia e respondia por meyo do 
interprete Pêro de Oliveiros, que para suas cãs e 
pessoa, tinha muita authoridade. 

Propuserão os senhores Embaixadores sua em- 
baixada; e sua Magestade lhes respondeo que esti- 
mava muito a felicidade e bom successo do Reyno 
de Portugal, que Deos quisesse conservar e augmen- 
tar por largos annos, e que tudo que em sua 
mão fosse, faria pello bem delle. Deulhe entam o 



-64- 

Monteiro mór a carta que levava da Raynha 
nossa Senhora, e com isso, tornando a beijarlhe a 
mão, se despedio. A carta dizia na maneira se- 
guinte : 

«Muito alta e muito poderosa e Christianissima 
«Princesa, Irmaa e Prima. — Eu Dona Luiza, por 
«graça de Deos, Raynha de Portugal, e dos Algar- 
«ves d' aquém e d' alem mar em Africa, Senhora de 
«Guiné e daconquista, navegação e comercio da 
«Ethiopia, Arábia, Pérsia e da índia etc — Envio 
«muito saudar a Vossa Magestade como áquella que 
«muito amo e prezo. A Francisco de Mello, do con- 
«celho dei Rey, meu Senhor, e seu Monteiro mór e 
«Embaixador, ordeno que com esta carta visite a 
«Vossa Magestade de minha parte, e peça a Vossa 
«Magestade boas novas de sua saúde pêra mas enviar, 
«significando a Vossa Magestade quanto as desejo 
«e hei de estimar ; e que me são presentes as gran- 
«des razões que se offerecem pêra aver de ser assi, 
«e pedir a Vossa Magestade instantemente, como 
«o faço, que admitta esta demonstração de meu 
«animo, como se deve á boa vontade de que procede, 
«que mais particularmente representará a Vossa 
«Magestade o mesmo Embaixador, a cuja relação 
«me remetto. — Muito alta e muito poderosa e 
«Christianissima Princesa, nosso Senhor haja sem- 
«pre a pessoa de Vossa Magestade e seu real estado 
«em sua sancta guarda. — Escrita em Lisboa a 22 
«de Janeiro de 1641.» 



— 65 — 

Não se pôde encarecer a lhaneza e affabilidade 
com que esta Princesa nos recebeo, e fallou a todos 
os que quisemos chegar a beijarlhe a mão. Estava 
acompanhada de muitas damas, de cuja fermosura 
não digo nada, porque talvez he mérito emmudecer 
de respeito; e, como o Sábio disse, todas as cousas 
difficultosas não as pode homem explicar com pala- 
vras. Mas he impossível que os que estão junto 
do Sol não sejão illustrados dos rayos do mesmo 
Sol. 

Forão daqui os senhores Embaixadores, e nós 
todos, beijar a mão ao Delphim. Delphim se cha- 
mão os filhos primogénitos dos Reys de França, 
pella doação (como he sabido) que Humberto, ultimo 
Delphim de Vienna, cidade entre os Alobroges, fez 
a Philippe de Valões Rey de França, com condição 
que aquelle estado ficasse pêra os Príncipes her- 
deiros de França, e o donatário se chamasse Del- 
phim. 

Nasceo este Príncipe aos sinco de Septembro de 
i638, entre as onze e o meyo dia, em Sam Germão 
em Laya, e se cre foy por milagre dado a suas 
Magestades, despois de 22 annos de casados; e, 
como o Ceo he sempre mais liberal em nos dar 
seus bens que nós em lhos pedir, após o Delphim, 
lhes deu o Duque de Anjú, que naceo em Septem- 
bro passado de 640. E permittira Deos darlhes 
muitos mais, que os filhos dos Reys em o Reyno 
são como as estrellas em o Ceo, que a copia e a 
multidão o faz mais bello e mais fermoso, donde 
5 



— 66 — 

o nosso poeta em hum canto de seus Lusíadas 
disse : 

Vimos a parte menos rutilante, 

E por falta de estrellas menos bella *. 

Nem o Delphim, nem o Duque tem ainda nome, 
que os Reys de França em o darem a seus filhos 
observão muytas cerimonias. 

Este lugar se chama Sam Germão em Laya, em 
differença de Sam Germão de Paris, e he antiga 
habitação dos Reys de França, principalmente desde 
Francisco Primeiro, que renovou e reparou o Cas- 
tello velho, sua continua morada por razão da muita 
caça que em seus grandes bosques e florestas tem, 
a que era muyto inclinado; e pela estrada, em 
grandes campinas, que pello caminho que vay a 
Paris lhe ficão de hum e de outro lado, são tantos 
os coelhos e veados que não sey tantas bocas de 
que se sustentão. 

Tem ordinariamente el Rey muita gente paga 
para guarda de sua pessoa, a saber, huma compa- 
nhia de Escoceses, outra de Suizaros, e três de 
Franceses; e alem disto hum regimento de Suiza- 
ros e outro de Francezes, com suas cabeças, ofíl- 
ciaes e mestres de campo, e huma companhia de 
mosqueteiros, ou guardas a cavallo, que el Rey pre- 
sente instituio, de que elle próprio he cabeça. 

A companhia Escocesa he a primeira e mais an- 

1 Gamões, Lusíadas, Canto V, xrv. 



-67- 

tiga, e assi precede as outras e goza de grandes 
privilégios ; trazem humas cazacas brancas, cubertas 
de escamas de prata dourada, e na lingoa Francesa 
são commumente chamados Hoquctons; e estes são 
os Archeiros, assi chamados porque antigamente 
usavão de arcos. As três companhias Francesas 
forão instituidas por três diversos Re3's, e trazem 
sobre suas armas e casacas as cores da hbré e as 
divisas do Rey que reyna. Os cem Suizaros trazem 
a hbré dei Rey com alabarda e vestem ao modo de 
seu Pais, e acompanhão a el Rey a pé. Tem el 
Rey alem destas companhias e regimentos vinte e 
quatro archeiros, que são os mais chegados a sua 
pessoa. E cada companhia tem seu capitão, e todos 
senhores calificados. Não digo dos officios da casa 
Real, porque espero fazello muito cedo em livro 
particular. 

Voltamos em o mesmo dia a Paris; e ao seguinte, 
que foy quinta feira de Endoenças, tiverão os se- 
nhores Embaixadores aviso para ir fallar a sua 
Eminência o Cardeal de Richieliu; e por este res- 
peito não aceitarão a visita do Embaixador de 
Olanda, que no mesmo dia lhes mandara pedir li- 
cença para os ver, mandandolhe dizer a causa e 
que daly por diante, o podia sua Excellencia fazer 
quando servido fosse. 

Veyo pois o Cardeal a Paris (por evitar a suas 
Excellencias o trabalho de ir a Ruel três legoas de 
Paris) e os senhores Embaixadores lhe forão fallar, 
condusidos também do mesmo Conde Brullon. 



— 68 — 

Sahio sua Eminência duas casas fora a recebellos, 
e pegando logo de huma mão ao Monteiro mór (de 
quem por alguma informação devia ter conheci- 
mento) os foy levando pêra huma camará, onde, ao 
lado de hum leito de veludo negro, estavão três 
cadeiras guarnecidas do mesmo, em que todos três 
se assentarão; e o Monteiro mor lhe deu conta de 
sua embaixada. 

Sabe sua Eminência a lingoa Castelhana tão bem 
como se fora criado em Toledo; e porque o Mon- 
teiro mór a não fallava, lhe perguntou se a sabia. 
O Monteiro mór lhe respondeo que sy, mas que 
não a fallava, porque era tam grande o ódio que 
aos Castelhanos tinha, que nem de sua lingoagem 
queria usar ; ao que sua Eminência replicou : >a.No 
importa, que las lenguas no pele an». 

E assim daly por diante fallarão de parte a parte 
em Castelhano; e o que ultimamente respondeo sua 
Eminência foy, que não somente havia de vir a 
Portugal a armada que sua Magestade prometera, 
mas por General delia e Embaixador extraordiná- 
rio o Marques de Bresé, seu sobrinho e herdeiro 
de sua casa. Perguntou miudamente pello suc- 
cesso de Portugal e sua felice restauração, que o 
Monteiro mor lhe referio, resumindo toda sua larga 
historia a hum breve e elegante epitome. Acerca 
do direito de sua Magestade a este seu Reyno se 
não fallou, porque este, como disse aquelle grande 
Secretario de Philippe Segundo de Castella, he 
como o fogo, que ainda que o afoguem com violen- 



I 



-69- 

cia e perca o acto por algum espaço, nam pôde 
perder a verdade natural, que possue do direito 
que a natureza lhe deu. Deulhe o Monteiro mór a 
carta, que lhe levava, dei Rey nosso senhor, cujo 
theor he o seguinte: 

«Eminentíssimo em Christo Padre e muito ex- 
«cellente Duque, Par de França. — Eu D. João, 
«por graça de Deos Rey de Portugal e dos Algarves, 
«daquem e dalém mar em Africa, Senhor de Guiné, 
«e da conquista, navegação e comercio de Ethio- 
«pia. Arábia., Pérsia e da índia, etc. 

«Envio muito saudar a Vossa Eminência, como 
«aquelle que muito amo e preso: enviando a Fran- 
« cisco de Mello, do meu Concelho e meu Monteiro 
«mór, e ao Doutor António Coelho de Carvalho, do 
«meu Concelho e meu Desembargador do Paço, por 
«meus embaxadores á Magestade dei Rey Christia- 
«nissimo, meu irmão e primo, pêra lhe dar conta de 
«minha restituição á Coroa destes meus Reynos, e 
«de outros negócios de grandíssima importância, 
ome pareceo ordenar lhes que dem a Vossa Emi- 
«nencia da minha parte a mesma conta, e lhe re- 
«presentem a grande estimação que faço de sua 
«pessoa, e que desejo que Vossa Eminência o en- 
«tenda assi e se certifique de que, em todas as oca- 
«siões que se oflerecerem, achará em mim a boa 
«amisade e correspondência devida ao muito que 
«espero, e me prometto de Vossa Eminência, e de 
«seu valor e prudência. A tudo o que os ditos 



— 70 — 

«meus Embaixadores disserem, e propuzerem de 
«minha parte, peço muito a Vossa Eminência que dê 
«inteira fé e credito, como a minha própria pessoa, 
«tendo por certo que, pêra seu bom e breve despa- 
«cho, lhe será de muito eíFeyto a ajuda e protecção 
«de vossa Eminência. 

«Eminentissimo em Christo Padre e muito Exce- 
«lente Duque, Par de França, Nosso Senhor tenha a 
«pessoa de vossa Eminência em sua sancta guarda. 
« — Escrita em Lisboa em 21 de janeiro de 641 an- 
«nos.» 

Sua Eminência a guardou, e, despedindose os 
senhores Embaixadores, elle os veyo acompanhando 
até a escada, por mais que suas Excellencias lho 
quiserão impedir; porque dizia que aos Embaixa- 
dores dei Rey de Portugal se devião as mesmas 
honras que aos Embaixadores do Papa, e aos do 
Emperador, e não largava a mão da do Monteiro 
mor. E, se as palavras são rama e folhas do cora- 
ção, como disse hum discreto, não ha duvida que 
sempre ajudará a defender nosso direito o poderoso 
braço do grande Cardeal Duque de Richieliu, alma 
do Império e Estado Francês, cujas gloriosas acções 
epilogou em dous Pane g/ricos Dom Francisco de la 
Marcha, parisiense, os quais, pello muito que á me- 
moria de sua Eminência devemos, prometo dar tra- 
duzidos despois de esta Relação. Chamase sua 
Eminência João de Plessis, e intitulase Duque de 
Richieliu, Fronsaco, Cardeal da Sancta See, Par 



— vi- 
de França; será de idade de 55 para 6o annos, pru- 
dente nos ditos, grave nas sentenças, agudo nas res- 
postas e incomparável na experiência ; engenho 
sempre vivo, animo sempre cândido e puro, espi- 
rito sempre nobre, entendimento bem composto e 
muy desembaraçado ; severo para os mãos e ale- 
gre para com os bons, sempre justo e sempre in- 
teiro ; varão em tudo perfeito. Porem dificultosa- 
mente poderá pena douta de escriptor eloquente 
declarar outros muitos nobres dons naturaes e 
acquiridos, e outras muito nobres virtudes, do animo 
de sua Eminência. Dizem tem de renda própria 
perto de trezentos mil escudos. O aposento, que 
em Paris tem, he tam grandioso, que sendo de hum 
vassallo, mostra bem a grandeza do Monarcha. 
Tem sempre consigo huma boa guarda ; que a in- 
veja da privança (disse quem a tinha bem experi- 
mentada) he comparada ao pó, do diamante prepa- 
rado, que roe insensivelmente. 

Mas porque alguns curiosos desejarão saber, e 
com muita razão, a pratica que o Monteiro mór 
faria a suas Magestades Christianissimas e a sua 
Eminência, em a relação de sua embaixada, e assi 
os negócios que elle e seu companheiro tratarião 
nella, me pareceo acertado trazer aqui a instrucção 
que el Rey nosso Senhor lhes mandou dar para seu 
regimento, porque do theor delia se poderá facil- 
mente colligir huma e outra cousa; dizia pois assi: 

«Francisco de Mello, meu Monteiro mor e do meu 



— 72 — 

Conselho, e Doctor António Coelho de Carvalho, 
do meu Conselho e meu Dezembargador do Paço, 
Amigos: Por a particular confiança que faço de 
vossas pessoas, e zelo pêra as couzas de meu ser- 
viço de mayor importância, tendo por serto, que 
nas de que vos encarregar, procedereis a todo meu 
contentamento e satisfação, ouve por bem de vos 
enviar por meus embaxadores a El Rey Christia- 
nissimo de França, e mandar vos dar sobre os ne- 
gócios que haveys de tratar a instrucção seguinte.» 

tPartireis desta cidade de Lisboa no navio que 
vos está sinalado, quanto mais brevemente for pos- 
sível, e fareis vossa viagem em dereitura á França, 
e do porto que tomardes, (que convirá ser o que 
fique mais vezinho ao lugar em que El Rey se 
acha) lhe dareis logo conta, e ao Cardeal de Rochi- 
lieu, pello secretario da Embaxada, de vossa che- 
gada, e de como vos envio por meus embaxadores, 
pêra que vos avizem da parte adonde haveis de hir 
tratar dos negócios que levais a cargo, e tanto que 
tiverdes reposta, o executareis sem perder hora de 
tempo.» 

«Em todos os actos e lugares em que concor- 
rerdes ambos os Embaxadores, precederá o Mon- 
teiro mor, tomando a mão direita e fallando pri- 
meiro.» 

«Levais cartas minhas e coppias delias pêra El- 
Rey Christianissimo e pêra o Cardeal, que dareis 
na primeira vista, pêra haverdes de começar a pro- 
posição dos negócios, a qual ha de ser:» 



-73- 

cQue reconhecendo a nobreza, e povos destes 
Reynos, o direito e justiça que eu tinha há Coroa 
delles, como netto legitimo, barão mais velho, e 
herdeiro da Sereníssima Senhora Dona Gatherina, 
minha Avó, que sancta gloria aja, immediata suc- 
çessora e herdeira do senhor Rey Dom Henrrique 
meu tio, que falleceo sem deixar successao, por ser 
sua pessoa mais conjuncta em sangue e parentesco, 
ao mesmo senhor Rey Dom Henrique, e filha do 
Sereníssimo Senhor IníFante Dom Duarte meu Bi- 
savô, á qual El Rey Dom Phellippe segundo de 
Castella violentamente e por força de armas havia 
uzurpado estes Reynos, e atégora forao continuando 
a individa occupação delles seus filho e netto Dom 
Phellippe 3.'' e Dom Phellippe 4."; estimullados 
estes meus Vassallos das tiranias, injustiças, e ve- 
xações com que os dittos Reys intrusos, e seus 
Menistros Castelhanos, os opprimiao e molestauao, 
não lhes goardando suas leys, foros, e previllegios, 
gastando e consumindo o património da Coroa, e 
as fazendas dos particulares, com tributtos e pedi- 
dos intoleráveis, pêra despezas supérfluas, e guer- 
ras escuzadas e illicitas, quebrantando os consertos 
e capitulações de amizade e comercio, que os se- 
nhores Reys meus predecessores sempre tiverao 
com os Princeppes, e nasções da Europpa, se re- 
solverão a libertar estes Reynos do jugo injusto e 
tirânico dos Castelhanos, no que eu ouve de con- 
sentir por descargo de minha consciência, e resti- 
tuição de meu direito e justiça, e da liberdade de 



— 74- 

meus vassallos ; e assy no primeiro dia do mez de 
Dezembro do anno passado de seiscentos e qua- 
renta, fui nesta cidade de Lisboa appellidado e 
alevantado por Rey, sem contradição alguma, e den- 
tro de breves dias se fez o mesmo em todas as 
cidades, villas, e lugares destes Reynos, com ge- 
ral aplauso e consentimento, e se me renderão e 
entregarão, sem golpe de espada, o Gastello desta 
cidade, e todas as mais fortalezas da barra, e lu- 
gares maritimos em que havia goarnição de gente 
castelhana; e em os quinze do mesmo mez de De- 
zembro fui solemnemente jurado, acclamado, e 
obedecido por Rey, e pêra rebater os cometimentos 
que da parte de Castella pode haver pellos lugares 
das fronteiras, tenho enviado ás Provincias confi- 
nantes com aquelle Reyno, Capitães geraes, e 
gente de guerra bastante, não sóo pêra a resistên- 
cia, mas pêra entrar por suas terras, a tomar satis- 
fação das perdas e damnos recebidos em todo o 
tempo da individa occupação destes meus Reynos.» 
«E que logo que fuy restituído a elles, lembrado 
da irmandade, paz, e alianças que entre os Senho- 
res Reys Portuguezes e Francezes, nossos Prede- 
cessores, sempre ouve, conservada e continuada 
com boa vezinhança e comrespondencia de nossos 
vassalos, por meo do comercio e comunicação li- 
vre, que em ambas as partes ouve em todos os 
tempos, e das grandes rezões que na prezente se 
oferecem pêra se haver de restaurar e acrescentar 
muito; me pareçeo enviarvos por meus embaxado- 



-75- 

res, pêra dardes de minha parte conta a El Rey 
christianissimo de minha restituição a esta Coroa, 
e lhe oíferecerdes e assentardes a amizade, paz e 
alianças que dezejo ter com elle, pêra cujo eífeito 
proporeis:» 

«Que de parte a parte haja irmandade, paz e 
liga, em todas as províncias, estados, lugares, ma- 
res e portos, de ambas as Coroas, incluindosse 
nesta confederação os Reys, Princeppes, Potentados 
e Republicas que tiverem ahança, paz, ou tregoas, 
com ambas as Coroas, ou com alguma delias, que 
particularmente se expressarão, e nomearão nas capi- 
tulações que se fizerem, para que de nenhuma ma- 
neira faça hum Rey guerra aos amigos e confedera- 
dos do outro, nem possa dar ajuda, favor, ou assis- 
tência de gente, dinheiro, navios, armas, munições 
e bastimentos a seus enemigos e contrários por 
qualquer via que seja.» 

«Que a esta liga serão admittidos especialmente 
os estados das Províncias unidas de Olanda, Ze- 
landa e Friza, querendo entrar nella; com as con- 
dições que se assentarem e capitularem a appro- 
vação de ambas as partes;» 

«Que o principal intento e fim desta liga, será 
fazersse por todas as vias a guerra a El Rey de 
Castella por mar e terra, invadindo o El Rey Chris- 
tianissimo a hum mesmo tempo em Hespanha pello 
Reyno de Navarra, que de direito lhe pertence, pêra 
o haver de cobrar em occasião tão opportuna, e 
pellas Províncias de Biscaya e Guipuscça, e em 



-76- 

Itália pello estado de Millao, e fazendo eu o mesmo 
pellos Reynos de Castella e Leão, que estão faltos 
de resistência como he notório, fazendo também os 
estados das Provincias unidas o mesmo pellos Pai- 
zes de Fraudes, com o que parece infalivel haversse 
de acabar de descompor desta vez a Monarchia 
Castelhana, e reduzir a El Rey de Castella a ter- 
mos de se perder de todo, ou aseitar os partidos 
que se lhe quizerem dar.» 

«Que ás cidades e Povos do Principado de Cata- 
lunha, que por deffença de seus foros e liberdade 
tomarão as armas, daremos toda a assistência e 
favor conveniente pêra se conservarem, levando 
adiante a empreza que tem comessado, e El Rei 
Christianissimo os ajudará mais particularmente, 
conforme a mayor comodidade que pela vizinhança 
ha pêra o poder fazer: 

«Que das Armadas que El Rey Christianissimo 
tem no mar, que fará aprestar logo, haja de en- 
viar a estes mares, por todo o mes d-e Abril, vinte 
nãos grossas de guerra, bem artilhadas, e petre- 
chadas de armas, pólvora, munições e bastimentos 
pêra hum anno, pêra que juntas ás que vierem de 
Olanda, e a minha Armada, (que a toda a pressa se 
está apreçebendo e constará de mais de vinte ga- 
liÕes de muita forssa), possão não somente senho- 
rear estes mares, e desfazer a Armada Castelhana 
que assiste em Cadiz, muito desapercebida, e falta 
de tudo, mas ainda occupar em terra os portos da 
mayor importância, e sustentalos, e fazer preza na 



— 77 — 

frotta das índias Occidentaes que ficou invernando 
nellas, esperando a nas paragens que forçosamente 
haverá de demandar, facção de tão grande impor- 
tância que, conseguindosse, remataria felicemente a 
guerra; e o que importar a preza que nella se tomar, 
se repartirá por iguaes partes;» 

«Que emquanto durar a guerra com Castella, se 
hajão de ajuntar, todos os annos, as armas e forsas 
da liga por mar pêra os mesmos effeitos, acrescen- 
tando ou deminuindo o numero de navios e gente, 
conforme as occurrencias do tempo e ocasiões que 
ouve r. D 

«Que desta liga e confederação se não poderá 
apartar hum dos contrahentes sem consentimento 
dos outros, nem fazer tregoas, paz, ou composição 
alguma, e de tudo o que por parte de El Rey de 
Castella se propuzer a qualquer dos ligados, se dará 
conta e comunicará aos outros, pêra que de comum 
consentimento e acordo se trate, resolva e assente 
uniformemente : » 

«Que El Rey Christianissimo me haverá de assis- 
tir com alguma cavalaria Francesa, sendo necessária, 
e assy com cabos e officiais práticos da guerra, aos 
quaes todos se pagarão seus soldos, e que dará 
provizão pêra que de França se tirem pêra estes 
Reynos, armas, pólvora e munições, e seus vassal- 
los as naveguem, e tragão a elles a vender livre- 
mente;» 

«Que o comercio comutação e trafico, entre os 
Vassallos de ambas as coroas, será geral livre e 



-78- 

franco, e como foi em tempo dos senhores Reys 
Portugueses, pera que da parte a parte naveguem 
aos portos delias, e possão vender suas mercado- 
rias, fazendas e empregos, e tirar os procedidos e 
retornos delias, sem que se lhes faça reprezaria, 
vexação, embargo, ou moléstia alguma, antes serão 
em mdo favorecidos, e se lhes guardarão inteira- 
mente seus previlegios e isenções, e se lhes conce- 
derão outros de novo, sendo justo e necessário.» 

«Vindosse de parte de El Rey Christianissimo 
(como espero) na concessão das propostas refferi- 
das, tratareis logo do effeito e concluzão delias, as- 
sentando e capitulando o que não tiver necessidade 
de se me comunicar, e dos pontos em que ouver 
duvida, ou se propuzerem de novo, me dareis conta, 
despachando embarcações ligeiras, pera que se vos 
responda, e se possão ajustar com a brevidade que 
tanto importa, ganhando o tempo na execução das 
facções da guerra, de que depende a mayor parte 
dos bons successos delia.» 

«Ao Cardeal de Rochilieu significareis em meu 
nome, a particular estimação que faço de sua pes- 
soa, valor e prudência, e que tenho por serto que 
na occasião prezente se conhecerá com mayores 
evidencias, em beneficio de seu Princeppe, e gran- 
des augmentos da Coroa de França e da opinião 
que elle tem grangeado, por meio do zelo e boas 
desposições com que os procura, e que em mym 
achará sempre a boa vontade e comrespondencia 
que he rezão, para folgar de o comprazer, e lhe 



— 79 — 

mostrar o devido aggradecimento do que espero que 
obre.» 

«A Raynha de França vizitará o Monteiro mor 
da parte da Rainha minha sobre todas muito amada 
e prezada molher, dandolhe a carta que leva, e 
coppia delia pêra lhe haver de fallar na mesma con- 
formidade.» 

«Se for necessário mostrarsse a El Rey de França 
e seus Menistros a justificação de meu direito e 
justiça com que fui restituido a Coroa destes Rey- 
nos, vos vallereis dos papeis que se vos entregarão, e 
do;mais que se offerecer, advertindo que, sem neces- 
sidade de o fazer, se deve escuzar por em duvida 
o que he tão notório e conhecido no mundo. — João 
Pereyra de Sottomayor o fez em Lisboa a vinte e 
hum de Janeiro de mil e seiscentos e quarenta e hum. 
E eu Francisco de Lucena a íiz escrever — Reyr> *. 

A 29 de Março tivemos cartas de Amsterdama, 
escritas aos 18 do mesmo, em que nos davão por 
novas que o Infante Dom Duarte era já levado a 
Nuestat de Áustria. 

Dia de Paschoa, que foy o ultimo do mes, tocou 
Sua Magestade os enfermos de alporcas, seguindo 
a graça particular concedida de Deos aos Reys de 



i Tendo vários erros o traslado das Instrucçôes publicado 
por Franco Barreto, preferimos copiar este documento do 
original que existe no A. N. da Torre do Tombo, {Coll. de 
S. Vicente, tom. 14, fl. 11). 



— 8o — 

França, desde Clóvis ou Clodoveo, que foy o pri- 
meiro que a alcançou para sy e para seus succes- 
sores (se bem alguns a attribuem a Carlos Martello 
e outros a Hugo Capeto) de poder só com o tacto 
sarar milagrosamente aos doentes deste mal, tido 
por incurável pellos medicamentos terrestres, como 
primeiro que todos experimentou hum privado do 
ditto Clóvis, chamado Aniceto, segundo Jacques de 
Charron, em a sua Chronica universal de França. 

Forão os que em Sam Germão se acharão para 
ser tocados, mil e duzentos de varias naçoens ; e 
delias atély sempre os Castelhanos tiverao o pri- 
meiro lugar. Quiserão agora preferirlhes os Por- 
tugueses, ouve entre huns e outros de parte a parte 
perfias e debates, chegando ás orelhas de sua Ma- 
gestade, mandou que os Portugueses tivessem sem- 
pre daly por diante o primeiro lugar ; grão favor, 
mas o Geo permittirá que nunca lhes seja necessá- 
rio usar delle. 

Ajuntarãose todos em hum grande pátio, que 
fica entre os Castellos velho e novo ; e postos ao 
redor delle em fileira, e de joelhos, vierão as com- 
panhias da guarda de S. M. e se puserão em ala 
por detrás delles. Veyo logo hum Capitão da 
guarda, e buscou-os muito bem a todos se trazião 
alguma arma, porque ao entrar do pátio lhes man- 
dão que as deixem fora. E se he frade, o buscão 
com mayor diligencia e cuidado pella treição que 
hum frade Jacobita, chamado Jaques Clemente, 
inspirado de hum mao concelho, cometeo contra 



— »I — 

Henrique III, a quem matou com huma faca, em- 
quanto estava lendo humas fingidas cartas que lhe 
dera. 

Confessouse el Rey e commungou na sua ca- 
pella, e, acabada a missa, sahio com hum manto 
branco semeado de flores de lis de ouro, levando- 
Ihe as pontas três fidalgos. E ao doente que avia 
de curar, primeiro lhe prendião dous fidalgos as 
mãos com suas mãos ; e então sua Magestade, esten- 
dendo o dedo polegar e o indice, lhos punha no 
rosto em forma de cruz, e em francês dizia o que 
em português soa: *Deos te sara, e eu te toco». 
Este sinal da cruz introdusio o Sancto Rey Luis, 
que a cerimonia antiga era só tocar com a mão. E 
assim como el Rey acabava de tocar a hum enfermo, 
o esmoler mór lhe dava huma moeda de prata que 
chamão cardecu *, que responde aos nossos oito vin- 
téns, em cujo lugar noutro tempo se dava huma 
moeda de ouro, mas as muitas guerras fizerão a 
mudança do metal. Tocado o doente e recebida 
a esmola, se sae logo para fora, onde os médicos 
de Sua Magestade lhe dam huma receita de como 
se hão de haver daly por diante. Descansou Sua 
Magestade neste acto de tanta piedade três vezes ; 
e acabado elle, lhe derão aly logo agoa ás mãos. 

Os Portugueses que aqui se acharão forão quatro, 
dos quais morreo hum em poucos dias, e o enter- 
ramos em a freguesia de Sam Germão ; e do Reyno 

1 Deve entender-se : quart d'écu. 
6 



— 82 - 

foy já tam mal, que nos admiramos de como chegou 
a Paris com o trabalho de tam largo caminho. 
Dous vierão sãos, e o outro de cujo se fez incurável. 

A 8 e 9 de Abril, e daly por diante, vierão muitos 
Monsiures visitar ao Monteiro mór, e oíFerecerse 
para vir a Portugal servir a el Rey nosso senhor ; 
entre outros o Duque de Vitemberg, bisarro man- 
cebo, cujos estados lhe tinha usurpado o Empera- 
dor ; logo o Barão de Gravelinas e o Conde Briona, 
o qual disse estivera já em Villaviçosa com el Rey 
nosso senhor. 

Aos 17 tivemos por Ave de Gracia cartas de 
Portugal, mais festejadas que agoa de Mayo, por- 
que, como disse hum bem entendido, as cartas dos 
amigos são respiração dos ausentes. 

Aos 18 fcjy visitar a suas Excellencias o Embai- 
xador de 01anda,'que se chama Guillelmo de Lyra, 
e se intitula Barão de Dooster Wick. E ao 22 o 
Embaixador de Inglaterra, que se chama Roberto 
Signe, e se intitula Conde de Leisestrie. 

Estava neste tempo em Paris muy doente de fe- 
bres malignas Pêro de Mello, filho mais velho do 
Monteiro mór a quem acompanhou nesta viage a 
França, como atras fica dito ; e a 24 de Abril, pellas 
sette horas da menhãa, foy Deos servido, despois 
de aver tomado os Sacramentos, de o chamar a sy, 
de idade de vinte annos, com tantos actos de chris- 
tão que foy hum raro portento. 

Foi, em hum caixão cuberto de veludo carmesi, 
enterrado na Capella mór de Sam Francisco, em o 



— 83 - 

habito do Sancto. Fizerãose os officios com muita 
solenidade, e nelles assistirão muitos senhores, 
parte movidos de sua própria cortesia, e parte man- 
dados por sua Magestade e por sua Eminência. A 
vinte e sete do mes foy o Conde Brulon dar ao 
Monteiro mór os pêsames da parte dei Rey ; e logo 
o Conde Brunhol da parte dei Rey e da Raynha ; 
e o conde de Nojon da parte de sua Eminência ; 
e despois disso algumas senhoras tiveráo o mesmo 
comprimento com o Monteiro mór pella morte de 
seu filho, que verdadeiramente sentio com tanto 
estremo, que se temeo algum aballo grande em sua 
saúde ; que a vida dos filhos he a alegria de seus 
progenitores, como pello contrario os mesmos com 
sua morte fazem que os sobreditos, como faltos da 
luz dos olhos, fiquem sepultados em huma eterna 
tristeza. Mas como o que ama deveras ha de atraves- 
sar per espadas nuas pello amigo, tendo aviso para 
ir a Ruel fallar a sua Eminência, dissimulando a dor 
que no interno padecia, como tão zeloso do serviço 
de sua pátria e de seu Rey, porque ja se oíferecera 
a maiores perigos, não quis faltar em o que era 
obrigação de seu officio e assi foy a Ruel com seu 
companheiro, onde sua Eminência, iterando as pri- 
meiras honras, tornou a affirmar e confirmar o pro- 
metido. 

He Ruel lugar não muito grande, authorisado si 
com a presença de sua Eminência, cuja morada 
ordinária he, e hum dos melhores lugares dos con- 
tornos de Paris, de que fica sinco léguas, e duas 



-84- 

de São Germão em Laya. O que tem de conside- 
rar são os bellissimos jardins de sua Eminência, 
grutas, fontes e tanques, em que ha quantidade de 
cisnes e muitas diversas aves de varias regioens; 
e das fontes he huma de singular artificio. Esta 
consta somente de huma escada de mármore, que 
tem 84 degraos, pello meyo dos quais de aho abaixo 
ha outo ou nove fontes, dispostas com igual dis- 
tancia e ornada cada qual com duas larangeiras 
annãs. 

Estas fontes, aberto o registo, lançao de si grande 
copia de agua, e pellos dous lados da escada se 
vem despenhando dous ribeiros, de degrao em de- 
grao, com tanta suavidade que ao som de seu mur- 
muro pudera adormecerse o próprio Argos. Ao 
pe da escada se ajunta toda esta agua em hum 
tanque raso com o chão, donde per hum canal, 
cheyo industriosamente de varias pedrinhas, sae 
atravessando pello meo ao comprido huma rua fer- 
mosissima, cuberta de diversas arvores, até se des- 
penhar em hum grandioso tanque ; artificio de todos 
muy celebrado. 

Mas o que mais nos admirou foy huma pres- 
pectiva que se vê numa parede da cerca. Esta re- 
presenta hum arco Romano, com suas colunas, fri- 
sos, cornijas e mais perfeiçoens de hum frontes- 
picio, tanto ao vivo que não parece senão de vulto; 
e sobre tudo o vão que neste arco se finge he tão 
próprio e diáfano a nosso parecer, que apalpandoo 
nos todos huma e muitas vezes, não acabávamos 



— 85 — 

de resolver se o que víamos era algum corpo aerio, 
se o que apalpávamos era algum ar corpóreo. 

De Apelles conta Plínio que pintara ao grande 
Alexandre de maneira que a mão direita, com 
que apertava hum rayo, parecia solta e desapegada 
do lenço ; tanto que dizia o vulgo serem dous os 
Alexandres, hum delles, filho de Philippe, a toda 
força invencível, e outro, obra de Apelles, a toda 
arte inimitável. De caens e de cavallos conta o 
mesmo Plinio, Ficino e Maiolo tão retratados ao 
natural, que a sua vista forão ouvidos os verdadeiros 
caens e cavallos, estes rinchar e aquelles ladrar; e 
que as uvas pintadas de Zeuxis enganarão as aves 
com seu aspecto, e, o que mais he, a toalha pintada 
de Parrhasio ao mesmo Zeuxis. 

E não se dizem menores efeitos da escultura, 
como testifica a lanterna de Mentor, a novilha de 
Miron, os peixes de Fidias, e a Vénus e Cupido de 
Praxiteles ; mas tudo creyo ficaria muito a perder 
de vista comparado com esta prespectiva, pois a 
todos nos enganava de maneira que muitas vezes 
nos benzíamos, admirando a sutileza e industria da 
arte; e assi contão que as aves também enganadas, 
querendo continuar seu voo pello vão que por 
baixo do arco se representa, encontrando com a 
parede, pella força que em seu voo levão, caem 
ao pe delia, ou mortas ou atordoadas ; e sendo , 
haverá dous annos, ferida esta prespectiva de hum 
rayo, foy alto assumpto aos nobres sugeitos daquella 
corte. E porque não fique entregue ao rigor do 



— 86 -. 

tempo o nome de tão sublime artífice, se bem aqui 
não o esculpimos em bronzes, chamase o Mere, e 
actualmente vivia á nossa partida em Paris. 

Tinha sua Eminência em Ruel trinta cavallos 
ginetes, delles espanhoes, e delles berberiscos e 
napolitanos ; e huma Academia de Brida para al- 
guns quarenta pages, filhos de senhores, que em 
sua casa se criam e doutrinão em as demais artes 
liberaes e sciencias, de que tem diferentes mestres, 
e daqui adultos vão pêra os cargos e dignidades do 
Reyno. 

A 29 de Abril forao os Senhores embaixadores 
falar ao Irmão dei Rey, que então estava em casa 
do secretario Xavigni, seu chançaler. Elle os 
festejou muito e lhes fez grandíssimas honras ; 
não tiverão necessidade de interprete, porque sua 
Altesa real entende muito bem a lingoa caste- 
lhana. 

A 2 de Mayo foy ver a suas excellencias o em- 
baixador de Saboya, o qual se chama Carlos liber- 
tino de Solaro, e se intitula Conde de Morete, Mar- 
ques da Chiusa, e Mordomo de Madama. Assi o 
fez Alexandro Sardigni, Visconde de Sardigni, Con- 
celheiro dei Rey, Marques de Xomum e Bisconde 
de Busanci. E o dia seguinte tornou o Conde 
Brion. 

Em quarta feira, 8 de Mayo, véspera da Ascen- 
ção de nosso Senhor, tivemos novas de haver che- 
gado a Rochella o senhor Bispo de Lamego, Dom 
Miguel de Portugal, irmão do Conde de Vimioso, em- 



-87- 

baixador de Roma, e por sua via tivemos cartas do 
Reyno. 

Neste dia fomos ver a igreja de São Diniz, abba- 
dia real, duas legoas de Paris, a cujo edifício deo 
principio El Rey Dagoberto e augmento Sugero 
abbade, no anno de 641. Tem de comprimento 
trezentos e noventa pes, de largura 100, de altura 
outenta, e sustentase o tecto em sesenta grossos 
pilares ou colunas ; as portas são todas de bronze 
dourado, e El Rey Dagoberto a deixou cuberta de 
prata; mas avendo huma grande fome em França, 
Clóvis segundo, seu filho, a fez tirar e a destribuyo 
pellos pobres, disendo que estes erão os verdadeiros 
templos de Deos, e a cubrio de chumbo, como se 
agora vê de presente. Em recompensa da prata 
que tirou, isentou a abbadia da sugeição do Bispo 
de Paris. 

Foy esta igreja edificada e consagrada miraculo- 
samente, e conserva cousas tão miraculosas, que 
será força dilatarme aqui mais alguma cousa; que 
não ha musico, por perfeito que seja, se he merce- 
nário, que não saya das regras da arte, se com isso 
entende agradar aos ouvintes. 

Foy edificada milagrosamente na maneira seguinte: 
o Príncipe Dagoberto, sendo avisado da cólera de 
seupay, Clotario II, pella accusação de Sadragisello 
Duque de Aquitania, seu avo, a quem por respeitos 
justos, pegandolhe da barba, lha rapou com huma 
navalha, deixando em continente o paço por evitar o 
castigo, se retirou ao lugar de Catulac, em huma 



pequena capella, que ao presente chamao São Diniz 
da Estrella, que fica abaixo da abbadia de Sam 
Diniz cousa de hum tiro de besta, onde jazião en' 
terrados os corpos de Sam Diniz e de seus com- 
panheiros; lembrandosse que, andando elle já por 
aly á caça, vira um corço, o qual perseguido de 
seus cães e monteiros se recolhera na mesma ca- 
pella que achara aberta, da qual nem os cães nem 
os monteiros o puderão lançar, e que o mesmo lhe 
poderia a elle acontecer com seu pay de quem 
fugia, como de eíFeito aconteceo; porque, mandando 
seu pay muita gente para o prender, jamais pude- 
rão chegar a elle. 

El Rey não se podendo persuadir de tam pro- 
digiosa maravilha, quis ir em pessoa fazer expe- 
riência, e succedeolhe o mesmo que aos demais; 
pello que, reconhecendo que aly obrava a dedo 
de Deos, mitigando sua cólera, perdoou ao filho 
e o recebeo amigavelmente entre seus braços ; o 
que Dagoberto, no tempo que aly esteve naquella 
sancta capella, tinha huma noite dormindo visto 
por visões, em a qual lhe parecia ver hum venerá- 
vel velho, em companhia de outros dous, revestidos 
de claridade celeste, que o assegurava da reconci- 
liação com el Rey seu pay, e da successão da mo- 
narchia francesa, e o amoestavão desse ordem a 
desenterrar seu corpo, e de seus companheiros que 
jazião naquelle lugar, e o fizesse pôr em outro mais 
authorizado. 
Este velho e seus companheiros erão Sam Diniz, 



-89- 

Sam Rústico e Sancto Eleutherio, segundo em seu 
Thesouro sacro escreve D. Germao Milet, religioso 
de Sam Bento. E achando Dagoberto aver suc- 
cedido tudo quanto tinha visto na visão, fez edi- 
ficar huma igreja ao modo daquelles tempos, muyto 
sumptuosa, e hum mosteiro da Ordem de São 
Bento, aos quais elle deu grandes privilégios e 
immunidades; e juntamente enriqueceo, para em 
tudo a fazer magnifica e real, de muitas peças de 
ouro, prata e pedras preciosas. E para armar o 
corpo da igreja, lhe mandou tecer ricas tapicerias 
de ouro e seda, e perfiladas de pérolas, mandando 
por Sancto Eloy seu ourives fazer huma cruz de 
ouro semeada de pedraria, como se vê ao presente. 

O modo com que foy consagrada miraculosa- 
mente contão na maneira seguinte: estando o edifí- 
cio da igreja acabado, fez el Rey Dagoberto ajun- 
tar hum grande numero de prelados para fazer a 
dedicação com a mayor solemnidade que fosse 
possivel, assignando o dia aos 24 de Fevereiro, de- 
dicado á memoria do Apostolo Sam Mathias. 

Concorrerão de todas as partes muitas pessoas 
para assistir a esta celebre acção; e cuidando aga- 
salharse dentro na igreja, forão todos lançados fora 
pellos guardas dei Rey, senão hum pobre leproso, 
que com o favor das trevas ficou escondido no canto 
de huma capella, que parece foy permissão divina, 
porque lá pello silencio da noite, vio com grande 
espanto toda a Igreja cheya em hum instante de 
huma grande claridade, e nosso Salvador Jesu 



— go - 

Christo em forma humana, revestido de hábitos pon- 
tificaes, entrar por huma das Janeilas, acompanhado 
dos dous Principes dos Apóstolos, de Sam Diniz e 
de seus companheiros, e de huma grande multidão 
de anjos e de sanctos, o qual consagrou a igreja 
por sua divina mão e fez todas as cerimonias acos- 
tumadas em tal acção, lançando agoa benta por 
toda ella, e imprimindo o olio celeste em os luga- 
res preparados, servindo o e administrando o Sam 
Diniz e seus companheiros. E indo onde estava o 
leproso escondido, lhe mandou fosse dar conta do 
que avia visto a el Rey Dagoberto ; escusavase o 
leproso com a vilesa de sua pessoa e asco de sua 
enfermidade, e nosso Salvador lhe tirou do rosto a 
pelle cuberta de lepra e a lançou na parede, onde 
miraculosamente ficou apegada e o leproso são e 
limpo, e sua cara tam bella e fresca que parecia a 
de hum pequeno infante ; o qual milagre assi feito, 
nosso Salvador se tornou com sua gloriosa com- 
panhia por onde avia vindo, e o pobre homem bem 
alegre e contente, despois de aver humildemente 
dadas as graças devidas ao soberano Medico que o 
avia curado, foy logo pella manhãa dar a el Rey 
conta de tudo ; o qual, averiguada a verdade, agra- 
deceo muito a Deos os recebidos favores e não 
quis que os Bispos fizessem mais outra cerimonia. 
Esta acção sacrosanta se vê toda representada em 
três grandes retabolos, postos em três grandes pi- 
lares que fazem o cruzeiro da igreja, entre o choro 
e o altar mór, todos com versos latinos que si- 



- 91 - 

gnificão o successo, que aconteceo no anno de 636 
despois da Encarnação de Nosso Senhor, aos 24 de 
Fevereiro, segundo o dito de D. Germão Milet e 
outros muitos authores franceses. A lepra, ou 
aquella pelle cheya de lepra que nosso Salvador 
tirou do rosto daquelle homem, se conserva ainda 
em o thesouro desta igreja com outras muitas re- 
liquias, de algumas das quaes farey logo menção, 
e está em hum vaso de prata que hum religioso 
leva pendurado ao pescoço quando vay a procissão, 
os dias de rogações e de Sam Marcos. Sendo 
pois a igreja assi consagrada, el Rey Dagoberto 
fez logo tirar os sanctos corpos da capella pequena 
em que estavão, e metendo os em três preciosas 
caixas, os fez trasladar com grande magnificência 
ao lugar onde estam, aos vinte e dous de Abril 
do anno de 636, em que a igreja de Paris celebra 
esta trasladação. 

As cousas preciosas que tem, são, alem de vinte 
e tantos corpos de sanctos que estão destribuidos 
por diversas capellas, muitas reliquias de nosso 
Salvador e de sua Mãy Sanctissima, e de outros 
sanctos e sanctas, virgens e martyres, as quais se 
conservão todas em riquissimos cofres e outros 
vasos de prata, ouro e cristal, ornados de muita 
pedraria de grão valor. Não darey relação de todas, 
por não proceder em infinito ; de algumas particu- 
lares sim, e a meu ver mais preciosas, qual he huma 
cruz de ouro maciço, que tem mais de dous palmos 
e meyo de alto, dentro da qual está encayxado hum 



- 92 — 

pedaço de lenho da cruz de nosso Salvador, que 
tem palmo e meyo de comprido e polegada e meya 
de grossura em quadro. He esta cruz toda guar- 
necida de muitas pedras preciosas e de grão nu- 
mero de pérolas orientaes e outras menores, de que 
toda esta bordada, a qual foy dadiva do muyto au- 
gusto Rey de França Philippe II, chamado o con- 
quistador, avô do glorioso São Luis, e ouve a de 
Baldovinos, Emperador de Constantinopla. 

Outra cruz de ouro, posta sobre hum fermoso 
cristal de roca, e nella hum crucifixo feito de lenho 
da cruz de nosso Salvador por mãos do Sancto 
Pontifice Clemente III, que o mandou ao mesmo 
Christianissimo Rey Philippe Augusto. Hum dos 
três ou quatro cravos com que nosso Salvador foy 
pregado na cruz, o qual houve do Emperador Cons- 
tantino, V do nome, o Emperador e Rey de França 
Cario Magno, e o tinha posto em Aix de Alemanha 
em huma igreja que fundara em honra da Virgem 
Maria, mas o Emperador Carlos o calvo, seu neto, 
o fez pôr nesta igreja de Sam Diniz. 

E fazendo agora hum breve epilogo de todas as 
outras relíquias dadas a esta igreja por diversos Reys 
e Raynhas de França, e abbades do mesmo con- 
vento, aqui se mostra : do sangue do nosso Salvador, 
e do sangue e agoa que manou de seu lado, despois 
do golpe da lança; de seu sudário, cabellos, túnica, 
esponja, espinhos de sua coroa, pedra de seu se- 
pulchro, do lançol com que se ungio na cea, da 
pedra do monte Calvário, dos coeiros de sua in- 



-93- 

fancia, da mirrha que lhe oíferecerão os Reys Ma- 
gos ; do leite de sua May Sanctissima, de seus ca- 
bellos e de seu manto; da cabeça de São João Bau- 
tista, huma espalda do mesmo sancto; hum dente 
de São João Evangelista, hum braço de São Bento, 
outro do sancto velho Simeão, ossos do grão pro- 
pheta Isaias, que viveo alguns 600 annos antes da 
Encarnação de Nosso Senhor; e outras muitas re- 
líquias. 

Também se mostra hum cálix com que São 
Diniz celebrava a missa, o qual he de cristal guar- 
necido de prata dourada e muitas pedras precio- 
sas, ao modo antigo; o báculo pastoral do mesmo 
sancto, seu annel pontifical e hum escritório seu 
feito a grega de huma feição muito antiga. Ha aqui 
hum annel de Sam Luis e huma taça por donde o 
sancto Rey bebia, a qual he de hum pao chamado 
tamaris, e estimada muito pella grande virtude que 
tem para os [ojpilados do baço. Ha dous exquisitos 
cálices, feitos ambos de ágata, peças de inextimavel 
valor, e hum vaso daquelles em que Christo Senhor 
nosso converteo a agoa em vinho nas bodas de Cana 
da Gahlea. 

Do profano ha também aqui cousas memoráveis, 
entre outras : huma taça de ouro que foy do grande 
Rey Salamão, enriquecida de jacintos pelas bordas, 
e por dentro de granates e esmeraldas finas, e no 
fundo tem huma fermosa çaphira, sobre a qual está 
entalhada de meyo relevo a figura do dito Rey as- 
sentado em hum trono, conforme a scriptura sancta 



-^ 94 — 

o representa em o 3." Livro dos Reys; huma unha 
de grifo; hum corno de unicórnio, que tem seis pés 
e meyo de comprido, o qual ouve o Emperador 
Cario Magno de Aaram Rey da Pérsia ; a buzina de 
marfim com que Roldão andava á caça; huma len- 
terna que sérvio em a prisão de Christo Nosso Se- 
nhor em o jardim dos olivaes, chamada a lenterna 
de Judas, por aver sido este triste o autor desta 
prisão; hum espelho do Príncipe dos Poetas Lati- 
nos, o qual he todo de azeviche ; as espadas de Sam 
Luís, de Turpim, de Cario Magno, e a da generosa 
amazona Joanna, a Poncella. 

Guardãose também nesta Igreja, desde o tempo 
de Sam Luiz para cá, os ornamentos e insígnias que 
servem em as sagrações dos Reys e Raynhas de 
França, que são o annel e manto real, a diadema 
ou coroa, a mão de justiça e o sceptro. E as 
coroas que elles trazem o dia de sua coroação são 
de grande valor ; a dos Reys he de ouro maciço, 
enriquecida de pedras preciosas e estimada em va- 
lor de cento e onze mil e outocentos e quarenta 
escudos ; e a coroa das Raynhas em valor de trinta 
e sinco mil e outocentos e sessenta escudos, como 
diz o author da Historia universal de França; e, 
segundo o testemunho de Guy Coquille, todo o the- 
souro desta abbadia está avaliado em quatrocentos 
e trinta e quatro mil, duzentos e noventa e dous es- 
cudos. E o que mais he de notar, que havendo os 
Normandos e outros muitos herejes tomado este 
lugar, morto todos os ecclesiasticos, arruinado todas 



-95- 

as outras igrejas, jamais a esta de Sam Diniz foy 
feita alguma violência. 

Entre todas as outras pedras que aqui estão, de 
grande valor, ha dous carbunclos, onde considerey as 
patranhas que desta pedra contão muitos que não 
a tem visto, dizendo que alumia como huma tocha 
ou hum grande farol em noite escura; a verdade he 
que ás escuras, entre as outras pedras (de cujas va- 
rias espécies vimos aqui hum grande numero) ella só 
reluz como huma braza acendida, sem outra luz nem 
resplandor; e daqui lhe veyo o nome de carbun- 
clo, que quer dizer, carvão aceso. Plinio lhe dá 
o principado entre todas as pedras preciosas, e 
nellas ha machos que reluzem mais, e fêmeas que 
reluzem menos ; e humas e outras, escreve o mesmo 
Plinio, por authoridade de Boco, averem-se achado 
em a nossa sempre nobre, leal e augusta cidade 
de Lisboa. 

Estão em esta igreja enterrados quasi todos os 
Reis de França e outros Principes, começando de 
Dagoberto, seu fundador; Luis seu filho, Carlos 
Martello, Pepino seu filho e outros muytos, al- 
guns dos quais se vem relevados em mármores 
brancos sobre sepulturas de mármores negros e 
com seus epitaphios, huns latinos, outros franceses. 

Indo de Pariz a São Diniz, se passa por Ma- 
drid, edifício famoso que El Rey Francisco de Va- 
lões, cognominado o Grande, em a volta de Espa- 
nha, havendo sido livre da prisão, fez edificar, porem 
não entramos dentro. 



-96- 

A 9 de Mayo, que foy dia da Ascenção de nosso 
Senhor, se disse em Paris a primeira missa em a 
igreja nova dos Apóstolos, que fica em a rua de 
Santo António, dedicada a S. Luis ; e a disse sua 
Eminência o Cardeal de Richeliu, resada, comun- 
gando nella a El Rey e a Raynha, e se achou pre- 
sente Monsiur Gastão, irmão delRey ; a qual aca- 
bada, se disse logo outra cantada, a que também 
assistirão suas Magestades. Achou-se aqui o Mon- 
teiro mor só, por estar seu companheiro enfermo 
em cama, e todo o tempo que durou a segunda 
missa, esteve sempre praticando com El Rey, que 
alli lhe tornou a dar os pêsames da morte do filho 
e perguntou muito particularmente por El Rey 
nosso Senhor e pella Raynha, e quantos filhos tinha, 
machos ou fêmeas, de que tudo o Monteiro mór lhe 
deu inteira relação. 

Vestia el Rey de negro com meias verde mar, e 
entrou na Igreja, levando diante de si a companhia 
dos Suizaros, com caixa e pifano. A porta, da 
banda de dentro, lhe deitarão ao pescoço o colar de 
ouro com a cruz e insígnia da ordem do Sancto 
Espirito, que o anno de mil e quinhentos e setenta 
e nove, o primeiro dia de Janeiro, festa da Circun- 
cisão do Senhor, el Rey de França e Polónia, Hen- 
rique Terceiro, instituio, porque em semelhante dia 
tomou posse de dous Reynos, a saber, o primeiro 
de Polónia no anno de mil e quinhentos e setenta e 
três por eleição, que o ditto dia foy feita de todos 
os potentados e senhores do ditto Reyno ; e o se- 



-97- 

gundo de Franca, em semelhante dia, no anno se- 
guinte de i574, por morte e falecimento dei Rey 
Carlos o IX seu irmão, que morreo no castello de 
Vienna. E em a primeira solemnidade da dita ordem 
fez vinte e outo cavalleiros na igreja e convento 
dos Agostinhos em Paris, lugar elegido pello dito 
senhor para as solemnidades desta instituição. 

Entre as obrigações que faz cada cavalleiro que 
recebe a dita ordem, he trazer sempre huma cruz 
de terciopello amarello tostado, feita a maneira de 
huma cruz de Malta, cosida sobre a capa ou vesti- 
dura superior, da parte esquerda, assi como os 
cavalleiros da ordem de Christo e outras ordens; no 
meyo da qual cruz hade estar huma pomba, figurada 
em bordadura de prata, do tamanho que a trouxer 
o mesmo Rey, que he o chefe e o soberano da or- 
dem. Trará também outra cruz da dita ordem 
pendurada ao pescoço, de hum listão de seda azul 
celeste, a qual cruz será feita em forma da outra, 
toda de ouro, esmaltada de branco pellas bordas, no 
meyo sem esmalte e dentro de cada angulo huma 
flor de lis ; e se também fôr cavalleiro da ordem 
de Sam Miguel (que he muito ordinário), terá sobre 
o meyo a insígnia da dita ordem de hum lado, e 
do outro huma pomba; e se não fôr cavalleiro da 
ordem de Sam Miguel, trará de hum lado e outro 
a pomba. 

A ordem de Sam Miguel, pois veyo a pelo falar- 
mos nella, foy instituída no anno de 1469, o pri- 
meiro de Agosto, por el Rey Luis Undécimo em o 

7 



-98- 

seu castello de Amboesa, e entam ordenou trinta e 
seis cavalleiros, de que elle foy o chefe, e despois 
seus sucessores Reys de França. A insígnia desta 
ordem he hum colar de ouro, que pende sobre a 
cintura, com a imagem de Sam Miguel, e são obri- 
gados os cavalleiros a trazello sempre ; e estas são 
as ordens dei Rey de que atras fiz menção. 

Jantarão este dia suas Magestades em o Luvre, 
palácio seu quando assistem em Paris ; pello que o 
Monteiro mor, desejando fazer á Raynha algum pre- 
sente de cousas de Portugal, achava ser muito pouco 
tudo que de Portugal levava, em respeito da pressa 
com que deste Reyno sahio, mas considerando que 
as pequenas dadivas a Reys são sinal da adoração 
que se lhes deve, se resolveo em lhe mandar humas 
caixas de brincos de âmbar, com luvas do mesmo, 
e outras caixas de doces e frascos de agoas, que 
sua Magestade mostrou estimar muito. Mandou en- 
trar dentro adonde estava os homens que isto leva- 
vão, e lhes mandou abrir as caixas ; achouse entam 
aly a Princesa de Conde, e tomando hum par de 
luvas na mão, as deo a cheirar á Raynha, de quem 
forão muito celebradas, e mandando recolher tudo 
assinaladamente disse que nas agoas lhe não bulis- 
sem. Chamou logo hum daquelles senhores que 
ali estavão, e á orelha lhe disse (conforme se pode 
entender), desse aquelles homens, que erão dous 
lacayos de Monteiro mór, sinco dobrões dobrados, 
os quais lhes derão logo em saindo dali; e mandou 
diser aos Senhores Embaixadores que estava havia 



— 99 — 

muito esperando por elles, e se não havia de ir 
pera São Germão sem lhes fallar, pello que os avi- 
sava fossem logo; e assi o Monteiro mor, por quanto 
seu companheiro estava havia muitos dias de cama, 
se meteo logo em o coche e foy ao Luvre, onde os 
veyo receber abaixo o Conde Brulon, que lhe disse 
estava Sua Magestade com grande impaciência per 
sua tardança. 

Subimos acima onde Sua Magestade estava entre 
muitas senhoras que a acompanhavão, bem como o 
sol entre as demais estrellas e planetas ; e entrando 
o Monteiro Mor, se levantou da cadeira e deu três ou 
quatro passos arecebello, com extraordinária alegria, 
e fasendo o cubrir, lhe fallou logo em castelhano ; o 
que vendo o Monteiro mor, entre outras cousas lhe 
disse : tPues como Viiestra Magestad me no hiço 
esta merced, y favor la pe{ primera que le besé la 
mano}» ao que a Raynha respondeo: «;/o os hablé 
en castelhano, porque pense que me tuviessedes 
miedo » . (íA vuestra Magestad (replicou o Monteiro 
mor) como a tan gran Senhora y Princesa si, mas 
como a castelhana no^ : dito que a Raynha feste- 
jou muito, e era tanto o riso de parte a parte por 
estes e outros semelhantes de cada qual, que a 
todos os circumstantes enchião de alegria e conten- 
tamento, e pera todos os Portugueses que ali nos 
achámos foy a mais alegre tarde que nunca tivemos; 
e o Monteiro mor ficou nella em notável reputaçam 
com sua Magestade, de cujo talento e descrição pu- 
blica todo aquelle Reyno, antes o mundo, grandes 



— 100 — 

maravilhas. Disselhe também o Monteiro mór que 
quando lhe fallara a vez primeira, estava com 
grande desconfiança de que sua Magestade lhe não 
receberia bem sua embaixada, considerando a irmãa 
dei Rey de Castella, a quem aviamos tirado o Reyno 
de Portugal, e respondeo : « Considerarades bos, que 
la veniades haier a la Rerna de Francia, j madre 
dei Delphin, y liiego se os quitara'». 

Finalmente, estas e outras razoes forao de parte 
a parte ditas com graça e galantaria tanta, que 
mais não podia ser. 

Deolhe entam a Raynha os agradecimentos do 
presente, e o Monteiro mór se desculpou, dizendo 
ser aquillo huma amostra do que avia em Portugal. 
Aqui lhe perguntou sua Magestade muito por elRey 
nosso Senhor, e pella Raynha, e todas as demais 
cousas do Reyno; e despedindose o Monteiro mór 
com lhe beijar a mão, sua Magestade se foy para 
Sam Germão em Laya. 

Nestes dias seguintes visitou o Monteiro mór só, 
pella indisposição de seu companheiro, as senhoras 
que costumão ver os Embaixadores que vão áquella 
corte, e em primeiro lugar a Madamusella, sobri- 
nha dei Rey, única filha de seu irmão ; a Princesa 
de Conde e sua nora Duquesa de Anguin, irmãa 
do Marquês de Bresé, General da armada que veyo 
daquelle Reyno, e Embaixador extraordinário a este; 
a Princesa de Suason e sua filha, e a Madama de 
Aguilhon, sobrinha de sua Eminência. 

Em IO de Mayo entrou naquella corte hum em- 



— lOI — 

baixador de Venesa, e em i5 do mesmo hum nún- 
cio de Sua Sanctidade. Em 19, que foy dia do 
S. Spirito, tornou sua Magestade a tocar os doentes 
de alporcas, que forão alguns 400. Em 21 foy 
visitar ao Monteiro mor o Duque de Anguiena, filho 
único do Principe de Conde, a quem o Monteiro mór 
tinha visto em cama enfermo, moço de idade de 17 
para 18 annos, e Principe de muitas prendas, ca- 
sado com a Duquesa de Angui. 

Ao outro dia * chegou a Paris Dom Miguel de 
Portugal, Bispo de Lamego, que partira de Lis- 
boa a 9 de Abril; pos no mar 22 dias como nós 
pusemos, em os quais teve três grandes tempes- 
tades, e foy na Rochella com grandes aplausos 
e acclamações recebido, e em Paris hospede do 
Monteiro mór. Levou sua Excellencia (assi fallão 
naquellas partes a todos os Embaixadores de Reys, 
e aos de Principes por Senhoria) o retrato dei Rey 
nosso senhor, que se bem a pintura não mostrava 
ser de mão de algum Apelles, pello que descobria 
de seu original alegrou os olhos de todos; porque, 
como bem disse hum Castelhano (que sempre fal- 
lão melhor do que obrão) <íLas imagines adora^ 
quien conoce la figurai), e logo o dia seguinte de 
sua chegada foy beijar a mão a Sua Magestade em 
Sam Germão e darlhe a carta que lhe levava dei 
Rey nosso senhor, porquanto estava de partida em 
o mesmo dia para campanha. 

' 22 de Maio. 



— 102 — 

Em o mesmo dia forão suas Excellencias visitar 
ao Marquês de Bresé, marichal de França, chefe do 
nome e armas de Maillé, pay do general e embai- 
xador de França; e ao embaixador de Saboya, e a 
Monsiur de Sardigni. 

Ao outro dia se partio o senhor Bispo para Abba- 
villa, a fallar a sua Eminência, e os senhores Em- 
baixadores se ajuntarão em casa do grão Ghanciler, 
onde também estavão Monsiur Botilher e seu filho 
Monsiur de Xavigni, para a resolução das capitula- 
ções entre Portugal e França, para o que sua Ma- 
gestade Ghristianissima, antes de se partir a cam- 
panha, deixara procuração bastante. 

E assi se rematarão e confirmarão as pazes e ami- 
zades, com grande gosto e contentamento de ambas 
as coroas, ao primeiro de Junho, sabbado, dia de- 
dicado a Nossa Senhora, a quem suas Excellencias 
forão dar as graças em a igreja mayor que lhe he 
dedicada. E he muito para considerar que em sab- 
bado, primeiro de Dezembro, foy el Rey nosso Se- 
nhor Dom João o IV, que Deos guarde muitos 
annos, acclamado por Rey destes seus Reynos; em 
sabbado i5 de Septembro jurado*, e em sabbado 
primeiro de Dezembro * liado e confederado com el 
Rey Christianissimo. 



* Lapsos «videntes do copista ou erros typograficos ; a 
data do juramento é quin:[e de dezembro; e a da assignatura 
do tratado é primeiro de junho, como do próprio texto se 
deduz. 



— io3 — 

Fizerão suas Excellencias o dia seguinte algumas 
visitas, e receberão outras. A 6 de Junho tornou 
o senhor Bispo de Lamego de Abavilla. Aos 7, 
forão suas Excellencias com o marichal de Bresé 
ver a casa da moeda, que he dentro do Luvre, 
e huma das grandiosas cousas daquelle Reyno. 
A 9, despedirão suas [Excellencias hum próprio 
com cartas e aviso a el Rey nosso Senhor, o qual 
veyo por via da Rochella; e a 10 do mesmo par- 
tirão suas Excellencias para Abavilla a beijar a 
mão a el Rey e a pedirlhe licença para se virem 
para Portugal, e levarão em sua companhia a Ale- 
xandre de Bodean, filho segundo do Conde de 
Parabere, o qual hia também pedir licença a sua 
Magestade para passar a este Reyno. 

Fomos naquelle dia dormir a Beaumont, outo le- 
goas de Paris, cidade da Ilha de França, porque 
em os Paises de Mena, ou Mans, de Lymusin, de 
Henault, e de Gaula ou Gascunha, ha outras do 
mesmo nome. 

Daqui fomos a outras outo legoas jantar a Beau- 
voux, cidade do pais de Picardia, muito grande 
e fermosa, posto que todas as casas são de madeira; 
e daqui a sete fomos dormir a Xampui, pobre al- 
deã, onde passamos a noite cruelmente em razão 
das más camas que tem ; sendo que o lugar he fres- 
quíssimo e muito povoados seus bosques e florestas, 
de quem está em meyo, de muitos roixinoes. 

Ao outro dia, que foy huma quarta feira, 12 de 
Julho, fomos dormir a Abavilla, e foy jornada de 



— to4 — 

doze legoas; e a dez de Xampui fica Pont-Dormi, 
lugar pequeno, mas fortificado com grandes fossos 
de agoa, casas matas, trincheiras, plataformas e 
presidio de soldados ; e neste caminho ficão algumas 
aldeãs, em as quais homens e molheres não fazem 
mais que fiar la á roda, e fazer teas de pano. 

Achamos em Abavilla a sua Magestade de cama, 
sangrado duas vezes, e assi não pode este dia dar 
audiência a suas Excellencias, porque estava de 
purga, mas deo a sua Eminência. E á sesta feira 
Sua Magestade, por dar despacho aos senhores Em- 
baixadores, se levantou e mandou seu coche com 
hum Príncipe do sangue de Saboya, moço de i8 
para 19 annos, a quem só vimos cubrir diante 
dei Rey, em busca de suas Excellencias, a quem 
recebeo com muita festa e alegria; e despois de 
algumas praticas, lhes encomendou sua Magestade 
muito dissessem a el Rey nosso Senhor que aper- 
tasse de cá com os castelhanos, que ele o faria lá 
por França e Catalunha, lembrandolhe a sua Ma- 
gestade que quando fosse necessário, o avia de achar 
a seu lado ; que não esperasse que o inimigo o 
viesse buscar, porque sem duvida era muito melhor 
acometer do que ser acometido, com outras muitas 
razões a este propósito, conforme a longa experiên- 
cia que o tem feito arbitro da paz e da guerra em 
todo o mundo. 

Fazião suas Excellencias conta de dar volta a 
Paris por Amiens, metropoly de Picardia, cidade 
muito considerável que el Rey Henrique IV, pai do 



— io5 — 

Rey que agora reyna, tomou aos castelhanos no 
anno de iSgy, por ser o caminho todo até Paris por 
hum bellissimo pais e de agradáveis lugares, como 
são Clermont, Burgo e outros, por donde aviamos 
de passar; porem sabendo o el Rey e sua Eminência, 
não consentirão, dizendonos viéssemos a toda pressa 
embarcar á Rochella, que estava já a armada espe- 
rando, e que de caminho passássemos logo por Sam 
Germão a fallar com a Raynha. 

E assi nos despedimos de sua Magestade, que 
não somente a suas Excellencias, mas a nos todos 
abraçou com grande benevolência e amor; e ao 
sabbado seguinte saimos de Abavilla, com o mesmo 
Bisconde de Parabere, e com o Conde Brulon e 
Monsiur Giro seu tenente. 

He Abavilla cidade moderna, cabeça do Con- 
dado de Ponthiú, chamado assim pelas diversas 
pontes que aly se vem, por ser o pais alagadiço e 
cheyo de agoas, que todas vão descargar em o mar 
Oceano, junto a Sam Valério, antigo mosteiro. 
Divide a o rio Somma, que também separa a ver- 
dadeira Picardia do condado de Artoes, começando 
junto a S. Quintim em Vermandois, e passando 
por Hen e Paronna, vem a Amiens, onde se divide 
em quatro ramos, os quais abaixo da cidade se tor- 
não ajuntar á ponte de Sam Miguel, e daly, decendo 
a Picqueny e Abavilla, entra no mar Oceano. 

He toda cercada de altos e grossos muros de la- 
drilho terraplenados, com hum profundo fosso, e 
em as portas suas pontes levadiças ; e dentro e fora 



— io6 — 

tem muitas hortas e pumares que a fazem muito 
fresca e belia. Daqui tornamos a dormir ao dito 
lugar de Xampui, onde levamos outra noite tal como 
a primeira ; e no caminho encontramos os Depu- 
tados de Catalunha, que el Rey mandava para suas 
casas e hião a beijarlhe a mão. 

Ao Domingo fomos ouvir missa a Bouver, seis 
legoas de Xampui, a qual he huma cidade muito 
boa, ainda que as casas de taipa e -madeira; mas 
tem muitas e muy fermosas igrejas, quais não vi- 
mos em outra parte de França, nem tão bem orna- 
das, e com mesas de confrarias ao modo de Por- 
tugal. 

Daqui a dez legoas fomos dormir a Pontoesa, 
cidade do pais de Vuelxin de França (em distinção 
de Vuelxin de Normandia) chamada assi quasi 
ponte de Oesa *, que alguns de presente chamao 
Isara ou Lisara, que vem do monte de Senys ou de 
Tarantesa ; começa em Confolant em Saboya e 
entra no Delphinado em Montmelião, donde pas- 
sando por Grenobla e Romãs, se mete em o Rosna 
ao porto da Rocha do Clin. O lugar he muito 
aprasivel, bem murado'; tem seu fosso pella parte 
superior e pella inferior a ribeira. Ha nella mui- 
tas fontes de boa agoa, o que não achamos por 
outros lugares de França, e sobre tudo tem excel- 
lentissimas estalagens. 

* O que em seguida se 18 refere-se ao rio Isère, cujo nome 
latino (Isara) se confundia com o do Oise; não diz portanto 
respeito a este. 



— 107 — 

A 17 do mes, chegamos a jantar a S. Germão, 
que são sinco legoas, e pellas três da tarde fallarao 
suas Excellencias com a Raynha e lhe beijarão a 
mão, e nós ao Delphim; vimos o Duque de Anjú, 
seu irmão, e demos volta a Paris, onde todos acha- 
mos cartas de Portugal e as tiverão suas Excellencias 
dei Rey nosso Senhor, com o que tivemos grandis- 
simo contentamento, por sabermos ficavão suas Ma- 
gestades e Altezas, queDeos guarde, com saúde; e 
em o Reyno não haver cousa que nos desse cuidado 
nem moléstia. 

Mas pois estamos com o pé no estribo para dar 
volta á pátria, será razão dizermos primeiro alguma 
cousa de Paris e de suas grandezas. 

Primeiramente Paris he a mayor cidade de França, 
de que he cabeça, e está fundada em huma ilha que 
fazem os rios Senna e Oesa, chamada commummente 
a Ilha de França : o Senna, que dos antigos foy 
chamado Sequana, nasce, segundo alguns, em o 
monte Voga no Duquado de Borgonha; e reforçan- 
dose em o paul de Nova, passa por Xatilhon, 
Mussy, Bar, Corbuel, Paris, donde volta a Sam Di- 
niz, Manta, Vernon, Ponte de Arca, Ruão e Bovilla, 
e daqui se vay meter em o Oceano Britânico entre 
Harflur e Honflur, lugares de Normandia. 

Delle escreve João Botero, em o primeiro livro 
Das causas das grandezas das cidades, o que muito 
serve para este lugar, por o avermos com nossos 
olhos "visto, a saber : que sendo este rio mediocre 
entre outros, trás embarcações tam grossas e sos- 



— io8 — 

tem pesos tam grandes, que o não crerá, quem o 
não vê, e em sua proporção não ha rio no mundo 
que sostenha pesos iguais ; e diz proceder isto, 
alem da terrestre grossura da agoa, de huma certa 
e natural viscosidade que a agoa do Senna tem, a 
qual se apega ás mãos como sabão e as alimpa 
admiravelmente de toda mancha. 

O rio Oesa nasce junto a Guisa, e caminhando 
por Mesieres, Nojon, Pontuesa, Vernol, Ilha de 
Adam e Campiena, se vem a ajuntar com o Ena, e 
ambos vão a dar no Senna, o qual divide a Paris 
em três partes principaes, a saber; Villa, Cidade e 
Universidade. 

A Villa, que he a mayor parte, fica a hum lado 
da Gallia Bélgica entre o levante e o septentrião: 
a Cidade fica„ como coração do todo, em huma 
ilha que o Senna faz, a qual dizem os authores 
foy a primeira que se habitou; e a Universidade 
fica a hum lado da Gallia Céltica para a meyo dia 
e poente. Juntão-se todas três por nove, ou dez 
pontes; as principaes são as de Notradama, ou de 
Nossa Senhora, a de São Miguel e a Ponte Nova. 

A de Notradama foy feita despois do anno de iSoy, 
governando Luis XII, com sete arcos e sessenta e 
outo casas da mesma altura e largura de hum e de 
outro lado ; e aos quatro cantos tem suas torres, e 
no meyo as imagens de Nossa Senhora e de São 
Diniz, com as armas de Paris por baixo, que são 
huma nao de prata com as vellas inchadas, em 
campo roxo, que até nisto se parece com Lisboa, e 



— 109 — 

o chefe de azul cercado de flores de Lis de ouro, 
as quais... ^ cognominado o Augusto, e Conquistador, 
pêra mostrar, como dizem as chronicas francesas, 
que ella era cabeça de todas cidades de França, e 
semelhante a huma nao abundante de todas as 
cousas da qual el Rey he a cabeça ou piloto. 

A ponte de São Miguel foy feita em tempo de 
Carlos VI por Hugo Aubriot, prevoste de Paris, e, 
caindo no anno de 1549, foy reedificada com casas 
de hum e de outro lado de altura igual. 

A Ponte Nova, que está entre o Luvre e o con- 
vento dos Agostinhos, contem doze arcos, sete da 
parte do Luvre e sinco da parte dos Agostinhos. 
E no meyo dos arcos, numa praça que faz onde 
acaba a ponte da parte dos Agostinhos, está huma 
excellentissima estatua de bronze que representa a 
el Rey Henrique IV o Grande, a cavallo, que he 
toda a perfeição da ponte. Está sobre hum pedes- 
tal de mármores em cujas quatro faces se vem, em 
bronze gravadas, as vitorias e tropheos principaes 
deste valeroso Príncipe, com bellas inscripçoens 
latinas e cercada de grandes grades de ferro. 

A estatua foy enviada por Ferdinando primeiro, 
e Cosme segundo, seu filho, tio e primo da Raynha 
Maria de Medicis, mãy do Rey que agora he. 

E ao segundo arco da ponte pella banda do Lu- 
vre está levantada huma torre, á qual por certos con- 

1 Ha aqui um lapso evidente, erro de copia ou typogra- 
phico. Conjecturamos que as palavras omiitidas seriam: lhe 
conferiu Philippe. 



i 



— no — 

duetos sobe a agua da ribeira; e nella se representa 
a Samaritana dando agoa a nosso Senhor, e no alto 
delia se ve hum relógio industriosissimo, porem 
agora estava todo desmanchado. Dizem que quando 
quer dar a hora, faz antes hum som e musica muito 
agradável por certas campainhas que tem; mostra 
as horas, com o curso do Sol e da Lua sobre o 
orizonte, os meses, e os doze signos do Zodíaco. 

O chão da ponte he dividido em três; pello meyo 
passão os coches e cavallos, e pellos lados, que são 
mais levantados alguns três pés, passa a gente de 
pé; e toda ella, desde o Luvre até os Agostinhos, 
pello lado principalmente que fica para a cidade, 
está cheya de tendas de livreiros onde se acha toda 
sorte de livros, de qualquer faculdade e condição 
que sejão, e mais acomodados do que em a rua de 
Sanctiago, que he a fonte manancial de todos elles. 

Comprendese Paris dentro de altos muros, fossos, 
repairos e trincheiras, e tem i5 portas ou entradas, 
todas com suas pontes levadiças, a saber: a de 
S. António, do Templo, de Nela, de Bussi, de 
S. Germão, de S. Martinho, de S. Diniz, de S. Mi- 
guel, de Sanctiago, de S. Marçal, de S. Victor, de 
S. Bernardo, a Porta Nova, a de Montmatre, ou 
Monte dos Martyres, e a de S. Honório, posto que 
estas duas ultimas estão derribadas. 

Quanto a sua grandeza, por opinião de Botero, 
que eu me não atrevo a affirmallo, he Paris a mayor 
cidade de Europa, despois de Constantinopla, e em 
povo e abundância de todas as cousas faz muitas 



— Ill — 

ventagens a todas as outras da Christandade, o que 
não duvido. 

Fazemlhe mais de quinhentas ruas, todas calçadas 
de huma pedra quadrada, das quais repartem 48 ou 
5o á Cidade, e duzentas e outenta á Viila, as demais 
á Universidade; e todas ellas se fechao de noite 
com grossas cadeas de ferro. 

Entre igrejas, capellas, hospitaes e conventos 
tem mais de 140, e os collegios passão de 5o. Das 
igrejas, a principal e mais antiga he a de Notra- 
dama, dedicada á Virgem Maria, e fica na parte 
que chamão a Cidade. Começou a el Rey Dago- 
berto, filho de Hugo Capeto, e acabou a Philippe 
Augusto, que foy no anno de 1180. 

Tem sinco naves e sustentase o edifício todo em 
120 pilares ou colunas; e tem de comprimento 174 
passos, de largura 60 e de altura 100. Contem 45 
capellas, com suas grades de ferro, e entrão nella 
por onze portas. Sobre as três partes do írontes- 
picio estão as estatuas de pedra de 28 Reys, que 
começão de Childiberto até Philippe Augusto. Tem 
duas altas torres ou campanários, a que se sobe por 
389 degraus, e ha nellas treze sinos, entre grandes 
e pequenos, e algum tam grande que não o podem 
abranger desouto e vinte homens, posto que não o 
medi, mas assi o affirma Jaques de Charron em sua 
Historia JJyiiversal; e em tempo bom se ouve sete 
legoas em redor. 

Esta igreja he a primeira em dignidade de todo 
o Reyno; ha nella muitos cónegos, capellães, e 



— 112 — 

outras dignidades, que ao todo fazem numero de 
127. 

Das capellas tem o primeiro lugar a Sancta Ca- 
pella, que está dentro no Paço Real, que agora 
chamão da Justiça, e fica também na cidade, e são 
duas igrejas huma por baixo da outra, cujos nobres 
edifícios se devem á memoria do sancto Rey Luis, 
desde o anno de 1242 por diante. E nella pos este 
sancto Rey a coroa de espinhos de nosso Salvador, 
a qual ouve do emperador Baldovinos II de Cons- 
tantinopla, e também huma grande parte da verda- 
deira cruz, e a esponja com que se deu de beber a 
nosso Salvador, estando na cruz, o fel e vinagre, e 
o ferro da lança com que Longuinhos lhe passou o 
lado direito; as quais preciosas relíquias, por con- 
sentimento do mesmo Emperador que as havia em- 
penhado aos Venesianos, resgatou por grande summa 
de dinheiro. 

Alem destas relíquias dizem haver nesta Sancta 
Capella outras muitas, como são coeiros e manteos 
com que nosso Salvador, em sua infância, foy pen- 
sado pella Virgem Maria sua mãy ; huma cadea de 
ferro com que depois foy atado; a toalha sobre a 
qual fez e instituyo o Sanctissimo Sacramento, 
quando ceou com seus Apóstolos; a roppa de pur- 
pura que Pilatos lhe fez vestir por escárnio ; a cana 
que os Judeus lhe derão em lugar de cetro; hum 
pedaço da pedra de seu sepulchro; huma parte do 
Sancto Sudário ; do leite da Virgem ; huma parte 
das cabeças de S. João Bautista, de S. Clemente, 



de São Simeão e a do mesmo sancto Rey Luís, e 
assi a vara de Moysés. Porem nada disto vimos, 
e perguntando eu a hum cónego, dos que ali ha, 
especialmente pella coroa de nosso Salvador, quando 
e como a poderíamos ver, me respondeo, que nem 
ella nem as outras rehquias daquella casa se ha- 
vião de mostrar, nem ao próprio Rey, por certas 
causas que pêra isso havia: o que me fez sospeitar 
que estas sanctas relíquias, alem de outras cousas 
preciosas que ali avia, se devião perder com o 
incêndio do anno de 1618, que abrasou todos os 
edifícios do paço. 

Dos hospitaes he o mais insigne o que commum- 
mente chamáo dos quinze vintes Cegos, em memoria 
de Soo fidalgos a que ali os Sarracenos tirarão 
os olhos : está na Villa, em a rua de Santo Honório, 
e fundou o o S. Rey Luis pêra os pobres cegos. 

Dos conventos he memorável o do Templo, pol- 
los cavaleiros Templários, fundados no anno de 1 122 
e extinctos no de 1809 pollo Papa Clemente quinto, 
o qual he hum edifício vasto e espaçoso, cercado de 
muralhas, com huma grande torre, e pode servir de 
alojamento pêra a corte toda de hum Rey: fica na 
Villa. 

Famosa he a Abbadia de São Germão, que de 
presente gosa hum irmão natural dei Rey : he toda 
cercada de muros, e tem sua justiça particular, e 
nella se faz em o mes de Fevereiro huma muito 
grandiosa e rica feira, chamada de São Germão: 
fica no burgo da Universidade. 

8 



- ÍI4 — 

O Convento de São Francisco, que foy edificado 
no anno de i23o, tem quinhentos frades, e aqui 
numa capella está sepultado o senhor Dom Antó- 
nio Infante de Portugal, se bem a inscripção, que 
em o tumulo tem de versos latinos, o nomea por 
Rey, e não sei com que rasão e fundamento. Mor- 
reo em agosto de ibgb annos, em os 65 de sua 
idade : ficarao-lhe quatro filhos, por nome Manoel, 
Christovão, Felippa e Luisa. O senhor Dom 
Manoel foy casado com Emilia, irmã do Conde 
Mauricio de Nasau, e teve delia, alem das filhas 
(huma das quais he casada) a Dom Luis e a Dom 
Manuel: morreo em Flandes de mais de 65 annos 
em 25 de Julho de 638, e em o mesmo anno, 22 dias 
antes, seu irmão o senhor Dom Christovão, que 
está enterrado com seu pay. Em o meyo do corpo 
da igreja está a sepultura, em tumulo levantado, de 
Alexandre de Ales, doutor famoso. Neste convento 
lia o famoso Escoto, e se diz aqui todos os annos 
huma missa em Grego. 

Dos collegios he o mais celebre o de Navarra, 
fundado por Joana, Raynha de Navarra, mulher 
dei Rey Philippe o Bello, com huma boa biblioteca; 
mas o de Sorbona he muito mais antigo. Tomou 
este o nome de Roberto de Sorbona, seu fundador, 
privado do Sancto Rey Luis ; e o Grande Cardeal 
Duque de Richeliú, privado de Luis o Justo, o vay 
reedificando de novo, com huma igreja que será 
hum dos melhores edifícios de Paris ; nelle se ensina 
theologia. 



- ii5- 

O Collegio de Clemonte na rua de Santiago 
occupão agora os padres da Companhia, que o tem 
renovado todo e ennobrecido muito. O claustro 
ou pátio, onde estão as classes, he bellissimo; nelle 
se ensina gramática, rethorica e a faculdade de ar- 
tes e theologia. Dão os padres pupilage a muytos 
filhos de senhores, os quais se repartem em três 
dormitórios, conforme o grão de seus estudos, a 
saber: os de gramática em hum, os de retórica 
noutro, e noutro os de filosofia e theologia: e assi 
comem divididos em três refeitórios como frades, 
e tem seu reytor, que então era hum Principe de 
sangue, estudante também : em o que ha tanto con- 
certo e perfeição, que me fes grande inveja em 
respeito de nosso Portugal, onde os senhores fazem 
gala do desprcso das letras, que como disse o nosso 
Poeta : 

A muitos se dá pouco ou nada disso*. 

Desta academia literal passão, os que hão de 
seguir as armas, a outras academias de brida, es- 
grima, musica e dança, que pella cidade ha repar- 
tidas em vários bairros, humas por conta e gasto de 
sua Magestade, outras de pessoas e senhores par- 
ticulares; em os quais exercícios passão todos os 
filhos dos nobres seus annos pueris e juvenis, com 
muito louvor e utilidade própria. 

* Camões, Lusíadas, Canto V, 98. Na edição de Epiphanio 
da Silva lê-se a muitos lhe dá. 



— ii6 — 

A Universidade das sciencias he a mais numerosa 
que se sabe: fundou a Cario Magno a instancia de 
quatro personages doutos e sábios, que haviao sido 
discipulos do venerável Beda, a saber : Alcuino, 
Rabam, Cláudio e João, cognominado Scoto, os 
quais fundaram particularmente a dita Universidade 
sobre a sancta faculdade de theologia, sobre o di- 
reito canónico e sobre as faculdades de medicina e 
artes. 

O direito civil não se ensina em Paris, por causa 
de hum grande tumulto que os juristas huma ves 
fizerão. 

E pois tratamos de letras, não será fora de pro- 
pósito darmos aqui noticia de algumas bibliotecas 
de Paris, onde se achão muito bons livros antigos, 
manuscritos e impressos; como são a dei Rey, que 
está dentro do convento de São Francisco, a de 
São Victor, dentro da Abbadia de São Germão e a 
do Collegio de Navarra : e dos particular he muito 
celebre a do Presidente de Thu. 

Tem Paris alguns cimenterios famosos ; de todos 
são os mais celebres o de São João, que chamão 
em Greve, e o dos Inocentes, do qual se diz que 
dentro de outo dias consume os corpos. 

Nem lhe faltão praças ; a mayor e mais fermosa 
he a que chamão Real, que foy feita no anno de 
i565 por mandado da Raynha Caterina de Medicis, 
pello desastre socedido a el Rey Henrique seu ma- 
rido em hum torneo que fazia na rua de Sancto 
António, cellebrando a paz e cazamentos de Phi- 



— 117 — 

lippe Rey de Espanha com Isabel sua filha mais 
velha, e do Duque de Saboya com Margarita sua 
irmã, filha de Francisco primeiro, no anno de iBSg. 

Henrique quarto a ennobreceo com os altos edi- 
fícios que em quadro tem, todos de semelhante al- 
tura e estructura. No meyo delia se vê agora 
huma bellissima estatua de bronze dei Rey Luis 
treze, a qual descreveo com rara elegância, em ver- 
sos heróicos latinos, o Padre Francisco de Macedo, 
meu mestre na rethorica, que a negócios seus pas- 
sou, occulto a todos, em nossa própria nao, áquelle 
Reyno, pêra dali se ir a Roma; o que parece foy 
permissão divina, pollos muytos serviços que nelle 
fez a El Rey nosso Senhor e á pátria, com grande 
credito e reputação da nação Pormguesa, como se 
pode colligir do Panegírico Apologético, que em 
latim compôs, e despois em Barcelona os Catalaens 
tradusirão em castelhano; das admiráveis inscrip- 
çoens que fez a el Rey Christianissimo, e a sua 
Eminência; da traducção de português em latim que 
fes do livro intitulado Direito Hereditário da Sere- 
nissima Senhora Dona Caterina, e de seu Apêndice; 
e de outras obras que porventura agora dará a luz 
em Roma, onde passou com o senhor Bispo de 
Lamego. 

Tem Paris muitas fontes polias ruas, cuja agua, 
ainda que não he muyto boa, vem á cidade por di- 
versos canaes e acqueductos, que se fizerao com 
grandíssima despesa; e todas tem suas chaves de 
ferro, com que fechão e abrem a agua quando que- 



— ii8 — 

rem. E entre os muytos jardins que a fazem ame- 
nissima, he muito pêra ver o Real, na rua de São 
Victor, por que nelle se achao exquisitos simples, 
trasidos de varias partes do mundo, cuja direcção e 
conducta principal pertence ao medico mayor de 
sua Magestade. 

Os fogos da cidade disem que passão de doze 
mil; entre elles ha muytos edifícios e magnificos. 
Devese o primeiro lugar ao Luvre, palácio ordiná- 
rio dei Rey, quando está em Paris : foy seu funda- 
dor Philipe segundo, e seus reedificadores Carlos o 
Sábio, Francisco primeiro e Henrique segundo, seu 
filho. O mayor ornamento que tem he uma galle- 
ria que Henrique quarto fez, a qual tem sete ou 
novecentos passos de comprido. Vesse aqui huma 
sala, que se diz das Antiguidades, chea de peças 
coriosas e bem dignas de ser vistas, qual he huma 
Diana de Epheso. Aqui tem os moedeiros suas 
officinas, que certo são muito maravilhosas e conve- 
nientes a tão grande Monarqua. O edifício todo he 
soberbo e de fermosa architectura, lançado ao longo 
do Senna; mas faltalhe muito por fazer, se bem 
nam parão as obras, que el Rey Luis o quer pôr 
em sua inteira perfeição. 

O Paço que chamão da Justiça, he também muito 
fermoso e grandioso edifício : foy edificado em tempo 
dei Rey Philippe o Bello, por Enguerrando de Ma- 
rigni, senhor de Cucy, conde de Longavilla e Su- 
perintendente general dos direitos reaes, pêra palá- 
cio dos Reys ; mas elles o derao despois pêra o 



— 119 - 

exercido da justiça e seu Parlamento em Paris. 
Tem algumas salas fermosissimas : a mais famosa, 
a que se diz dos Procuradores, onde estavao as es- 
tatuas de todos os Reys que forao de França, de 
vulto, com sua proporção natural. Todas suas en- 
tradas e gallarias estão cheyas de diversas tendas, 
providas de toda sorte de mercadorias e cousas 
coriosas, de maneira que parece huma bellissima 
feira. 

O grande e pequeno Castello, que são os edifícios 
mais antigos de Paris, atribuidos a Júlio César, ou 
pêra melhor dizer, ao Emperador Julião Apóstata, 
servem hoje de ter a corte e justiça ordinária do 
lugar tenente civil e da cadeira presidiai, e pêra suas 
prisoens. 

A Raynha may, que agora vive e está em Ingla- 
terra com a Raynha sua filha Henrica Maria, tem 
começado em o burgo de S. Germão huma casa 
magnifica, chamada o Luxemburg, e vulgarmente a 
Casa da Raynha mãy, cuja vida desde seu naci- 
mento está, em huma fermosa gallaria, pintada da 
mão de Rubens e outros excellentes pintores. 

Os Príncipes e senhores do Reyno tem aqui 
também suas casas e aposentos, como são o de 
Conde, de Suason, de Vandoma, de Longavilla, de 
Guisa, de Menna, de Xevrosa, de Nevers, de Sully, 
de Scomberg, e de Richieliu, que he hum edificio 
moderno, e em muytas cousas superior aos de- 
mais. Ha em Paris mais de sinco mil jogos de pella. 
Finalmente a cidade de Paris he comparada á Gre- 



— 120 — 

cia na sciencia, a Roma na grandesa, a Ásia na 
riqueza, a Africa nas novidades, e Architrenio a 
chama rosa e bálsamo do mundo : porem tornemos 
a nosso intento. 

A doze de Junho partio o senhor Bispo de La- 
mego para Marcelha, com tenção de passar a Itália 
em as galés de França, em companhia do Embai- 
xador de França que hia pêra Roma. Deixou ao 
Conde Brullon, conductor dos Embaixadores, seu 
retrato (porque lhe disserão ser uso dos Embaixa- 
dores naquella corte) feito pello Xampanha, pintor 
famoso de suaMagestade, e lhe fez pôr huma grossa 
argolla de ouro. 

A vinte e dous de Junho, que foy hum sábado, 
foy o Conde Brulon e Giro seu tenente a despe- 
dirse de suas Excellencias, e o Conde lhes trouxe 
huma carta da Raynha de França pêra a Raynha 
nossa Senhora. E em nome dei Rey lhes apre- 
sentou duas armaçoens de panos de raz, huma pêra 
o Monteiro mór, e outra pêra o Doutor António 
Coelho de Carvalho; e de sua parte lhes deo os 
retratos de suas Magestades Christianissimas, e de 
sua Eminência o Cardeal de Richieliú, metidos em 
caixas de folhas de Frandes. E ao secretario Chris- 
tovão Soares deo também, da parte de sua Mages- 
tade, huma cadea de ouro com huma medalha dei 
Rey. Suas Excellencias derão ao Conde huma cadea 
de ouro, obra da China, de valor de 5oo cruzados, 
e a Monsiur Giro, seu tenente, mandarão dar huma 
bolsa de âmbar, com sincoenta dobroens dentro. 



— 121 — 

Dia de são João Bautista, polias nove horas do dia, 
saímos de Paris, e viemos dormir a sete legoas em 
huma aldeã chamada Esol, em a qual ha uns en- 
genhos de agoa pêra moer casca excellentes, e hum 
moinho de muyto artificio, pois delle sae o trigo 
moido e a farinha peneirada. Três legoas atrás de 
Esol fica Juivudi, outra aldeã, a qual em o meyo 
da rua tem huma fonte de boa agoa. 

A 25 de Junho fomos jantar a Fonteneblô, que 
fica de Paris 14 legoas. He este hum lugar que 
lem ao redor de setecentos fogos, situado em o 
Pais de Gatinoes, entre penhas e florestas, em as 
quais ha muita caça de todo género. O ar he sa- 
luberrimo, e a terra abundantíssima de agoa, por 
resão de cujos olhos , e fontes que aqui de todas as 
partes manao, se disse Fonteneblô. O Sancto Rey 
Luís o chamava seu deserto e sua solidão. Tem 
aqui os Reys huma bellissima casa, que chamão o 
Castello de Fonteneblô, cuja grandeza teve princi- 
pio de Francisco primeiro, que nella tinha posta 
huma famosa biblioteca, a qual foy despois levada 
a Paris: o resto se deve a Henrique o Grande, que 
a tinha por todo seu deleite e recreação. 

O circuito inteiro do Castello he de mil e quatro- 
centos e sincoenta braças, nam fallando nos jardins 
e parques. Ha nelle muitas e bellissimas salas, 
casas e gallerias. Em a galleria grande, que tem 
60 braças de comprido e três de largo, se vêem 
representadas todas as victorias dei Rey Henrique 
quarto. E na dei Rey Francisco, que também cha- 



— 122 — 

mão o Grande, estão retratados a mayor parte das 
casas reaes de França, pintadas todas em prespec- 
tiva, como São Germão em Laya, Monceaux, ou 
Monte de Aguas, Amboesa, Xamburg, e outras. 
Fica defronte delia a casa que chamão das Pintu- 
ras, por as bellissimas pinturas de que está ador- 
nada, e hum cabinete que nellas lhe não é inferior. 
A galleria da Raynha comprehende todas as bata- 
lhas e combates dei Rey Henrique quarto: delia se 
ve o volliere ou aviário, que tem 38 braças de com- 
prido e três de largo, onde ha muyta diversidade 
de aves, pêra cujos ninhos (por que ali crião a seus 
tempos) estão dentro dispostas muytas fayas e lou- 
reiros. A sala da guarda he também muy fermosa, 
com huma tapiceria pintada nas próprias paredes 
com muyta perfeição, e nella todos os combates de 
Carlos sétimo, e as victorias ávidas dos Ingleses. 
Em a sala dos festins ha huma chuminé (em a qual 
se vê de fino alabastro a figura dei Rey Henrique 
quarto a cavallo) estimada em desouto mil cruza- 
dos. Ha outras casas aqui muito fermosas, mas 
pêra dar relação de todas, fora necessário livro par- 
ticular. 

Entre outras vimos hum gabinete em que dor- 
mia o santo Rey Luis, outro onde nasceo o Rey 
que de presente reyna, e huma casa onde esteve 
prezo o Mariscai de Viron, que despois foy dego- 
lado em tempo de Henrique quarto. Porem ne- 
nhuma cousa se pôde comparar á capella que aqui 
fez el Rey Luis o justo, nem me parece que em o 



' — 123 — 

mundo ha maravilha que a iguale ; porque aqui se 
incluem todas as maravilhas, obra digna de seu 
autor. 

Fazem muito magnifico este Castello, diversos e 
famosos claustros ou pátios que tem; o principal he 
o que chamão do Cavallo branco, cujo compri- 
mento he de outenta braças, e a largura de outenta 
e sinco. O pátio que disem da Fonte, por huma 
que ali se vê, com a estatua de Mercúrio, tem muy- 
tas antiguidades. Os jardins que acompanhão esta 
casa são muytos e fermosos ; em o jardim da 
Raynha está, em o pedestal da fonte, uma figura de 
Diana bellissima, com outras muytas figuras de 
bronze. O jardim grande dei Rey tem i8o braças 
de comprido, e cento e sincoenta e quatro de largo. 
No meyo delle está a fonte do Tibre, em grande 
figura de bronze, com huma loba dando de mamar 
a Rómulo e Remo; e em quatro ângulos do jar- 
dim suas fontes, numa das quais está a estatua de 
Cleópatra em bronze. Em o jardim do Tanque se 
vê hum galhardo Hercules de alabastro. O jardim 
dos Pinhos he também fermosissimo ; tem 1 6o bra- 
ças de comprido e 8o de largo. Estes são os jar- 
dins principaes desta casa, alem dos quais ha outros 
muytos, com muytos tanques, fontes, arvores e par- 
ques. O parque dei Rey he grandíssimo, e se diz 
haver 6o:ooo pes de arvores fructiferas de toda a 
sorte. 

A floresta, que vulgarmente chamão de Fontene- 
blo. he muito grande, e está repartida em outo 



— 124 — 

guardas, e estas em mais tropas. Dentro delia está 
hum gabinete dei Rey lindíssimo, com as figuras an- 
tigas de Alexandre Magno, Júlio Gesar, Demosthe- 
nes e Cicero ; e ha aqui um tanque, que por hum 
lado atravessa a floresta ao comprido, o qual el 
Rey Henrique IV queria levar até o rio Senna, pêra 
ir por agua a Paris, que fora huma grande mara- 
vilha. Os Príncipes e senhores, e outros muytos 
particulares que seguem a corte, tem aqui também 
muyto boas casas. 

De Fonteneblô fomos a sinco legoas dormir em 
huma aldeã chamada Hípergervilla de la riviera. 
E ao outro dia, que forao 26 do mes, fomos jan- 
tar a Xilot, pobre aldeã, que fica de Hipergervilla 
7 legoas, e dormir a Orliens, que são outras sete; 
e três legoas antes de chegar a Xilot, passámos por 
huma pequena cidade, por nome Pivié, em a qual 
ha um fermoso castello. 

Em a cidade de Orliens nos embarcámos, e pello 
rio Loere abaixo fomos a 17 legoas dormir em a ci- 
dade Bloe, havendo jantado em Bogency, lugar agra- 
dável e fértil, que fica de Orliens 7 legoas, posto 
também sobre o rio Loere, ao qual muytas vezes 
se retirão os estrangeiros de Orliens, por evitar o 
trato e conversassao continua dos moradores de 
hum mesmo lugar, e por mais fielmente aprender a 
lingua francesa. Tem hum famoso castello e huma 
grande ponte sobre o rio, a qual no meyo e nos 
estremos tem suas portas e pontes levadiças, que 
se fechão todas as noites, cousa ordinária em todos 



— 125 — 

os povos e lugares de França: e nesta Jornada pas- 
sámos tanibcm por alguns lugares mais, grandes e 
populosos, postos ao longo do rio, como são Meun 
sobre o Loere, em distinção de Mehun sobre Yeura 
em Berry, Lexin, e outros do Pais de Xatren. 

De Bloe fomos o seguinte dia jantar a Amboesa 
e dormir á cidade de Turs, que foy jornada de 19 
ou 20 léguas; e por toda ella fomos vendo ao longo 
do rio muytas e grandes povoações, cujas casas 
estão abertas ao picão em as mesmas penhas e 
rochas, e algumas delias com suas janellas de sa- 
cada ; e por entre as vinhas e pumares que lhe 
ficão por cima, aparecem as trombas das chaminés, 
que he cousa galantissima de ver. 

A cidade de Turs he muito fermosa e agradável, 
como aquella que está posta em o pais de Turena, 
chamado commummente o jardim de França, do 
qual he cabeça. Ficalhe o rio Loere ao levante, 
o Indre ou Lindre, que nasce junto a São Severo 
em Berri, ao meyo dia e occidente; o qual, com o 
Xer, que nasce alem das montanhas de Berri, se 
ajuntão com o Loere, aonde está a ponte de S. Ed- 
ma, que he de 18 arcos. Fundou esta cidade, se- 
gundo alguns historiadores contao, Bruto, em me- 
moria de seu filho Turno, que ali foy morto. Toda 
ella tem bellissimas ruas e muyto limpas, e as 
casas são todas cubertas de huma piçarra negra, a 
qual he muyto usada em França em lugar de telha. 
Contem muytas e lindas igrejas; as principaes são 
a de São Graciano, vulgarmente dito São Gassiano, 



— 120 — 

que disem ser obra dos Ingleses. A de São Mar- 
tinho he famosa pellos ossos que com muyto corio- 
sidade e devoção se guardão nella do glorioso 
S. Martinho, Ungaro de nação (e companheiro 
muyto tempo de Santo Hilário), aquelle que em 
Amiens, cabeça de Picardia, partio sua capa com o 
pobre e despois foy Bispo nesta cidade, onde mor- 
reo a II de novembro do anno de 3gg de idade 
de 8i. Os Reys de França tiverão sempre grão 
devoção a este Sancto, e delle forão muytas vezes 
favorecidos, particularmente em os successos da 
guerra; e assi diz Guilhelmo Durando em seu Ra- 
cional, que era costume dos Reys de França levar 
ás batalhas a capa de São Martinho, a qual, em 
acentando o campo, levantavão em alto, estendida a 
modo de toldo, e debaixo delia armavao hum altar 
e lhe disião missa, donde crem alguns que veyo este 
nome de capella. Ha nesta igreja hum relógio 
industriosissimo, porque entre outras cousas mostra 
os dias do anno, a crecente ou minguante da lua, 
e humas campainhas pequenas que tem, tocão as 
oras da missa com gracioso som, ao qual se abre 
huma porta, e por ella se vem entrar certos padres 
marchando em ordem. 

O castello da cidade he antigo e já está arrui- 
nado. Seus arrabaldes são muito grandes e fer- 
mosos: hum delles, que está da outra parte do 
Loere, se ajunta á cidade por huma ponte muyto 
boa, e ao longo do rio tem a cidade hum grandioso 
cães de cantaria, com muytas argolas de ferro por 



— 127 — 

todo elle, pêra se os barcos prenderem. Lavra-se 
nella muyia seda e lan, de que ha grosso trato; e 
a seda se tinge com muyta excellencia. Aqui ga- 
nhou Carlos Martello, Principe dos Franceses, huma 
batalha a Abderrama Rey dos Sarracenos, em a qual, 
alem do mesmo Rey, morreram 35o:ooo sarracenos, 
ou como outros dizem 375:000, e como outros 
38o:ooo, a qual victoria foy muy celebre entre os 
historiadores e poetas Franceses. 

De Turs proseguimos o dia seguinte, que forão 
vinte e nove, o caminho por terra, e a quatro legoas 
fomos jantar em huma aldeã que chamão Ponte de 
Ruão, em a qual ha muyto boas pousadas ; e a ou- 
tras quatro muy grandes, fomos dormir a outra 
chamada Lilla Buxart, numa estalagem que fica 
algum tanto desviada do lugar. Ao outro dia pas- 
samos em huma barca, conforme ás de que tenho 
feyto menção, o rio Vienna, em o meyo do qual 
está a ilha Buxart, que he toda cercada de altos e 
fortes muros, e cheya de arvoredo, com que á vista 
representa huma bellissima paisagem. Tem de 
huma e outra parte burgos, aos quais se ajunta com 
varias pontes, e nellas ha outras levadiças, pêra as 
occasioens de guerra ou tumultos. 

Daqui fomos jantar a Richeliú, que fica de Lilla 
Buxart três léguas. Está Richeliú posto em o pais 
de Poetú, e o Eminentissimo Cardeal, de quem he 
pátria, a fez gosar do titulo de cidade , e de cabeça 
do duquado, e a tem franqueado e previlegiado 
muyto. 



— 128 — 

A casa e castello de sua Eminência de poucos 
annos a esta parte, por sua industria e diligencia, 
he huma das melhores cousas de França, e de 
muyto longe se pode ir ver e admirar a riqueza de 
seus edifícios, de seus mármores, moveis e outras 
cousas, tão raras e esquisitas que sobrepujão todo 
valor e todo credito. Que a mosca e o parasito 
sejáo louvados de Luciano, a quarta de Favorino, 
a calva de Sinesio, o grillo de Plutarcho, o mos- 
quito de Virgílio, a ran de Homero e o asno de 
Apule5''0, são cousas vis e ligeiras, mas a Casa de 
Richeliú vence todo encarecimento, e só a pode 
louvar dignamente a admiração. Aqui se vêm en- 
talhadas em vários mármores, e guarnecidos de 
preciosas pedras, diversas estatuas ao natural de 
todos os Césares e Emperadores da antiguidade, 
de muytos Philosofos, Poetas e varões illustres nas 
armas e nas letras, ávidas de Roma, Venesa, e 
outras remotas partes do mundo, com poder e com 
industria ; muytas pinturas de Ticiano, Michael 
Angelo, e outros famosos na arte, assi antigos como 
modernos. Os tectos são todos dourados e orna- 
dos de excellentes painéis, e as paredes que delles 
não estão cubertas, o estão de finíssimo raz de 
ouro e seda; e ha aqui hum quarto, que toda a 
ferragem de portas e janellas he de fina prata. O 
edificio todo está arcado de agua, e a agua cheya 
de vários peixes, e se anda todo ao redor por cor- 
redores ornados de bellissimos mármores. Os jar- 
dins que o acompanhão são notáveis, e muyto mais 



— ii9 -^ 

as florestas, em as quais ha tanques que parecem 
mares. He emfim Richeliu hum epilogo de gran- 
desas e maravilhas. 

O lugar he todo feito em prespectivas e correspon- 
dências, capaz de mil e quinhentos visinhos, e guar- 
necido de quatro pavilhões de piçarra. Tem huma 
igreja dedicada a São Luis, onde estão os Padres 
que rhamão do Oratório, cujo habito he semelhante 
ao da Companhia, e he tão fermosa, que em seu 
tanto, nenhuma de Portugal a excede. Tem tam- 
bém academia de leis e philosophia. Muyto ha 
em Richeliu digno de consideração, porem a pressa 
com que vinhamos demandar á Rochella, não nos 
deo lugar a nada ; e sobre isso partimos de Riche- 
liu com tanta agua quanta nos não choveo em todo 
mais discurso da viagem, que até o Ceo parecia 
querer obrigar a suas Excellencias a considerarem 
esta outava, e primeira maravilha, mais de espaço. 

Fomos dormir este dia a Setelarão, que são seis 
legoas, e chegaríamos á pousada polias duas horas 
despois da meya noyte ; e achando a cidade fechada, 
ficámos em hum arrabalde delia. 

Ao outro dia, primeiro de Julho, fomos dormir a 
Putiers, aos 2 jantar a Lusinhan e dormir á Motta, 
que pêra nos foy a ilha de Santa Elena em aquella 
viagem; e o Conde de Parabere, com seus filhos e 
muyta gente de cavallo, veyo esperar a suas Excel- 
lencias huma legoa fora, mas vindo entrando a 
noite, se retirou só, deixando aos demais pêra con- 
dusirem os Senhores Embaixadores ao Gastello, 



— i3o — 

onde chegados, forao recebidos com extraordinárias 
alegrias. 

Estava a mesa posta, a vontade já manifesta, 
comeose esplendidamente, e se bebeo de neve, e 
sobre isso ouve hum festim breve, por ser tarde, o 
qual acabado, forão todos a descançar. 

O dia seguinte estiverao suas Excellencias na 
Motta, por satisfazer e dar gosto áquelles senhores, 
que tanto o desejavão, e juntamente por haver no- 
vas certas de que o Marquez de Bresè não era 
ainda chegado á Rochella; e se passou o dia ale- 
gremente. Pertendia o Conde levar suas Excel- 
lencias á caça numa tapada que tem, mas o tempo 
não deo lugar, porque todo o dia choveo muyta 
agoa. 

Ao seguinte dia, despois do jantar, (havendo de 
parte a parte grandes mostras de saudades á des- 
pedida), nos pusemos a caminho, e o Conde Para- 
bere e o senhor de Braxat seu irmão, o Marques e 
Bisconde seus filhos, acompanharão a suas Excel- 
lencias huma distancia fora do lugar, onde se abra- 
çarão todos, e viemos dormir a Agri, e ao outro 
dia jantar a Corson e dormir a Rochella. Forão 
suas Excellencias recebidos do grão Prior com 
muyta alegria, e agasalhados em os mesmos apo- 
sentos que da vez primeira. 

Ao Domingo, 14 de Julho, chegou o Marquês de 
Bresê a Rochella polias seis da tarde: visitarãono 
suas Excellencias: foyse ajuntando naquelle porto a 
Armada: pedirão suas Excellencias ao Marquês 



embarcação, em que passassem ao Reyno: oífere- 
ceolhe todas, e cada qual de sua Armada: ultima- 
mente se lhes deo hum galeão castelhano, por 
nome Oquendo^ que o anno passado, com outros tres 
mais, avião os Franceses tomado na passagem, cujo 
capitão era hum Ugonote da Rochella, por nome 
Guiton, o qual no sitio que el Rey Ghristianissimo 
pos áquella praça, quando a rendeo, sahio a pelei- 
jar com toda armada de França. 

Tinhamos já a matalotagem feita, e assi a vinte 
e dous de Julho, dia de Sancta Maria Magdalena, 
se embarcou o Monteiro mór com toda sua gente, 
e o acompanhou o grão Prior até o porto, onde o 
esperavão já as chalupas da capitaina e mais ar- 
mada, com muitos capitães e pessoas de authori- 
dade ; e chegando a bordo, lhe íizerão salva com 
dezanove peças de artelheria e toda a mosquete- 
ria. 

Ao seguinte dia se embarcou o Doutor António 
Coelho de Carvalho, por ficar acabando de aviar 
algumas cousas para a companhia de Portugueses, 
que Heitor Mendes, filho de Francisco Mendes de 
Brito, que com elle passou áquellas partes, trouxe 
por sua conta e gasto, para com ella em o Reyno 
servir a el Rey nosso Senhor, que erão setenta 
homens. 

Em o mesmo dia, já tarde, se embarcou o Mar- 
quez de Bresé na sua capitaina, e ao outro dia veyo 
a nosso bordo a visitar suas Excellencias e a lhes 
fazer seus comprimentos, em que os Franceses a 



— l32 — 

meu ver aventajão a todas as outras nações do 
mundo, donde nasceo entre elles o provérbio: 

Qui feit François 
II feit couertois. 

E voltando, mandou logo hum capitão a lhes pe- 
dir quisessem suas Excellencias dar aquelle dia o 
nome, que não o avia pedido no de antes, por quanto 
o avia dado seu tio o grão Prior. O Monteiro mór 
lhe deu Sancto António, por cujos meyos foy Deos 
servido (que também por lá andava em favor de sua 
pátria o Sancto, fazendo suas maravilhas), de nos 
mandar aquella noite hum nordeste fresco, com o 
qual o General mandou tirar peça de leva, e entre 
as duas e as três de madrugada dêmos o trapete, 
mas como em o tempo tudo são mudanças, logo nos 
acalmou: finalmente tivemos em 21 dias de viagem 
algumas calmarias e borrascas, das quais foy huma 
tam terrivel, que a não nos tomar em popa, passá- 
ramos trabalhosamente. 

Vindo pois buscando a nossa costa, tivemos vista 
dos FurilhÕes e Brelengas, e passamos entre ellas 
e terra firme, á vista de Peniche e mais lugares que 
do mar se divisão: e com o favor de Deos, veyo 
surgir toda a Armada em a praya de Cascais a 7 
de Agosto, com tanto vento, que, alem de ser já 
noite escura, não foy possivel mandar logo batel a 
terra, para avisar a sua Magestade ; mas em ama- 
nhecendo, mandarão logo suas Excellencias o Secre- 



— i33 — 

tario Christovão Soares a el Rey, para que o infor- 
masse de sua vinda e do mais que sua Magestade 
lhe perguntasse. 

Aqui tivemos logo novas dos scismaticos da pá- 
tria, que estavão presos para ser executados, como 
merecem os que violando a fee e homenagem dada, 
tomão pérfidos e rebeldes as armas contra seu Rey, 
amigos e parentes, não se lembrando que em os 
séculos passados os Curcios, Decios, Codros e ou- 
tros infinitos, em defensão da liberdade da pátria, 
despenderão, não só os bens da fortuna, mas o 
mesmo sangue e a vida. Morrão pois estes trei- 
dores, nem apareção mais sobre a face da terra, 
que ha homens que perdidos, são mais estimados 
que possuídos. 

Tanto que amanheceo, as torres de Cascais, Sam 
Gião, Cabeça seca, e os galeões de nossa armada, 
salvando a bandeira Real de França, dispararão 
muita artilheria; e os Franceses responderão com 
a sua. Tendo sua Magestade aviso da vinda de 
suas Excellencias e da armada a Cascais, man- 
dou ao Conde Capitão e ao da Vidigueira, que de 
sua parte fossem visitar ao General, e a lhe pedir 
quisesse recolher a armada para dentro, por causa 
de algum temporal que podia sobrevir; e os senho- 
res Embaixadores lhe manifestarão também as ra- 
zões porque o devia fazer, com o que o Marquez 
se resolveo. 

Forão pilotos de Cascais, e aos 9 do mez entrou 
a armada, e surgindo em a enseada de S. Joseph, 



— i34 — 

o nosso galeão o fez defronte de S. Paulo, e forao 
suas Excellencias os primeiros Embaixadores que 
tornarão ao Reyno. A salva que das torres, ar- 
mada e redutos este dia se fez á armada de França, 
he a todos manifesto, como também o refresco que 
da parte de Sua Magestade, e o que da parte da 
illustre Gamara desta cidade, se lhe mandou. 

Desembarcarão os senhores Embaixadores ao 
longo do forte no Terreiro do Paço, que todo estava 
cuberto de gente, e forão beijar as mãos a Suas 
Magestades, e darlhes conta de tudo que em França 
avião negociado, com as cartas dei Rey, da Raynha, 
e do Cardeal, cujo theor, com o das capitulaçoens 
e alianças, he o seguinte. 

Copia da Carta que el Rey de França Luis XIII 

mandou a Sua Magestade el Re/ 

nosso Senhor Dom Joam o IV. 

Altíssimo e Excellenlissimo, Poderosíssimo Prín- 
cipe, nosso Charissimo bom Irmão e Primo: Nós 
fomos muy contentes de saber, pellas cartas que 
Francisco de Mello, do Concelho de Vossa Mages- 
tade e seu Monteiro mór, e António Coelho de 
Carvalho, também do Concelho de Vossa Mages- 
tade e do seu Parlamento supremo, seus Embaixa- 
dores, nos derão, e por suas bocas nos represen- 
tarão o consentimento universal e applauso geral 
com o qual Vossa Magestade foy recebido por legi- 



— i35 — 

timo successor dos antigos Reys de Portugal, e 
acclamado por soberano desse Reyno; elles pode- 
ram mostrar a Vossa Magestade o gosto que disto 
tivemos, e lhes mostrámos ter; e também a alegria 
que recebemos dos offerecimentos que Vossa Ma- 
gestade nos fazia pella sua carta, como também das 
proposições da boa amisade entre nossas pessoas, 
e de toda a boa correspondência e comércios entre 
nossos vassallos, deixando á sua conta o informar 
a Vossa Magestade de tudo o que elles negociarão 
comnosco. Não fazemos a presente carta mais larga, 
que para mostrar a Vossa Magestade o quanto lhe 
desejamos huma continua prosperidade, e assegu- 
rarlhe o desejo que temos de dar a entender a 
Vossa Magestade por todas as vias a seguridade 
de minha affeiçao em tudo o que for conservar o 
bem de seus Reynos, e Vossa Magestade pôde crer 
verdadeiramente que meu amor he tal pêra com 
Vossa Magestade como eu relato nesta carta. Con- 
cluindo, rogamos a Deos que tenha a Vossa Ma- 
gestade, Altissimo e Excellentissimo e Poderosis- 
simo Principe, nosso Charissimo e Amantissimo 
bom Irmão e Primo em sua sancta e divina graça 
e guarda. Escritta em Abbavilla 14 de Junho de 
1641 . — Vosso Irmão e primo — Luis. 



— i36 — 



Copia da Carta que a Raynha de França Chris- 

tianissima escreveo á Raynha nossa Senhora^ de 

São Germão em Laya, a ig de Junho 

de 1641 

Muito Alta, e muyto Poderosa Princesa, nossa 
muy chara e muy amada boa Irma. 

Os sinaes que temos recebido da amisade de sua 
Magestade, pello que nos disse o Senhor de Mello, 
do Concelho e Embaixador nesta Corte de nosso 
bom Irmão El Rey de Portugal, quando nos entre- 
gou a carta que Vossa Magestade nos havia escrito 
sobre este particular, nos forão tão agradáveis, que 
nos buscaremos sempre com muito cuidado, e tere- 
mos por muyto praser as occasioens de certificar a 
Vossa Magestade quanto estimamos e presamos 
sua aífeição, e a estimação que fazemos delia; o 
que o dito Embaixador dirá a Vossa Magestade 
com muyto mayor encarecimento que nós o pode- 
remos explicar em esta, e assi mesmo de como 
nossos desejos são de dar a Vossa Magestade as 
mostras que Vossa Magestade pôde desejar de 
nossa boa vontade: nos pedimos a Vossa Magestade, 
com a mayor instancia que nos he possível, tenha 
isto por muyto certo, em quanto nós rogamos a 
Deos tenha sempre a Vossa Magestade, muyto Alta 
e muyto Poderosa Princesa, nossa muy chara e 
muy amada boa Irma, em sua sancta guarda. — 
Vossa boa Irmã — Anna. 



-.37- 



Copia da Carta que o Cardeal Rocheliú 
escreveo a el Rey nosso Senhor 

Senhor. — Não mostrei a Vossa Magestade o 
amor com que me dispus a servillo diante de sua 
Magestade elRey Christianissimo, porque Vossa 
Magestade o conhecerá pollos eífeitos de minhas 
obras, e pella relação que lhes farão os senhores 
seus Embaixadores, os quais fizerão dignamente o 
que Vossa Magestade lhes mandou, e somente quero 
assegurar a Vossa Magestade da continuação de 
meus serviços, dos quais não poderei dar milhor 
prova que pedindo a Vossa Magestade trate muy 
deveras das fortificaçoens das fronteiras desse Reyno 
e de seu provimento, procurando [de] seus vassallos 
sugeitos que sejão tão capazes na disciplina militar, 
como são animosos e valentes ; formando duas boas 
armadas, huma por mar, outra por terra; ordenando 
qMe huma e outra sejão providas de gente e das 
mais cousas necessárias, sem que os povos sejão 
por esta causa avexados; e que ambas busquem o 
enemigo fora dos estados de Vossa Magestade, não 
dando lugar a que elle venha a elles. Vossa Ma- 
gestade sabe muy bem o como eu estou certo em 
que saberá usar da prudência e do animo que 
Deos lhe deo para governar sua Coroa, e que não 
dormirá na quietação que gosa de presente, pellas 
occupações que tem seus enemigos. Isto he o que 
pode dizer huma pessoa que deseja a Vossa Mages- 



— i38 — 

tade todas as felicidades e que he verdadeiramente 
de Vossa Magestade humilissimo e obedientíssimo 
servidor. — De Abbavilla i5 de Junho de 1641. — 
Harmon Richeliú. 



Seguese o Tratado das Alianças 

e Capitidaçoens com França ; o qual foy tradxi\ido 

de francês 

El Rey, sabendo a amisade e boa intelligencia 
que ha ávido entre os Reys seus predecessores e 
os antigos Reys de Portugal, dos quais El Rey Dom 
João o quarto, que ao presente reyna, está reconhe- 
cido unanime e conformemente de todos os Portu- 
gueses por legitimo successor; sua Magestade ha 
tido grande contentamento de ver aqui os Embai- 
xadores que lhe forao enviados por renovar esta 
antiga amisade, e assigurar por huma aliança entre 
elle e o dito Rey; sobre o que os Comissários de 
Sua Magestade, tendo seu pleno poder, são con- 
vinctos com os ditos senhores Embaixadores, tendo 
outrosi também pleno poder do dito Rey de Portu- 
gal, em os Artigos seguintes. 

Averá daqui por diante paz e aliança perpetua 
entre os Reys de Portugal e os Reys de França, e 
seus Reynos, Províncias, Mares, Portos, e Havras *. 

1 Vem assim na Copia das capitulaçoens das pa^jes de 
França que o Sec/'" daquella embaxada Christovão Soares de 
Abreu mandou ao D.""" António de Macedo Sec."° da embaxada 



— i39 — 

Os ditos Reys prometem de boa fee não dar 
alguma assistência de gente, dinheiro, muniçoens, 
navios *, armas, nem vivres aos enemigos de hum e 
outro, contra os quais elles tem ao presente guerra, 
direita nem indireitamente. 

Os senhores Estados Generais das Províncias 
Unidas dos Paizes Baixos serão admittidos nesta 
aUança, com as condiçoens que forem tratadas com 
elles. 

Em quanto durar a presente guerra que El Rey 
tem contra El Rey de Castella, a qual elle conti- 
nuará com todas as forças, El Rey de Portugal a 
fará de sua parte continuamente contra o dito Rey, 
e o acometerá com todo seu poder, por terra e 
por mar. 

Por facilitar os meyos. Sua Magestade fica de 
acordo de ajuntar ao fim de Junho vinte de seus 
navios bem armados e esquipados em guerra a 
vinte galeoens dei Rey de Portugal, que seus Em- 
baixadores assegurão e prometem em nome do dito 
Rey seu senhor que estarão prestes, assi mesmo 
muyto bem armados e esquipados pêra a guerra 
e aparelhados pêra dar á vella (dos quais os meno- 



de Inglaterra em 6 de Junho de 641, (Cod. da Biblioteca da 

Ajuda, X, fl. 217). 
.-5 

Na versão francesa lê-se havres, Borges de Castro, Collec- 
ção dos Tratados^ I, 16 (Lisboa, i856). 

^ Não ha menção de navios na versão francesa. 



— 140 — 

res serão de Soo toneladas) *, a fim que as ditas duas 
frotas, Juntas aos vinte navios que os ditos senhores 
Estados Geraes devem dar de socorro ao dito Rey 
Dom João, possão ir commeter a frota dos Caste- 
lhanos vindo das índias, ou fazer alguma outra en- 
trepreza nos estados e terras do dito Rey de Cas- 
tella, como parecer mais á preposito. Entendendo 
bem que os ditos navios, assi de Portugal, como dos 
ditos senhores Estados Gerais, tomarão as ordens da 
Almiranta de França, e lhe farão todas as outras 
honras que lhe são devidas; e em cazo se tome a 
frota do dito Rey de Castella, -se partirá igualmente 
entre os confederados. 

Se nos annos seguintes os dous Reys, e os ditos 
Senhores Estados, iulgarem ser a propósito conti- 
nuar huma igual entrepreza, se fará de commum 
consentimento. 

Averá livre comercio e trafego entre os ^ Reynos 
e estados dos dous Reys (como ouve no tempo dos 
antigos Reys de Portugal), de sorte que seus vas- 
sallos possão negociar e commerciar huns com os 
outros, como amigos e aliados, com toda a segu- 
rança, sem que lhes seja dado algum impedimento, 
antes toda a sorte de protecção e ajuda de huma 

1 Na copia de Christovam Soares o período vem assim : e 
apparelhados pêra fa:[er viagem^ os quais serão pelo menos de 
mais de trezentas toneladas. Exceptuando isto, as versões 
do Tratado dadas por' Franco Barreto e Christovam Soares 
são idênticas, mas este acrescenta o artigo secreto. 
2 Na versão francesa vem aqui a palavra sujets. 



— 141 — 

parte e da outra, e previlegios e liberdades mayo- 
res que os passados, sendo necessário. 

Sua Magestade permitirá que os Portugueses 
possão levar de seus Reynos e Estados, Portos e 
Havras ao Reyno de Portugal toda a sorte de ar- 
mas, vivres e moniçoens, pêra uso e serviço do dito 
Reyno somente ; como assi também o dito Rey de 
Portugal permitirá que os vassallos sugeitos de sua 
Magestade Ghristianissima possão tirar de seus 
Reynos todas as cousas de que poderão ter neces- 
sidade. 

Os quais sobreditos Artigos hão sido assinados 
e firmados em nome delRey por Monsiur Seguier, 
Cavalleiro, Chanciler de França, Monsiur Boutilhier 
Comendador, Grão Thesoureiro das Ordens dei Rey 
e Superintendente de Finanças, e Monsiur Boutilhier 
Xavigny, assi também Comendador, Grão Thesou- 
reiro das Ordens de sua Magestade, secretario de 
Estado, e de seus mandados; e em nome do dito 
Rey de Portugal por Francisco de Mello, do Con- 
celho e seu Monteiro Mor, e António Coelho de 
Carvalho, assi também do Concelho do dito Rey 
e Desembargador do Paço, seus Embaixadores 
cerca de sua Magestade Ghristianissima, e serão 
notificados ^ respectivamente por sua Magestade e 
pello dito Rey de Portugal em termo de quatro 
meses. Feito em Paris o primeiro de Junho de 
1641. 

1 É erro tipographico : deve ser ratificados. 



— 142 — 



Poder dado por sua Magestade 
aos ditos senJiores seus Comissários 



Luís, pella graça de Deos, Rey de França e de 
Navarra, a todos aquelles que estas presentes letras 
virem, saúde. A amisade e aliança que ha ávido 
entre os Reys nossos predecessores e os antigos 
Re3'-s de Portugal, deo sugeito a nosso muyto charo 
e muyto amado Irmão e primo el Rey Dom João 
(estando unanime e conformemente reconhecido por 
seu legitimo successorpellos estados do dito Reyno) 
desejar que fosse huma * conhecida entre nós e elle; 
sobre o que os Embaixadores que tem cerca de 
nos, havendonos feito instancia de sua parte pêra 
que se fizesse o tratado desta aliança, entre as pes- 
soas a que nos parecesse cometello pêra este 
effeito e elles : Nós querendo de boa vontade dar 
este contentamento a nosso dito irmão, e pêra o 
certificar de que nós queremos daqui por diante 
tomar a peito todo o que lhes tocar por estas cau- 
sas, e havendo consideração ao merecimento^ nego- 
cio, havemos commetido, ordenado e deputado, como 
temos, ordenamos e deputamos por estas presentes, 
assinadas de nossa mão, a nosso muyto charo e fiel 



1 Deverá subentender-se a palavra alliança, 
' Provavelmente falta a palavra do. 



— 143 — 

Monsiur Seguier, Cavalleiro, Chanceler de França, 
Monsiur E .utilhier, Conselheiro em nossos conse- 
lhos, Comendador, e grão Thesoureiro de nossas 
Ordens, e superintendente de Finanças de França, e 
Monsiur Boutilhier de Xavegni, assi também Con- 
selheiro em nossos conselhos, Comendador e grande 
Thesoureiro de nossas ditas Ordens, Secretario de 
Estado, e de nossos mandados, com pleno poder e 
authoridade de conferir com os ditos senhores Em- 
baixadores, concluir e firmar em nosso nome todos 
os artigos e tratados em que convierem com elles; 
Prometemos, em fee e palavra de Rey, de obser- 
var inviolavelmente de nossa parte tudo aquillo que 
por nossos ditos Concelheiros for firmado e con- 
cluído em nosso dito nome, e de fazer expedir nos- 
sas letras de retificação dentro do tempo que elles 
lhe ouverem prometido, porque tal he nossa von- 
tade. Em testemunho do que havemos feito pôr 
nosso sinal nesta presente, dada em Abbavilla a 29 
de Mayo, o anno da graça 1641. 

Os navios da Armada, de que veyo por Lugar 
Tenente General Monsiur Armão de Mailé, Marques 
de Bresé, e Embaixador extraordinário dei Rey 
Christianissimo, mandado a El Rey nosso senhor, 
forão os seguintes. 

A Capitaina. 

Almiranta por nome a Virgem: governada por 
o Monsiur Comendador de Montigni. 

A Cardinalla: governada por Monsiur Dume. 



— 144 — 

A Coiqogallo * ; governada por Monsiur Deporte- 
noire. 

O Cisne, governada por Monsiur Cavaleiro de 
Pario, Maltez. 

O Triumpho, governada por Monsiur Dumenillet. 

A Victoria, governada por Monsiur de Lamotaje 
Roche-allart. 

O Galião Olivares, governado por Monsiur Da- 
niel. 

O Grande Alexandre, governado por Monsiur de 
Boisiolli. 

O Galião de Oquendo^ governado por Monsiur 

' Coq ou Gallo. Estão tão mal ortographados os nomes 
dos navios e capitães que damos a lista extrahida da Gaveta 
de França e publicada no Quadro Elementar IV, 44. 

Náos: Almiranta, Vice-Almirànta, Cardeal, Gallo, Cisne, 
Triumpho, Victoria, Olivares, Alexandre Magno, Oquendo, 
Esmerilhão, Falcão, S. José, Arminho, Delphim, S. Carlos, 
Intendente, São Coroado, Madalena. 

Fragatas : Princei^a, Duquesa, Marquesa. 

Ganonheiras : Esperança, Neptuno, Margarida, S. João, 
Turco, Prince![a. 

Fustas : Coroada, Estanceiro, Pequena Fortuna, Três Moi- 
nhos. 

Gommandantes: Commendador de Montigny, Srs. du Mé, 
Portenoire, Cavalheiro de Paris, Menillet, La Motaye, Roche 
Alard, Daviet, Boisjoly-Guillou, Gavalheiro de Lignères, Greu- 
zet, Bontemps, Gavalleiro de La Lande, Ville-Moulins, Caba- 
ret, Thibault, Gavalheiro de Gouttes, Barão de Marcé, Gava- 
lheiro du Pau, Bellegrange, La Ghesnaye, Martin, Le Brun, 
Le Beau, Fourchault, Boberge, Jonic, Glairon, La Maitre, 
RoUand. 



— 145 — 

Guiton: o qual foy dado aos senhores Embaixado- 
res pêra sua embarcação e viage a este Reyno. 

O Esmirilhão, governado por Monsiur Cavalleiro 
de Lignierez. 

O Falcão, governado por Monsiur Crevilet. 

São Joseph, governado por Monsiur Bom-Tens. 

A Arminha, governada por Monsiur de la Landa. 

O Delphim, governado por Monsiur de Villemo- 
lins. 

S. Carlos, governado por Monsiur Gabaret. 

A Intandant, governada por Monsiur Tibauls. 

O Leão coroado, governado por Monsiur Caval- 
leiro de Goullez. 

A Madalena, governada por Monsiur Barão de 
Marce. 

A Fragata Duquesa, governada por Monsiur Ca- 
valeiro do Parcq. 

A Fragata Marquesa, governada por Monsiur de 
Bellegrange. 

A Fragata Princesa, governada por Monsiur Ca- 
pitão Jamin. 

Vieram mais seis navios de fogo, cujos nomes 
com os de seus capitaens são os seguintes: 

A Esperança, por o Capitão Lachesnaje. 

O Neptuno, por o Capitão Martim : em o qual 
navio veyo a companhia de Portugueses, que á sua 
custa trouxe desde o Reyno de França a este, Hei- 
tor Mendes, como atraz fica dito. 
10 



— 146 — 

A Margarita, por o Capitão Le Brun. 
5. João, por o Capitão Beau. 
A Turca, por o Capitão Fourchault. 
A Primaresa, por o Capitão Boberige. 

Mais quatro churriões, com monições e manti- 
mentos, a saber: 

Hum governado por o Capitão Lonicq. 

Outro, que trazia a madeira, por o capitão Glai- 
ron. 

A Pequena Fortuna, por o Capitão Lois Lemais- 
tre. 

Os Tr^es Moinhos, por o Capitão Rollant. 

Os Senhores, e Monsiures, que acompanharão ao 
senhor Marques de Bresé, General da armada, sam 
os seguintes: 

Monsiur Lanier, do Concelho de Estado. 

O Barão de Mailli. 

O Barão de la Vergne. 

O Abbade de Novailler. 

O Cavalleiro de BuUiture. 

O Grande Campo. 

PiUers. 

Fontenelles. 

Desempont. 

Monsiur de Mostrei. 

Monsiur de Forgetez. 

Monsiur Beaumont-Pailly. 



— 147 — 

Monsiur Deniez. 
Monsiur de Grude. 
Monsiur de Bucage. 
Monsiur de Clarens. 
Monsiur de la Blacharize. 
Monsiur de Brison. 
Monsiur de Chabostiere. 
Monsiur de Chinaray, 
Monsiur de Billon. 
Monsiur de Rubiac. 
Monsiur de Ante. 
Monsiur de Bussy. 
Monsiur de Temericart. 
Monsiur Roisieres. 

Os Coronéis, que ficarão aqui para servir e aju- 
dar a el Rey nosso Senhor em as fronteiras contra 
Castella, sam os seguintes : 

Monsiur de Bucquoy. 
Monsiur de Chantereine. 
Monsiur de Monjovente, Barão. 
Monsiur Barão de Gravelines. 
Monsiur de Mahé. 
Monsiur de Datis. 
Monsiur de Boisemont. 
Monsiur Aurélio. 
Monsiur de Masirez. 
Monsiur de Tirei. 
Monsiur de Machuy. 



— 148 — 

Remato com dizer (porque mo pedio hum amigo) 
que tres cousas não vimos em França, a saber; 
manto, toalha e chapim. Porém vimos bonina, 
pella qual se dão talvez duzentos e trezentos cru- 
zados (segundo ouvi afirmar a pessoas de credito), 
se bem eu não trocara por ella hum cravo, ou huma 
rosa ; e se chama tullippa. Vimos e comemos 
(porque não servem de mais) huns passarinhos, que 
se levão de fora do Reyno a vender a Paris, cha- 
mados hortolanos, os quais valem a dobrão, e 
muitas vezes a dous ; e tomara de melhor vontade 
hum taralhão gordo. 

Ka humas peras, que chamão de bom Ghristão, 
as quais se vendem a pataca; e ainda que não nego 
serem de muito bom sabor, em Portugal temos 
algumas que lhe não são nada inferiores, e o mais 
que chegão a valer, como sabemos, sam quatro ou 
sinco reis. Mas os Franceses, em o particular de 
seu comer (principalmente em os convites), tem muito 
de Heliogabalos, porque nenhum apetite nem salsa 
achão como o grão preço do manjar, para o fazer 
saboroso: e ainda que para suas iguarias usam de 
toda a sevandilha, elles buscão maneira como sejão 
custosissimas: mas o tempero diíFere muito do nosso, 
e se não foy na Rochella em casa do grão Prior, 
na Mota em casa do Conde de Parabere, em S. Ger- 
mão em Laya no Palácio de Sua Magestade Chris- 
tianissima, e em Ruel no de sua Eminência, não 
podíamos tragar os seus manjares, excepto hum de 
nossa companhia, que por não desprazer aos cosi- 



I 



— 149 — 

nheiras, honrava todos os pratos que se lhe punháo 
na mesa. E não duvido que o mesmo digão os 
Franceses dos de Portugal, porque o gosto he diífe- 
rente entre todos os homens; e assi lemos que a 
Rómulo agradou sempre o nabo, a Alexandre Me- 
cedonico a maçã, a Nero o porro, a Tácito Au- 
gusto as cousas azedas, a Platão os figos: e refu- 
tando nós comummente o beber quente, os Ginesios 
o procurarão sempre com toda a diligencia, porque 
o costume diíFere pouco da natureza, e o acostu- 
marmoaios mais a este que áquelle manjar, faz 
que assi gostemos mais ou menos delle. 



LAUS DEO. 



DOCUMENTOS ELUCIDATIVOS 



I 



InstriicçÕes secretas 
para os embaixadores de França 



Francisco de Mello do meu conselho e meu monteiro mor, 
e António Coelho de Carualho do meu conselho e meu desem- 
bargador do Paço, Amigos : Demais da Instrucção que leuaes, 
e de que haueis de vsar na embaxada de França a que vos 
enuio, e que podereis mostrar quando conuenha, me pareceo 
mandar uos dar esta particular e secreta. 

Por estar El Rey Christianissimo tam empenhado na guerra 
com El Rey de Castella, e poder tirar do bom sucesso delia 
tam grandes melhoramentos, e com a minha restituição da 
coroa destes meus Reynos se lhe hauer offerecido para os 
conseguir tanto mayor occasião do que podia desejar, se 
tem por certo que esta embaxada será a melhor recebida e 
se disporão mais facilmente as propostas delia, de que hireis 
aduertidos, para as tratar com toda a confiança, manifestando 
ao Cardeal Rochilieu, e aos ministros por cuja via ouuerem 
de correr, o muito que o seu Príncipe ganha na boa direcção 
e conclusão do que se lhe aponta, e que se a guerra de Cata- 
lunha se fomentar, e o inuadirmos juntamente por Nauarra, 
Biscaya, e Milão, e por as prouincias de Castella, Andaluzia, 
e Galisa confinantes com estes Reynos, fazendo-o também 
em Italra, e os olandeses pellos paizes de Flandes, será infa- 
liuel rematar se a guerra em breues termos a toda nossa 



— i54 — 

satisfação, encontrandosse as armas francesas e portuguesas 
no meo de Hespanha, para as hauer de suspender, tendo dila- 
tado muito os termos de ambas as coroas, para o que importa 
sobre tudo que El-Rey Christianissimo não somente fauoreça 
e ajude aos Catelães, mas se asegure delles, metendo no Con- 
dado de Roselhen e naquelle Principado, tanta gente de 
guerra, e tomando em reféns praças de tanta consideração, 
que não possão elles tornar atrás e compor-se, admitindo os 
partidos que EI-Rey de Castella agora lhes offerecerá, que 
sem duuida serão muito fauoraueis, porque se aquella resis- 
tência durar e for fomentada com mayor cabedal que o dos 
Gatellães, não terá El Rey de Castella forças, no estado em 
que de presente se acha, gastada a fazenda com a larga du- 
ração da guerra, e desanimados e mal contentes os Vassallos, 
para poder resistir a tantos outros cometimentos, feitos por 
partes tam differentes, e ficará quasy segura a sua ultima 
Ruyna. 

A liga com Olanda se tem por muito conueniente, e que 
conforme a proposta delia, concorra El-Rey Christianissimo, 
para se fazer a guerra nestes mares, com as vinte náos de 
forsa que lhe haueis de pedir por este anno e pellos seguintes, 
segundo o pedirem as cousas, e que venhao tão breuemente 
que se antecipe a formação da Armada da liga ao apresto 
da Castelhana, porque senhoreado o mar, se disporá com 
facilidade a resistência por terra aos cometimentos que os 
Castelhanos podem fazer nas fronteiras destes Reynos, e 
assy da conclusão e execução deste ponto haueis de tratar 
Gom grande cuidado, para que sem falta venhão as náos 
francesas ao prazo signalado. 

Informar-vos-heis com certeza do que poderá montar 
cada mez o gasto de huã companhia de cauallos franceses 
conduzidos a estes Reynos, respeitando a despeza da embar- 
cação e viagem, e soldos que hão de vencer; procurando 
entender se elles se disporão de boa vontade a me vir seruir, 
e me auizareis, para eu ter entendido o que conuem, em caso 



— i55 — 

que haja de pedir a El Rey Christianissimo a ajuda de caua- 
laria. 

Cabos e soldados práticos e de valor, e mais particular- 
mente engenheiros, minadores, e outros offiçiais de arteficios 
de fogo, se hão muito mister, e assy procurareis saber os que 
ha que queirao uir me a seruir, e com que partidos o farão, 
e me dareis conta com toda a breuidade do que achardes, s 
com os engenheiros, minadores e ofíiciaes de fogos, assenta- 
reis logo partidos e mos remetereis nas primeiras embarca- 
ções. 

Todo o bom encaminhamento dos negócios que leuais a 
cargo consiste em affeiçoar e grangear o animo do Cardeal 
Rochilieu, a que haueis de attender com o mayor cuidado, 
significando-lhe o muito que Eu confio delle, e de sua grande 
prudência e valor, e procurando que reconheça a occasião 
que tem entre mãos para concluir feliçemente a empresa 
que o seu Príncipe, ha tantos annos e com tanto gasto de 
gente e fazenda, cometeo e vay sustentando, de quebrantar a 
soberba, insolência e tirania Castelhana, e que se conseguirmos 
as vitorias que tão fundadamente deuemos esperar da Justi- 
ficação da guerra, ficará a nosso arbítrio, não só a compo- 
sição das cousas de Europa, mas de to[do"] o mundo. 

A nobresa de França he muito estimada e respeitada do 
seu Rey, e assy procurareis grangeala e fazer bem aceitos 
delia os intentos desta embaxada, ualendovos dos meos de 
cortesia e facilidade, muito propios da nasção francesa. 

Com os embaxadores que enuio a Inglaterra, Dinamarcha 
e Olanda vos correspondereis, para ter noticia do que forem 
obrando nos negócios de suas embaixadas, dando lha do 
que fizerdes na vossa, e se encaminhar melhor o que se pro- 
cura, e o fareis pellas cifras que se uos derão e a elles, e 
também leuais cifra para me hauerdes de escreuer. 

Os papeis e negócios da embaixada correrão por mãos de 
Christovão Soarez de Abreo, que enuio por secretario delia, 
com cuja pessoa vos encomendo que tenhaes particular conta, 



— i56 — 

e o ouçaes sobre os mesmos negócios para boa disposição 
delies. 

Para gastos meudos da embaixada se uos derão por agora 
sinco mil crusados, que fareis entregar a pessoa que haja de 
dar conta delies, com liuro de receita e despesa, e para o 
mais que ao diante for necessário se prouerá dinheiro, de que 
auizareis a tempo que se possa remeter, sem que haja falta, 
Pantaleão figueira a fez em Lix» a 23 de Janeiro de 164 1. E 
eu francisco de Lucena a fiz escreuer = Rey. 



Instrucção secreta de que hão de vsar francisco de mello, 
e o desembargador António Coelho de Carualho que V. Md.e 
enuia por embaxadores a frança. — Para V. M.de Ver. 

(Torre do Tombo, Colleceão de S, Vicente, tom. i^.*, foi. i5). 



II 

Chegada dos Embaixadores a Rochella 



Le vendredy i.er jour de marts ondit an [1641], les am- 
bassadeurs du roy de Portugal au nombre de deux arrivèrent 
en cette ville, et descendirent à Ia digue, et sur Tadvis qui 
feut donné à M. le Grand Prieur, le jour précédant, par Tinter 
prête desdits ambassadeurs, qui estoit venu ledit jour que 
lesdits ambassadeurs estoyent à Chef de Bois, et qu'ils dé- 
siroyent passer par cetie ville pour s'en aller à Paris trouver 
sa magesté, íit tout aussi tost équipper une petite galliotte 
qu'il leur envoya, dans laquelle estoit M. de Sainct-Ghristophe 
et plusieurs autres gentilshommes, qui les furent quérir, et 
pendant ledit temps, ledit Sieur Grand Prieur fit prendre de 
chasque compagnie environ i5 à 20 hommes pour aller au 
devant d'eux en armes, et se trouva qu'ils estoyent environ 
trois centz et fit mettre sur les rampars de la chesne huict ou 
dix pièces de cânon et descendirent les dits ambassadeurs à 
la digue, auquel lieu pour les voir descendre, il y avoit, tant 
hommes que femmes et enfans, plus de quinze cents personnes 
et estans descendus, montèrent dans le carrosse de M. le 
Grand Prieur et vindrent entrer par la porte noeufve, ou les 
soldars Tattendoyent et feut tire plusieurs coups de mous- 
quets et de canons qui estoyent sur les rampars et furent fort 
honnorablement reçeuz et bien traittez par le dit Sieur Grand 



— i58 - i 

Prieur, et furent logez l'un chez M. le lieutenant general et 
Tautre chez M. Thessereau, et eux et leurs gens estoyent fort 
bien converts et s'en allèrent de cette ville le vendredy en 
suivant 8* dudit móis. 

(Diaire de loseph Guillandeau, Sieur de Beaupréau. 
j 584-1643. Nos Archives historiques de la Sain- 
tonge et de VAunis, tomo zxxviu (1908), pág. 404). 



III 

Duas cartas de D. João IV 
aos Embaixadores de França * 

[a] 

Embaxadores Amigos. Eu El Rey vos envio muito saudar. 
Os dous navios que partirão de Rochela, depois de averdes 
aportado ali, chegarão a salvamento, e com elles se receberão 
as vossas cartas de 2 de março por que me destes conta do 
successo de vossa viagem, e do bom gasalhado e acolhimento 
com que fostes recebidos do Grão Prior da Relegião de São 

' Estas cartas originaes existem na Torre do Tombo (Collecção de S. Vi- 
cente, tom. 14.°). A primeira carta tem muitas cifras, a segunda está toda 
cm cifra, motivo (cremos nós) daquella não ter sido impressa no volume xii 
do Corpo Diplomático Porlugtie^, Relações com a Cúria Romana, junto 
com as Instruccâes ao Bispo de Lamego da mesma data, e desta não vir 
citada por Ramos Coelho no livro exhaustivo Historia do Infante D. Duarte. 
Ora pesquizando na Collecção de S. Vicente, rica em documentos diplo- 
máticos, sobretudo dos séculos xvi e xvii, tivemos a boa fortuna de encon- 
trar no vol. 22.°, a foi. 216, decifrados os trechos em cifra da primeira 
carta; e com algum trabalho conseguimos obter a chave, que nos habi- 
litou a ler a segunda carta. Damos em seguida esta chave, que pode 
servir para a leitura de outras cartas Regias do mesmo tempo, que porven- 
tura venham a encontrar-se : 

a b cdefghij Imnopqrs t uv x\ 
\xV^t sr qp o onlm i hgfed c c b a 



— i6o — 

João em frança, governador da Rochela, e dispôs (sicj o pas- 
sardes a Paris, que folguei muito de «ntender; e de tão boa 
entrada se pode esperar que tudo o mais toquante aos negó- 
cios que levastes a carguo se encaminhe prosperamente, como 
fio de vos o procurareis quanto vos seia posivel, conside- 
rando a grande importância da brevid§.de no que se ouver de 
obrar, impedindo a execução do que El Rey de Castella averá 
de obrar, se a diversão da guerra que he necessário fazer-se 
lhe por diíferentes partes lhe dar lugar, pelo que a presteza 
terá a maior parte do bom suceso, e em a procurardes, sem 
que se perca húa ora de tempo, consiste tudo, advertindo que 
segundo os avizos que ha de Olanda e outras partes, apres- 
tarão os Estados e as companhias deles trinta e duas nãos 
de guerra para enviar em minha ajuda, e que se chegaram a 
tempo e El Rey de França quizer concorrer na impreza, 
juntas as forsas todas, se poderá intentar a frota que ha de 
vir das índias ate todo maio, e ficará lugar para intentar outra 
façam de considerável, antes que se gaste o verão. O que 
tudo deveis representar a El Rey de França e ao Cardeal 
de Rochilieu instantemente e hirme avizando do que nego- 
ceardes, para que se vão dispondo as couzas a respeito do 
que de ahi se ouver de esperar. 

As diligencias que fizestes na Rochela para enviar alguas 
armas, que ainda não são chegadas, vos agradeço, e enco- 
mendo que as continueis por todas as vias, porque a falta 
delles he o que tendes entendido, e nunca serão muitas a res- 
peito da gente que se pode armar. 

Alguns soldados práticos para cabeças da cavalaria e in- 
fantaria e engenheiros e artifícios de fogo se hão muito mister, 
e de novo vos encarrego que os procureis em conformidade 
da instrucção que levastes. 

Com muita variedade e incerteza chegão as novas do In- 
fante meu irmão e me obrigão a grandíssimo cuidado, que se 
haverá de continuar até que saiba se acha em parte segura, e 
posto que tenho por certo que vos não descuidareis de me 



— lOl — 

dar conta de tudo o que souberdes delle, todavia volo enco- 
mendo muito, e que não falteis nas diligencias que de ah» 
puderdes fazer, para que se ponha em salvo. 

O Bispo de Lamego, que envio a Roma por Embaixador, 
leva esta carta para vola remetter da Rochela, ou de qualquer 
outro porto que tomar, ou voladar, avendo de passar por 
Paris, no que se resolverá conforme ao aviso que achar do 
que tiverdes negoceado com ElRey Ghiistianissimo acerca de 
sua passagem a Itália, que he importantíssimo abreviarsse 
para que possa entrar em Roma antes das mutações do verão, 
e assi vos encomendo de novo o despacho deste negocio, 
porque dilatandosse, seria de grande danno e despeza, e para 
em caso que o Bispo haja de passar por Paris, leva carta 
minha com que ha de visitar a ElRei, e com esta vay a cifra 
com que vos aveis de corresponder com o Bispo, e as suas 
cartas para mi, depois de passar a Itália, vos hão de vir diri- 
gidas para mas encaminhardes, e em vossa falta a pessoa que 
vos parecer, de que o advertireis. 

Leva também o Bispo carta minha para o Grão Prior de 
São João, Governador da Rochella, em que lhe aggradeço o 
bom tratamento e gasalhado que vos fez. Escrita em Lisboa 
a 7 de Abril de 641. 

Rey í 

Para os Embaxadores de França. 

(Torre do Tombo, Collecçáo de S. Vicente, tomo 14.', foi. 25). 



M 



Embaxadores Amigos. Eu El Rey vos envio muito saudar. 
Por diferentes vias me tem chegado novas de que o lífante, 

' Esta carta e a que se segue vem assignadag pelo monarcha, que pÔe 
depois do nome ciuco pontos em forma de cruz— as cinco Chagas de Nosso 
Senhor, vulgarmente chamados rubrica e guarda. 



— 102 — 

meu muito amado e prezado irmam, estaa detido em Ratis- 
bona por ordem do Imperador a instancia dei Rey de Cas- 
tella, e posto que da certeza se pode duvidar, consideradas 
as razões que se ofíerecem para o Imperador nam aver de 
fazer semelhante moléstia a hum príncipe que sem ser seu 
vassallo o estava servindo na guerra voluntariamente, e quando 
ouvera cooperado em minha restituiçam á coroa deses reinos 
nam era ofFensa sua; maiormente que consta nottoriamente 
que nam teve nella parte pella sua rezidencia de Alemanha; 
e o diíferir o Imperador a instancia dei Rey de Gastella para 
hua acçam tam indina da fee dos príncipes, lhe causará muito 
grande notta entre todos os do mundo; com tudo receo que 
as novas se verefiquem e o Imperador continue a retençam 
do iíFante, o que me obrigua a grandíssimo cuidado, acrecen- 
tando serem tam difficultozos os meos de procurar sua liber- 
dade a respeito de que as demonstrações que meus amigos e 
aliados podiam fazer para a conseguir, rompendo a guerra 
com Gastella e AUemanha, nam tem luguar, por estar rota 
tanto de antes e tam siva (sicj que se pode mal acrescentar 
com esta causa; e assi resta somente valer da industria e in- 
telegencia que em Ratisbona se puderem para que o IfFante 
alcance liberdade, ou negoceando por intervençam secreta 
dei Rey de França e do Cardeal Rochilieu com os magis- 
trados de Ratisbona e príncipes de Alemanha, confidentes dei 
Rey de França, para que declarandosse em favor do IfTante, 
façam instancia ao Imperador sobre sua soltura, ou procu- 
rando comprar aos que o guardam com dadivas e promessas 
para que o deixem pôr em salvo, ou se venham com elle a 
lugar seguro; encomendo vos muito, que segundo o estado 
das couzas, vejaes atentamente o que se poderá intentar por 
qualquer destes meos, ou de outros que vos ajam occorrido, 
e comunicando o ao Rey de França e ao Cardeal, trateis da 
execuçam do que se julgar por mais conveniente com a ins- 
tancia e brevidade necessária, estando certos que nenhum 
serviço me podereis fazer de maior importância e ao IfFante: 



\ 



— i63 — 

tendo modo para o avizardes sem perigo de sua pessoa, o 
fareis de tudo e lhe dareis noticia particular do estado das 
couzas destes reinos, e do animo e desejo com que estou de 
lhe procurar liberdade por todas as vias ; e me dareis conta 
muito por menor de tudo o que se obrar e das esperanças 
que tiverdes que se poderá hir obrando ; e este mesmo aviso 
dareis aos embaxadores de Inglaterra Olanda e Dinamarca, 
para que cada hum por sua parte faça tudo o que puder ser 
de effeto. Escrita em Lisboa a 7 de Abril de 641. 

Rey. 
Para os Embaxadores de França. 

(Torre do Tombo, Colleccáo de S. Vicente, tomo 14.", foi. 26). 



IV 



Cartas de Gaspar^ Fernandes de Lião 
a Christovão Soares de Abreu * 



[a] 



Esta manhão me mando dizer ho Conde deBrulon que sem 
falta se acharia esta tarde ás 3 horas a Vileta com as ca- 
rosas dei Rey para hir receber estes ss.res e acompanalos 
com ho s.r M.aí de Ghatilhao e poios na casa de sua Mag.de 

' Fernandes de Lião, ou Lion, foi um rico negociante flamengo, mas de 
avós portugueses e francezes, estabelecido em Paris, onde tinha grande 
aceitação entre os cortezáos e politicos. Diz delle Christovão Soares que 
era uhonesto homem e muito autorisado, a cuja casa e jardim concorrem os 
senhores de mais capacidade e juizo». Suspeitamos que fosse judeo e que 
as sympathias de que gozava lhe proviessem dos empréstimos que facili- 
tava aos que precisavão delle. Sérvio muito bem aos Embaixadores em tudo, 
sendo-lhe até revelado os segredos das negociações, segundo elle próprio 
declara, mas parece que não ficou contente da «responsão». Escrevia quasi 
todos os dias a Christovão Soares sobre assuntos relativos á embaixada ou 
caseiros durante a estada do Secretario em França, e destas cartas originaes, 
que se encontram no cod. 49 { X | 13 da Bibliotheca da Ajuda, damos algumas 
que servirão de amostra das outras. Embora a referida collecçáo pouco nos 
informe sobre a marcha das negociações para o tratado, interessa bastante 
a historia da Embaixada, ministrando pormenores curiosos. Conservamos a 
graphia, que, quer seja francesa, quer portuguesa a lingua empregada, é 
má, ao passo que a letra tem certa origmalidade. 



- i65 — 

destinada p.* os agasalhar e receber a Royala. E que lhes 
advertise disto de novo, em que não ey querido faltar. VS. 
M.es se aprestão p.» isto e eu hirey la as ii, para as acompa- 
nhar ate dito lugar, e recever a M.e que me fazen. E quando 
parten da qui a meyo dia ate a húa basta, por que he logo 
fora do porta de S.t martin. 

Estes Ss.res maresial e Conde de Brulon advertirão a todos 
os ss.res da Corte para mandar as suas carosas para homrare 
aos ss.res Anbax.dores de manera que averá g.^e cortejo. 

G.de ds a V. M. m.tos e felisos Anos. Servidor de V. M. 

cuyas mãos beijo. 

g. fernando de Lião. 
25 de março 164 1. 

(Bibliotheca da Ajuda, cod 49 | X | 12, foi. 63). 



[b] 

Senor meu. 

Toda esta manhão desde as 6 de madrugado estive traba- 
lhando no Treslado dos Capitelos das aliansas q V. M deo a 
mons.r de Chaviny, ele mos mando com hum de seos secretá- 
rios, pedindome as pusse em frans.s logo, por que vinha aqui 
sua Em.ce e os queria ter prestes p." lhos dar, asi que sem 
perder tempo as pos em franses com asistensa do s.r Ville 
real por ser milhor portuges que eu, porem não mais aíf.do a 
tudo ho que he dos in.es de Portugal; ele me fez esa m.e, V. 
M. lho agardesera, q he boa pesoa e muy ofisioso e aff.do. 
Agora os mando pedir dito Sr de Chaviny e as levo seo 
secretario, achandoas bem. 

S.dor de V. M, 

Frz de Lion 
5 de Abril 1641. 

(Bibliotheca de Ajuda, cod. 49 | X | 12, foi. 86). 



i66 — 



[c] 

Monsieur 

Je suis extremement mary que je nestois hier au logis pour 
vous faire Responce a vostre courtoisse et obligente lestre 
que jay receu avec beaucoup de joye et contantement. Je 
vous en rans mille grases et vous suplie de croire que je vous 
honore et estime parfaictem.t ausi vos rares merites, et 
mon inclination mordonent a vous cherir et aymer jusques a 
un tel degre que je ne trouverai james Rien a redire de tout 
ce quil vous plaira me comander. Isto basta em franses para 
dizer ho demais em portuges. 

De novo não temos nada que eu sayba, se não ho que 
çusedeo a Roma entre ho de fransa que mando dar de pãos 
a hum repostero do conclavo, franses e domestico do C.al 
Barbarino, que a feyto gran.de Ruhido na Corte de rome, e 
despacho sua ss.de 2 coreyos aqui a seo nonsio p.* fazer as 
queixas, e no intre ho maresial anbax.dor fas guardar sua casa 
com gente armada e hum corpo de guarda a sua porta: a 
coiza he de tal consequensa, que se não se remedea, poderia 
cauzar algúa grande des ordem. 

O s.r Montero mor me fas Muyta homra e M.e e quando 
será s.do de vir homrarme nesta sua casa, me fará muyta 
grasa e m.e, mas não he razão que su Ex.* tome esta pena, 
que eu ho hirey servir em tudo ho que me mandar : peso a 
Vm. de lho asegurar asi de m.^ parte e que so m.to seo servi- 
dor. Agora mandey saber se querem que se leve la este pano 
de tapiseria que Vm. vio em casa, e como já tornaram a 
mandar ontem por ele, não quero fazelo transportar daqui 
que com lisensa, que asi lho prometi. 

Me alegro da milhoria do s.r Ant.° Coelho, ds lhe de tão 
boa e prefeyta saúde como sua casa a mister e eu lhe dezeio : 
se lhe pudera servir e aliviar seo ma^ com m.' presensa, sempre 



— i07 — 

me renderia a par de sua ex.te Pesoa. E como V m me dis 
que se acha muy fraco, Isto não pode ser menos por a g.de 
evacoasão que a tido, e como sey por experiensia que des- 
pois dese mal he nesesario conservarse e guardar de recahida, 
he apreposito que não se mantesipa de sahir, nem estar m.to 
levantado, e se ter quente e não comer coizas correntes e de 
dura desistião: A Gele.» clara com o jugo de roman e sitrão 
he único, e asi mandey fazer hum prato para Prova, que 
mando a su Ex."; se lhe pareser bom e gostar dele, manda- 
remos fazer mais e p." tudo ho que me quiger mandar, me 
achará pronto, com m.ta vontade e amor : perdoe Vm tanta 
Inportuna.dadj que como não tenho quem fale a lingoa e por 
não enfadar a su Ex." com escrito, me atrevo de pedir este 
favor a Vm. 

He serto que ontem foy o s.»" de Chaveny a Ruel e me 
dixerão que sua Em." veria aqui oje, mas não ho sey de serto. 
Vm mande ver se o de Ghaviny he de retorno e mandar saber 
q.do lhe poderá achar, q a mister apartalo para concluir: e se 
os ss.res anbax.dores se achasen bons, seria de pareser q fosem 
eles mesmo, o hum deles, com Vm : e se eu puder seruir lhes, 
hirey aconpanhando em mo advertindo. E porque de húa 
ora a otra ay aqui mudansas, e podem partir para a can- 
pana, por q.to o tempo se va avansando, asi que por muytas 
razoins lhes convém de concluir se o neg.°, porq ho que esta 
feyto fica feyto. 

As vesitas de sermonias não dão presa, pois o S.r Coelho 
está indisposto,'hum dia mais a menos não faz o caso. Ande 
comesar por a s.ra filha de monsieur, depois com a Prins.z» 
e Pp.e de Conde, q ainda que ho Pay não está aqui, a may e 
filho vivem juntos. Despois desta ande hir ver Madame a 
Gontesse de Soyson, P.e do sange e maaam.le sua neta, filha 
do duq.« de longeville. La os ey de hir aconpanar por ser 
mt.* minhas ss.ras^ despois a duqueza de guillon e as Prin- 
sesas Maria e ana de nevers, filhas do vetno duque de mantua. 
Despois ao duque de longeville : e as do sangue por suas AAz 



— i68 — 

e as de mantua por serem f." de souberano, aos demais por 
Ex.ce. Despois ande hir ver ao duq.^ de Gheverosa por Ex." 
e o ST maresial de Ghatilhão, seus filhos e madama ^ he 
mulher 111.*. La hirei com eles. Despois ao s.r Ghanselier e 
o s.r de Bouthilier sur Intendente e menistro, pay do St de 

Chavery, e para dar gosto a sua Em ser pesoa sua, ande 

hir ver o s.r m.al de la mel. . . Isto he ho que me paresse e o 
s.r Conde de Brulão e Girom lhes aconpanherão aos do sange. 

Resebão a boa vontade e entensao ^ tenho de os seruir e 
escuzão a poça capasidad. 

Medamoysele fernandes vous remersie três humblem.t dei 
honeur de v.re souvenir elle est vne três humble servante et 
moy absolument sans reserve. 

Monsieur 
v.re três humble et três aquis serviteur 
frz de Lion 
desta su posada de V. M. a 8 de abril 1641. 

(Bibliotheca da Ajuda, cod. 49 | X | 12, foi. 88). 



[d] 

i5 de Abril 1641. 
Senor. 

M.to bons dias e saúde lhe de n. s.r. ontem a noyte erra 
tão tarde que não se podia hier ver ao conde de Brulão. Esta 
manhão mandey saber quando lhe poderia hir ver, para lhe 
dizer as coisas que ontem tratamos. Mandome dizer que se 
hia por em carosapara S.t Germeyns e ruel e dar parte a sua 
Mag.de e Em.ce da morte do St P.° de Melo •, e saber a orde 
que nisto se tomaria, e que esta noyte ou pela manhão me 
dirá a resposta, que he tudo ho que se a podido fazer. A seo 

' Filho do Monteiro mor, fallecido em Paris. 



— 169 — 

retorno o verey, e saberey ho que me dirá, para ho advertir 
logo a V M. 

De V m. amigo serto 

frz de Lion. 
(Bibliotheca da A/uda, cod. <(9 | X I 12, foi. 96). 



M 



IO Junho 641. 
Monsieur 



E por ho que V M. me dis que o sT montero mor se resol- 
veria de tomar a tapisaria de sanson q.do não custase que 
3oo esc (?) mais (?) que ele os dará, V. m. me fasa M.e de dizer 
ao sT montero mor que lhe dezeio servir e a si ho vera por os 
effeytos quando se oífresera ocasião. Esta tapiseria de que 
V. m trata não he de sanson, se não de Abrahao, que he tapi- 
seria de grande reputasão e finesa, e o estima o tapisero, con- 
forme me Alembre quando la fomos em oyto mil Libras, que 
são 2700 escudos algo menos, e he m.to milhor que a que 
leuo o s.r obispo de lamego, asi he de mayor preso. Se o 
s.r montero mor a quer, a hi esta, E el Rey dará ate 1200 esc. (?) 
por o valor do presente que dará ao s.r Anbax.dor e isto se 
fará com ho tapisero, com q o s.r montero mor lhe de o 
resto. Se não, o Conde de Bulao mandera dar a tapiseria 
do paisage que la vimos q.do o s.r me' Cardoso quis dar por 
ela mil escudos. Esa levara, o as dos deuses, que he preto 
vem a ser o mesmo, e buscarão otra do dito preso de mil ate 
1 100 esc. (?) p.» o s r Ant.° Coelho e com isto estará feyto o neg." 
Verey ho que amanhão me dirá o s.r Conde de Brulão, com 
quem farey as devidas escuzas por minha conta, pois me meti 
nisto para seruir ao s.r monter mor. Estimarey que me fasa 
V. m. m.e de lho dar a emtender asi, que o desejo por alguas 



— 170 — 

razoins e amanhão direy a V m. ho que me avera dito o s.r 
de Brulão, e V. m. me dirá a do s.r Anbax.dor 

Fernandes 
{Biblioteca da Ajuda, cod. 49 | X | 12, foi. i83). 



[f] 

Monsieur. 

V. m. fez bom em me auer ordenado de lhe remeter as cartas 
qve Recebi de fora p.' estes ss.res o p.* V. m., por que como 
todos se forão sem me dizer nada em que forma querião lhes 
mandase as Cartas ou outros recados, se a caso chegasem 
amy, não soubera de que manera mandarlhes, e sendo isto 
asi, ho achey muy estranho deyxar tão poça ordem para seos 
Interes.' maximam.te sabendo que da olanda, alemanha e 
Ingelatera, e pode ser de otras partes, me devião de uir, e de 
duarte nunes pode ser algo de segredo, e não me dizeren 
estes ss.res coiza ninhua, desjx)is de me auerem confiado seo 
segredo, e sahirem desa manera, e serto não sey a que atribuir 
tão grande esquesimento, se não que aquele Poderoso sT lhes 
deve de aver dito algo de mi que lhes a mudado a entensão, 
e asi ho Alcansey em algúas coizas despois que tratarão com 
ele, mas como não me pode agravar em nada na profeysao 
que faso de tratar verdade, não me da pêra tudo q.to ele 
puder dizer, porem ho que digo he mais por o In.e deles e 
de seo Rey que por o meu. 

Fernandes de Lion 
Paris 27 de Juin. 

(Bibliotheca da Ajuda, cod. 49 | X 1 12, foi. 202). 



Advertências de Christovão Soares de Abreu 
sobre a Embaixada de Franca 



As «advertências» que publicamos em seguida foram redigidas para uso 
do Conde de Vidigueira, quando seguio para França como Embaixador de 
Portugal em 1642, sendo depois accrescentadas com notas marginaes e 
offerecidas ao Marquez de Cascaes, quando foi ao mesmo pais em 1644, 
como Embaixador Extraordinário para dar os pêsames da morte do Rei 
Luis XIII. 

Poder-se-hia julgar que caberiam melhor no volume que pretendemos 
publicar acerca destas embaixadas, mas nós entendemos que o lugar mais 
appropriado é aqui, porque resumem as experiências e impressões do auctor 
na embaixada de 1641 e supplementam as informações de João Franco Barreto. 

As referidas «advertências» vem acompanhadas de uma carta original de 
Christovão Soares d'Abreu, datada de Lisboa em 20 de Novembro de 1643 
e dirigida ao Marquez de Cascaes, que principia assim: 

«Aqui tem V. Ex.ia o papel do Conde, q escrevi com atten- 
çam a huma Embaxada de Residência, posto q perguntando 
a sua S.ia se se lhe especificava o titulo de embaxador ordi- 
nário, ou extraordinário, me dise q fallando nisso, lhe fora 
respondido q se chamasse como quizesse. E se o Conde 
replicara que se puzesse assi na Instrucçam, fizera bem e o q 
devia. Procurei nelle o mais q pude, sem descobrir faltas, 
remediar as q havia ávido em huma e outra parte, e q temia 
ouvesse ainda, por não termos noticias bastantes das Cortes 
dos outros principes e de semelhantes negoceaçoens; e por 



— 172 — 

nos nam aplicarmos a isto, senam na hora ^^ o havemos 
mister» etc. 

Agora começam as «advertências». 

S.or Conde da Vidigr.* *. 

Tenho dado a V. S. parabéns da Embayxada de França : 
agora escrevo as advertências que prometti, obrigado do zelo 
do serviço dei Rey Nosso Senhor, e de ser affectuosissimo 
servidor de V. S. 

1. Não he meu intento falar do ^ dizem os livros que 

tratam de Embayxadores e Embayxadas (posto q tudo está 
nelles) porque estes averá lido V. S. e poderá, q he estudo 
necessário ; e seria fazer esse papel mais largo do que convém, 
pello muito que está escrito. Só direi o ^ entendo, conforme 
ao 5 vi, apalpei e experimentei nesta mesma jornada que V. 
S. tem para fazer. 

2. Mas pêra que V. S. veja primeiro a opinião ÍJ tinha das 
embayxadas o Conde de Portalegre ^ (aquelle oráculo da 
discrição e cortesia) escreverei aqui dous capítulos da sua 
Instrucção, accrecentando e suprindo a outra celebre e mais 
antiga de Juan de Vega ' ; que he papel ^ todos avião de ter 

' D. Vasco Luiz da Gama, creado posteriormente Marquez de Nisa. 

' D. Juan da Silva, fidalgo hespanhol, Governador e Capitão General de 
Portugal no tempo dos Philippes. Compoz (inter alia) umas addiçoes à Guerra 
de Granada por Diego Hurtado de Mendoza e publicou debaixo do pseudo- 
nymo de Conestaggio o livro celebre DeWunione di Regno di Portogallo 
alia corona di Casliglia; e vide Historia Genealógica da Casa Real, X, i38. 

• Instruccion á su hijo cuando le envio a la corte, sobre la que Juan de 
Vega dió ai suyo.- Ms. inédito da Bibliotheca Nacional de Madrid. Na Bi- 
bliotheca da Ajuda (Vários Papeis Políticos, Miscellanea, tomo 20.', foi. 63) 
ha uma copia, incompleta (?), que se intitula Instrução que deixou o Conde 
de Portalegre Dom João da Silva a seu filho Dom Diogo, q agora he Conde, 
quando se veio p." Portugal. Segundo uma nota marginal, a Instruccão foi 
escrita aos 26 de Julho de 1622. 



-173- 

de memoria: e servirá neste lugar de Definição e Divisão. 
Diz pois assi o Conde a seu filho e sucessor Dom Diogo. 

3. «No serviendo actualmente en la guerra, os quiero desa- 
ficionar de las embaxadas, porque no podeis pretender mas 
q una, que es la de Roma; la qual comunica con todas en los 
inconvenientes, y tiene otros próprios mayores que los gene- 
rales : y de mas desto pide aquel officio mayores partes natu- 
rales y adquiridas de prudência y destreça y sutileça de in- 
genio que ninguno de los otros : y mas quiero veros adonde 
tengais antes peligro de errar que de ser enganado». Logo 
mais adiante, vai tratando de vários officios da corte, e torna 
as embayxadas com este juizo. 

4. «Otros cargos ay fuera de la corte, q son embaxadas 
y goviernos. Las embaxadas, unas son ordinárias y de as- 
siento, y otras de cómission. Las de assiento se tassan por la 
grandeza de los Principes a que se embian, y las de cõmission 
por la caledad de los negócios que se han de tratar. A las 
desta segunda suerte os podeis afficionar, porque tienen de 
gusto platicar cosas grandes en tierras estranas. Tienen de 
provecho venir a conocer intrinsecamente las Províncias. 
Tienen de authoridad ser las matérias importantes y extraor- 
dinárias. A este género pertenecen las de los concilios 
generales, las de pazes y ligas, casamientos de Principes, 
obediências de Pontifices, parabienes, pezames, y otras seme- 
jantes». 

5. «Las de assiento aborrezco en estremo, porq tratan 
menudencias y se cevan de sospechas, y hacen los hombres 
mas curiosos y menos sencillos de lo que desseo que vos 
fuessedes : quanto mas que la de Roma, que sola podriades 
pretender, es occasionada a hacer sudar en la semana Santa 
a quien se desseare confessar bien: porq como en la matéria 
de estado entran todas, y el Rey N. S. tiene tantos, y entre 



— 174- 

ellos ai Feudos de Ia Iglezia, estan muy en la mano las occa- 
siones de encuentros con el Papa, que son trabajosissimos; 
porque si lo acometeis como a Principe, que tambien lo es 
temporal, rebuelve como Vicário de Christo y ataos los 
manos. Y aunque estas calidades se pueden distinguir y 
tienen limites senalados de la razon y dei derecho, no dexa 
de ser la senda muy angosta, que pêra ir por médio, aveis de 
caminar por maroma: y assi es lamas seguro apartaros 
destas occasiones; porque la veneracion ai Papa y la lealtad 
ai Rey no se han de medir ai justo, sino passar con ellos 
adelante un gran trecho de la obligacion». 

6. Isto he embayxada ordinária e extraordinária. O que 
he embayxador, seria nunca acabar. Mas ja o temos em 
V S. acabado e absoluto de todos os números. V. S. mesmo 
pode ser a definição e será o trasunto e a norma de todos 
elles; e por isso estimará mais qualquer advertência. 

7. Pareceo meadvirtir primeiro a V. S. das cousas de cá; 
depois do caminho e da assistência de lá. Para as daqui a 
principal he a Insirucção, que he a alma da embayxada, e ley 
tão inviolável que he culpa gravíssima obrar o contrario q 
nella se dispõem; e conforme os exemplos da antiguidade, 
menos dispensadas e mais castigadas q oje as faltas, ainda 
que leves. V. S. a ha de levar entendida com toda a attenção, 
sem duvidas nem escrúpulos; e comprehendida nos casos q 
podem acontecer: porque he longe pêra consultar despois, e 
difficil pêra deliberar e resolver matérias tão refinadas. 
Mayormente não avendo correos por terra, e sendo o mar 
incerto, e Paris longe dos seus portos e Havras ^. 

8. Faça V. S. por levar da Torre do tombo, ou das nossas 

' Nota marginal; Aqui entra ver as instrucçóes dos embayxadores 4 
andáo por lá, ou conferir a matéria de suas cõmissoens e até onde chegão : 
p.» q eu previ gr.iios inconvenientes de se faser o contrario. 



\ 

i 



-.75- 

crónicas, alguns papeis originaes, ou copias de cartas e em- 
bayxadas antiguas, acerca do tratamento dos S.ors Reys de 
Portugual, cõ todos os mais da Christandade. Donde, com 
pretexto da antiguidade, ou de curiosidade daquelles estudos, 
e veneração daquelles documentos, mostrandose a qualquer 
outro propósito, venha a constar da igoaldade, comq se 
tratarão nas ceremonias e cortesias. El Rey Dom João o 3.° 
mudou o estilo q avia nesta Corte em ouvir os Embayxadores 
do Emperador Carlos 5.", depois que soube o que elle usava 
com os nossos, tratandoos do mesmo modo. Sabemos que 
nem depois q os Castelhanos affectarão a Magistade na suc- 
cessão do mesmo Emperador, lhes escreverão de cá senão 
de Alteia. E só nas vistas de Gadelupe *, falando èl Rey 
Dom Felippe 2.° de Majestade a seu sobrinho El Rey Dom 
Sebastião, lhe tornou com a mesma. O mesmo teor devia 
de aver cõ os Franceses e Ingleses, porque elles o tinhão 
também entre sy todos : ainda que antiguamente usavão de 
vos. E assi falavão e falão a el rei de França os seus vassalos 
com aquella differença do siré. Mas está ja tão introduzida 
a Magesíade naquelles Reys e a Alteia real em seus irmãos 
e filhos, a differença dos outros Príncipes do sangue; e nos 
ministros grandes, ainda q não sejão Duques, nem Marqueses, 
Excellencia; q se vai esquecendo o vous. E a grandeza dei 
Rey presente 2 e o curso de suas vitorias tem levantado isto 
ainda mais de ponto, e não sei se feito algúas differenças 
mais ceremoniosas nesta matéria. Bem vi eu cartas de Hen- 
rique o grande ' p.» a Raynha e Rey de Inglaterra, e de seu 
filho Luís* pêra o Emperador Ferdinando 2.° com húa só 



' Em 1577. Guadalupe, na província de Cáceres e diocese de Toledo, 
celebre pela imagem veneranda de Nossa Senhora que attrahia os devotos 
de todas as classes. Em 1622 ardiáo na sumptuosa igreja 85 lâmpadas de 
prata, estando lá enterrado El Rei Henrique IV de Castella. 

» Nota marginal: era Luis i3 e o mesmo será com seu filho Luis 14. 

• Henrique IV da França. 

' Luis XIII. 



— 176 — 

Magestade^ e a resposta sem elle. Mas desejei aver algua 
das ÍJ se escrevião depois ou antes q a paz se começou a 
quebrar, e vi hua só mais antigua ^ Felipe S.", donde não se 
podia faser argumento, por ser traduzida : não he difficultoso 
alcançarse. Hum secret."o Francês me certificou q el Rey 
Ghristianissimo não mandara cobrir aos embayxadores dos 
Eleitores do Império, porq não lhe falarão de Mg.àe- e bem 
pode ser também que porq os não manda cobrir, lhe fallem 
de vos. Com Suécia não ha duvida q andão mui apontados, 
por^ sabemos q quando foi da aliança e confederação q se 
fez com Gustavo 2, ou com seus comissários, sobre se aver 
de nomear França ou Suécia primeiro, pararão os neg." e 
andarão os correos athe que se compoz a diíFerença cõ que 
cada hum levasse no seu papel o ^ queria. Antigainente se 
tinha por cortesia nomear primeiro o Reyno estranho, como 
eu vi escrito em Castelhano e Portuguez : mas agora não 
querê ceder a ninguém e ainda que descuidadamente tem 
nisto gr.de cuidado ; sempre parece bem a cortesia e a vai- 
dade mal. O Marquez de Rambulhet ' me disse, q sendo em- 
bayx.or extraordinário em Castella, fallára de 5. i//.»»« ao 
Conde de Olivares, porq elle assi o tratara primeiro ; e q 
levava por Instrucção que o tratasse igualmente, e q despois 
se concertarão em senhoria, somente pello ruido q isto fez 
naquella corte. 

9. Armese V. S. das rezoins q hade dar do estado do 
Reyno, da nossa guerra, dos soldados estrangeiros e naturaes, 

' Nota marginal: era nec." ver como escrevem a El Rey D. felipe 4.". 
El Rey Carlos i." da Gran Bretanha escreveo a Luis i3, dandolhe conta da 
morte de seu pai Jacobo I." sem nenhSa Majestade, Começa Três haut três 
excellent et três puissant Prtnce, nostre três cher e três amé beaufrere, 
coitsin et ancien allie etc. A data he de 28 de Março i625. Acaba do mesmo 
modo — eu tenho outras cartas em meu poder de Magestade. 

* Gustavo II da Suécia, morto na batalha de Lutzen em i633. 

• Rambouillet. 



— 177 — 

das fortificaçoens e invasoens, do erário, da despeza, pêra falar 
coherente, ou acautelado, porq os Francês (sicj sobre tudo 
discorre e tudo perguntão. Mas a tudo isto e a tudo o mais 
que se ofFerecer, poderá V. S. dar boa satisfação, ou boa saida, 
como ministro de Estado per cujas mãos passa tudo. Hum 
dia destes recebi hua carta do gran Prior de França em q me 
diz que ja saberemos como se avia soccorrido Tarragona; 
mas q o largo cerco nos avia dado bom tempo de nos pre- 
parar p." a guerra; porem q lho agradeçamos; e o grão Prior 
era tãbem de parecer, como o Cardeal seu sobrinho •, de se 
fazer a guerra oíFensiva ao enemigo dentro do seu Paiz, ou 
assi ou assi (sic) q he o que lhes está melhor. Outros, como 
o Visconde de Sardigni, e o Mareschal de Brezé, pay do 
Marquez q cá veyo, se contentavão cõ que nos fortificássemos, 
de maneira que pudéssemos defendemos a todo o tpo q nos 
buscassem. Que a praça q nestas nossas partes puder de- 
fender e sostentar hum mez hum sitio e hum exercito de 3o 
e 40 mil homens, bastará p.' ruina e destruicçao delles em 
hum Paiz tão estéril como o de Espanha, e este era o dis- 
curso do de Brezé: mayormente, dizia elle, não podendo nos 
ter os soccorros de nossos alliados, senão por mar. 

10. O salário e ajuda de custo e mais gastos públicos e 
secretos das embayxadas, pêra o que he necessário muyta fa- 
zenda nos tempos prezentes e naquella Corte, V. S. o ajuste 
de maneira q não lhe seja necessário buscar la créditos e 
pedir dinheiro prestado, pella "perda q nisso terá; não pela 
reputação, q so neste caso entendo q se não perde. Que a 
muytos Princepes aconteceo e acontece empenhar suas jóias, 
sem discredito, em terras estranhas, pêra mais esplendor e 
Sentileza. Tudo suprirão as rendas de V. S., principalmente 
se vierem a salvamento as nãos da índia, onde está situada a 
mayor parte delias. 

I Richelieu. 
ia 



— 178 — 

u. Não ha embayxador, se faz o que deve a seu officio, 

^ não gaste muyto mais dos seus ordenados ; e alguns sahem 
bem individados, senão são os de Venesa em Constantinopla, 
a q a Republica não pede conta da dispeza, porq lhes dão 
aquella embayxada pêra se restaurarem, e pêra recuperar as 
perdas e gastos do de Roma. E contudo não dá aquella 
Republica a todos e quaisquer embayxadores em mayores e 
menores distancias mais q mil escudos de ajuda de custo, 
por fugir das desigualdades e pretençoes; mas sempre são 
pessoas q podem gastar e gastão muyto mais. 

12. Ouvi dizer q o ordinário q se dava de ordenado a 
hum embayxador ordinário em Roma e em Paris erao 12 U 
escudos. Os Veneseanos dão seis em França e nas outras 
cortes do Norte. Inglaterra dava vinte, segundo me disse o 
secretario da embayxada, porq o Embayxador era extraordi- 
nário, e com este titulo avia estado três annos alli. 

1 3. Eu vi húa Insírucção do S.r Rey Dom Sebastião, escrita 
em Almeirim a 27 de Novembro de i5jo, p.* hum embaixador 
levar a Gastella, q acabava com estas palavras: «A casa e 
despeza q hei por meu serv.° q tenhais, em q.to na Corte de 
Gastella residirdes por meu embayxador, he somente aquella 
q for rezão q tenhais e puderdes ter, sevos individardes, pêra 
vosso gasto e despeza, senão por me servirdes bem, como de 
vos confio e espero que o façais». Isto he conforme a con- 
dição e largueza ou estreiteza dos tempos. Em alguns dos 
antigos se fazia toda a despeza aos Embaixadores; e em 
outros sedava tanta fasenda que lhes sobejava, e a restituião 
ellas a seus Princepes e Republicas. A virtude de parsimonia 
muyto deve ser estimada de todos, mas a corrupção dos 
costumes, com o sobido preço das cousas, ainda ordinárias, 
obriga a q ate os Relegiosos, como vemos, gastem hoje muyto 
mais q antigamente. V. S., alem de ser hum embayxador. 
Conde e grande destes Rnos, representa a pessoa de seu Rey, 



— 179 - 

e não pode deixar de tratarse conforme a sua autoridade e 
lustre Portuguez, ajustandose pelo menos ao tratamento e 
casa que tem os outros Embayxadores Régios q residem em 
Paris. He impossível não se gastar muyto, porque a despeza 
do caminho por mar e terra he grande: a ordinária e extraor- 
dinária da Corte grandíssima, pello valor das cousas, pelas 
esmolas dos particulares, dos conventos e doutras communi- 
dades, pello socorro dos soldados e doutros necessitados, 
com outras meudezas, q vem a fazer gr.de soma. Dizem em 
Paris q hum cidadão ha mister hoje naquella Corte 4 mil 
escudos pêra se sostentar honestamente, c5 os criados neces- 
sários, CO húa carrossa de dous cavalos, e outro mais pêra 
substituto das faltas e pêra outros ministérios. Por aqui se 
pode regular a despeza de húa casa grande, a ordinária digo; 
q a extraordinária não tem proporção. 

14. Não consinta V. S. companheiro c5 o mesmo titulo 
de embaixador, porque aindaque os Autores admitten este 
género de embayxadas com certas limitaçoens e em taes 
occasioens, os mais as condemnão, por trazerem consigo 
grandes inconvenientes ; como são a variedade dos pareceres, 
q as vezes confundem mais as matérias; a independência; o 
respeito particular. Já se os collegas não reconhecerem a 
sua cabeça (como he força), será monstro a embayxada, ou 
escândalo do género humano. Faça V. S. contudo por levar 
pessoas doutas, ou discretas e experimentadas, c5 quem possa 
aconselhar seguramente nas occasioens que se ofFerecerem; 
ou sejão nomeadas por Sua Mag.de^ ou convidadas por V. S.; 
q esta he a ventagem q os grandes senhores fasem aos mais 
nos cargos q occupão, levarem tudo trás si. Os livros lhes 
chamão conselhr."' da embayxada, e antiguamente se cha- 
marão Assistentes na nossa terra, quando tinha embayxado- 
res, e ouve sujeitos nesta função de tal calidade e talento q 
chegarão depois a occupar a suprema cadeira da Igreja. 
Também podem faser este oíficio os parentes e os amigos 



— i8o — 

que quizerem acompanhar a V. S. Chamãolhe os fidalgos 
da embayxada. Assi vão c5 os embaixadores ordinários dos 
outros Princepes e Rep. algúas pessoas, e ainda moços ricos 
e da primeira nobresa, gastar sua fazenda em sirv.° de seus 
Mestres, pêra aprender a ser despois embayxadores. As em- 
baixadas extraordinárias constão de grande numero desta 
nobreza, e em alguas se virão Príncipes e gr.des senhores 
accompanhando ao embaixador. 

i5. Sobretudo faça V. S. eleição de hua pessoa de virtude 
e letras, on Regular ou irregular, pêra seu confessor; e para 
recorrer nas matérias de Theologia emoraes q podem occor- 
rer, p.* não perguntar nada fora de sua casa; e p.^ as cousas 
que se podem encomendar a Religiosos e Ecclesiasticos; com 
advertência q não se estimão lá tanto os frades como na 
nossa terra, ainda q são commummente todos de vida muy 
exemplar. Alguns vemos mettidos em negócios de estado, 
contra a opinião de alguns Políticos, q não permitte q se 
tratem cõ elles, pela falta q tem de experiência; e porq c5 
averse criado na sua cella, no seu choro, e no seu claustro, 
abaterão de maneira seus pensamentos q não aconselhão 
cousa heróica, nem de espiritu, senão só seus interesses, ou 
seus escrúpulos, q aguão muyto as grandes acçoens : e porq 
de ordinário são gente que fora das confissões guardão pouco 
segredo. Eu, q os venero muyto, entendo q fora da sua pro- 
fissão senão devem meter em nenhum negocio profano: porq 
se são muyto p.* elles, perdeislhes a devação em os ver assi 
negociadores e entremetidos, e sempre he expollos e arriscalos 
a se lhes perder o respeito, e no cabo a não fazerem nada, ou 
a danarem tudo. 

i6. O Secret.rio da embayxada he bem q seja (como 
sempre se usou em Portugal) hum estudante da universidade, 
formado em qualquer das faculdades, q tenha as partes neces- 
sárias de boa pena, bem entendido e secreto muito. Em 



— I8l — 

outros R.nos como França, Castella e outros, usao dos offi- 
ciaes das secretarias, porq estes sabem melhor os estilos q os 
estudantes, q saem á praça como a hum novo mundo : tem 
se delles experiência, ficão exercitando se melhor para servir 
naquelle mesmo ministério, q he differente do q aprenderão 
os Bacharéis e L.dos e do pêra q aprenderão. Leve V. S. cõ 
o de sua pessoa dous ou três officiaes seus, porque terá muyto 
que escrever, e he assi necessário, se quer ter noticias do 
mundo e das outras Cortes. 

17. O Interprete quizera eu q soubera ainda melhor calar 
q falar, e q servira só superficial ou ceremonialmente por 
authoridade da embayxada, que sempre ha de ser pronunciada 
cõ as palavras e lingoagem materna de V. S. Também qui- 
zera que V. S. se applicara a lingua Francesa 1, pêra entender 
tudo o q lhe dizem e manda dizer, porq estar ouvindo falar 
sem entender aquillo mesmo q a mi me importa, alem de ser 
cousa mui fria, não deixa de parecer falta. Não o tenha V. S. 
por difíicultoso, querendo darlhe algua applicação; e não será 
infructuoso o trabalho q custar. Lá ha hum mancebo, n.al 
destes Rn.°% q se chama Manoel Frz de Villa Real ', homem 
de negocio e conhecido, de m.tas boas partes, amigo dos livros 
e autor delles, q c5 alguns q vai publicando, se vai fasendo 
lugar na fama. Pretendia ser secretario Interprete das Em- 
bayxadas, e deu memorial aos nossos embayxadores, a q 
sérvio muytas vezes e m.to bem nisto, e em tudo o mais q lhe 
mandarão. Em casa de Ruy Corrêa Lucas está hum clérigo 
q se criou em casa da Raynha Margarita ' (a separada de 

' Como se vê, o Conde não sabia francez, e não o sabia o Monteiro-mór, 
segundo João Franco Barreto. 

' Cônsul de Portugal em Paris e christáo novo. Vide a obra de J. Ramos 
Coelho, Manoel Fernandes Villa Real (Lisboa, 1894). Trata do seu pro- 
cesso na Inquisição. 

• Marguerite, i.* mulher de Henrique IV da França. 



— l82 — 

Henrique o grande) o qual fala bem Francez, e he virtuoso e 
experto, e entendo q folgará muyto de acompanhar a V. S., e 
também entendo que pêra este oííicio são melhores os nossos 
naturais, e sempre os sujeitos desta coroa, tendo as partes 
necessárias. 

i8. A mais familia e criados, Ja se vê q hão de ser como 
de casa de V. S. ^ Escolha V. S. delles os de mais aventajados 
prendas, mais industriosos e luzidos, como p.* aparecer em 
hum theatro tão publico e com hua corte tão principal do 
mundo, aonde se estimao muyto as Artes Liberays e se attenta 
pêra tudo o dos estrangeiros. Muyta fidelidade, e secreto 
muyto, he o que todos hão de levar metido na cabeça, pêra 
o guardar religiosa e inviolavelmente. No demais, muyta 
cortesia có modéstia, muyta compostura sem affectaçao ; de 
maneira q em cada hum e em todos juntos se vejão repartidas 
as virtudes do S.r a quem servem, e a quem devem de imitar 
em tudo. Aja quem saiba as linguas, e o Latim bom seria 
muy necessário e proveitoso. Veja se o credito que deu o 
Padre Macedo * á gente e ainda ás mesmas embayxadas, e o 
discredito doutros q imprimem livros com latins ordinários, 
em q não se sofre mediania, como dizem dos versos vulgares. 
Sou de parecer que V. S. não leve mais que os nec."» de ser- 
viço da pessoa, da fazenda, repostaria e copa, e q la tomava 
os pagens, lacayos e cocheiros, conforme á usança de Paris; 
q assi o fazem os outros embayxadores, e até o mesmo Núncio 
do Papa: porq sabem as ruas e casas dos sors e dos minis- 
tros, e tudo aquillo q pertence a seu ministério. Se V. S. 
levar de cá cozinheiro, como he bem q seja, também será 

' Nola marginal.- Não faca V. S. pouco caso deste advertimento, porq 
não vai nelle menos q a honra de V. S. pellos inconvenientes e danos q 
sabemos de outras embayxadas. 

' Padre Francisco de Santo Agostinho Macedo, o poligrapho, que 
accompanhou, escondidamente, ao Monteiro mor a França. 



— i83 — 

necessário tomar lá outros q saibao guisar ao modo Francês, 
porq como ha de dar mesa, não ha de querer q os estran- 
geiros se acostumem aos nossos"manjares, com que não se 
criarão e de q estranhão m.to alguns, por isso mesmo como 
nos os seus. Não consente V. S. q os criados levem con- 
sigo picaros e maltrapilhos, antes o prohiba, porq desacredi- 
tarão a casa por fora; e ainda que as muyto grandes tem de 
tudo, a de hum embaixador ha de ser mui selecta e jueirada, 
e pelo menos bem vestida e bem tratada. Para tudo acharão 
lá outros muy serviçaes, e pode ser q mais fieis q os de 
ca. 

19. He necessário prevenirse V. S. dos presentes q ha de 
levar. Nos da Rainha Christianissima não ha q duvidar, porq 
a mim me disse o Marquez de Gevre, Capitão de Guarda dei 
Rey de França, levandome a ver comer a mesma Raynha, ZJ 
o que mais estimaria S. Mag.de de Portugal erão os cheiros 
e couros d'ambar, agoas cheirosas e outros prefumes; entendo 
que devião ir em nome da rainha Nossa Senhora, e assi no 
do Príncipe nosso senhor, algum brinco ao Delfim, e ao Duque 
de Anjoui. A El Rey não sei se será conveniente, pello ÍJ 
se ha de presentar; e mais despois dos presentes q Tristão 
de M.ça2 fez em Olanda, de q se falou tanto em Paris. Húas 
camas de caminho mui coriosas, visto caminhar tanto ElRey, 
se poderão levar; ou pêra o Cardeal'. Lá vera V. S. todas 
as riquesas do mundo juntas. O q mais se estima he o Raro, 
ainda q em si não seja de tanto valor, e por isto valerá mais, 
e se poderá presentar aos Príncipes e Princezas, e aos Minis- 
tros do Rey : porq não pareça q se pretende outra cousa mais 
q a benevolência; q este he o pr.° intento de V. S., ou o p.ro 
effeito da embayxada, e sobre q assentão bem todos os mais. 

• Filhos de Luis XIII. 

' Tristão de Mendonça Furtado, embaixador a HoUanda em 1641. 

• Richelieu. 



— i84 — 

O Embayxador deVenesa, Angelo Coronaro, que se despedio 
comnosco daquella corte, avia presentado em nome da Repub. 
dous pistoletes de grande coriosidade e raro artificio : affir- 
marão q gastarão hum anno em se lavrar: e El Rey os es- 
timou muyto. Os Núncios costumão trazer epresentar cÕ a 
mesma acceitação destilaçoens e aguas de Itália, e outras 
ninharias semelhantes : nem os ministros ou suas molheres 
acceitarião outra cousa sem temor ou suspeita. As damas e 
as snrãs entendo q tomarão tudo quanto lhe derem sem es- 
crúpulos, e CÕ muy boa vontade. 

20. Hade levar V. S. hu passaporte dei Rey N. S., ou 
carta aberta, em q consta dos titulos c5 q V. S. faz a jornada, 
e vai demandar aquelles portos, expressandose o de embay- 
xador ordinário, ou extraordinário; que assi usão por lá, e 
eu vi alguns e sempre fora m.to necessário se o grão Prior 
não estivera na Rochella: e muyto mais pêra qualquer outro 
porto e e havra que V. S. pode tomar cÕ o seu navio. Este 
me parece q seja Ingres, porq tem boas embarcaçoens, limpas, 
e seguras pêra aquelles mares : e elles são grandes marinhr.os, 
como mostrarão na grande tormenta em q nos vimos na costa 
de França, em q outros fizerão naufrágios differentes na 
mesma conjunção. O frete, os Ministros de S. Mg.de o fazem 
aqui; e V. S. o paga lá, mas he necess.rio advirtir q os offi- 
ciaes da nao, do primeiro até o derradeiro, querem alem disso 
sua propina; e não tivemos pouco enfado cõ os aver de con- 
tentar: mas CÕ q os primeiros e mayores fiquem contentes, 
pêra os outros qualquer cousa basta. Do provim.to pêra o 
Mar, e a matalotagem q chamamos, não tenho q dizer de 
novo. V. S. bem sabe q o mar he incerto: e q esta viagem 
poderá acontecer fazerse em três dias, ou em três mezes, que 
de hiáa e outra ha exemplos : eu fallei c5 quem a fez em dous 
mezes daqui pêra lá, e cõ quem a fez em três dias de lá para 
ca. Quererá Deos q a de V. S. seja mui prospera e bem 
sucedida: eu me contento cõ os oito dias, sendo assi q eu puz 



I 



— i85 — 

em ir vinte e tantos dias ', e quinze em vir, c5 iiua armada 
tão celebre*. 

21. Provavelmente deve V, S. ir demandar a Rochella: e 
temos entendido q este he pêra nos o melhor porto, em quanto 
está alli por Govern.or o Grão Prior de França Mons.r de la 
Porte, tio do Cardeal de Richelieu, irmão de sua may, Susana 
de la Porte. Devemoslhe muyto amor e cortesia. He velho, 
mas de gentil disposição. Tem muyias noticias de Portugal 
pelos Portugueses cõ q concorreo em Malta, em q falava 
comnosco muytas vezes, entendendo tudo o q lhe dizíamos 
em Castelhano, e parlando hum pouco. El Rey N. S. lhe 
tem já escrito em agradecimento do bom agasalhado e boa 
passage q fez e faz a todos seus embayxadores e mais 
vassalos. Ouvi dizer na Corte q se lhe mandava presente, e 
não se escuza. Mons.r Lanier ^ me disse, tratando disto cõ 
elle, q seria bom mandarlhe cousa q elle pudesse mandar e 
repartir com Madame a Mareschala de la Milhere *, e cõ a de 
S. Chistovão, molher do Marquez seu sobrinho (ou filho), q 
são as q mais estima e regala. Preguntey lhe eu o q se podia 
mandar? Disse-me q não sabia; e assi o deixei. 

22. Se estiver ally Mons.r de Villamonté, he necess.rio q 
V. S. tenha grandes cumprimentos cõ elle, porq he pessoa de 
letras e de grande authoridade e desconfiará, ainda q he muy 
entendido, se V. Senhoria se descuidar. E se estiver ausente, 
perguntar por elle, e juntamente por Mons.r de Estissac, irmão 
do Duque de Rochefocau, q desejava vir servir na guerra de 
Portugal pêra mandar aos estrangeiros. E cuido q só pêra 

' Isto confirma a Relação de Barreto, quanto ao tempo que durou a 
viagem, e mostra que Ericeira (a quem seguio Santarém) enganou-se, fazendo 
partir de Lisboa só em 28 de Fevereiro o Monteiro-mór. 

' A armada frinceza do Marqi iz de Brezé, em que os embaixadores 
voltaram a Portugal. 

* Agente francez em Lisboa. 

♦ Melleraye, 



— i86 — 

ofFrecerse aos embayxadores, veyo ter a Rochella, e mo co- 
municou a mim mais claramente. Parece q he justo agra- 
decerlhe esta boa vontade. V. S. ouvirá dizer delle grandes 
virtudes, e finalmente he homem de quem todos falão bem. 
Dará rezão deste fidalgo Monsieur Aigremon, hu dos con- 
selheiros da Rochela, em cuja presença passarão estas pra- 
ticas, o qual he muj afeiçoado a Portugal e falia Hespanhol, 
por aver andado por cá e estudado em Lix.® Ao governador 
das Torres da Rochela se devem as mesmas cerimonias e 
todo o comprimento : he gentil homem principal e grande 
soldado, e tem ca hú sobrinho ou dous. 

23. O conselho da villa, com seu presidente, Mons.r de la 
Escalla, q he pessoa grave e Douta, hão de vir visitar a V. S. 
cõ as mais communidades ; não tenho q advirtir na cortesia 
com que V. S. os ha de tratar. Ha muytos conventos de 
religiosos q hão de pedir sua esmola, e como bons e verdadr.os 
Atletas merecem grandes prémios, porq estão em continua 
luta CO os herejes, confundindoos e reduzindo muytos. No 
CoUegio dos Padres da Companhia (q são propriamente como 
ca) tem V. S. o Reitor, q he nobre, e de grande virtude e 
satisfação. Mons.r Lanier me dizia q se espantava de como 
El Rey lhe não escrevia, ou mandava escrever, em agradeci- 
mento da assistência q fazia aos nossos soldados e aplausos 
a todos nos. O gran Prior lhe tinha grande respeito, e comia 
m.tas vezes cõ elle. O Mestre da filosofia teve alli huas graves 
conclusoens, dedicadas a ElRey N. S., e despois as ofFreceo a 
S. Magestade por mão dos nossos embayxadores. Pretende 
passar ao Japão, e dezeja q S. MágA^ lhe dê l.ca; eu o tratei 
CÕ o P.e Luís Brandão, e me disse q o tomava a sua conta. 
O P.e Paulo da Costa, Companhr.» do P.e Ign.° Mãz * e Pro- 
curador do Brasil, dará disso boa informação, como de tudo 
o mais que lhe encomendarem. 

■ Padre Ignacio Mascarenhas, Embaixador de Portugal á Catalunha em 
1641. Teve como companheiro o Padre Paulo da Costa, 



— iSy — 

24. Daqui pode V. S. e deve avisar a Paris pela posta, ou 
pelo correo, que parte duas vezes na somana, escrevendo ás 
pessoas com quem lá tiver conhecimentos, e a Mons.r de 
Chavigni, q he o secretario de estado a quem tocão as em- 
bayxadas e cousas externas, dandolhe conta de sua chegada. 
E se V. S. mandar hum criado, q va demandar ao Cap.f" Villa 
real, elle fará de muyto boa vontade, e m.io bem, tudo o q se 
lhe ordenar. Mas prim.ro deve V. S. escrever e despachar p.* 
este Rn.°, avisando de sua chegada a el Rey N. S. e continuar 
cÕ o[sJ correos. 

25. A Rochella não tem boa commodidade de carruage, 
e nem carroças, nem coches achará V. S. alli, se os não mandar 
vir de fora, tomando hum conductor pêra isto, q se ha de 
obrigar por escritura e certo preço a conduzir a V. S. e levar 
a sua bagagem. Se se puder mandar o fato por mar a Nantes, 
pêra ir pello Rio acima até Orleans, escusárasse m.to trabalho, 
e fora menor a despeza. Nos levámos tudo por terra e dizia 
o mordomo do Monteiro môr que fizera de custo cerca de 
dous mil ^.dos^ sendo bem poucas as carretas, e presentan- 
donos o Gran Prior a sua carroça de campanha c5 seus ca- 
vallos até parte do caminho. De volta mandámos de Orleans 
a Saumur pia ribeira abayxo, com conductor e parte dos 
criados, e nos viemos por terra e por agua. Ha também m.to 
roins pousadas ate Poitiers, ainda q não lhas desgabaremos. 
Não sei se passou por aqui Gracilasso quando disse: 

Vinos azedos, camareras feas, 
Varletes codiciosos, malas postas, 
Gran paga. poço argent, largo camino. 

Por evitar parte, pode V. S. ir por Sorgier •, como nos 
fomos, e não se troce nada. Achará húa casa de campo, ou 
Gastello, m.to bom, cÕ boas camas, e onde el rey Ghristianis- 

' Surgéres, 



— i88 — 

simo alverga, quando faz aquelle caminho. He hua baronia 
(meya jornada de Rochella) de húa senhora viuva, do appe- 
lido de Fonseca, q se preza muyto de Portugueza e diz q he 
da casa de Coca e Alaejos (sic), filha de Carlos de Fonseca. 
Foi casada duas vezes e tem por filho, entre outros, a Carlos 
de Fonseca de la Rochefocaud, senor de Montendre Monguion 
e outros lugares. EUa não estava alli quando passámos. 
Despois a visitámos em Paris, e por via do grande Prior lhe 
escrevi e mandei hum papel genealógico dos Fonsecas, q me 
avia pedido. E por tudo isto he necessário q V. S. lhe faça 
gr.des comprimentos. 

26. Também pode ir pia Motte st leraye *, q são duas 
jornadas, por ver ao Conde de Parabere, governador da Pro- 
víncia de Poitou. Antes me parece forçado não passar V. S. 
sem o visitar, mandando lhe recado de Rochella, e a Madama 
a Condessa sua molher: porq não se pode dizer o gasalhado, 
o amor e cortesia c5 que nos agasalharão aquelles sors e toda 
sua familia, filhos e criados, e V. S. tem obrigação de agra- 
decer todo o bom tratamento q se nos fez e a suprir tão bem 
nossas fraquesas. O Monteiro môr me disse q lhes avia de 
faser hum presente, e-eu lhe escrevo agora e ao D.tor António 
Coelho de Carvalho pêra q se lembrem das promessas aly 
feitas, eveja a satisfação q se ha de ter cõ elles em hum aviso 
e reposta q ficavão esperando. Porque avendose seus filhos 
do Conde offrecido pêra vir servir a Portugal, e pedido cartas 
de favor aos embayxadores pêra passar logo a este Rno (e 
cuido q só com este intento, e de agradar a elRey seu mestre 
e ao Cardeal, mandou visitamos a Rochella pio Cap.m de sua 
guarda e offerecer a pousada em sua caza, pque senão torcia 
quasi nada do caminho real), resolveosse o Visconde de Par- 
daillan, filho 2° do Conde, a ir ter despois connosco a Paris 
em proseguimento destes intentos, na occasião q partiamoj: 
pêra Abeville, onde o Christianissimo ja estava, e foi connosco 

' La Mothe S.» Heraye. 



- i89- 

á Corte. Pello caminho e lá se tratou c5 elle se quereria 
levantar hua companhia ou duas de cavallos lig-^os^ e passou o 
tratado tanto adiante q se falou em buscar dv." prestado, obri- 
gandosse Heitor Mendes* ao assento; e a mandar saber aos 
portos de França se avia navios de Amburgo pêra passarem 
os cavallos, sem advertir ao disposto na Instrucção, q eu 
tinha bem de memoria; el Rey mandou passar sua carta, de 
q tenho a copia, ao Visconde de Pardelhan (porq os Franceses 
são mais fogosos e apressados q nos) e assi mais a seu Pay 
e ao gran Prior, como governador daquellas Províncias, dan- 
dolhes l.ça p.* se poder levantar a comp.* ou cõpanhias pêra 
passar a Portugal, c5 as clausulas costumadas, a avendo 
aquelle serv.° como feito a sua mesma Coroa; pêra a gratifi- 
cação e satisfação até veyosse o Visconde cõ isto diante a 
dar conta a seu Pay e esperamos 2.* vez em sua casa c5 a 
mesma grandesa, cortesias e tratamentos, pêra se aver de dar 
cumprimento ao negocio e ultima resolução. Não me custou 
a mim pouco o compoUo c5 credito nosso, e assentar q se 
desse pr.° conta presencialmente a el rey N. S. pois estávamos 
tão de caminho; e q nos p.ros navios, ou cõ o embayx.or or- 
dinário, q de força avia de ir, se lhe daria conta e resão de q 
S. Magestade ordenasse e ouvesse por seu serv.°. Bem vê 
V. S. q he nec." dar poUo menos algúa satisfação a gente tão 
grande e autorisada. E pois S. Magestade escreveo ao gran 
Prior, bem pode escrever igualm.te ao Conde de Parabere. 
Se V. S. fôr por lá e ainda q não va, pareceme q ha de ser 
forçado fazer algua demonstração e mandar algum presente 
a Madame a Condessa, ou a Madamoiselle de Parabere, sua 
filha, q está ainda por casar. Ao filho mais velho dos Condes, 
chamão Marquez da Motta, e tem outros em casa, e hum do 
habito de Sam João em Malta. 

27. Da Motta tem V. S. nove léguas a Poitiens 1 (sicj q 

' Vide pags. i3i e 145. 
* Poitiers. 



— igo — 

he hua grande cidade em casas e em gente : universidade do 
Direito civil; alem das latinidades q ensinão os P." da Comp.» 
O Conde ha de ordenar q os do governo visitem e presenteê 
a V. S., como fazem aos Príncipes e pessoas reaes quando 
passão por alli: e como íizerão aos nossos embayxadores em 
todas as villas e cidades por onde passámos. 

Aqui em Poitiers succederão duas cousas notáveis, q não 
escrevi no papel do Conde ^, porq não parecesse q o meu 
intento era descobrir faltas, senão só a remediar, e porisso 
mesmo me parece necessário mencionallas p.' as evitar, como 
quem assinala os atolleiros do caminho, por não fallar em 
nada. A pr.* foi na noite em q chegámos hua pendência e 
descomposição grande entre os criados do Monteiro mor e 
de António Coelho sobre o tratamento das mesas e comida, 
com espadas nuas e grande revolta da povoada. A 2.* q ao 
outro dia pia manham, avendo o Bispo mandado recado pêra 
visitar os senhores embayxadores e tardando hu pouco em 
vir (ou cuidando q não tínhamos tanta necessidade de vencer 
a jornada n'aquelle dia q era piquena, ou não podendo vir 
mais depressa), nos fomos sem esperar a visitação, q o Bispo 
fez de balde, não nos achando já na pousada, segundo disserão 
os q ficarão mais atraz, e todavia quando voltámos por ally, 
não se lhe fez comprimento algum. 

28. A Chateleraut são 6 ou 7 léguas, q he o cam.° mais 
dir.to e melhor, q V. S. ha de levar, e finalmente de Chatele- 
raut, sem passar cousa notável até Amboise, são 18 léguas. 
Daqui, ou daquella jornada, q he de 10 léguas a Blois, deve 
V. S. mandar diante hum gentil homem, ou outro criado 
autorisado, saber se está alli Monsieur, o irmão único dei Rey 
e Duque de Orlaens (sicj, (q assiste ordinariamente naquella 
sua villa, em q vai lavrando hum grande Palácio, ou em hua 
casa de campo dahi a 4 léguas de q gosta m.to); e pedirlhe 

' de Vidigueira. - 



— 191 — 

licença pêra o visitar, e não he bem q V. S. passe sé faser 
este comprimento e sem ver aquelle Príncipe, caminhando 
por suas terras e estando elle hoje em graça c5 seu irmão. 
Nos passámos com esta nota a ida (e vinda), posto que des- 
pois o visitámos em Paris e fez grande acolhida aos embay- 
xadores. 

29. De Blois a Orleans são 16 ou 17 léguas; e daqui a 
Paris 34, q fasem numero ao todo de cento e dez, pouco mais 
ou menos, da Rochella. Eu fui daqui de Orleans cõ o recado 
dos embayxadores á Corte, e tomei a posta, em pouco mais 
de húa noite. Baste q mande V. S. do Burgo de la Reyna ^ 
(q são duas, ou três léguas a Paris) o secretario da embay- 
xada ao secret." Mons.i" de Chavigni, dandolhe conta como 
ha chegado, e q espera l.ça de S. Mag.de Christianissima p.* 
entrar na Corte a beijarle a mão, e ordem sua p.» saber o q 
ha de faser, e onde e q.do quer darlhe audiência. 

30. El Rey costuma dar casa, ou hum hostel, como elles 
chamão, muy bem adereçado, aos embayxadores extraordi- 
nários, e dous ou três dias tratamento de tudo o necessário 
p.» a mesa. Se V. S. leva este t.°, já tem pousada certa: mas 
sempre será necess." mandar tomar algua despejada para 
entrar incógnito e prepararse pêra a entrada de coches e 
librés. O q também V. S. pode mandar prevenir da Rochela, 
logo q chegar, se tem pessoa confidente, ou conhecida em 
Paris : e em falta lhe daremos a conhecer dous, de que pode 
faser muy caso e confiança, por sua verdade, modéstia, honor 
e bons procedimentos. Hum se chama Monsieur du Jardin^^ 
q esteve ja nesta cidade de Lisboa; he velho rico e tem filhos 
conselheiros e outros tratantes; e hiía casa de campo, m.to 
boa, daly a meya légua na Villeta, donde fizemos a nossa 
entrada: e elle mesmo a veyo offrecer p.* isto aos embayxa- 

• Bourg la Reine. 

• Vide pág. 53. 



— 192 — 

dores, e nos levou lá e nos deu hua grande coUação. O outro 
se chama MonsT Fernandes de Leon, natural de Flandes, mas 
de avos Portugueses e Franceses, honesto homem e muyto 
autorisado, a cuja casa e jardim concorre os senhores de 
mais capacidade e juizo q tem aquella Corte. A hum e outro 
devo muyta amizade e cortesia, sem aver tido dantes cÕ elles 
conhecimento nem correspondência algua. Tão bons são 
como isto. E assi os achará V. S. se os quizer tratar. Ser- 
virão aos nossos embayxadores íidelissamente fSic) em tudo 
o q lhes ordinarão, cortejandonos sempre. Mas sei eu que 
não ficarão elles satisfeitos da responsão, e não digo mais 
a V. S. 

3i. Ha em Paris hum homem q chamão Mons.r de Lope, 
CÕ opinião de muyto rico ; e por isso de muyto valido do Car- 
deal. Dizem q he dos expulsos de Granada, mas q vive como 
catholico. Com este importa ter gran tento, e húa pouca 
de circunspecção, porq tem muyta manha e muyta industria, 
e não deixa de ser poderoso c6 a riqueza e valimento. En- 
tremetese em caza dos embayxadores, regaleos e convidaos; 
e Deos sabe os intentos : e a algum custou bem cara a sua 
visita e amisade. Diga o Caron de Let ^, embayxador da 
Infanta Archiduquesa, quando veyo a Paris, sobre a jornada 
da Raynha maem (sicj a Flandes, ao qual não custou menos q 
a honra e a cabeça. Aos nossos convidou, cõ alguns grandes 
senhores da corte a hum esplendissimo banquete. Mas quiz 
Deos q tivemos poucos dias delle, porq avia vindo de Holanda 
poucos antes de nossa partida de Paris. Deste sayo a ma 
informação q o Cardeal tinha do nosso embayxador de 
Holanda 2^ conforme a linguagem de sua Eminência e a do 
mesmo Lope. A pratica q introduzio aos nossos foi acerca 
da liberdade do Infante, promettendo ir pessoalmente a Ale- 

' Carondelet. 

* Tristão de Mendonça Furtado. 



— 193 — 

manha e despois a Portugal : q toda sua fazeitda daria por 
bem empregada em acção tão gloriosa. 

Despois, apertado em híía occasião, não fez nada, como 
dirá o Padre fr fernando de ' q esteve pre- 

sente : e assi avia de faser em todas. Contudo escreveo a el 
Rey nosso s.or, e he necessário que V. S. lhe mostre benevo- 
lência e guarde o mais. 

32. Estão ally também alguns pensionarios do Christia- 
nissimo, criados que ficarão do senhor Dom António Prior 
do Crato e de seu filho, e q passão suas necessidades. He 
necessário que V. S. lhes sayba o nome e os trate como a 
Portugueses fieis e constantes no que emprenderão ; honran- 
doos e favorecendoos muyto em tudo o q ouver lugar. 

33. He certo q alem dos arcanos de estado, e da instrucção, 
q eu não sei, vai V. S. a ratificar a confederação e alliança 
q fizerão os nossos pr.os embayxadores 2, e assi a confirmar 
húa amizade e confirmada coniinualla, não só entre os dous 
Principes, senão entre todos seus confederados, se puder ser, 
de q ha embayxadores naquella Corte, e finalmente entre todos 
os vassalos e sojeitos dos dous Reynos de Portugal e França: 
advirtindo aos tratos secretos de pazes q por via do Papa e 
Venesianos dizem q intentão nossos enemigos, pêra os im- 
pedir, ou dilatar, ou p.' não cuidarem q se podem faser sem 
q V. S. os entenda: mas c5 tal destreza q não pareça q 
vamos a isto como gente q toda sua conservação depende 
daquelles favores e soccorros: porq ainda q necessitemos 

' No original o nome está em branco, mas a referencia é a la Houe 
(correspondente do Infante D. Duarte) que escreveu um livro notável em 
resposta ao de Conestaggio. O livro dá-se por obra de J. B. Birago, mas 
este foi apenas o tradutor em italiano. 

' Nola marginal: Não offreço os papeis e tratados das allianças e do q 
nellcs ouve, porq V. S. tudo deve de aver visto e de tudo estará dono, e 
conforme a isto obrará e Deos o ajudará. 

i3 



— 194 — 

delles, avemos de procurallos cÕ artificio ; fomentando 
sempre o ódio q a nação Franceza tem aos Castelhanos, que 
he grandíssimo. 

34. Pêra o que, henecess.rio valerse V. S. de todas as artes 
sem aífectação, de muyta destreza, vigilância e cortesia*; e 
esta ultima he a cõ q V. S. ha de obrigar pjo, e conquistar 
os Francezes, ganhandoos e accomodandose a seus modos e 
usos : porq se em Portugal se usasse por cortesia húa cere- 
monia q não se praticasse em França, ou se não advirtiria 
nella, senão fosse de pezo pêra isso, ou se tomaria por des- 
cortesia, se fosse encontrada cõ as suas 2. Seja hum exemplo 
sairmos cá nas visitas diante dos hospedes até hua, ou duas 
salas : e lá não tomar nunca do dono da casa aquelle luguar 
(q chamão as entradas) e sair ao pátio, ou a porta da Rua, até 
partir a carroça, q he o mais. Elles cuidão q tem o Império 
da Cortesia em sy, e q o tomarão aos Italianos e a todas as 
mais naçoens. E na verdade não se pode negar q são mui 
corteses, e q húa dama ou hum gentil homem Francez são a 
mesma cortesia. E assi são as leys q observão, e as ceremo- 
nias infinitas e mais pêra vistas q p.* escritas. De húa he 
necessário advirtir a V. S. porq me parece q só em França se 
usa, ou em Paris, q quem entra de novo, ou se muda pêra 
outra Rua, deve visitar pjo a todos aquelles cõ quem quiser 
correr e tratar ^. Não nomeará V. S. nunca francez sem dizer 
Monsieur. E se fôr menos, le sieur. As senhoras, Mesdames, 
ou Madame em singular, e da mesma man.ra quando se fala 
ou escreve á Raynha : e a el Rey Sire. As donzellas (ainda 

' Nota marginal: Sobre a cortesia fiz húa carta particular ao Conde. 

' Nota marginal: O Núncio Scotti deixou de visitar ao Duque Carlos 
de Lorena em Paris porq capitulando as cortesias e ceremonias, propôs o 
Duqe q desceria até o pátio, mas q não avia de esperar q partisse a car- 
roça. 

' Suppomos que da França viesse este costume para Portugal, pois náo 
se observava cá naquelle tempo, como se deprehende das palavras supra. 



q sejão m.eres maiores q nunca casarão) Madanioiselles. Mas 
ha nisto hua differença, q as m.eres do meyo e dos burgueses, 
ainda q sejão casadas, querem ser tratadas de Madamoiselle. 
Sendo assi q a tudo o mais, ou seja alta ou baixa, se diz 
Madame por cortesia. 

35. Bem sei q el Rey Dom Sebastião mandava em hua sua 
Insirucção ao meirinho-mor, embayx.or em Castela, q despois 
das visitacoins dos Reys, visitasse de sua parte ao Príncipe, 
Ruy Gomes da Sylva e ao Duque de Alva, quando chegasse 
de Flandes; a estes sós em suas casas: e q aos mais do Con- 
selho fallasse e desse seus recados no paço. Isto devia ser 
quanto ás vizitas em nome dei Rey: q não ha duvida q o 
Embayx.or pode visitar, e he força q visite aos q quiser, como 
não seja contra o intento de sua embayxada e authoridade 
de sua pessoa. 

36. V. S. hade ver tudo o q ha em Paris, nem cÕ admi- 
ração e pasmo, nem com desdém e desprezo, mas antes cõ 
benevolência e aprovação, e cÕ applauso das obras heróicas 
e vertuosas. Irá V. S. á Universidade e CoUegio, aos actos 
Literários da Sorbona, pêra q elles mesmos terão cuidado de 
convidar a V. S. trasendolhe as conclusoens e theses, e assi 
ás outras academias das artes liberais e de montar a cavallo ; 
ao passeo : e a tudo a q vão os mais, com honor. Porq como 
quer q o intento principal de hum embayx.or seja conquistar 
e ganhar a vontade do Príncipe a q assiste, e o amor de seus 
vassalos, por todas as artes e modos de urbanidade, he ne- 
cessário q V. S. se accõmode p.ro a pareceremlhe bem todas 
as cousas dos Franceses: e isto custará pouco a V. S. porq 
tem muytas dignas de lovor. Louvará tudo o q não fôr 
contra algúa virtude e bons costumes, e principalmente os 
trages, q he cousa de q se pagão muyto. O mesmo acontece 
a todas as naçoens cõ os seus. Não digo por isto q V. Se- 
nhoria se vista a Franceza, posto q seria bom adaptar e mo- 



— ig^ — 

derar este de q oje usamos pello q tem de Castelhano *, q 
elles aborrecem muyto. A família deve V. S. trazer vestida 
ao uso daquella Corte e a la moda que dizem, principalmente 
os Lacayos e pagens e mais officiaes pedantes. Tudo vestem 
assi os embayxadores doutros Príncipes q la residem, e sempre 
desta demonstração se obrigarão muyto todas as naçoins do 
mundo. 

Sy. Os Franceses tem grande vaidade na mesa, e he a 
mayor despeza sua e a p.ra^ e assi he necess.ro q V. S. a faça 
todos, ou os mais dos dias, de modo q se saiba, levando a 
comer aos q lhe parecer, ou acazo, ou de preposito; melhor 
he de preposito e avisando prim.ro^ porq assi não faltará V. S. 
em húa cousa tão substancial naquella Corte, saberá tudo q 
nelle passa, e terá sempre a casa chea de gente nobre, enten- 
dida e contente: presupondo e tendo por certo q ainda q os 
generosos se pagão só de cortesia, que a liberalidade e lar- 
guesa rende tudo. 

38. Da gente que sabe e dos Doutos, como dos insignes 
em algúa arte, bem entendo q fará V. S. muyto caso, sem ser 
necessário advirtiremlhe, tratando a todos com muyta cor- 
tesia e procurando saber que cada hum he, pêra soccorrrer 
talvez ao necessitado, q he muy irmam e companheira do bom 
engenho a pobreza. Não desestima V. S. esta lembrança, 
porq de se fazer o contrario, ainda q pareça q alli ficou 
occulto o desdém ou o desabrimento e a q não se julgava 
offença, sahe depois a pagarse a pena em hum theatro publico 
do Parnasso, cõ hum pregão e trombeta da fama em hum 
Livro Impresso, como temos visto muitos, ficando celebre na 
eternidade a vingança. Dom Fran.co de Castro, q depois foi 
Conde de Lemos, e Monge de S. Bento, se arrependia muyto 
de aver perdido a Trajano Bocalino 2, porq sendo embayxa- 

' Pormenor interessante. 

' Celebre satírico e critico italiano (n. i55j m. i623). No Hospital das 



— 197 — 

dor em Roma, indo a offerecerselhe pêra cortejar e seguir a 
corte espanhola, o remeteo a hum secret/io Bizcainho, ou p.ra 
examinar, ou pêra lhe despachar híía penção, ou dar a parte 
q pretendia: cançouse Bocalino de lidar, ou de não se enten- 
der CO o Biscainho e passouse á clientela do embayx.or de 
França, q o abraçou e estimou muito, e q.do despois escreveo 
os livros q vimos Impressos, soube bem fiscalizar e condemnar 
as acçoens dos Castelhanos. E em resolução não folgaria 
V. S. de obrigar os grandes engenhos se quer por grangearia? 
E de ter as musas tão amigas e propicias q deixassem as 
tellas de ouro fino e q o cantassem ?i Nem todos podem ter 
a ventura e boa fortuna do grande Progenitor da caza de 
V. S. 2 pêra acharem assi a hum Luiz de Camões sem o con- 
duzir. Em Paris, como Corte de hum Principe tamanho, ha 
grandes engenhos e excellentes artifices de todas as artes: 
huns buscarão a V. S., a outros solicitará e folgará de ver. 
Ha dois irmãos q se chamão os de Santa Marta, avogados do 
Parlamento, q compuserão entrambos a Historia genealógica 
da Casa real de frança e das q delia descenderão; e outros 
livros. Mons.r Godefroi, q he já conselheiro e historiógrafo, 
ou Coronista dei Rey ^, q compôs antigamente entre outras 
tratados a genealogia dos Reys de Portugal^: e por jaós 
não aver, tratava de 2." impressão e doutro livro novo de 
justificação dos direitos deste Reyno na pessoa dei Rey 
D. João o 4.° nosso senhor, Livro q será de grande conside- 
ração pella matéria e pio autor. Mons.r de Grenaille de 
grande espirito, e de capricho, com se vê de suas obras *. 

Letras de D. Francisco Manuel um dos interlocutores é o livro de Boccalini 
; Raggtiagli. 

' Lusíadas, canto v, 99. 

' Vasco da Gama. 

' Theodore Godefroy (1580-1649) foi nomeado liistoriographo em 1617. 
Ha varias cartas de Christovam Soares dirigidas a Godefroy no cod. da Ajuda 
49 I X I i3. Vid. fls. 42, 5i y.", 55. 92. 

* Foi impresso em Paris em 1610 e teve varias edições. 

' François Grenaille, autor do livro Platiirs des dames (1641) e de outros 



- 198- 

Tinha escrito hum Mercúrio Hespanhol; e disseme q andava 
escrevendo outro Portuguez. Mons.r Soyer, q he framengo, 
illuminador dei Rey e genealogista, e outros infinitos, q são 
bem conhecidos por suas virtudes e pellas obras q publicarão : 
mas faço menção particular destes, pêra q V. S. os acolha a 
honre mais particularmente, porq continuavão muyto a nossa 
pousada e tiverão sempre muyto boa correspondência comigo 
e a tem ainda oje. Logo devem de ir buscar a V. S. e outros 
da mesma faculdade, cõ o desejo de saber novidades e cousas 
q poder escrever em nosso favor contra os Castelhanos, pio 
amor e ódio q mostrão oje a huns e outros. Contudo seria 
acertado q V. S. tivesse noticias do que se escreve nestas 
matérias, porq as vezes acontece q se prohibem estes livros 
q.do ca chegão, ou se mutilão : e assi vimos sós nos a ignorar 
aquillo q todos sabem, ou dizem de nos. Leve V. S. alguns 
livros da historia Portugueza, e as obras deLuis de Camoens, 
q he historia particular de V. S. e de sua caza, p.» dar lá, e a 
mT me certificarão q as damas todas pedião aos Livr."' Livros 
Castelhanos, pêra sabere hua lingua q pudesse falar e entender 
os Portugueses. 

39. Se a Primavera fôr entrada, q.do V. S. lá chegar, estará 
el rey na campanha: mas se ainda estiver no castelo de Sam 
Germâo, três ou quatro léguas de Paris, aonde costuma 
passar os invernos, por rezão da caça e pêra descançar do 
trabalho de guerra; ally ha V. S. de ter a p.ra audiência, q 
nunca poderá ser no mesmo dia da entrada publica. De lá 
se ha de dar o dia, no qual m.da El Rey nos seus coches hú 
dos Principes de sangue, ou hum dos mayores s.res da Corte, 
a conduzir aos embayxadores, alem do conductor, q tem por 
officio assistir a tudo e levar e trazer as ordens. Aos nossos 
conduzio na entrada de Paris o Mareschal de Chatilhon, acÕ- 

que tinháo grande aceitação no seu tempo. No referido livro versa (inter 
alia) a questão: «Est ce le bouquet qui orne le sein, ou le sein emprunte-t-il 
du bouquet toute sa grace ?» 



— 199 — 

panhado de seus 2 f.<", o Conde Coligni e de Andelot. Na 
p.ra audiência dei Rey, o Duque de Ghevrosa, irmão do de- 
funto Duque de Guisa. Na ultima do conjé em Abbeville, o 
Duque de Nemurs, Principe de Saboya. O cargo de condu- 
ctor ordin.rio está repartido em dous, q o servem cõ a alter- 
nativa de Castor e Pollux, hu seis mezes, e outro outros seis. 
O Conde deBruUon sérvio emq.to estivemos naquella Corte; 
cõ elle entrámos e saimos ; e assi não conhecemos o outro. 
Fala e lingua latina com os embayxadores q não sabem a 
Franceza. He altivo e descõfiado hum pouco : mas tem hum 
tenente, q he secretario dei Rey naquelle officio, moço galante 
e q fala bastantem.te o espanhol, porq estava em Madrid. 
Hum e outro tem suas gages dos embayxadores : estes dirão 
a V. S. tudo o q se deve fazer : e também V. S. terá seus 
paracletos, q investiguem as cousas por outras vias. A regra 
he, q como tratarem a V. S. como aos outros embayxadores 
do Papa e dos Reys, não lhe fasem offensa. 

40. Pareceme q devia V. S. pedir licença a el rey Chris- 
tianiss.nio pêra o ver m.tas vezes, e a Raynha e a seus filhos 1, 
por lhe encommendar assi el Rey seu s.or, p.« lhe dar muytas 
novas de sua saúde e de suas vitorias e de todas as felicidades 
de França, e darlhe também todos os avisos e boas novas q 
tiver de Portugal, e cá ha V. S. de deixar assentado e muy 
encarecido, já q não ha outras postas nem correos, q lhe es- 
crevão em todos os navios, qdo não aja outros determinados 
expressamente p.* isso, porq emq.to lá estivemos, não tivemos 
cartas mais q por três veses^, e muyto tarde, chovendo as 
novas e as mentiras dos Castelhanos. Todos nos preguntárão 

' Nota marginal: Aqui faita por advirlir q á meza e nas audiências par- 
ticulares não se cobrem os embayxadores : não sei como se avião os Caste- 
lhanos e se iiião a ellas os grandes. 

' Em seis mezes 1 Outros embaixadores Portugueses do tempo fizeram 
as mesmas queixas dos ministros de Lisboa, sobretudo Francisco de Sousa 
Coutinho. 



— 200 — 

f>las q tínhamos, e não se deixava de estranhar a falta q nisto 
avia, a qual ordinariam.te lançávamos ao mar. O gran Prior 
dizia q era nec.° aver pello menos duas fragatas, húa de Portu- 
gual, outra de França, q andasse sempre, em falta de correos, 
d'hum Reyno p.* outro, só cõ cartas e avisos, de q he força 
estarmos faltos, estando rodeados de maré de nossos enemi- 
gos. O Prov.or dos Almazens estava em preço c5 húa, não 
sei q fim teve. Quem m.da embayxadores, ha mister correos 
sempre. 

41. Também dirá V. S. ao Christianissimo (despois de 
darlhe a carta de crença qhe a i." cousa) q mandará nomear 
os ministros cÕ quem ouver de tratar os negócios, aos quais 
ha de visitar logo em acabando cõ os Príncipes. O mesmo 
se ha de diser logo ao Cardeal. Despois da visita dei Rey, 
se faz a da Raynha, se está no mesmo Palácio : e a do Delfin, 
e do Duque de Anjou, q te dous annos menos q seu irmão: 
tudo no mesmo dia e cõ as mesmas ceremonias. 

42. Se são dias gr.des^ na volta de São Germão pode V. S. 
vir por Roei a visitar o Cardeal Duque de Richelieu : ou como 
elles lá o ordenarem. Nos o vimos ao dia seguinte, porq 
estava em Paris então. Não digo a V. S. nada deste grande 
sujeito e ministro de França, porq tudo he pouco p.* o que 
V. S. ha de achar nelle na p.ra vista e de todas as vezes q o 
vir e ouvir, e contudo ainda estou em duvida se he mayor a 
sua ditta, ou o seu saber. Entendo q pias grandes virtudes dei 
Rey seu Mestre e suas próprias, e pello grande zelo que ambos 
tem da' Fé catholica e ódio contra a herezia, lhes faz Deos 
tantas mercês, dilatando seu Império e Monarquia cõ tantas 
vitorias. Ao Cardeal pode V. S. falar hespanhol, porq de 
sete linguas q disem q sabe, he tão s.or como da castelhana; 
e desta como se fora nascido em Madrid: e assi das outras. 
Lá me perguntarão se Hie escrevera el Rey N. S. de primo: 
q com este estylo trata o Christianissimo aos Cardeais, e aos 



— 201 — 

Duques; e não ha razão para faltar de cá, mayormente aven- 
dolhe dado eminência. 

43. Hade levar despois o conductor a V. S. ás outras vi- 
sitaçoens dos Príncipes do sangue: a Monsieur irmão dei 
Rey ^, se estiver na Corte: a Madamoiselle sua f.»': ao Prín- 
cipe de Conde: e á Princesa sua molher e filhos: a Madama 
a Condessa, mãy do Conde de Soissons, e á sua neta Mada- 
moiselle de Longueville, filha deste Duque, q tão bem tem 
calidade de Principe: a Madame a Duquesa de Esguilhon', 
sobrinha do Cardeal, e assi os mais parentes de sua Eminên- 
cia: e a outras pessoas a quem os embayxadores costumão 
de visitar, como a Madamoiselle de Seneterre, q he húa pa- 
renta do nosso Conde dos Arcos, q nunca casou : o Duque 
de Bombazon*, e seu filho, o Principe de Guimine^, e outras 
pessoas q lá darão a conhecer a V. S. e a q os conductores 
não vão. 

44. Despois das visitas dos Principes e antes doutras, ha 
V. S. de ver os ministros : o Chanciller de frança, o p.r» das 
letras, e o 2° ou 3.° cargo daquelle Corte. Mons.r Botillier, 
surintendant de finances, q responde a Presidente de fasenda 
e c5prehende muyto mais. He pay do Mons.r de Chavigni e 
bom ministro. Estes dous forão os comissários q fizerão o 
tratado cõ os nossos embayxadores, a q eu estive presente, 
posto que não assinei, porq não era nomeado por S. Mag.de. 

45. Mons.r de Chavigni he a pessoa cÕ que V. S. mais 
hade negociar, em rezão de seu valimento e do seu officio de 
secretario de estado, a que tocão as embayxadas e cousas 
externas. He moço, rico, grave e cortez; os criados Ihehes- 

' Gaston, Duque d'Orleans. 
' M.lle de Montpensier. 
• Aiguillon. 
' Montbazon. 
' Guiminée. 



— 202 — 

panholisão a." Excellencia, posto q ordinariamente lhe dão 
senhoria Hl. ^(^ os embayxadores. Os nossos o tratarão agora 
no cabo de Excellencia: V. S. fará o q milhor lhe parecer, e 
conforme lá vir. Mas ha de ter cuidado de o tratar cõ toda 
a ceremonia nas visitas : e se puder passar a mais amizade, 
terão os neg."' de V. S. bom apoyo. Não aceitará cousa de 
valor, senão de raridade, e por mão de sua molher, a quem 
pello menos ha de ser necess.° mandar cheiros, agoas e pasti- 
lhas. Soube eu ^ se andava buscando hum Rubi bom; se V. S. 
o levasse, me parece q se estimaria, dandose atinadamente. 

46. Também V. S. hade visitar o outro secretario de estado 
q se chama M.r de Noyers, que trata as cousas da guerra, 
edifícios e fabricas: he homem de marca, e muyto valido. 
Ainda ha mais secretários de estado : mas os dous são os 
Trópicos de tudo quanto se move naquella Corte e fora. 

47. Aos Embayxadores dos outros Príncipes e Republicas, 
ou seus residentes, ha V. S. de fazer a saber p.ro por hum ou 
dous gentis homens mais luzidos, cõ o interprete da embay- 
xada, q he chegado, e darlhes conta do dia da entrada, porq 
costumão a mandar os coches cheos de seus gentishomens e 
secretários. Despois da visita dos Príncipes e ministros, os 
buscará V. S. se elles não vierem antes, como devem fazer, q 
não observão nisto as leys de França, por estrangeiros. Se 
alguns não mandarem os coches, por causa das competências 
dos lugares q ha entre huns e outros, não importa q faltem 
nesta ceremonia, como não faltarem despois na visita e outros 
comprimentos, mas será bom saber V. S. os q faltão e a rezão 
q dão p.* estar em tudo, porq de matérias de pouca impor- 
tância nacem as vezes alguas muy relevantes. Se V. S. ouver 
de usar as mesmas ceremonias e mandar o seu coche aos 
embayxadores, q entrarem; he necessr.° q os cocheiros e 
criados saibem ao q vam: porq a pendência he só sua delles 
e a honra nossa. Entendo eu ^ abayxo do Núncio, dos q Ia 



— 203 — 

estão, só Suécia e Inglaterra disputarão connosco o lugar, e 
V. S. poderá lá usar deste comprimento, conforme vir o 
tempo, a ocasião, e as circunstancias. 

48. O Núncio ha de tratar a V. S. conforme o Papa ao 
nosso embayx.or q foi a Roma, q V. S. procurará logo en- 
tender como chegar a França. O mesmo caminho segue o 
de Venesa, porq já se declararam ambos cõ nosso. Se con- 
tudo quizerem tratar a V. S. em secreto, e em particular, 
aceite V. S. as vistas, ou as visitas, q dalli os virá a trazer ao 
publico, e quando tenhão ordem em contrario de seus amos, 
sepre será boa qualquer amisade cõ elles, como a puderem 
ter comnosco, q bastará p." avisos e outros effeitos impor- 
tantes. O de Florença e Génova são Castelhanos, mas entre 
elles avera alguns que não tenhão o coração assi, e p isso 
será bÕ tentar a todos nas occasioins. Os de Inglaterra, 
Saboya e Holanda, he certo q hão de ver logo a V. S., q 
assi o fiserão connosco. Se o de Suécia não vier, tenha 
V. S. cõ elle toda a satisfação, porq he homem graviss.» e de 
m.ta importância. Todos os mais colligados d'Alemanha 
contra a casa de Áustria tem as mesmas comlaçoens fsicj e 
consequências. O Duque de Parma tem hum secret."» residente 
ally, m.to homem de bem. Faça lhe V. S. muyto gasalhado, 
e faça o comer algua vez na sua meza, q.do tiver convidados, 
como os outros fazem. 

49. Da pratica q V. S. tiver cÕ os ditos Embayxadores, 
poderá vir a entender e penetrar o q julgão de nossas acçoens, 
e affeição q seus Príncipes nos tem, e se sentem faltarmoslhe 
cõ emba)Tcadas, principalmente Saboya e Parma, a quê todos 
julgão que as devemos por muytas rezoins. V. S. dará lá 
satisfação a tudo, e conta cá a S. Mg.de^ p.» o ter entendido 
e pêra remedear o q for necessário. 

50. Mons.r Masarin ^ he hum Romano (dizem q de origem 
' O Cardeal. 



— 204 — ' 

Siciliana) de tantas prendas q cõ esse cabedal chegou a occupar 
o lado dos mayores s.ors de França, e a merecer a graça dei 
Rey e o valimento do Cardeal. A sua negociação se atribue 
a paz de Itália e a suspenção das armas despois da guerra do 
Casal, sendo ministro do Papa, q despois o mandou por 
Núncio extraordinário a França, e porq lhe não quiz então 
dar o capello a instancia dei Rey Christianiss.", se ficou em 
seu serv.°, seguindo aquella Corte. Se V. S. fiser por travar 
amizade com elle cõ todo o recato, porq he Italiano (q cuidão 
q enganão sempre), não seria de pouco eíFeito. He home q 
está mostrado a gr.des dignidades. 

5i. Não me hei de esquecer do Conde de Brionne, q he 
hum fidalgo lorenes, parente da Casa de Bragança. Despois 
das guerras e fortuna do Duque Carlos (de quem foi sumilher 
de corps e do Duque Anrique passado Conselheiro d'Estado, 
Grand Ghambellan e maistre de Garderobe e embayx.or ex- 
traordinário a Castella no anno de 1621). Está entretenido 
em Paris, aonde cria seus filhos naquellas academias, p." 
mandar, como elle diz, a este reyno a servir a S. Mag.de; 
finalmente he vassalo do Duque de Lorena, posto q de avos 
Saboyanos, por ser filho do Conde de Chelant e de Torniele, 
q ainda vive; e neto da Snra Dona Messia, f.* do S.r Dom 
Denis, Conde de Lemos; a qual acõpanhou a Infanta Dona 
Beatriz a Saboya, e casou lá cõ o Conde de Chelant. Elle 
visitou aos nossos embayxadores e me mostrou papeis e hGa 
carta m.to honrada do Senhor D. Duarte, Marquez de Fle- 
chilha e Malagon, do anno de 623, de q tenho a copia. Pa- 
receo me necess." q V. S. levasse de cá estas noticias, porq 
quando busque lá a V. S., o possa tratar como quem elle he, 
e como o d.o Sor D. Duarte o trata. 

52. Ordem deve de levar V. S. p.* aver de escrever aos 
nossos embayxadores q estão em Roma, Inglaterra, Suécia 
ou Dinamarca, e todos os q mais forem. Ha V. S. de porse 



— 2o5 — 

em escreverlhes e cartearse c5 elles em todos os correos: 
procurando investigar e saber tudo q.to passa, não só no 
Reyno de França, senão em todos os outros e principalmente 
nos de Castella, avisando tambe aos franceses do q lhes 
tocar. Não perdoando a gastos de espias e correos, porq 
muitas vezes acontece q hu aviso paga tudo, e aquillo q de 
ca se não faz, poderá V. S. de lá mais facilmente, pelo trato 
e comercio dos franceses, e pello cuidado q tem também quê 
os governa c5 tantos acertamentos ; que a mayor ventagem 
q hum Príncipe pode ter ao outro he saber todos seus in- 
tentos, e q não diga palavra, nem faça obra de q não seja 
sabedor. Disto se gabava o Príncipe de Orange, sendo Rey 
Felipe 4.°. Esperta V. S. também os ministros de cá e obri- 
gueos cõ as noticias q não tem, ou cÕ as mais certas e ver- 
dadr.*', como serão todas as de V. S. 

53. Nas galés de Marselha andavão remando alguns Por- 
tugueses do tpo em q todos éramos reputados Hespanhois 
ou Castelhanos; huns tomados vindos do Brasil e Maranhão 
pios Olandeses; outros de Flandes e Milão; os mais na pas- 
sagem daquelle mar, vindo ou indo para Roma. Os nossos 
embayxadores os pedirão instantemente a El Rey Christia- 
nissimo edespois ao Cardeal, como effeito da nossa Alliança. 
Ao principio responderão q logo. Despois q era impossível 
mandallos tirar ao mar, onde andavão as gales cõ a Armada 
do Arcebispo de Bordeos ': e finalmente derão hua carta dei 
Rey p.* o Conde de Alez, Governador de Provença (q he f.° 
do Duque de Anguleme, Bastardo de Valois) na qual se lhe 
mandava q pusesse em liberdade a Pêro da Sylva Pereira' q 

' Henri de Sourdís. 

' Nota marginal: Este tal D. P." tive aviso q viera despois a Paris e a 
Rochela ; aonde procedeo tão mal e deu de si táo roim conta, q a elle mesmo 
lhe foi nec* desaparecer dalli, ou occultarse — convém ter olho nelle, porq 
não fique sem castigo, ou náo faça outro metomorphose. 



2o6 



estava prezo na Real de marselha ; e se chamava lá Dom Pedro 
da Sylva cavalr." do habito de Christo ^ O S.or Bpo de La- 
mego levou consigo esta carta quando sayo de Paris a em- 
barcarse a aquelle porto. E por me aver ditto a mim o 
Balio de Sordim, visitando o em occasião q veyo a aquella 
Corte (como tão bem affecto aos Portugueses do tpo em q 
esteve em Sacavém cõ as mesmas gales de que he agora G.or), 
q fizesse cõ q a ordem lhe fosse, q elle os mandaria buscar 
aonde quer q estivessem, e lhes daria dr.° com q se viessem 
a Portugal, e me disse mais q se espantou como o Cardeal 
não fizera hua gentileza cõ estes presos, antes de lhos pedirem 
os snores embaixadores. Mas sem embargo de q elles os 
tornarão a pedir com muyta instancia e de rosto a rosto ao 
Cardeal na ultima audiência, ê q lhe concedeo outra vez, até 
nos embarcarmos na Rochela não avia novas de sere livres. 
Os Embayxadores lhes avião mandado de Paris hum soccorro 
de cem escudos, pêra repartir por todos, cõ letra p.* o ditto 
'P." da Sylva Pr.* q os recebeo. V. S. em todo o caso puxe 
por isto, procurando q esta pobre e desgraciada gente seja 
posta em liberdade, e estranhando aos ministros Francezes 
não se aver feito. São trinta e tantos homens, conforme ao 
rol q me mandarão e me disse o Balio, e entre elles ha alguns 
de ser.uço e honrados e q me escreverão a Paris, alem do d.° 
Dom Pedro, q não faltaria em nenhum correyo. Eu farei 
hum rol de todos a V. S. 

54. Mas a cousa q mais ha de levar toda a attenção de 
V. S. he a liberdade do Infante D. D. 2 porq cõ ella daríamos 
hum grande matte aos Castelhanos ; não a tenho por tão fácil 
agora q estão jade aviso; mas os grandes ânimos e generosos 
hão se de empregar no mais difficultoso e inacessível; mayor- 

' O cod. 49 i X I 12 da Bibliotheca d'Ajuda contem cartas delle dirigidas 
a Christovam Soares d'Abreu. 
» D. Duarte. 



— 207 — 

mente qA° resultará tanta gloria desta empreza. Nem V. S. 
se detenha ao embayx.or q está em Suécia, a quem tocão 
mais estes officios e negociação pello poder q aquella Raynha 
tem em Alemanha, cÕ hum exercito vencendor {sicj de tantos 
confederados contra a caza de Áustria: porq poderá m.to 
bem ser q esteja esta ventura guardada p.* vossa S., ou p." 
nola communicar a nos e a todo este Reyno. Duarte Nunes 
da Costa q está em Amburgo *, e a quem el rey escreve, se 
mostra grande confidente de SuaMg.de e Alteza: elle nos 
escrevia em quasi todos os correos, e dará aviso a V. S. até 
onde chegar a sua alçada, e novas de tudo o de la, e con- 
forme a isso procederá V. S. 

55. Trabalhese V. S. por reduzir a si e a este Reyno e a 
sua pátria todos os Portuguezes q estão em serv.° de Castela, 
gr.des e pequenos: p q assi se confundem e se desanimão m.to 
nossos enemigos, e nem por isso cuide V. S. q nos avemos 
de comer huns aos outros (como algíáa vez me disse); porq 
vai muyto hum homem feito: crescem ou fazense muyto 
devagar, e gastão se m.to depressa. 

Eu sei tpo em q na Corte dePortugual (sic) se fazião m.tas 
dilig»' e bons partidos a hum Portuguez de habilidade q se 
passava a Castella; ou pellos receyos de dar em outro Fer- 
nando de Magalhãis *, ou pello q sey eu. 

56. Concluo estas advertências cÕ diser q tem V. S. o 
cargo de mayor authoridade, estima e reputação q ha em 
húa republica, pq não representa menos q o seu Príncipe, e 
de suas mãos pende a saúde e credito de todo hum Reyno e 
a conservação e liberdade de sua pátria. Não tem jurirsdicção 
(sicJ ne império (como dizem os livros), senão administração, 

' Era cônsul de Portugal lá. 

' O circum-navegador do globo, que tinha passado ao serviço de Cas- 
tella. 



-- 2o8 — 

e assi gosa de grandes immunidades e privilégios, concedidos 
pio direito das gentes e confirmadas em todo o tempo por 
todo o mundo, ate pios mesmos Bárbaros, posto q alguns em 
algiia occasião os quebrantassem cõ escândalo do género 
humano. Mas a medida desta honra e dignidade tem V. S. 
sobre seus hombros e sobre sy o mayor pezo e os mayores 
encargos. Por esta rezão se diz ^ o officio de embayx.or não 
se ha de pretender (nem darse a quem o pretenda), porq não 
ha saber nem faz. da q baste p.* as ocasioins q podem soceder. 
Antigamente em algua republica se elegião por sorte, e seria 
acertado naquellas onde fosse tais os sujeitos q se chegasse 
a duvidar qual era menos p." elle; porq então em qualquer 
caia bem a sorte. Hum Author grave pergunta se se devem 
eleger da Milicia, ou da Toga, e responde q nem de húa, nem 
de outra ; mas daquella parte onde se ache a nobreza do 
sangue, ou virtude q a igoale ; a prudência, o valor, a fideli- 
dade, o zelo e amor da pátria, a ciência, a eloquência, e as 
riquesas, a discricção e agudeza do engenho, a circunspecção 
com destresa, a industria, o disvelo, o cuidado, a vigilância, 
a modéstia e gravidade, a cortesia, q he a boa criança cÕ q 
se faz tudo atinada e suavemente, e até bom nome e boa 
presença, e finalmente boa fortuna. V. S. exemplificará em sy 
todos estes dotes e prendas e crescerá o n.° aos gr.des embay- 
xadores q ha ávido da nossa nação Portugueza, antes vencerá 
e se adiantará a todos, p." ser a mira e o ponto dos q deseja- 
rem obrar cõ acertamento daqui por diante. 

5j. Não trato da residência, nem da despedida da Corte, 
porq a hum mez andado comprehenderá V. S. todos os se- 
gredos e invisíveis delia, compondo ou dispondo o fim pellos 
princípios p.* poder darnos Hcoens; e p.» isto deixo também 
o costume recebido dos presentes do Príncipe e outras miu- 
dezas, p q são cousas sabidas. Guardarei contudo algúas p.» 
dizer a boca a V. S., porq nem tudo se pode escrever. E este 
papel espero eu q o tpo o califique e q as occasioens mostrem 



— 209 — 

q não he p.» desdenhado. Mas entretanto lembro a V. S. q 
não he p.» todos, fia matéria q contem : ^ se fora p." publicar, 
fizera mais abstracto e não nomeara pessoas, nem revelara 
segredos; calara híías cousas e dissera outras. G.de Deos a 
pessoa de V. S. Vai de flores. 

(Bibliotheca Nacional, Secção dos Mss., caixa 14, H, 2, i, n.* 2). 



14 



VI 



Memoria de Christovão Soares de Abreu 
sobre as contas da Embaixada de França 



Estando em Montemor o novo desdomes de g^ro passado, 
por ordem e mandado de Sua Magde me avisarão de Lx* que 
era tempo de dar conta dos 600 U reis que me entregarão p.» 
a Jornada de França, em que fui servindo de Secretario da- 
quella embaixada no anno de 1641, e se eu entam soubera 
que avia de dar conta da d* contia, ou a não recebera, ou 
procurara trazer conhecimentos em forma e papeis correntes. 
Mas segundo minha lembrança farei memoria por mayor de 
toda minha despeza. 

Sua Magde, que Ds guarde, logo que foi acclamado e jurado 
Rey destes seus Reinos, me mandou chamar a hua quinta em 
que estava p.* me enviar a França em companhia dos seus 
dous Embaixadores extraordinários, Francisco de Melo Mon- 
teiro mor, e António Coelho de Carvalho. Quis Sua Mag^e 
que os Secretários de todas as Embaixadas fossem Dezem- 
bargadores da Casa do Civil com posse tomada, e se lhes 
dessem 600 U reis em dinh.ro 200 U de ajuda de custo, e 400 U 
adiantados, a rezão de 5o U reis p* cada mez, e ainda que aos 
mais se fizerão mercês particulares de hábitos e tenças (e 
despois da venda outras mayores), eu somte participei até gora 
daquellas comuas a todos: não me accomodando antes da- 
quelle tempo a seguir as letras, e a ser Dezembargador. 



— 211 — 

Quando o Secretario Franco de Lucena me passou os des- 
pachos, vendo que eu me offerecia a servir sem pedir nada, 
(achandome ja Cavaleiro professo na ordem de Xpo, com hOa 
promessa de 40 U reis de pensão, e com o foro de moço fidalgo), 
me disse que mandasse tomar posse do Dezembargo do Porto, 
e aceitasse os 600 U reis de ajuda de custo e p» a despesa 
adiantada da assistência de França: que bem sabia que era 
pouco dinheiro, mas que S. Mag«ie, sendo tão grande Rey, não 
avia de consentir que seus vassallos perecessem; e q elle 
teria cuidado de o lembrar. 

Deste dinhro gastei logo 3oo U reis com o apresto de minha 
pessoa, e de quatro criados que levei, com matolotage, camas 
e vestidos p" mar e terra, e outras cousas necessárias, sem as 
quais não poderia ir como convinha. E ainda gastei mais 
5o U reis de dous quartéis do meu juro da Gamara, ^ então 
cobrei. 

Embarcámos em principio de Feuereiro do anno de 1641 e 
chegámos a Rochella em principio de Março *. Dalli contra- 
tarão os Embaixadores a nossa passagê a Paris, com hum 
conductor francês, por dous mil ^^°^, q mandarão pagar do 
dro extraordinário dos gastos meudos e secretos da embai- 
xada. E se não fora assi, não pudera eu passar da Rochella, 
achandome com 4 baús, duas arcas da minha cama, e dous 
caixões mais de miudezas. 

Ordenouseme que tomasse a posta de Orleans a Paris, que 
contão 34 léguas, como fis em pouco mais de hua noite, com 
três cavallos que paguei da minha bolsa, e forão mais de 

Em Paris gastei dinhro considerável em seruiço de Sua 
Magde, e dos negócios da embaixada, dando algum aos por- 
teiros e officiais dos ministros mayores com quem negociava, 
e aos soldados da guarda dei Rey Ghristianissimo. 

Ordenando os Embaixadores que do dinhro extraordinário 

■ Vide pag. i85, nota i. 



— 212 — 

se fisesse hCía boa esmola aos Portugueses que se achavão 
nas gallés de Marselha; eu vim a pagar de minha casa os 
interesses, ou câmbios da praça, como constará do conhe_ 
cimto que tenho entre os meus papeis do Porto: e assi mais 
4 U e tantos reis que paguei de porte do fato do Bispo de 
Lamego, Embaixador de Roma, que alli se ficou devendo. 

Mandei abrir húa lamina grande de cobre p* se imprimir 
húa Arvore Genealógica dos Sres Reys deste Reino, que dedi- 
quei a Sua Magde, e foi a primeira q se fes, com mta aceitação, 
e p» dar lus das Sucessões Reaes e direitos dei Rey N. S.*"", 
Afora a impressão, custou mais de 27 escudos. 

No mes de Junho do à° anno íis jornada com os Embai- 
xadores de Paris a Abbeville na Picardia, onde El Rey Ghris- 
tianiss." se achava, dando calor á guerra de Flandes e sitio 
de Aira. E despois da mesma Corte á Rochella p* embarcar, 
com grande despeza de minha fasenda. Porq p* acodir a 
tantos e tão excessivos gastos, em terra onde tudo se vende 
mais caro aos estrangeiros, me foi necess" tomar mais de 
200 U reis sobre créditos, que paguei neste Reino. 

Gomo forão 600 1"' torneses de q paguei 96 U reis a Duarte 
Dias de Lx.% 54 U reis ao Capm Villa Real. 12 U reis por 
76 1»' — de Mr Frz de Lião, que paguei aqui a Monsr du 
Jardim, em q entrava o porte do Bispo, 80 U reis que me 
prestou meu pay, 3o U reis hum criado meu; q tudo fas soma 
de trezentos e corenta e tantos mil reis com os d"" sincoenta 
mil reis dos dous quartéis do meu juro, que cobrei quando me 
embarquei. E todo este dinhro gastei, alem dos 600 U reis que 
me derão em seruiço de Sua Mag.de. 

Chegámos a esta Cidade com a Armada Naval do Marques 
de Brezé em dez ou dose de Agosto, ocupandome Sua Magde 
daquelle tempo ate o fim do mez de Setembro, e mandan- 
dome que assistisse ao accomodamento do d° Marques, e dos 
franceses que querião ficar neste Reino, pêra o que me ordenou 
o Secretario Fran.co de Lucena me ajuntasse em sua casa 
com o mesmo Monteiro mor, com o Conde da Torre eMons' 



— 2l3 — 

Lanier, todos os dias, fasendo contas e papeis que S. Mgde 
vio. E entendendo eu q seria mais conveniente ao real ser- 
viço escolher alguns cabos dos q vinhão, e deixar embarcar 
os mais franceses na sua Armada p* França, como dezia o 
Cardeal de Richelieu, o representei a Sua Magde, e porq não 
se tomava resolução, sendo infructuoso o meu trabalho, e 
chegando o tempo de satisfazer aos créditos, pedi licença a 
Sua Magde en fim de Setembro p' me ir a hCa quinta onde 
tinha minha casa e familia, p* dali pagar com mais conve- 
niência minhas dividas contraídas em seu real serviço, a qual 
me concedeo em Alcântara. 

Até este tempo em fim de Sefo se hão de contar os sa- 
lários de secretario, e os mezes que são oito, começando 
em principio de Fevereiro, que importão 400 U reis, a rezão 
de 5o U reis por mez, afora os dusentos de ajuda de custo, e 
afora os tresentos e corenta que gastei de minha casa e fa- 
senda. 

Sendo assi que por não bastarem os ditos sincoenta mil 
reis de salário aos mais Secretários e Residentes, mandou Sua 
Mgde dar cem mil reis cada mes em Inglaterra a António de 
Sousa de Macedo, alem do que se conta a hum Dezembar- 
gador da Suppcam^ e o mesmo ao Residente de Suécia, com 
outras ajudas de custo. 

A António Moniz de Carvalho, alem da Comenda de Vi- 
mioso, o foro de fidalgo, o salário de Dezembargador do 
Porto e outras m.ces. 

Sobre os empenhos que fis na d' Jornada, (que p» os satis- 
faser me foi forçado recolherme na minha quinta mais de 
dous annos) não venci moradia, nem os salários de Dezem- 
bargador do Porto até principio de Março de 1643, em q 
comecei a exercitar o dito cargo. Avendoseme avantejado 
tanto os meus condicipulos e Secretários das Embaixadas, 
que do mesmo tempo estão todos promovidos á Casa da 
Suppcam^ sem irem os mais delles ao Porto. 

Se contudo Sua Mag.de ou seus Ministros acharem que não 



— 214 — 

dou boa conta dos ditos 600 U reis, pode mandar cobrallos 
por minha fazenda, que tudo darei por bem empregado em 
seu serviço, e no comú da Pátria. Lisboa 12 de Dezro de 

1645. 

(Não tra^ assignaturaj. 
{Bibliotheca da Ajuda, cod. 49 | X | 11, foi. 28-29). 



VII 

Trecho do livro «Annaes de Portugal 
restituído a Reis naturaesy> 



«No mesmo dia tornarão os embaxadores a Paris e no 
seguinte (que era quinta feira de endoenças) visitarão ao Car- 
deal Richelieu, valido dei Rey Christianissimo, por quem se 
governava com aserto, por seu raro talento e grande iuiso e 
prudência. Fes aos embaxadores extraordinárias cortesias, 
dizendo que aos embaxadores de Portugal se .devia igual 
tratam.to que aos embaxadores do Imperador e de sua San- 
ctidade, e que não só avia El Rey Christianissimo mandar a 
armada que prometera, mas por general delia e embaxador 
extraordinário ao Marques de Bresé seu sobrinho, e que frança 
avia faser Liga formal com Portugal. O Montr.° mor, não 
entendendo o quã bem estava a este Reyno o querer se aquella 
potentíssima coroa obrigar a não faser pas com Gastella sem 
que Portugal entrasse nella, respondeo que sobre aquelle 
ponto de asentar pas, o não podia faser sem o comunicar 
com Tristão de Mendoça, que estava por Embaxador em 
Olanda. O Cardeal vendolhe não lançavao mão da palavra, 
nem sabião entender o que se lhe offereseo, suspendeo a pra- 
tica, e quando dahy a algií tempo passou por aquella corte o 
Bispo de Lamego, que hia por ordem dei Rey Dom João dar 
obediência á Sanctidade de Urbano oitavo, dandolhe o Montr." 



— 2l6 — 

Mor conta do que avia passado com o Cardeal, ficou mui 
sentido de se aver mal logrado tam boa occasião, e vendosse 
com o Cardeal, lhe tocou na matéria, a que elle não deferio, 
estando ja noutro parecer; que as matérias de Estado por 
instantes padesem alterações, como tam dependentes de iuiso 
humano; finalmente o Montr.® Mor, dada a carta ao Cardeal 
que levava de Sua Mag.de, se despedio». 

(Biblioteca Nacional, cod. 6818, 11. j5 v.«). 



VIII 

^Triumpho Lusitanos de António Enrique^ Gome\ 



Os successos da Embaixada de França foram celebrados em verso cas- 
telhano no Triumpho Lusitano, poema que sahiu anonymo em Paris em 164 1, 
sendo era seguida reimpresso em Lisboa. A edição francesa não tem fron- 
tispicio, nem lugar nem data de impressão; o titulo encima a primeira pa- 
gina do texto. Num volume de Miscellanea da Bibliotheca Nacional de 
Lisboa (ii63 azul) existe um exemplar deste opúsculo raríssimo, assim como 
da edição lisbonense que reproduzimos. Desta ha também um exemplar 
bastante aparado num volume da Bibliotheca da Torre do Tombo intitulado 
Aclamação de El Rey D. João IV, junto com outros folhetos do século xvii, 
entre os quais o Triumpho Francês do dramaturgo Jacinto Cordeiro', em 
que se descreve em verso a recepção feita em Lisboa á j^rmada francesa do 
Marquez de Brézé, em que voltaram os Embaixadores portugueses. Para nós 
o interesse do Triumpho Lusitano consiste sobretudo na descripção porme- 
norisada da penhorante recepção feita ao Monteiro mór e seu companheiro 
em S. Germain pelo Rei Luis XIII. O seu valor literário é nullo, sendo 
cheio da rhetorica ôca do período e de louvaminhas a todas as pessoas enume- 
radas, que enfastiam ao leitor. Não tem originalidade, nem signal de estro, 
o que é para admirar, pois a composição é attribuida ao judeo hespanhol 
António Enriquez Gomez, auctor de versos duma naturalidade encantadora. 
Gomez nasceu nos fins do século xvi, morrendo em 1662. Applicando-se á 
carreira das armas, tanto se distinguio que em breve chegou a ser nomeado 

' Triumpho Francês. Recibimiento que mandou fa\er sua Magestade 
el Rey Dom João o quarto de Portugual ao Marque^ de Bressé Embaixador 
e Capitão General dei Rey de França. Dirigido ao Cristianissimo e Pode- 
rosíssimo Monarcha Luis Decimo tercio Rey de Franca. Pelo Alfere\ Ja- 
cinto Cordeiro etc. Lisboa na oíF. de L. de Anveres anno 1641: in 4.to pe- 
queno de n— 10 folhas. 



— 2l8 — 

capitão e a entrar na Ordem de S. Miguel. Tendo se tornado suspeito á In- 
quisição, fugio para França, vivendo bastantes annos em Bordeos, Ruão e 
Paris. Ulteriormente mudou a residência para Amsterdão, onde abertamente 
professava a crença Judaica. Foi philosopho, theologo e dramaturgo, tendo 
muitas das suas peças uma notável parecença ás de Calderon. As suas poesias 
íyricas são sentidas, bem pensadas e bem escriptas. Vide Jewish Encyclo- 
pedia, vol. vi, pág. 42, Ticknor, History of Spanish Literature, II, 442 e 
III, 68, A Águia, n." 45, artigo do Snr.' J. Pereira de Sampaio (Bruno). O 
Triumpho Lusitano não é a única composição poética que a embaixada ins- 
pirou, pois na Bibliotheca da Ajuda (cod. 49 | X | 11 a foi. 140) encontrámos 
uma poesia latina impressa em folha volante (em Paris ?) dirigida ao Mon- 
teiro mor. Começa assim : 

Ávida sublimem quamvis mihi vena poesim 
Neget, et Aonios renuat mihi musa lepores 

E acaba: 

Dii precor iraperii dent fausta exordia, cunctis 
Dent faustos rebus cursus, dent fine carentes 
Pompas et parti semper stet gloria regni. 

O auctor foi Guilherme English, irlandês, apesar do nome 1 

frontispício 

Trivmpho |I Lvsitano \\ Recibimiento !| que mando ha:[er Su 
Mages II tad el Christianissimo Rey de || Francia Luis XIII a 
los Em II baxadores Extraordina || rios, que S. M. el Sere \\ 
nissimo Rey D. Juan \\ el IV. de Portugal \\ le embiô el ano || 
de 1641. II 

Fue impresso en Francia, y aora de nueuo en || esta Ciudad 
de Lisboa. || 

Com todas as licenças necessárias || 
Na Officina de Lourenço de Anueres || 

A custa de Lourenço de Queirós Liureiro \\ da Casa de 
Bragança \\ 



— 219 — 

A Los Três \\ Estados Del Reino \\ de Portugal | 
Dedicatória || 

Este que triupho bélico Corona 
De lauro la Nobleza Lusitana 
Cõsagro a Ia diuina y soberana 
Vnion de três Estados, 
De valor santidad y animo armados. 
No menos grabe accion, no menos brio, 
Se espero de tan celebres vasallos, 
Nueba no, antigua si, la ymbestidura 
Se antecipo prodígios de cordura. 
Quantas pudo adquerir altas vitorias, 
La fama en sus anales 
Con afectos leales 
Llegar no pueden ai blason heróico 
Que alcanço Portugal en aber dado, 
Obediência a su Rey, y restaurado 
La pátria, con valor magestuoso, 
Apesar dei poder artificioso. 
O tu diuino e sacro Consistório, 
Escudo de la nabe militante, 
Sigue, alcança, sugeta fulminante. 
Quanto ympulso alento la tirania. 
Emula de los Rayos de tu dia. 

Y tu Nobleça grabe, ylustre, y clara. 
Firme, leal, eterna, y belicosa, 
Viue, vence, conquista generosa, 
Con el aliento deste nueuo Apolo, 
Quanto dista dei vno ai outro polo; 

Y tu pueblo leal, turba perfecta, 
Compuesta de leales coraçones, 
Alienta, si, coloca tus pendones, 
Enquanto registro Rayo animoso, 
El fanal de los cielos poderoso. 



— 220 — 

Los três que vnidos sois alma dei Orbe, 

Cada qual en su sphera, 

Pues sois diuino ser de los blasones, 

Trepad Gastillos, y matad leonês. 

Aun bibe en todos el valor sublime 

Del quinto sólio, cuyo ardor vibiente 

Fatigo los ymperios dei Oriente, 

Agora es tiempo que conosca el mudo 

Que el alentado azero de las quinas 

A las mas peregrinas 

Naçiones fatigo, dando desmayo, 

Gon su luciente rayo, 

Al tirânico error dei enemigo, 

Siendo el cielo testigo 

De haçanas ymbidiadas, 

Primero vitoriosas que empeçadas. 

El Norte que en el cielo dei deseo 

Os puso el gran Piloto de los Orbes, 

Os assegura el puerto, toque ai arma 

La lealtad generosa, 

Y esta que estrella fue la mas dichosa, 
Que bió la luz dei dia, 

Ylumine tan grabe Monarchia. 

Suene el Parche en Marciales instrumetos 

Y los clarines bélicos, sedientos 
De la purpura humana, 
Triunphen de la soberbia Castellana. 
No el error, no el poder, no la osadia 
De la que fue dei siglo tirania, 

Vn átomo el valor desautorize, 
Pues el derecho y ki iusticia dize 
Que talando tirânicos Babeles, 

Y arrasando con fuerça los crueles 
Emulos, que vsurparon vuestro aliento, 
Que planetas quedeis dei firmamento. 



— 221 — 

El cielo os dio con dilatada mano, 

Vuestro Rey soberano, 

Sabeldo defender valientemente, 

Y en la futura succession se cuente 

Elecion tan perfeta, vnion tan firme, 

Para que se confirme, 

Que fue vuestra lealtad maravillosa 

Obra, si, de la mano poderosa. 

Valor teneis para abatir de vn buelo 

Quantos ícaros vanos dieron vista 

A la que no beran alta conquista 

Del sol, en cuyas luces las escalas 

Errantes siempre vaxaran las alas. 

Que edifício de cera siempre há sido 

A la luz de vn Planeta consumido. 

No fuistes si, dei Oriental thesoro 

Sacros conquistadores ? 

Los campos de Neptuno voladores 

De lenos no oprimistes ? 

Si ynmortales nacistes, 

Quien podrá cÕ vosotros quãdo el cielo. 

Agradecido a la lealtad y zelo. 

Que a la sangre Real aueis tenido, 

Vn Rey os dio tan iusto y tan temido. 

Si el Aguila de lupiter pretende 

Soberbia derribar quien se defiede, 

Que ymporta q su vista ai sol se opõga, 

Quando tiene el Planeta en su defensa 

Tanto tropel de luces, cuya suma 

Quitara pluma a pluma 

Al aguila atrebida con sua llama, 

El buelo aliiuo, quando no Ia fama. 

Que para tanto buelo de codicia 

Tiene halcones diuinos la iusticia. 

Ja os Gonoce la guerra, el mar, el mundo 



— 222 — 

Y que sabeis trepar, muy mas seguros 
Que otras naciones, los altiuos muros 
Del mayor edifício ; 

Suene de Morte el bélico exercício, 

Y con animo augusto 
Entrad con sumo gusto 

Por el contrario exercito rompiendo 
Escuadrones de balas y petrechos; 
A la ymmortalidad poned los pechos, 
Que siempre a sido de enemigo fuego, 
Relâmpago de luz que passa luego, 
Ya sabe el enemigo a donde Uega 
El golpe superior de vuestra mano, 

Y si es este ydioma Castellano, 
Recebid dei espiritu constante 
El animo, el deseo vigilante. 

Que el caracter mejor bien se recrea, 
En los aciertos de vna noble ydea. 
Quien domo con acierto milagroso 
Los píelagos de Oriente, 
Sino Yuestro poder siempre eminente ? 
Quien surcando campanas de Neptuno, 
Puso domínio a barbaras naciones, 
En ellas colocando los pendones 
De las quinas sagradas. 
Borrando adoraciones deprabadas ? 
Quien la gloria Ueuó de quantos giros 
Marte introduxo en sus Marciales tiros ? 
Quien defendió la pátria con mas beras ? 
Quien defedió su Rey cÕ mas acciones ? 
Sino vuestros leales coraçones. 
Esta Reputacion, este deseo. 
Este ceio, este ser, este tropheo. 
Este triumpho, este amor marauilloso 
Agora se â de uer mas valeroso. 



— 223 — 

Diziendo todos, porque conste ai míido, 
Viua Don luan el Quarto, sin segúdo, 
Rey dei império augusto Lusitano, 
Restaurado dei Reyno Castellano. 

Trivmpho \\ Lvsitano \\ Recibimienio, Que Mando \\ ha^er Su 
Magestad el Christianissimo \\ Rey de Francia Luis XIII. a 
los Em II baxadores Extraordinários, que S. \\ M. el Serenis- 
simo Rey Don \\ luan el IV. de Portugal le || embió aíio de \\ 
1641. II 

Si el yugo rigoroso de Castilla, 

(Poderosa dei orbe Marauilla) 

El Lusitano Reyno ha sacudido, 

De lo admirado no, de lo aplaudido, 

Se adorne el que prudente ha restaurado 

Lo que por sangre e animo ha heredado. 

O tu que de Deidades assistido. 

Quarto en el nombre, quinto en lo admirable, 

La Corona cobraste, que vzurpada 

Fue de tu caza Real, viue reynando 

Sobre el que intenta, mundos alterando, 

Oponer se a los raios de tu dia 

Zelando tu dichosa Monarquia, 

Si eres impulso sacro dei primero 

Autor, que desperto tu heróico azero, 

Sigue el rumbo sagrado, 

A victorias eternas dedicado, 

Despierta las Zenizas, 

De aquel heroe valiente. 

Que no cupo en los climas dei Oriente. 

Renazca Fénix, el ardor Luzido 

De aquel Numa Duarte sin segundo. 

Infante de los términos dei mundo, 

Reprezenta por sangre, y Gentileza, 



— 224 — 

La augusta Magestad, y la Nobleza, 
De la que fue Cesárea Catalma, 
Tu abuela com impulsos de Diuina. 
Aquella, a quien tocaua por derecho 
El Reyno, Yman de tu valiente pecho, 
Em cuyo sólio de vitales viue 
Vn magno Goraçon, pues no reciue 
Altercacion injusta, quando mueue 
El aliento Real, que se le deue. 
Dilata por el âmbito dei Orbe, 
Pues no tienes segundo que lo estorue, 
La justicia Imperial de tus acciones 

Y dando a los aciertos tus pendones 

Y assaltando tirannicas murallas, 
Instrumento dei Dios de las batallas, 
Sea tu nombre heróico Colocado 
En el anal azul Libro sagrado. 

Don luan quarto planeta, has renaçido 
Entre raios y soles admitido, 
Descoge esse tropel de resplandores, 

Y las nuues soberbias, que auapores 
O exhalaciones vanas 

Se oponen a tus Luzes soberanas, 
Baxen desbanecidas 

En agua, en poluo, en aire, conuertidas. 
La causa es justa, la ambicion perfeta, 
Sábio el Conseio, la elecion discreta, 
El zelo iusto, el animo valiente, 
Real el aplauso, el termino prudente. 
Dios quien mobió tu espiritu animado, 
Pues biue eternidades de alentado, 
No la imbidia tirannica que altera 
La razon, en los doctos uerdadera, 
Sofisticas dei viento allegaciones 
Traiga por abatir firmes razones. 



— 225 — 

Lo que la espada hizo, 

Oy el saber y la verdad deshizo, 

Lo que el poder obro, sin el derecho, 

Oy el valor y el animo han deshecho; 

Lo que cubrió vn vapor de tirania, 

Oy derriba la luz de vn claro dia, 

Lo que arruynó con interes el oro, 

Oy leuantó lo eterno dei decoro. 

Lo que en anos sessenta fue vsurpado, 

Oy en menos de vn dia fue ganado, 

Y si el discurso natural no lleua 
Por humana razon tan justa prueba, 
El orden peregrino, 

Pues tuuo tantas partes de Diuino, 

Fue milagroso, y siendo lo, assigura 

De prospera y felice sua ventura. 

Vea-se en el acierto, 

En la Coronacion; en el concierto, 

En la vnion, en la paz, en las acciones, 

Donde fueron leales coraçones, 

Si en matéria forçosa diuididos, 

No en Ia forma, ni en todos los sentidos. 

Nobleza, Clerezia, y plebe fueron 

Mística voluntad, todos se vnieron, 

Y donde son recíprocos los braços, 
Firmes serán los que se miran laços, 

Y no ay duda que el braço omnipotente 
A la Lealtad de tan dichosa gente 

Dió dei arbol de vida soberano 
En senal de fabor su eterna mano. 
Buelbo à dezir, o.Principe eminente, 
Que tu império cobraste justamente, 
La liberalidad con que mandaste 
Assegura lo mucho que acertaste, 
Merced hiziste a todos tus vassallos 



l5 



— 226 — 

Indicio claro de querer honrallos, 
De los tributos que tu franca mano 
Anulo en el Conseio Castellano, 
Deshaogosse el Lusitano império 
Del atreuido y largo cautiuerio 
Que la altiua Corona de Gastilla 
Tenia puesto en tu Diuina silla. 
Recordo Lusitânia con su duefío 
Del que ageno le dió pezado sueno. 
Sahio de las tinieblas dei abismo 
La que Nunca entendio verse a sy mismo; 
Luzio el planeta, sereno-se el dia 

Y armose de razon tu Monarchia. 
Tyrannizar no es Ley, Reynar con arte 
En la justiçia nunca tubo parte. 
Restaurar con valor un laurel propio 
No es acto horrible, ni decreto impropio. 
Gobrallo con verdad valor ha sido, 

No amallo floxedad, tempo perdido, 
Reprezentar persona es acto puro, 
Diuidir-se dei tronco nó es seguro. 
Buscar las ramas, quando el arbol viue, 
Es ofFendêr lo que la ley escribe, 

Y si el sexo se halla en igual grado, 
El de la linea siempre es acertado ; 
El natural seííor es el primero, 

No merece este grado el estrangero. 
Abatir el derecho con la espada 
Mas es soberuia que deidad armada. 
Gozar de la occazion el que la tiene, 
A la misma justiçia le conuiene, 

Y siendo estas virtudes de tu pecho, 
Defiende como es justo tu derecho, 

Y que el austro delire, ó el mar brame, 
La Lusitânia por su Rey te aclame, 



— 227 — 

Entrando con vitorias superiores 

En el Numero Real de tus Maiores. 

Salieron de las Cortes venturozas 

Eleciones perfetas, y famozas : 

Fueron Embaxadores, 

Que pudieran en Roma Senadores 

Ser lo muy justamente, 

El noble, el justo, sábio y el prudente, 

Por su valor y zelo, 

Su excelência el Senor Francisco Melo, 

Cuya Gaza y nobleza conocida, 

lustamete en el Orbe es aplaudida. 

Este sujeto raro y peregrino, 

De Montero Mayor blason Diuino, 

Fue de los aliados el primero 

Que aprouo su consejo verdadero, 

Accion de su Lealtad, sangre, y prudência, 

Pues es en todo ciência 

El alma dei estado y dei gouierno, 

Guio nombre merece ser eterno. 

Su Excelência el Senor António Coello 

De Garualho, Diuino Gonsejero 

Del supremo Palácio, y dei Gonsejo, 

Que con su sangre illustre hà vinculado 

Animo liberal, con que a porfia 

Virtud ostenta, letras, Cortezia, 

Gon lo noble, lo cuerdo, y lo prudente, 

De los Coellos antiguos descendiente; 

Del gran Cumá por mérito y nobleza, 

Seruicios y animada fortaleza, 

lusto Gouernador, y iuntamente 

Gapitan General; Marte valiente, 

Heredado de sus antecessores, 

De la Gorona Augusta defensores. 

En fin por elecion justa dei cielo 



— 228 — 

El Senor Coello y el Senor de Melo 
Fueron Embaxadores en la Francia: 
Cerrando este secreto la elegância, 
Valor, Gordura, agrado y experiência 
Del Seííor (iusto amor) Christoual Suares, 
Aquien Apolo en celebres altares 
Sacrifício ofreció, como lo dizen 
Las Musas y Academias, 
Este raro ingenio, altiuo y claro, 
Gozo la placa, sin discurso vario. 
De elegante y perfeto secretario, 
Siendo por su nobleza y por su azero, 
Del habito de Christo Cauallero. 

Y porque la distancia 
No deue retirar se, 

Ni ocultar lo que es justo publicar se, 
Pintaré su jornada, 

Y si puede la pluma, su Embaxada, 
Para que el mundo vea 

Que Dios assiste con su eterna idea 

A esta empreza dichoza, 

Aun que peze a la imbidia poderoza, 

Y si el polo tirânico da lira, 

No el sol que luzes de su esfera gira. 

Que en tanta competência 

O cruxa el exe, o pierda se la sciencia ; 

Que el baxel alterado 

Primero será norte que anegado. 

A los anchos impérios de Neptuno 

Salió el Baxel, Embaxador de luno, 

Rompió el Gisne los paramos de plata, 

Bien que la calma, ai parecer ingrata, 

El freno tubo ai rápido elemento. 

Pêro alterado con razon el viento, 

Y impelido el velamen de diamante 



— 229 — 

Exalacion corno de Pino errante. 

El enoxado Eolo alterado, 

No de embidia, dei tiempo violentado, 

La naue fatigo, peró no pudo 

Oprimir el escudo 

De la Real Embaxada, 

Primero venturosa, que alterada. 

Veinte vezes doró nuestro Orizonte 

El amante de Dafne monte a monte. 

Que la naue Vitoria diesse vista, 

Logro primero sy de su conquista 

A la Francia dichoza, 

(La primera en el Orbe poderoza), 

Suelta la vista a la primera vela, 

El puerto descubrió de la Rochela; 

A quel pasmo dei Orbe que oprimia 

Vn tiempo esta opulenta Monarchia, 

Y derribada por la liz sagrada, 
Aun le dexó reliquias de alentada. 
El gran Prior de Francia 
Monsenor de la Porta valeroso, 

En el pays de Aunis Scipion famozo, 

Y dei mundo Soldado y Consejero, 
Gesar Francês, valiente Cauallero, 
Mando que saludassen este dia 
Gon toda la que occupa artilleria. 
Aquel Babel de vários edifícios, 

Y a vn tiempo militares exercícios, 
Hizieron saiba a la dei cielo Naue, 
Que descoUada, como suele el Aue 
Imperial, se vénia recogiendo 

Al militar estruendo, 

Guia rara armonia, Rayo, a Rayo, 

Sino causo desmayo 

Al Planeta mayor, fue porque el humo 



— 23o — 

La esphera respetó dei vaxel sumo. 
Al son de los clariaes que alentauan 
Los aires, y la mar lizongeauan, 
Desembarco la Luzitana gente ; 

Y el Traiano Francês, Marte valiente, 
Les franqueó el poder de tal manera, 
Que fue el recibimiento la primera 
Vaza deste edifício, y su grandeza 

La dei Griego Alexandro, y su nobleza, 
En fin Gouernador de tal Corona, 
Hijo de Marte, y nieto deBellona. 
Las vanderas, que el viento 
Queria reduzir a su elemento. 
Todas las companias abatieron, 
Con esta salua a todos recibieron. 
La ostentacion, los celebres banquetes 
Excedieron a quantos 
Introduxo Cleópatra a Marco António, 
Lo admirado siruió de testimonio. 
Vino la noche, hizieron los faroles, 
En vna sala, emulacion ai dia ; 
Músicos instrumentos 
Suspendieron los vientos, 
Adornando vn sarao quanta Belleza 
Cifro naturaleza 
En diuersas y raras hermosuras ; 

Y las luces seguras. 
Cegadas con los rayos 
Padecieron ecclipses y desmayos, 

Y con âmagos de venir el dia, 

La quadra en soles justamente ardia. 
Despidieron-se llenos de desseos, 
Con mil presentes, cândidos trofeos 
De reciproco amor, que aun que empeçaua, 
Gigante en los principios se ostentaua. 



— 23l — 

Con el orden primero que les vino 

Del gran Rey Christianissimo, partieron 

A la Corte. En Poitiers los recibieron 

Con efetos de gran beneuolencia 

El conde de Parber, luz de la ciência, 

Ser dei valor y gloria de la fama, 

A quien el mundo con razon aclama 

Senor de los ingenios ; 

Mostro con franca y dilatado mano, 

Ser vassallo de Rey tan soberano. 

Apozentólos antes que llegassen 

En su famoso alcaçar, edifício 

A quien obedeció la arquitectura, 

Como empleada en casa tan segura, 

Con su consorte, celebre Madama, 

Y sus hermozas hijas. 

Deidades de la Francia, 

Que ai Palácio viniéron. 

Se autorizo de sacro paraiso 

Aquel dei siglo Cielo, cuyo viso 

Crepúsculo dei Alba 

Seruió a la grauedad de noble salua. 

Créditos alentados de Nobleza 

A la desigualdad de la grandeza 

Sin médio introduzida 

Igualdad dedicaron a la vida 

En vn sarao, donde la honesta Vénus 

Luzió estrella con todos los planetas ; 

La noche, trasladada 

En diuina belleza, 

Tuuo, sin luz prestada, 

Viuos incêndios de perfetas formas, 

Y ai compas de los raros instrumentos 

Hizieron las mudanças 

Firmes deseos, nobles esperanças. 



— 232 — 

Dexo de los banquetes increibles 

La opulenta grandeza, pues gosaron 

Aun mas lugar de lo que imaginaron 

Los pinzeles retóricos que ostenta 

El discurso, Pintor de lo que cuenta, 

Que en esta tabla ruda de colores, 

Quanto verse podria, 

Será con arte sombra deste dia. 

La entrada"^y la salida 

Desta estancia lleuó el conocimiento 

De gratitudes, siendo despedida 

La longitud de amor con mas desseos 

Que se armaron los nobles de tropheos, 

Tanto pueden los fizicos cortezes 

La politica y rara Medicina 

De la nobleza, en todo peregrina ; 

Pues dexa en beneficio lo que llama 

El vulgar ydioma, voluntades, 

Y el Português diuino, saudades. 

A Orleans llegaron, y siguiendo en todo 
Del nuebo Rey el justo mandamiento, 
Al Senor Secretario despacharon 
Por la posta a Paris, á que tomasse 
El orden que el Consejo decretasse. 
Llegó a Paris, el orden le fué dado, 

Y auiendo-se la entrada consultado, 
Dieron les la Vileta por Palácio, 
Para que se pudiesse, con espacio, 
Preuenir el Real recibimento : 

En esta caza de plazer, sediento 
El Mayo alegre de Uegar dudaua. 
Tanta delicia su jardin gozaua: 
Lizongeando aleas 
Soles Franceses, cujas bellas damas 
Alentauan de amor las dulces llamas. 



— 233 — 

Llegó el dichozo dia 

A donde la Franceza Monarchia 

Mostro el que tiene afecto primoroso 

Al Lusitano Reyno poderoso. 

El Mariscai de Castillon, dei mundo 

Soldado sin segundo, 

General dei poder de la fortuna, 

Quinto Lucero, y Dórica coluna 

Deste Império, y el Conde generoso 

De Brulon valeroso, 

Condutor de tan Celebres Senores, 

Titulo que merece los honores 

Que ajustaron las Leyes 

Entre las Magestades de los Reyes, 

A recibir los fueron: no podria 

Aun que diesse a la pluma 

Assuntos el desseo, 

La Musa reduzir a breve suma 

Tan nunca visto y superior tropheo 

De las dos Magestades, Rey, y Reyna, 

Cuya vnion soberana eterna sea. 

Las carroças vinieron embiadas 

De voluntades dos, tan colocadas 

En el afecto noble, altiuo, y justo, 

Que fue fauor de amor, el mas augusto; 

La carroza tambien de su Eminência 

Les fue dada, fauor sin competência : 

Príncipe no quedo, que no mostrasse 

Su mucho amor, y en el se senalasse. 

Selua errante de cazas parecia 

La campana, lizonja deste dia, 

Diose Principio a la grandeza, y fueron 

El Senor Mariscai, Conde y Senores, 

De tan perfecto Rey Embaxadores, 

En la carroça Real, y luego en orden, 



— 234 — 

Sin el comun desorden, 
Los Senores fidalgos, tan luzidos 
Como cuerdos, discretos y entendidos. 
Dieron vista a Paris, pasmo dei mundo, 
Bosque sy de palácios sin segundo, 
Babel eterno de edifícios raros, 
A donde son los términos auaros, 
Labyrinto soberbio sin salida, 
Âmbito sin medida, 
Perspectiua dei Orbe con Asseo, 
Terror dei Orbe, de la liz tropheo, 
Cifra de mundos, mapa de los cielos, 
Linea dei sol y luz de paralelos, 
Emulacion de Cortes y Ciudades, 

Y centro sin igual de Magestades. 
El buUicio alterado 

Eterno fue, primero que empeçado, 

La comun alegria de la plebe, 

O quanto ai cielo Portugal le deue, 

Pronosticó lo mucho que se espera. 

La de carroças superior Carrera 

Con el Luzido ardor dei mouimieto 

Se juraua de nueuo firmamento: 

Por que assi como el sol luce entre estrellas, 

Assi por el lugar triunfauan ellas. 

Llegaron quando esse farol luziente 

Inclinaua su luz ai occidente, 

Tomando possesion en vn Palácio, 

Tregoas pidiendq ai dilatado espacio 

Y fueles concedido 

Como parte piadosa dei oluido. 

De la guarda dei Rey, la noble casa 

Se adorno, defendiendo 

El alterado estruendo. 

Era el Alcaçar, cesse la arrogância. 



^ 235 — 

Era casa de vn Rey, y Rey de Francia, 

Su nombre solo lleue, 

Para que su grandesa el mundo aprueue. 

Fue el aparato y mesa 

En los dias que pudo la Embaxada 

Dilatarse, de sumo lucimiento, 

Donde la ostentacion marauillosa 

Eternizo la parte poderosa, 

Siendo la simpatia y la potencia 

Igual ai acto, y fue tan dilatado 

Que dexo Ghoronista lo admirado. 

En las dos quadras bellas, 

Magestuoso albergue 

De los Senores Melo y de Caruallo, 

Dos doceles Reales, 

De dos tapicerias imperiales 

Diademas poderosas, 

La vizina alegrauan 

A todos quantos dei fauor gozauan. 

Los demas de la casa aloxamiento, 

Cada qual en su esphera, 

Gonocian sus huespedes, demodo 

Que el todo era vna parte, y ella el todo. 

A la puerta, Suiços de la guarda 

Del Rey estauan siempre, 

Olia todo á Magestad suprema, 

Alentando las quadras 

Los espíritos nobles que venian 

A uer la grauedad con que assistian 

A negócios de tanta confiança 

Los honradores de las santas quinas. 

Ligadas con las lices peregrinas. 

En San German estauan Rey y Reyna, 

Corte de tantas como Francia tiene, 

Capitólio Romano, que preuiene 



— 236 — 

Assuntos soberanos a la pluma, 
Academia de Príncipes y Reyes, 
Donde los iuezes iustifican Leyes 
Baxó el orden de arriba y preuenido, 
El aparato a glorias conduzido. 
Partieron a su alcazar venturozo 
Sus excelências, vispera dei dia 
Que el Saluador selló la profecia, 
Instituiendo el alto mandamiento 
Del sagrado y Diuino Sacramento. 
El Duque de Cheuroza, 
De La Loraina sangre generoza, 

Y el Conde de Brulon, cuya prudência 
Senora fue de la virtud y sciencia. 

De la parte de el Rey acompanaron 

A estos raros sugetos, no llegaron 

A la de Mênfis vanidad perdida, 

A la de Francia si, siempre aplaudida. 

Dos mil hombres de guardiã rodeauan, 

Las carroças, las calles f e adornauan 

De Príncipes, de Damas, de Senores, 

Del siglo hermoso damascenas flores. 

Tomaron puerto en el Palácio, y luego 

El agradable si dessassosiego 

No anticipo la entrada; 

Tanto la nouedad ai vulgo agrada. 

Rodeados de grandes, de nobleza, 

De Magestad, de galas, de riqueza, 

A la sala Real les conduzia 

La noble compania : 

Dieron la vista, peró ai sol cegaron 

De aquella Magestad, sacra y Gesaria, 

A quien reberenciaron 

Y cuerdos veneraron. 
Abraçolos el Rey benignamente. 



— 237 — 

O Príncipe eminente, 

O Mop.archa en cl Orbe sin segundo, 

Domina, impera en lo mejor dei mundo, 

Pues eres por lo iusto, heróico, y solo 

lupiter superior de polo a polo. 

El orden de suRey executando, 

Se fueron explicando 

A interprete fiel, cuias razones 

A los dos idiomas perfeciones 

Dieron de traduzidas, 

Custando el Rey de partes tan luzidas. 

Admitio la Embaxada, y su iusticia, 

Y en reciproca paz, con la noticia 
De la restauracion dei cielo dada. 
Quedo tan justa accion calificada. 
Esta afabilidad, de amor nacida, 
Dió a Portugal aliento, ai siglo vida; 
En pie, los recibio, sábio costumbre 
De la Franceza lumbre, 

Y entre sebero y graue, 
Torcio ai desseo la diuina Uave, 

Y descobriendo afectos imperiales, 
Thezoro intelectiuo de los reales 
Espiritus que dan rayos ai dia. 
Amo la Lusitana Monarchia. 

Mando que se cubriessen, y en el tiempo 
Que tardaron las nobles cortezias, 
El Rey se descubrio, reuerenciando 
En los dos la vnidad dei Rey auzente: 
Tanto que quando el termino excelente 
Daua lugar a descubrir se, hazia 
Su Magestad lo próprio, y parecia 
Que apezar de la auzencia, 
El Rey Don loan estaua en su prezencia. 
Por ser la autoridad de sus vassallos 



— 238 — 

Cauza en su nombre de poder honrallos. 

La carta de su Rey, alma dichoza 

De la Embaxada justa, venturoza, 

Dada le fue, con gusto recebida, 

Pudo se conocer en la partida, 

No siendo despedidos 

De amor, dei tiempo sy, que les ditaua 

Gumplir lo que faltaua, 

Que en actos tan diuinos 

Son los aciertos siempre peregrinos. 

Con los nobles bolbieron donde hallaron 

De la vianda Real meza tan franca. 

Que pudiera iuzgarse 

Que el néctar de los Dioses tener pudo 

Verdadera aparência de firmeza, 

Si a uer Uegara entonces la grandeza 

De aquel Mapa Real de los manjares. 

Porque segun la forma, y el asseo 

De la opulenta machina dei gusto, 

Aguardauan que el sol, y fuera justo, 

Baxasse a uer su variedad hermoza, 

Pues no faltaron placas tan perfetas, 

Avn que truxera todos los planetas. 

Sin duda el mar sintió la comun falta 

Que de escamas su Republica esmalta, 

Los rios se corrieron 

De ver que sus soldados perecieron. 

A la Diuina Mesa tributaria 

Con olores fue Arábia, y quanto tiene 

De regalos diuersos toda Europa, 

Gonseruando la vela quantos dulces 

Genoua perficiona, y toda Itália, 

No agrauiando con arte los que loa 

La fama en los aciertos de Lisboa, 

Fue seruida la plata, el oro, y quanto 



— 239 — 

Calla la Musa por maior tropheo, 

Con tal puntualidad, que aun el desseo, 

luzgando lo impossible, 

Aun la vista no pudo aliar possible. 

O si el Musico Apolo me prestara, 

Sino la lira dei Noueno Coro, 

Vn aliento de luz, vn raio de oró. 

Para cantar deste dichozo dia 

Los triumphos no de Roma, de la Francia, 

Aquellos vanos, estos de importância, 

Vnos sin prebencion, otros con ella, 

Vnos con sombra, y otros con estrella. 

A la salud dei nueuo Rey y Reyna, 

Del Príncipe, y infante que Dios guarde, 

El Conde de Brusson brindo, lleuado 

De vn amoroso afecto asegurado, 

Haziendo la razon la compania 

En acertados modos, 

Dio la salud de el Rey, salud a todos. 

Dieron fin ai combite, y fueron luego 

Con toda la Nobleza 

A uer, no el artificio de luanelo, 

Ni de la antiguedad vários cristales 

En aguas naturales 

Despenadas de locos precipícios. 

Las grotas si, thezoro de Neptuno, 

Adonde el arte de viuientes formas 

Vistió lo inanimado, 

Siendo su labirinto gouernado 

De muchos Dioses, fieros animales, 

Almas gozando en raios de christales; 

En esta de las aguas marauilla. 

Se descubrió Perseo en el cauallo, 

Pégaso de la fuente de Elicona, 

Biuo raio, librando con su espada 



— 240 — 

(gracias ai elemento), 
Andromeda, que en manos 
De vn Dragon espantozo, 
A las aguas pedia su repozo. 
En vna perspectiua de Pharoles 
Orféo con su Musica nebada, 
En la solfa dei agua articulada, 
Si dibisa, lleuando el contra punto 
Paxaros de vna selha, ruysenores, 

Y luego por gozar de los fauores 
De tanta melodia, 

Animal no quedo que no dançasse, 
Tronco que en la montana no saltasse, 
Aue que en las regiones no se viesse, 
Sin que humana persona los mohiesse, 
Por que toda esta muda hateria 
La municion de plata la mohia, 

Y si no ay sin el fuego mouimiento. 
Aqui viuen con solo vn elemento, 
Sirhiendo les de llama plateada 

La poluora de nieue violentada. 

Al son de Orpheo, musico de bronze, 

Cruzo el rapto veloz de Prosérpina 

Y luego el ancho pielago carhina, 
La vista diuisando entre las aues " 
Cisnes, aladas naues 

Del húmido Neptuno, 

Y bolando baxeles vno a vno ; 
En el paramo azul se presentaron 
Con biuo dezengano 

Las quatro estancias que produce el ano, 

Con tan finas colores, que dudara 

El tiempo las que salen en su cara. 

De alli fueron ai parque, 

Pinzel Hibleo, que aguardando el Mayo, 



— 241 — 

Nunca dexa la alegre primauera, 

Ny menos a sus pies vna ribera, 

Banda riza escarchada, 

A diluuios dei tiempo condenada. 

Bolbieron, paseandose ai Palácio, 

La Reyna visitaron, 

La gracia de vna perla Margarita, 

Áustria dei cielo, esphera de dos soles, 

Que seran de la fé sacros farole». 

Dieron de la gran Reyna Portugueza, 

Sidónia soberana, 

Gloria de la Corona Lusitana, 

La carta que trahian; recebiola 

Gon gusto superior, y luego vieron 

Al Delphin milagroso, cuja vida 

Immortalice el cielo poderozo 

Para ser Alexandre vitoriozo. 

Su hermano, que Dios guarde, 

El gran Duque de Anjou, durmiendo estaua. 

Fue cauza de no berle, avn que ordenaua 

Madama de Lansac, a quien tocaua 

Gobernar estas loyas superiores, 

Que le viessen, despierto, que ella haria 

Amanecer su sol ai médio dia. 

Los prudentes Senores, 

Gon suma reberencia suplicaron 

La guardassen el sueno, y le dexaron. 

En todos estos públicos tropheos 

Los fidalgos lucieron sumamente, 

Gon aplauso decente: 

En fin de tan valientes caualleros 

Aguarde Portugal eternas glorias, 

Felices siglos, celebres vitorias. 

Dieron buelta a la Gorte, y su Eminência 

De la Roela vino : en esta audiência 



i6 



— 242 — 

Se adorno la Embaxada de mas triumphos 

Que dio Roma a sus heroes valerosos; 

Vieron en fin los nuestros venturosos 

Aquel solo en el mundo peregrino, 

Aquel casyDiuino 

Príncipe dei estado y de la sciencia, 

Aquella de los cielos Eminência, 

Guyo sólio sagrado 

Aun antes de su forma fue acertado, 

Aquel gran Sumiller de las espheras 

Aquien el orbe llama 

Decimo de los nueue de la fama, 

Guyo espirito, en todo verdadero, 

El cielo le asegura 

De inteligência pura, 

Y por decir lo que la musa puede, 
Aquel que avn a si mismo no se excede, 
Pues ni vbo, ni ay, ni aura en el mundo 
Quien le iguale, primero ni segundo, 

Y segun mi argumento verdadero, 
Vendrá a ser el primero y el prostero. 
Recibio los como alma dei estado, 
Aprouando su agrado 

Aquella sala que primero luce 
En la vista dei sábio, 

Y luego la cobdicia intelectiua, 
El retrete animado descubriendo 
De la potencia racional, reduxo 

A breue ornato sus palabras de oró, 
Bienes dei cuerdo de maior thesoro. 
Tratose la matéria soberana 
En la forma mejor, sin que el discurso 
De interprete en su fe necessitasse, 
Por ser el de la naue militante 
Senor de quantos idiomas firmes 



— 243 — 

La antiguedad ganó y avn los modernos, 

Pues son en su memoria siempre eternos. 

Ratifico de la elecion prudente 

El zelo justo, el animo valiente, 

Aprouando el derecho que tenia 

Su Magestad a Portugal, lleuando 

La ascendência Real de sus Maiores 

Por norte general nunca alterado, 

Y en el cielo de purpura fixado. 

Tratose dei violento desuario 

Del delirio, poder, y sefíorio 

Gon que Castilla fue desbaratando 

La paz a Portugal, fuese cebando 

La razon en el ser de la prudência, 

Enterando dei todo a su Eminência 

Del rigor de Castilla, 

Que a fuerça dei poder conquisto silla, 

Tratose de la vnion de los vassallos, 

Custando de su aliento y deligencia. 

El Senor Cardenal, con aduertencia 

Del valor Português, preguntó luego 

Las fuerças dei império, y retratadas 

Gon el pincel en laminas de bronçe, 

El parabien le dio de tales nuebas. 

Tanto puede la parte milagrosa 

De la iusticia, y el derecho iusto, 

Vsurpado con mana y osadia, 

Por dilatar la varia Monarchia. 

Asseguro les luego su Eminência, 

En nombre de su Rey, la vnion dichoza 

Que las quinas sagradas 

Gon las lires diuinas 

Tendrian, siendo la defensa honrosa. 

Gloria de las Coronas luminadas, 

Apezar de Castillos y Leonês, 



— 244 — 

Que la iusticia alienta corazones, 

Y ajustando las Leyes, 

Defiende impérios y conquista Reyes. 

Quedaron gustissimos, notando 

De aquel biuo Planeta de la cumbre 

El raio intelectiuo de su lumbre, 

La igualdad, las razones primorozas, 

Las sentencias, las frases, los conceptos, 

La policia, el modo dei gobierno, 

La armonia de vocês concertadas, 

El zelo de iusticia, la fé pura, 

La grauedad, el ser, la compostura, 

La sciencia, la eloquência, 

La forma, la experiência, 

El preguntar, el responder, el modo, 

Y por decillo todo, 

De aquella no dei siglo hierarchia, 

Angélica en su ser sabiduria. 

Sus Excelências con decoro graue. 

Que siempre tubo Portugal la llaue 

Deste noble thezoro, 

Respondieron á quanto 

Propuso su Eminência, 

Dando satisfacion a las preguntas 

Con suma diligencia. 

Que el Diuino capelo 

Embaxadores los Uamo dei cielo ; 

Y bien merece nombre tan perfeto 
Quien la iusticia de su parte lleua, 
Titulo heróico que este rumbo aprueua. 
Despidieron se Uenos de fabores, 

Y dando ai tiempo su lugar deuido, 
Estando los primores 

Iguales a los dias, 

Por hallarse indispuesto 



— 24D — 

Su Excelência el Sefíor António Coelho 

Al Senor Melo acompanar no pudo. 

Visito su Excelência el sol de Francia, 

Ja consta ai mundo ser Madamuzella, 

Del Rey sobrina, cujo aliento y brio, 

Belleza, Magestad, ser, y cordura, 

Partes iguales sy de su hermosura, 

Concedian diuinos priuilegios 

A las que Diosas en su esphera estauan, 

Tanta beldad de su deidad gozauan, 

En vna enana cifra dei Pigmeo, 

Tilde con alma, espiritu visible, 

Ilusion con âmagos de sensible, 

Su blanca mano estaua, 

Y gigante la enana se iuzgaua. 

La paz de Francia, graue cortezia 

Desta altiva Corona, 

Estrana á Portugal, cifro este dia 

Alentados fauores a la fama, 

Pues vna noble Dama 

No puede conceder maior fineza 

Que el cielo preuenir de su belleza, 

Accion casta dei lábio 

Guyo retiro passa por agrabio. 

A la Princeza de Conde, y su hijo, 

Madamusella de Borbon, suietos 

Adonde son de mas los epítetos, 

Fue a vizitar tambien, siendo Madama 

En la cordura, asseo, y gentileza, 

Tan sumamente cândida y perfeta 

Que pudo competir con la hermosura, 

Grauedad y donaire de su hija, 

Haziendo los la salua 

La Aurora el sol, y este planeta ai Alua. 

Al gran Duque de Anguien, Príncipe inuicto, 



— 246 — 

Primogénito raro dei prudente 

Príncipe de Conde, César valiente, 

Y ai bello y prodigioso 

Lucero deste império, en rostro y talle 

Humano serafin, su esposa, pudo 

Merecer su Excelência esta visita, 

Siendo esta rara forma 

Hija dei Marischal de Bressé heróico 

Cunado si de su Eminência, y ella 

Su dichoza sobrina, 

Vnion la mas diuina 

Que juntar pudo el cândido Himeneo 

En el laço de amor, cuyo tropheo 

Honro los coraçones mas constantes, 

Que de lauros amantes 

Coronaron los cielos poderosos 

En eternos afectos amorosos. 

A Madama tambien, a la Gondesa 

De Soison visito, con ella estaua 

Madamuzella sy de Longa villa, 

Su nietta, hija dei Duque 

De Longa villa, Atlante deste Reyno, 

Cuyo esfuerço y valor, sangre y nobleza. 

Escudo fue y á sido de su casa, 

Grande por si, pues tiene y á tenido 

Heredado el blason de sus maiores, 

De la imperial diadema defensores. 

Fue a visitar tambien a la Duqueza 

De Guillon, cuya rara gentileza, 

Prudência y hermozura. 

Adornos son de la que amó cordura, 

Siendo por su virtud y su excelência 

Sangre de su Eminência, 

Que de tales sobrinas 

Se adornam las coronas peregrinas. 



— 247 — 

A Monsieur vieron, de la Francia escudo, 

El Hermano dei Rey, retrato viuo 

Del gran Henrico quarto sin segundo, 

Pasmo de Europa, admiracion dei mundo. 

Al Senor Chanceller, a los conseios, 

Y a todas las vizitas referidas 

El Senor Coelho fue, despues que el cielo 

Mejoro su salud, y en todas ellas 

Brilló la luz de nuesta Lusitânia. 

Las demas ha dexado 

La pluma, no el desseo, ni el cuidado, 

Pareciendole ai rasgo ya la tinta, 

Que mientras mas succinta, 

La relacion será mas estimada, 

Pues toda dilacion ai sábio enfada. 

Aduierto que vn ingenio milagroso, 

Incógnito a la luz, no a la ciência, 

Ostento con prudência 

Consejos de su gran sabiduria, 

Sacro thesoro de la Theologia, 

Assombro de Escritura, 

Que mas se deue a si que a la ventura, 

Logrando su Corona, 

Por el iustos aplausos de Sorbona. 

Esta ó Don luan inuicto, 

Rey soberano de las santas quinas, 

Vn rasgo, vn punto solo indiuisible, 

A sido en este cielo de fauores 

Luz que gozaron tus Embaxadores. 

Lo que capitularon 

Diran sus Excelências, que el estado 

Al secreto Real es reseruado, 

Solo podre dezir lo que la fama 

Por cien bocas publica, assegurando 

Segun buena razoa, prosperidades 



— 248 — 

En las dos Magestades, 

Que la mas dilatada Monarchia, 

En la iusticia desta prophecia, 

Y siendo Portugal quien la defiende, 
EUa misma su dicha comprehende. 
La voz que articulada, 

lunta opiniones y declara asuntos. 
Anuncia, con la plebe conformados, 
A tu Corona triumphos dilatados, 
Que en esta de la liz fuerte Corona, 
La palabra Real, que el mundo abona. 
Será sello fortíssimo de quantos 
Derechos tiene la iusticia tuya, 
Para que se concluya 
El obstinado error de la cobdicia, 
Hidropica ambicion de la auaricia. 
El Marques de Bressé, sobrino heróico 
De su Eminência, y de su noble Casa 
Heredero, con armas y baxeles 
Gapitan General de tanta armada, 
En el mar Oceano iustamente 
Cezar vizarro, iovem eminente, 
Va por Embaxador extraordinário 
De Portugal, y su Lugar teniente 
El alentado y Capitan valiente 
Com.mendador de Guttas, Cauallero 
De la Orden de Malta. En todo espero, 
O inuicto Rey Don luan, felix victoria 

Y el cielo immortalize tu memoria. 
Presto seran los campos de vn tridente 
Fatigados de gente, 

Gubiertos de baxeles. 
Vista daran a quantos chapiteles 
Contrários y cossarios nauegaren 
Tus costas, atreuidos, 



— 249 — 

Los deste mouimiento, 

Gon los tuyos, seran rayos volantes, 

Desasidos de nubes fulminantes, 

No menos los dei Norte 

Primogénitos raros de Neptuno, 

Y dei Planeta quinto incêndio solo, 

Cuya llama sentida deste polo 

Al otro conresponde, seran fuego 

De tu enemigo y suyo, 

Siendo los Portugueses 

En reciproca vnion con los Franceses, 

E los de Olanda, celebres soldados, 

Rayos confederados. 

Derribando en Marciales exercícios 

Tirânicos Babeles edeficios. 

Viue, gobierna, adquiere, facilita, 

Postra, soieta, triumpha, galardona. 

Impera, reyna, manda, rige, quita. 

Sustenta, goza, da, castiga, abona. 

Restaura, vence, ensalça, ostenta, imita, 

Florece, solicita, perficiona. 

Conquista, y dexa en las espheras onze 

Tu nombre puesto en laminas de bronze. 

Seé pues lo eres Rey magestuoso. 

Magnânimo, Sefíor, sábio, prudente, 

Graue, altiuo. Cesáreo, poderozo, 

Régio, diuino, cândido, eminente. 

Augusto, sereníssimo, animozo, 

lusto, recto, firmisimo, valiente, 

Generozo, domando sin segundo, 

El império tirânico dei mundo. 

FINIS. 



— 25o — 

Estão para se imprimirem por orde || & mandado de sua 
Magestade || as obras seguintes. || 

Noticia vniuersal de Catalunha \\ 

Cargos que el Rey de Castella deu aos Catalaens, & 
descargos a \\ elles, com hum parecer em direi \\ to pêra po- 
derem tomar as armas \\ em sua defensa. \\ 

Papel que el Rey de Castella man \\ dou de nouo aos Ca- 
talaens de per || dão, & Reposta, com as rajoens de o não 
aceitarem. || 

Hum Panegyrico Português feito \\ em Olanda \\ 

Panegirico em Latim feito em \\ França. || 

Lusitânia Literata. || 

Está conforme em tudo com o Ori || ginal; em Nossa Se- 
nhora do Desterro oje 3. de Agosto de 1641. || 
O Doutor Fr. Francisco Brandão || 

Visto estar conforme com o Ori || ginal pode correr este 
papel, Lis II boa 6. de Agosto 1641. || 
Fr. loão de Vasconcéllos. || 
Pêro da Silua. || 
Francisco Gardozo de Torneo. || 

Taixão este Triumpho em vinte reis, |1 Lisboa 3. de Agosto 
de 1641. II 

João Sanches de Baena || . 
César Meneses. || 



IX 



Carta regia em favor de Garcia de Mello 

JilJio de Francisco de Mello, 

onde se referem os serviços do Embaixador 



Dom João etc, faço saber aos que esta minha Carta de 
padrão virem, que por parte de garcia de mello, filho major 
de francisco de mello ja fallecido, que foj do meu conselho e 
monteiro mor do Rejno, me foj presentado hum padrão, de 
que o treslado he o seguinte — Dom pheliphe etc, Aos que 
esta minha Carta virem, faço saber que por parte de francisco 
de mello, filho de manoel de mello que Deos perdoe, que foj 
meu monteiro mor, me foj apresentado hum meu Alvará de 
lembrança por que ouve por bem que o dito seu paj pudesse 
per sua morte testar dos dusentos mil reis que tinha de tença, 
do qual Alvará o treslado he o seguinte — Eu El Rej faço saber 
aos que este meu Alvará de lembrança virem, que havendo 
Respeito aos serviços de manoel de mello do meu conselho 
e meu monteiro mor, e a calidade e continuação delles, e ao 
modo em que procedeo em meu serviço nesta cidade de Lisboa 
na ocasião da vinda dos ingreses a ella o anno de seiscentos 
e nove, e aos serviços de António de mello seu jrmao já fale- 
cidos e por folgar de lhe fazer mercê, por todos os ditos Res- 
peitos e por seus merecimentos hej por bem e me pras de lha 
fazer que por sua morte possa testar dos duzentos mil reis de 



— 252 — 

tença que tem per hum padrão de minha fazenda em sua vida 
para sua molher e filhos como lhe bem parecer, e por tanto 
mando aos vedores de minha fazenda que apresentandolhe a 
molher ou filhos do dito manoel de mello em quem elle no- 
mear por seu fallecimento os ditos duzentos mil reis ou a 
parte delles, lhe facão passar padrão em seu nome da quantia 
que lhes assy nomear, apresentandolhe o dito padrão e este 
meu Alvará para se romper, e no padrão ou padrões que se 
lhe assy passarem, se tresladará este meu Alvará para se saber 
como assy o ouve por bem, e quando se lhe passarem, se porão 
as verbas necessárias, francisco da maya o fes em Lisboa a 
vinte e três dabril de mil quinhentos noventa e três, Sebastião 
perestrello o fes escrever. — Pedindome o dito francisco de 
mello que por quanto o dito seu pay era falecido, e per vertude 
do dito Alvará de lembrança nomeara nelle cem mil reis de tença 
dos duzentos mil reis nelle contheudos, como constava por 
certidão de justificação do Doutor António Denis do conselho 
de minha fazenda e juis das justificações delia que apresen- 
tava, lhe fizesse mercê de lhe mandar passar padrão em seu 
nome dos ditos cem mil reis de tença, e visto por mj seu re- 
querimento e o dito Alvará e certidão de justificação e o 
padrão que o dito seu paj tinha dos ditos duzentos mil reis 
de tença, lhe mandej dar esta carta pella qual hej por bem 
que o dito francisco de mello tenha e aja de minha fazenda 
de tença cada anno em dias de sua vida os ditos cem mil 
reis dos dusentos mil reis contheudos no dito Alvará, os quais 
cem mil reis comessará a vencer do primeiro dia de janeiro 
deste anno presente de quinhentos noventa e oito em diante, 
e mando aos vedores de minha fasenda que lhes facão assentar 
no livro delia e despachar cada anno para lugar onde delles 
aja bom pagamento, por quanto o assento que dos ditos du- 
sentos mil reis estava no dito livro em nome do dito manoel 
de mello e o Registo do padrão delles da Ghancellaria se 
riscarão e se poserão nelles as verbas necessárias, como se vio 
per certidão dos oíficiaes que as poserão, e por que o dito 



— 253 — 

manoel de mello falleceo a vinte e oito dias de novembro do 
anno passado de noventa e sete, como era declarado na dita 
justificação, do qual dia em diante o dito francisco de mello 
comesara a vencer os ditos cem mil reis, e os ditos dusentos 
mil reis ficão na folha do assentamento do Almoxarifado de 
setuval em nome do dito seu pay, lhe foj passado mandado 
para delles lhe ser pago o que lhe montar dos ditos vinte e 
oito dias de novembro athé fim do dito anno passado a Rasão 
dos ditos cem mil reis de tença, e para firmeza de todo lhe 
mandej dar esta por mim assinada e acellada com o meu 
cello pendente, e o padrão dos ditos dusentos mil reis e Al- 
vará de lembrança forão rotos ao assinar desta e do padrão 
que se passou a Jorge de mello dos outros cem mil reis que 
seu paj nomeou nelle, João Alvres o fes em Lisboa a três de 
junho de mil e quinhentos e noventa e oito, E no livro dos 
mercês que está em poder de marcai da costa no Registo do 
dito Alvará se porá verba do conteúdo nesta carta, Sebastião 
perestrello a fes escrever = El Rey = E tendo Eu respeito aos 
serviços de francisco de mello, que foj do meu conselho e 
monteiro mor do Rejno, feitos desde o anno de seiscentos e 
sete athe o tempo de sua morte, os primeiros annos na Ar- 
mada das Ilhas de seiscentos e sete em seiscentos e oito, na 
empresa de Larache e na armada da costa de seiscentos e des, 
sempre com criados a sua custa, no anno de seiscentos e vinte 
e sinco levantar por ordem do governo gente de cavallo na 
comarca de santarem com ocasião de se esperar a armada 
ingreza e acodir com tresentos homens da mesma leva a 
Cascais, alojandosse com elles em Oeyras, com grande despeza 
de fazenda, por dar a muitos meza, afora outras levas que fes 
por vezes de gente naquella comarca, particularmente quando 
foj da jornada da Bahia de todos os santos o anno de seiscen- 
tos e vinte e quatro, estando prompto cada ves que se lhe 
avisou para acodir onde fosse necessário com a gente de ca- 
vallo que tinha a cargo, e depois de obrar na aclamação como 
de seu zello e qualidade se devia esperar com grande effeito, hir 



— 204 — 

por Embaixador extraordinário no anno de seiscentos qua- 
renta e hum a El Rey Christianissimo, acompanhado de muitos 
criados e outra gente nobre a que fes o gasto, recebendo na- 
quella ocasião esta coroa particular serviço delle por a satis- 
fação com que se ouve em matérias de tanta importância, 
quaes erão as que corrião por suas mãos, e voltando ao Rejno 
ser emcarregado do posto de general da cavallaria do exercito 
de Alemtejo, que occupou por espaço de quatro annosemeo* 
achandosse nas pelejas da campanha, nas entradas de castella 
e expugnação de Alguãs praças do enemigo, em que procedeo 
com grande acordo e reputação das armas portuguesas, e 
sendo ultimamente chamado no anno de seiscentos e quarenta 
e sinco para me acompanhar na jornada de Alemtejo, o provj 
depois no anno de seiscentos e quarenta e oito do cargo de 
governador e capitam general do Algarve, que exercitou com 
grande prudência e trabalho, tolerando os encargos de acodir 
ao provimento dos soldados, socorro da armada e cura dos fe- 
ridos do mal contagioso em annos esteris, e tendo consideração 
a manoel de mello seu filho se embarcar na armada que o anno 
de seiscentos trinta e oito partio para o Brasil governada pelo 
conde da Torre general delia e morrer na viagem, pedro de 
mello, outro seu filho, que morreo na corte de Paris acompa- 
nhando o na embaixada, e jorge de mello, tãobem seu filho, que 
tendo servido três annos sinco mezes e dezoito dias em Alem- 
tejo de soldado de cavallo, capitão de infantaria e de cavallo, 
veo a morrer das feridas que recebeo no Asalto interpresa 
do forte de Telena, tendo primeiro, depois de rendido na 
batalha do campo de montijo, estado em prisão na cidade 
de granada, cujos serviços, menos a quinta parte em que se 
devidio a metade das auções que tocava a seus filhos, ficou 
pertencendo por sentença de habilitação a garcia de mello 
filho major, atento o que e ao mais que por elle se representou, 
ouve por bem de lhe faser mercê alem de outras da socessão 
de todos os bens da Coroa e ordens que vagarão por seu paj, 
Hej por bem de lhe faser mercê digo de todos os bens da 



— 255 — 

Coroa e ordens que vagarão por seu paj e porque nos ditos 
bens entrão os cem mil reis de tença que pello padrão asima 
imcorporado tinha o dito seu paj, Hej por bem de lhe faser 
mercê que elle os tenha e aja de tença cada anno e mando 
aos vedores de minha fazenda lhes facão assentar nos livros 
delia do Almoxarifado da cidade de Beja, onde tem sua si- 
tuação, e levar cada anno na folha do assentamento para 
lhe serem pagos do dia do fallecimento do dito seu paj em 
diante, e o assento que dos ditos cem mil reis de tença es- 
tava no livro de minha fazenda do mesmo Almoxarifado em 
nome do dito seu paj se riscará, e porá nelle verba do con- 
theudo nesta, que por firmeza de todo mandej dar ao dito 
gracia de mello per mjm assinada e cellada com o meu cello 
pendente, ao assinar do qual se Rompeo o padrão asima in- 
corporado e pagará o novo dereito que dever. João da silva 
a fes em Lisboa a desoito de setembro de seiscentos e cin- 
coenta e dous annos. Fernão gomes da gama o fes escrever 
= El Rej. 

(Chancellaria de D. João IV, Livro 8.", foi. 33? v.»). 



Nota à margem: Por sentença de justificação constou pertencerem os 
100^ reis desta tença a Francisco de Mello monteiro mor do Rejno filho de 
gracia de Mello contheudo neste registo por ter huma vida mais nos bens 
da Coroa e para se lhe fazer apostila risquey este assento por despacho do 
conselho da fasenda de 24 de Março deste anno. Lisboa 16 de Maio de 1707. 
— Semmedo. 



PERSONAGENS E LOCARES 
CITADOS 



■7 



PERSONAGENS E LOGARES CITADOS 



Aaram (rei da Pérsia). V. Harum-al-Rachid. 

Abbavili.a (ou Abavilla), Abbeville, em latim Abbatis-villa, 
antiga capital do condado de Ponthieu, na Picardia, hoje 
sub-prefeitura no departamento do Somme; porto fluvial pró- 
ximo da embocadura do rio do mesmo nome, que atravessa 
a cidade dividindo-se em dois braços os quaes se reúnem de 
novo a jusante d'ella. Não é exacto que Abbeville fosse, como 
diz o auctor, mesmo no seu tempo uma cidade moderna. 

Cit. a pagg. 102 e io3. 

Abderraman, (Franco Barreto escreve Abderrama), ou 
Abd-el-Rahman, vice-rei da Hespanha árabe; em 728 invadiu 
a França e avançou quasi até ao Loire, vindo porém a en- 
contrar-se entre Poiíiers e Toiírs com Carlos Martel, que á 
frente das tropas christãs o venceu em successivos combates, 
designados na historia por batalha de Toiírs ou batalha de 
Poitiers (em 732); com esta victoria dos christãos começa 
a declinar o domínio árabe na Europa occidental. 

Cit. a pag. 127. 

Agri, deve ser St. Aubin-de-Grip, pequena povoação si- 
tuada na juncção de dois caminhos que partem da Rochella, 
seguindo um por Surgères, outro por Coiirson. 

Cit. a pagg. 25 e i3o. 



— 26o — 

AiGUiLLON (Madame de...), cujo nome vemos escripto 
Aguillon, Guillon e Esguilhon, era com effeito uma sobrinha 
do Gardeal-Duque, Maria Magdalena de Wignerod, filha 
de René de Wignerod e de Maria Duplessis, irman de Riche- 
lieu, que comprou para ella a terra de Aiguillon (em i638), 
com o titulo de duqueza que lhe estava inherente. A duqueza 
de Aiguillon era dama da Rainha e gosava na corte de grande 
valimento. 

Git. a pagg. loo — 167 — 201. 

AiGREMON. Não pudemos averiguar quem fosse este Mon- 
sieur d'Aigremont (?), a quem se refere Soares d' Abreu, que 
estivera em Portugal, fallava hespanhol, e era um dos conse- 
lheiros da Rochella. 

Git. a pag. 186. 

Aix DE Alemanha. Aix-la-Chapelle em francez, Aachen 
em allemão, Aquis Gramou em latim, Aquisgran em hespa- 
nhol; cidade da Prússia Rhenaana, fundada por Carlos Magno 
que alli foi enterrado, onde foram eleitos e coroados 36 im- 
peradores d'Allemanha. 

Git. a pag. 92. 

Alcuino. V. Universidade, (de Paris). 
Git. a pag. 116. 

Alais (Conde de...), cujo nome Soares d' Abreu escreve 
Ale!{, é Lui^ Manoel de Valois (n. em 1 596) depois duque de 
Angoulême por successão de seu pae (V. Ayigoiãême), em 
i65o. Seguiu elle primeiro o estado ecclesiastico, que veiu a 
abandonar casando (em 1629) com Henriette de la Guiché. 
Foi este conde d' Alais, com effeito, governador da Provença 
e não pode ser senão elle a quem se refere Soares d' Abreu. 
Morreu em i653. 

Git. a pag. 2o5. 



— 26l — 

Alba (Duque de ..) é o famoso duque, D. Fernando Al- 
vare!( de Toledo (n. em i5o8, m. em i582), grande general de 
Filippe II de Hespanha, que tão celebre se tornou pela cruel- 
dade com que procurou dominar nas Flandres e que realizou 
em 1 58o a fácil conquista de Portugal. A referencia de Soares 
d' Abreu mostra o conceito em que o tinha D. Sebastião. 

Cit. a pag. igS. 

Ales (Alexandre de . .), também designado por Alesius e 
por Alexandre de Hales, foi um famoso doutor inglez que 
veiu leccionar em França no meado do século xul Alexandre 
de Alei, theologo dos mais insignes, foi mestre de S. Thoma:^ 
de Aquino, de Duns Scot e de S. Boaventura. Morreu em 
1245. 

Cit. a pag. 114. 

Alez (Conde de. . .). V. Alais (Conde de. . .). 

Altamero. Não conseguimos identificar o personagem a 
que se refere o auctor. 
Cit. a pag. 6. 

Alva (Duque d' .. .). V. Alba (Duque d' .. .). 

Amboesa, Amboise, cidade na margem esquerda do Loire, 
cabeça de cantão no departamento de Indre-et-Loire, antiga 
província de Touraine, 20 kilometros a sul de Tours; é com 
effeito notável pelo seu castello na margem de Loire. 

Cit. a pagg. 39 — 122 — 125. 

Amiens, antiga e importante cidade, capital da província 
de Picardia e hoje do departamento do Somme, atravessada 
pelo rio do mesmo nome. Conquistada pelos hespanhoes aos 
francezes, quando aquelles dominavam nas Flandres (em 1597) 
n'esse mesmo anno a reconquistou Henrique IV. 

Cit. a pagg. 104 e io5. 



— 202 — 

Amsterdama, Amsterdam, a mais importante cidade das 
Provindas Unidas, como ainda hoje dos Paires Baixos, e 
seu principal empório commercial; capital da província de 
Hollanda septentrional. 

Git. a pag. 79. 

Anaxágoras. Notável philosopho grego que floresceu 
Soo anos antes de Christo. 
Git. a pag. 35. 

Ancre (Marechal d'...), cujo nome Franco Barreto es- 
creve Anchra, é Concino Concini, aventureiro italiano casado 
com Leonor Galigai favorita de Maria de Medicis, que 
pela influencia da mulher no espirito da rainha conseguiu, 
durante a regência d'esta na menoridade do filho, subir aos 
mais altos cargos e dignidades, entre outros o de marechal 
de França ; tendo adquirido a terra d' Ancre, a que andava 
ligado o titulo de marquez, ficou conhecido na historia por 
marechal d' Ancre. Com a maioridade de Lui^ XIII coincidiu 
a ruina do valido, que morreu assassinado n'um dos pateos do 
Louvre (em 1617). 

Git. a pag. 56. 

Angervilla, é Augerville, pequena cidade do actual depar- 
tamento do Seine-et-Oise, entre Orléans e Étampes, 17 kilom. 
a S. O. d'esta cidade. Franco Barreto (pag. 49) cita Auger- 
ville como se estivesse entre Etampes e Paris, no que ha 
manifesto equivoco e decerto confusão com Arpajon, que 
realmente corresponde ás distancias indicadas pelo auctor. 

Git. a pag. 49. 

Angoulême (Duque d' . . -J é Carlos de Valois (n. 1 578, 
m. i65o), filho bastardo de Carlos IX, rei de França, e de 
Maria Touchet. Foi o duque casado em primeiras núpcias 
com Carlota de Montmorency, filha do Condestavel, de quem 



— 263 — 

teve geração (V. Alais) ; e em segundas núpcias (em 1644) com 
Francisca de Nargonne-Mareuil (n. 162 3), de quem não houve 
descendência, e que lhe sobreviveu sessenta e trez annos 
(m. 1713). 

Cit. a pag. 2o5. 

Anguin, Anguiena, Angui ou AuGui (Duque ou Duquesa 
de...J é sempre Enghien (V. Enghien, Duque ou Duquesa 
de....). 

E para notar que o mesmo nome Anguien, cuja forma 
actualmente adoptada é Enghien, vem orlhographado de trez 
maneiras, Anguin, Anguiena e Angui, ou antes Augui, por erro 
typographico. Não sabemos se este desleixo, de que ha 
muitos exemplos na Relação, será devido ao auctor ou ao 
compositor da primeira edição. 

Anguleme (Duque de. . .). V. Angoulème (Duque d'). 

Anjou (Duque de. . .), cujo nome Franco Barreto escreve 
Anjú, é Filippe, (n. em 1640), filho segundo de Lui^ XIII e 
Anna d' Áustria, que foi duque d' Anjou até á morte, sem des- 
cendência varonil, de seu tio Gastão duque d'Orléans, de 
quem herdou os titulos em 1660. D'este duque d' Anjou (1640), 
d'Orleans (1660), de Valois e de Chartres (1661), descende o 
ramo de Orleans depois reinante. 

Cit. a pagg. 65 — 107 — i83 — 200. 

Anna d'Austria, rainha de França (n. em lôoi, m. em 1666), 
filha de Filippe III, rei de Hespanha, casara em 161 5 com 
Lui^ XIII, já então rei (n. em 1601, rei em 1610), ao mesmo 
tempo que a irmã d'este, Isabel de França (n. em 1602), ca- 
sara com Filippe, principe das Astúrias, que depois foi Fi- 
lippe IV {n. em i6o5, rei em 1621), reinante em Hespanha ao 
tempo da embaixada (m. em i665). 

Cit. a pagg. 54 — 61 — 96 - 98 — 99 — 107 — i36. 



— 264 — 
Anna Mabia Carlota de Bourbon. (V. Montpensier). 

Ante (Mr. de.. ). V. Danse ou Dante. 

António (D.), infante de Portugal, é o filho do Infante 
D. Liii^ conhecido na historia pela designação de Prior do 
Crato (n. em i53i), que em França foi considerado como rei 
tendo a regente Catharina de Medicis tentado repoVo no 
throno. Morreu com effeito em Paris em i6g5 e foi sepultado 
no convento de S. Francisco, como diz o nosso auctor. 
Quanto á sua descendência, referir-nos-hemos ao que diz o 
Sr. Visconde de Faria no seu livro : Descendance de D. An- 
tónio Prieur de Crato XVIII^^e Roi de Portugal, Livorno, 
1909. 

Cit. a pagg. 114 e 193. 

Apelles, celebre pintor grego que floresceu uns 33o annos 
antes de Christo, muito apreciado por Alexandre em cuja 
corte viveu e que só por elle se deixava retratar. 

Cit. a pagg. 85 e 108. 

Apulkyo é Liicius Apuleius, nascido no segundo século da 
nossa era, na Numidia então província romana, que estudou 
em Carthago, em Athenas e finalmente em Roma, tornando-se 
um apreciado escriptor. A sua obra mais conhecida é aquella 
a que se refere o nosso auctor, que foi traduzida em portuguez 
com o titulo de Burro áureo. 

Cit. a pag. 128. 

Argenton, Argenton-Le-Chateau, cabeça de cantão no 
departamento de Deux-Sèvres, 17 kilometros a N. E. de 
Bressuire a cujo districto pertence; esta povoação foi quasi 
completamente destruída durante as guerras da Vendée. 

Cit. a pag. 26. 



— 265 — 

Artenê, Artenay, cabeça de cantão no districto de Loiret, 
antiga província de Orléans, uns 20 kilometros ao norte d'esta 
cidade na estrada de Paris por Étampes. 

Cit. a pag. 49. 

Artoes, visivelmente Artois, provincia e grande governo 
na Flandres franceza, que não podia estar entregue ao gover- 
nador do Poitou; aqui ha manifesto equivoco do auctor. 

Cit. a pagg. 26 — io5. 

Athis (Eustache de Viole, Sr d. . .); foi um dos mais dis- 
tinctos d'entre os officiaes que acompanharam o marquez de 
Bré^é. Na Lista dos coronéis e capitães occupa o primeiro 
logar dos coronéis de infanteria {Historia do Exercito, Provas, 
t. I, pag. 3o8); no Rol das pessoas que vieram de França en- 
contramoro com o n.° 5i sob o nome de Ms^. Datis mas com 
a honrosa menção: «Homem de espirito e de coração bom 
para Mestre de Campo de infanteria e bom negoceador» {loc. 
cit., pag. 3i3). O sr. Christovam Ayres menciona a sua pa- 
tente de 26 de setembro de 1641 (Hist.<' do Ex.o^ Provas, 
t. II, pag. 209), publicando também {HistA do Ex.o, Provas, 
t. I, pag. 322) um documento do qual resulta que já era 
coronel de infanteria em exercício a 14 de outubro de 1641 ; 
e logo a seguir vêem publicados outros que demonstram 
em quanta consideração era tido este official e quanto a me- 
recia; esses documentos alcançam a julho de 1642. No 
tomo II das Provas (pag. 348 e segg.) encontramos uma nova 
serie de noticias a respeito de Viole d' Athis, que o dão já 
como fazendo as vezes do general na provincia d'Entre Douro 
e Minho, e dirigindo com superior critério as operações 
n'aquclla fronteira. Infelizmente foi mortalmente ferido no 
ataque contra Salvaterra, e de tal modo sentiram os soldados 
a sua perda : «e se embravecerão taes pêra vingança d'ella, 
que rompendo pelas formalidades da guerra, remeterão com 
presa e corage a porta do castello. . .» e tomaram a praça. 



— 266 — 

{Hist.a do Ex.o, Provas, t. ii, pag. 849 e segg.). No t. m 
das Provas (pag. Syo e seg.) ainda se encontram documentos 
relativos a este oíficial. O Sr. Christovam Ayres não men- 
ciona porém a data precisa da sua morte. 
Git. a pag. 147. 

AuBRiOT (Hugo) foi um notável intendente das finanças de 
Carlos V e preboste de Paris, que deixou assignalada a sua 
administração por terem sido effectuadas durante ella notá- 
veis construcções, entre as quaes avultam duas pontes, poni 
Saint-Mickel e pont-audiange, e a prisão da Bastille onde 
o próprio Aubriot esteve preso, accusado de heresia (m. em 
i382). 

Git. a pag. 109. 

AuLNis (actualmente Aunis) pequena região da França, 
hoje comprehendida no departamento da Charente-Inférieure, 
que tem por capital La Rochelle; conjuntamente com Sain- 
tonge e Angoumois formava d' antes um dos grandes governos 
provinciaes da França. 

Git. a pag. i3. 

Aurélio e Orelio. V. O Reilly. 
Git. a pag. 147. 

Ave de Gracia, Le Havre de Grâce, ou simplesmente Le 
Havre, sub-prefeitura no departemento de Seine-Inférieure, 
situada junto da embocadura do Sena; é hoje um dos pri- 
meiros portos commerciaes da França. Fundado por Fran- 
cisco I no princípio do século xvi, um século depois ainda Le 
Havre era apenas uma pequena cidade marítima. 

Git. a pag. 82. 

Baldovinos. V. Baldiimo, I e IL 

Balduíno, Emperador de Constantinopla, deve ser o im- 



— 267 — 

perador Balduíno / (n. em 1 171), conde de Hainaut e de Flan- 
dres, que foi feito imperador em 1 204-1205 succedendo a 
Aleixo V, ultimo representante dos Comnenos. Balduíno I 
era filho de Balduíno V, conde de Flandres e de Hainaut, e 
portanto irmão de Isabel de Hainaut, primeira mulher de Fi- 
líppe Augusto de França. Balduíno I pouco tempo foi impe- 
rador, morrendo em 1206. 
Cit. a pag. 92. 

Balduíno II, de Constantinopla, é Balduíno II imperador 
do Oriente (n. em 12 17), filho de Violante, irman de Balduíno 1 
e de Henrique I e successora d'cste ultimo, casada com Pedro 
de Courtenay, conde d^Auxerre e de Nevers, que foi reconhe- 
cido imperador em 12 16. Balduíno II succedeu (em 1228) a 
seu irmão Roberto, que foi contemporâneo de S. Luisf; é por- 
tanto admissivel que lhe tivesse offerecido algumas relíquias, 
nada mais podemos aííirmar (m. em 1273). 

Cit. a pag. 112. 

Balões. O auctor quer decerto referir-se aos gallos, ou 
gallões, habitantes da Gallía; são portanto gauleifes. 
Cit. a pag. 3i. 

Bar, ou antes Bar-sur-Seine é uma sub-prefeitura do de- 
partamento do Aubc, na margem esquerda do rio d'este nome, 
a jusante do Mussy e a montante do Troyes. 

Cit. a pag. 107 

Barbarino (Cardeal). Deve ser o csirdesã Francesco Bar- 
berino, cardeal de cúria e secretario d'Estado de seu tio Ur- 
bano VIII (Maffeo Barberino), ou outro sobrinho d'este e 
irmão d'aquelle, António Barberino, também cardeal de Guria- 

Cit. a pag. 166. 

Barbezières-Chemerault (Achílle de. ..) que Franco Bar- 



— 268 — 

reto designa por Monsiur de Xamerat, Axiliers de Barbeper, 
deve ser um fidalgo francez que foi feito cavalleiro de Malta 
em 1626, e que estaria com effeito governando em Lusignan 
quando alli passou a embaixada ; não temos a seu respeito 
outra noticia. 
Cii. a pag. 3o. 

Baudéan {Henrique de. ..),é, sem a menor duvida, Henri 
de Baudéan, conde de Parabère, marquez de la Mothe Saint- 
Héraye, governador do Poitou, tenente general das provincias 
de Sainionge, Aunis e Rochelle, cavalleiro das ordens de 
S. Miguel e do Espirito Santo, casado com Catherine de 
Pardaillan d'Armagnac, fidalgo francez que recebeu e hos- 
pedou no seu castello de La Mothe S.t Heraye a nossa em- 
baixada, tanto na ida como no regresso, sempre com grande 
lusimento (m. em 11 de janeiro de i653). 

Git. a pagg. 26 e segg. — io3 — 129 — i3o — 148 — 189. 

Baudéan (João de. . ., marquez da Moita) é o filho primo- 
génito de Henri de Baudéan, conde de Parabère e marquez 
de la Mothe S.i Héraye, que deve ter herdado os titulos pa- 
ternos. É comtudo pouco provável que elle usasse o de 
marquez em vida do pae, apesar do nosso auctor e Soares 
d' Abreu o designarem como marquez da Motta. Morreu sem 
descendência em 1695. 

Git. a pagg. 27 — i3o — 189. 

Baudéan (Alexandre de .. .J é o segundo filho de Henri de 
Baudéan, marquez de la Mothe- Saint- Héraye, conde de Pa- 
rabère, e de sua mulher Catherine de Pardaillan d'Armagnac; 
este mesmo Alexandre de Baudéan é também designado pelo 
auctor como visconde de Parabère (a pag. 27) e por Soares 
d' Abreu (a pag. 188) como visconde de Pardaillan. 

Git. a pagg. 27 — io3 — io5 — i3o — 188. 

Baudéan, usavam este appellido diversos filhos de Henri 



— 269 — 

de Bctudéan, conde de Parabcre e marquez de la Mothe Saint- 
Héraye a saber : 

Philippe de Baudéan, cavalleiro de 5. João de Jerusalém, 
morto em Cândia em 1647. 

César de Baudéan, abbé de SJ Vincent de Met^, que 
morreu em 1678. 

Achille, cavalleiro de Malta. 

Charles-Louis, mestre de campo de cavallaria. 

Henri, cognominado nle chevalier de Parabère», capitão 
de cavallaria, morto em 1678. 

Havia mais quatro filhas Liii^a e Catharina, que estavam 
na casa paterna, Carlota e Dorothêa, religiosas. 

Eram ao todo onze filhos. 

Cit. a pag. 29 — 189. 

Beatriz (Infanta Dotta . . .J (n. em 1 504) é a terceira filha 
de el-Rei D. Manoel e da Infanta D. Maria de Hespanha, filha 
dos Reis Catholicos. D. Beatri^ (em i52o) casou com o duque 
de Saboya, Carlos III, o bom, (n. em 1486), que succedera a 
seu irmão Felisberto II (n. em 1480), fallecido sem descen- 
dência (em i5o4). A Infanta, celebre pela sua belleza e pela 
sua illustração, morreu em i538. 

Cit. a pag. 204. 

Beauce, parte da antiga província e governo de Orléans, 
em que uns comprehendiam unicamente a região de Chartres, 
vasta planície muito productiva em cereaes, e que outros 
estendiam ás regiões de Vendome e condado de Dunois; só 
n'este ultimo caso se pode comprehender n'ella Blois. 

Cit. a pagg. 40 — 46 — 49. 

Beaugency (Visconde de...) cujo nome Franco Barreto 
escreve Busanci, deve ser um Beaugency que vemos por vezes 
citado, sem designação de titulo, na correspondência de Ma- 



— 270 — 

^arin, de quem parece ter sido agente; é provável que já o 
fosse da secretaria d'Estado no tempo de Richelieu. 
Cit. a pag. 86. 

Beaumont Beaumont-sur-Oise, pequena cidade do depar- 
tamento do mesmo nome a 33 kilometros ao N. de Paris. Ha 
com efFeito varias terras com o mesmo nome; a saber: Beau- 
mont-le- Vicomie, no departamento de Sarthe, antiga provincia 
de França cuja capital era Le Maus; outro Beaumont, no 
departamento de Dordogne, na provincia do Guienne e não 
na do Limousin como diz o auctor; e ainda Beaumoni-de- 
Lomagne no Taru-et-Garonne, antiga Gascogne; finalmente 
Beaumont-le-Roger no Eure, Normandia; no Hainaiit é que 
não encontramos menção de nenhum Beaumont. 

Cit. a pag. io3. 

Beaumont-Pailly (M.r...)- Não encontramos em parte 
alguma este nome, a não ser que o identifiquemos com um: 
S.r de leumont, tenente, que encontramos sob o n.» 28 no Rol 
das pessoas que vieram na armada de Bré^é {HistA do Exfi, 
Provas, X.i, pag. 3 11). Nenhuma indicação encontramos a 
seu respeito. 

Cit. a pag. 146. 

Beauvoux (Bouver) Beauvais, antiga cidade, 72 kilom. ao 
N. de Paris, capital do departamento do Oise, da qual se não 
pode dizer, como diz o auctor, que pertencesse á Picardia, 
pois estava mais depressa comprehendida na Ilha de França. 

Cit. a pag. io3. 

Belilha, Belle-íle-en-mer, ilha situada junto á costa da 
França, a 12 kilometros a S. O. da península de Qiiiberon; 
tem 16 kilometros de comprimento por 8 de largo. 

Cit. a pag. 9. 



Berry ou Bcrri, antiga província da França, no centro, 
comprehendendo 06 departamentos de In^re e Cher e parte 
dos de Loir-eí-Cher e do Creuse. Deve notar-se não ser 
certo que alli nasça o rio d'este nome, nasce na antiga pro- 
víncia da Marche e ao S. de Aubusson. 

Cit. a pag. 38. 

Bii.LON (M.r de...) é Henri de Belis (ou de Bclys), S.or 
de Btllon, mencionado : na Lista dos coronéis e capitães como 
capitão do regimento de cavallaria ligeira de Chantereine (V. 
Hist.a do Ex.o, Provas, t. i, pag. Soy), e inscripto no Rol das 
pessoas que vieram na armada sob o n.° 14 com a indicação 
de que era sobrinho de M'" de la Touche, governador das 
torres da Rochella e recommendado para capitão de infan- 
teria (loc. cit., pag. 3 10); a sua patente de capitão para o re- 
gimento de Chantereine foi passada em 26 de Setembro de 
1641 {loc. cit., pag. 319). Nada mais consta a seu respeito. 

Cit. a pag. 147. 

BiRON (Marechal de. . .) é Carlos de Gontauí (n. em i56i), 
duque de Biron^ marechal da França, que durante longos 
annos fora companheiro de Henrique IV e o servira com 
dedicação e valentia, generosamente recompensadas pelo rei 
que o fez marechal da França, duque e par, governador de 
Borgonha e por vezes seu embaixador. Apezar de todos 
estes benefícios, Biron pôz-se a conspirar com a Hespanha e 
a Saboya contra o seu rei, bemfeitor e amigo, que, apezar de 
tudo lhe queria poupar a vida ; mas preso em Fontainebleau 
veiu a ser decapitado (em 1602). 

Blacharize (M.r de la...), será de la Blanchardière f 
Este nome é que nós encontramos no Rol logo a seguir ao 
de M.r du Laurens e com as mesmas recommendaçÕes (V. 
Hist.^ do Ex.o, Provas, t. i, pag. 3 14); também vem mencio- 
nado na Lista de Coronéis e Capitães (loc. cit., pag. 3o8) 



— 2']1 — 

como capitão do regimento de dragões áQMa'![ères; e citada 
a sua patente de capitão com o nome de João Chivallier Sor 
de la Blanchardière (loc. cit., pag. 32o), com a data de 26 de 
Setembro de 1641, para o regimento de que é coronel: Pedro 
de Berfriert S.or de mageros (maceres). Não encontramos 
mais nenhuma referencia a Mx de la Blanchardière e nem 
uma só a Blachari^e. 
Cit. a pag. 147. 

Bloe, Blois, importante cidade da antiga provincia de 
Orleanais, capital do departamento de Loir-et-Cher, situada 
na margem direita do rio Loire, ligada á margem esquerda 
por uma ponte; prendem-se com esta cidade importantes 
factos da historia de França; foi sede de um antiquíssimo 
condado, que andava unido ás casas de Chatnpagne e de 
Chatillon. 

Cit. a pagg. 39 — 40 — 42 — 48 — 124 — 125. 

Blois (Condes de...), comquanto escreva .B/oe, refere-se 
certamente o auctor aos condes e senhores de Blois, que 
desde o século x até ao xiv constantemente figuram na 
historia, embora o condado andasse por vezes ligado a 
outros feudos, Vermandois, Chartres, Clermont, Champagne, 
etc. 

Cit. a pag. 42. 

Bocage (Michel du. . .), é designado por Mx de Biicage 
por Franco Barreto ; não vem na lista de Coronéis e Capitães 
(Hist.^ do Ex.o Provas, t. i, pag. Soy); mas apparece logo 
com o n.° 5, como M.r de Boccage no Rol das pessoas que 
vieram na Armada (Joc. cit., pag. Sog), como capitão do regi- 
mento de Chantereyne. Parece porém que alli não encontrou 
logar porque em 10 de Dezembro de 164 1 é mandado prover 
n'uma «companhia de cavallo» que houver vaga em qualquer 
dos regimentos estrangeiros (loc. cit , pag. 336 e seg.). Em 



— 27^ — 

1648 é reconduzido com louvor e augmento de vencimento; 
e em 1649 designa-se-lhe uma determinada companhia. 
Git. a pag. 147. 

Boco é Cornelius Bocchus, escriptor lusitano citado por 
Plínio. A referencia aos carbúnculos vem na Historia Na- 
tural, liv. xxvii, cap 7.°. 

Git. a pag. 95. 

BoDEAN. V. Baudéan. 

BoGENCV, Beaugency, cabeça de cantão no departamento 
de Loirei, na margem direita do Loire, com uma ponte sobre 
este rio, a menos de meio caminho entre Orléans e Blois. 

Git. a pag. 124. 

BoisEMONT (Esme de Pillavoine, Sx de. . .) é mencionado 
na Lista de coronéis e capitães com o nome de Esme (sic) de 
Pillauojne S.f de Boisemont e o posto de Coronel Carrabinas 
{HistA do Ex.o, Provas, t. i, pag. 3o8); no Rol das pessoas 
que vieram de França tem o n.° 35 e é designado por BoÍ!j[e- 
nioíi/, coronel de carabineiros (loc. cit., pag. 3 12); na nota da 
sua patente aparece só : Esme de Pillauoyne, coronel de ca- 
rauinas, sendo a data da patente 26 de Setembro {loc. cit., 
pag. 320). Por dois documentos que lhe dizem respeito (loc. 
cit., pag. 339 e seg.) sabe-se que foi mandado servir com o 
seu regimento em Estremoz, em Março de 1642, não cons- 
tando nada mais. 

Cit. a pag. 147. 

Bordéus (Arcebispo de. ..J ú Henri d'Escoubleau de Sour- 
dis, que succedeu n'aquella archidiocese a seu irmão, feito 
arcebispo e cardeal (iSgi-ogQ), graças á protecção de Ga- 
brielle d'Estrées com quem era aparentado ; foi elle quem 
casou Lmf XIII {em 161 5) e morreu em 1628. O novo arce- 

18 



— i74 — 

bispo tomou parte muito activa no cerco da Rochella, sendo 
posto á testa da intendência e da artilharia, e mais tarde en- 
trou em varias operações navaes, entre outras a expedição 
naval á Itália (em i633), e a expedição á Corunha, em 1639, 
a que D. Francisco Manoel de Mello se refere nas Epanapho- 
ras, e que tão grandes receios causou em Hespanha, (V. E. 
Prestage, D. Francisco Manoel de Mello Esboço Biographico, 
pagg. 109 e segg.). 
Git. a pag. 2o5. 

BoRDiM Aurélio (Miguel) deve ser Michel Bourdin artista 
conhecido em Orleans. 
Cit. a pag. 43. 

Borgonha (ducado de), região da França que fazia parte 
da antiga província do mesmo nome (Bourgogne) e com- 
prehendia os actuaes departamentos de Côte-d'Or e Saône- 
et-Loire, e fracções dos limitrophes de Yonne, Aube e Nièvre. 

Git. a pag. 107. 

BoTERo, deve ser João Botero (i 540-1617), theologo e pu- 
blicista italiano, que desempenhou successivamente os cargos 
de secretario de S. Carlos Borromeo, de ministro de Saboya 
em Paris e de mestre dos filhos do duque Carlos Manoel. A 
sua obra Delle cause delia grande^^a delle cittá, impressa em 
1589, teve muitas edições e foi vertida em latim, allemão, 
hespanhol e francez. Não pudemos verificar se são effectiva- 
mente da sua lavra os contrasensos que Franco Barreto lhe 
attribue a respeito das aguas do Sena, difficilmente desculpá- 
veis mesmo n'um escriptor do século xvii. 

Cit. a pagg. 44 — 107 — 1 10. 

BoTiLHER (Monsiur...) Boiillier, ou Bouthilier. V. Bou- 
thillier. (Claude Le.. .) e Chavigny (Conde de . .). 



— 27^ — 

BouTHiLLiER (Chiude Le . . .) foi feito secretario d'Estado 
dos negócios estrangeiros (em 1G29) e passou (em lõSa) a 
superintendente das finanças, succedendo-lhe no cargo ante- 
rior seu filho Léon-Le-Bouthillier, conde de Chavigny. Os 
dois Bouthillier, conjuntamente com o chanceller Séguier, 
foram os negociadores do tratado com Portugal de i de 
junhn de 1641. 

Git. a pag. 102 — 141 — 143 — 168 — 201. 

BoviLLA, La BouiLLE, pequena e insignificante povoação, 
poucos kilomeiros a jusante de Roíien, na margem esquerda 
do Sena, sem nenhuma circunstancia que justifique o ser ci- 
tada pelo auctor. 

Git. a pag. 107. 

Brandão (P.^ Liii^...J deve ser um jesuita, doutorem 
theologia e preposito da casa de S. Roque (n, em Lisboa em 
i583 e m. em i663), notável escriptor, a quem Soares d'Abreu 
escreveria recomendando-lhe um jesuita da Rochella que pre- 
tendia ir para o Japão. Não encontramos a seu respeito ne- 
nhuma outra referencia. 

Git. a pag. 186. 

Brassac, Franco Barreto escreve Braxat, era Jean de 
Galará de Béarn, conde de Brassac, cavalleiro das ordens de 
S. Miguel e do Espirito Santo, que foi ministro, embaixador, 
governador de varias provincias e tenente general do Poitou; 
era, como refere Franco Barreto, casado com Catherine de 
Sainte-Maure de Montausier, que fora nomeada primeira 
dama de honor da Rainha em i638, e ainda exercia as suas 
funções em 1641 ; mas o que não nos parece certo é que elle 
fosse irmão do Conde de Parabère. 

Git. a pagg. 26 — 27 — i3o. 

Brelengas, Berlengas, pequeno grupo de ilhas junto á 



— 276 — 

costa de Portugal, a NO do cabo Carvoeiro, de que fazem 
parte os ilhéus denominados Farilhões (e não Furilhões); a 
ilha principal, ou Berlenga grande, tem apenas i Soo" de com- 
primento na sua maior extensão. 
Cii. a pag. i32. 

Brionne (Conde de. . .), cujo nome Franco Barreto escreve 
Brion e Briona, era, segundo informa Soares d'Abreu, um 
fidalgo de Lorena, que estava ou estivera ao serviço dos 
duques Carlos e Henrique. Era de ascendência portugueza, 
aparentado com a casa de Bragança, segundo elle próprio 
allegava e Soares d' Abreu parece confirmar ; nada podemos 
acrescentar ao que este auctor diz (a pag. 204), nem mesmo 
confirmaFo no que respeita aos seus antepassados portuguezes. 

Cit. a pagg. 82 — 86 — 204. 

Brézé (Urbano de Maillé-Bré^é), marquez e marechal de 
França, geralmente conhecido por marechal de Bré^é, foi 
capitão das guardas, embaixador em varias cortes e vice-rei 
de Catalunha; era casado com Nicole du Plessis Richelieu, 
irmãa do Cardeal-Diique, e pae de Armando de Maillé-Bré![é, 
lambem marquez de Bré^é. 

Cit. a pagg. 102 — io3 — 177. 

Brézé (Armando de Alaillé-Bré^é), filho do anterior, Ur- 
bano de Maillé-Bré^é, foi também marquez de Bré^é e depois 
duque de Fronsac e de Caumont ; era o sobrinho valido do 
Cardeal-Duque e foi por elle enviado a Portugal, em 1641, 
com o caracter de embaixador e o commando da armada. 
Morreu na batalha naval de Orbitello em 1646. 

Cit. a pags. 68 — 100 — i3o — i3i — 133 — 143 — 212 — 21 5. 

Brison (Mx de. . .) é certamente Barnabé Brisson, S/ de 
la Touche, mencionado na Lista dos coronéis e Capitães 
{Hist.a do Ex.o, Provas, 1. 1, pag. 307) como capitão de uma 



— 277 — 

das companhias do regimento de cavallaria ligeira de Buc- 
quoy. A elle se refere o Sr. Christovam Ayres a pag. 3i8 
(loc. cit.J e dizem-lhe egualmenie respeito uma patente de 
capitão de cavallaria, datada de 26 de Setembro de 1641, e 
mais dois documentos do mesmo ano {loc. cit., pagg. 347 e 
seg.). No Rol não o encontramos, a não ser que o queiramos 
identificar com o n.* gS, M.f de Granchamps Briçon (loc. cií., 
pag. 3i6); mas n'esse caso estaria repetido o seu nome na 
lista de Franco Barreto (V. Grande Cantpo). 
Cit. a pag. 147 

Brito (Francisco Mendes de. . .), pae de Heitor Mendes, 
que trouxe comsigo e á sua custa, uma companhia portu- 
gueza composta de sessenta homens, para servir em Portugal ; 
embarcaram na canhoneira Neptuno, do commando do ca- 
pitão Martin, que fazia parte da armada do marquez de Bré:^é. 
Nem Franco Barreto nem Soares d'Abreu nos dão quaesquer 
indicações acerca d'este bom portuguez ; apenas a identidade 
dos apellidos nos leva a suppor que elle possa ser descen- 
dente de Ruy Mendes de Brito avô materno de João Gomes 
da Silva, que foi embaixador em França e em Roma no 
tempo de el-Rei D. Sebastião. 

Cit. a pag. i3i. 

Brito Falcão (Ruy de. . .), capitão portuguez que estava 
prisioneiro na Rochella quando alli chegaram os nossos em- 
baixadores; nada mais sabemos a seu respeito além do que 
diz Franco Barreto. 

Cit. a pag. 12. 

Brouage (Le). Burgo do departamento de Charenie-In- 
férieure, pequeno porto de mar e logar fortificado, 6 kil. ao 
norte de Marennes, hoje completamente decahido da sua 
antiga importância. 

Cit. a pag. 12. 



•— 278 — 

Brui.on (Conde de ..J éo primeiro introductor de embaixa- 
dores na corte de França, cujo nome Franco Barreto e Soares 
d' Abreu escrevem Bridão e Brullon, e que esteve constante- 
mente no exercicio das suas funcções emquanto durou a 
embaixada de que ambos faziam parte. Soares d' Abreu re- 
fere-se largamente tanto ás funcções como ao funccionario 
(pag. 199). 

Cit. a pagg. 5o — 54 — Sy — 60 — 67 — 83 — 99 — io5 — 
120 — 165 — 168 — 169 — 170 — 199. 

Brunhol (Conde. . .). Não encontramos menção de ne- 
nhum titulo parecido, nem terra d'onde proviesse. Ha uma 
terra chamada Brignoles (no departamento de Var), e uma 
família de Brigode bastante conhecida; eis tudo o que pude- 
mos averiguar. 

Cit. a pag. 83. 

Bruto deve ser Decimo Junio Bruto porquanto dos que a 
historia cita é o único que se sabe ter estado na Gallia ; igno- 
ramos, porém, se teve algum filho chamado Turno que foss^ 
morto em Toiírs, o que sabemos é que esta cidade era a 
capital dos tiirones, povos da Gallia que existiam antes da 
conquista romana, e foi capital da 3.<^ Gallia Lyonesa. 

Cit. a pag. 125. 

BuCQuoY (Jean de ou du (?)■■', S.^ de la Motte), official 
francez que veiu para Portugal na armada do marquez de 
Bréí^é e tem na Lista dos coronéis e capitães o primeiro 
legar e no Rol das pessoas que vieram de França o n.» 21, 
indicando-se que trouxe oito criados e sendo designado como 
sargento de batalha ou mestre de campo de cavallaria (V. 
Hist.a do Ex.o, Provas, t. i, pagg. 307 e 3ii). Foi nomeado, 
em 4 de Setembro de 1641, coronel de um regimento de 
cavallaria ligeira (de 4 companhias a 5o cavallos), comman- 
dando elle próprio uma das companhias {loc. cit., pagg. 352 



— 279 - 

e segg.) ; em 25 do mesmo mez foi determinado que se lhe 
desse o primeiro logar entre os coronéis francezes {loc. cit., 
pag. 317) ; em Novembro do mesmo anno foi mandado servir 
no Alemtejo {HistA do ExPy Provas, t. n, pag. I23); e alli 
se conservou até á primavera de 1642 (i/ís/.^ do Ex.o, Provas, 
t. I, pag. 356). 
Cit. a pag. 147. 

BuLLiTURE (Cavalleiro de. . .), não encontrámos em docu- 
mento algum simelhante nome, nem outro que com este se 
parecesse; portanto não conseguimos descortinar a quem 
Franco Barreto quereria referir-se. 

Cit. a pag. 146. 

Burgo ? Não conseguimos descubrir qual possa ser a 
localidade a que o auctor se quiz referir; pois não encontra- 
mos nenhuma cujo nome pudesse ser transformado n'este em 
todo o caminho de Abbeville a Paris, passando por Ajniens e 
Clermont. 

Cit. a pag. io5. 

BusANCi. V. Beaugency. 

BussY (M.r de...) deve ser Étienne Pasquier, S.f de 
Bussy, mencionado na Lista dos coronéis e capitães, sob o 
nome de Esteuão pasquite S.r de Brossy, como capitão do 
regimento de cav aliaria ligeira de Montjouant [Hist.a do 
Ex.o, Provas, t. i, pag. 307) ; no Rol das pessoas que vieram 
de França, vemos, sob o n.° 54, com o nome de S.^ de Bussy 
a mdicação do seu destino e a de que era muito recomendado 
aos embaixadores por Mx de la Barde {loc. cit., pag. 3i3); a 
sua patente designa-o como Esteuão Paschier senhor de 
Brissi para capitão do regimento de Montjouant e tem a data 
de 26 de setembro de 1641 {loc. cit., pag. 319). Nada mais 
consta a seu respeito. 

Cit. a pag. 147. 



— 28o — 

Calígula (Caio César Augusto Germânico . . .) foi o ter- 
ceiro Imperador Romano ; sobrinho de Tibério, subiu ao throno 
imperial no anno 37 da nossa era, morrendo em 41 depois de 
ter exercido o poder durante quatro annos pela forma mais 
indigna e escandalosa que é possível conceber. 

Cit. a pag. 3i. 

Cai.vino (João), natural de Noyon, na Picardia (n. em i Sog) 
foi um dos principaes propugnadores da religião reformada 
em França e na Suissa, onde se estabeleceu e proclamou as 
suas doutrinas mais radicaes do que as de Luthero (m. em 
Genebra em 1564). Os protestantes de França seguiram na 
sua grande maioria as doutrinas de Calvino e intitularam-se 
calvinistas. 

Cit. a pag. 37. 

Campiena ou Compendio (em latim Compendium), Com- 
piègne, sede de uma sub-prefeitura no departamento de Oise 
situada na margem d'este rio; antiquíssima cidade fortificada 
construída pelos gaulezes, que Joanna d' Are defendeu (em 
1430) contra os inglezes que a sitiaram e tomaram. 

Cit. a pagg. 47 — 108. 

Carlos Martello, não chegou a íntítular-se rei de França, 
comquanto exercesse a realeza com os títulos de duque de 
Austrasia (~\5) e de Neustria, e mesmo de duque de França 
(741), sendo mordomo-mór (maire du palais) com os reis 
merovingios Clotario IV e Childerico III. Ficou celebre na 
historia por ter desbaratado na batalha de Poitiers (em 732) 
os sarracenos, que haviam invadido a França sob o commando 
de Abd-el-Rahman. (M. em 741). 

Cit. a pagg. 80 — 95. 

Carlos I ou Carlos Magno, imperador do Occidente em 
800, tinha succedido a seu pae, Pepino, (em 768), como rei de 



— 28l — 

Borgonha, Provença e Neustria, que era a parte central e 
septentrional da França, comprehendendo a Normandia uma 
porção de Chavipagnc e Paris. Veiu a reunir toda a França 
(em 771), juntou-lhe depois a Lombardia e Roma (em 774) e 
finalmente a Allemanha (em 800) sendo então reconhecido 
como Imperador (m. em 814). 
Cit. a pagg. 92 e 94. 

Carlos o I (el Rey. . .) cit. a pag. 44 é Carlos VII, rei de 
França, a quem acima se refere Franco Barreto. (V. Car- 
los VW. 

Carlos II, rei de França, cognominado o Calvo (n. em 
823), neto de Carlos Magno, succedeu a seu pae Lui^ o 
Clemente nos seus differentes reinos e senhorios. Mediante 
varias heranças e depois de prolongadas luctas com seus 
irmãos, foi finalmente proclamado imperador do Occideníe 
em 875 e morreu em 877. 

Cit. a pag. 92. 

Carlos V, rei de França, cognominado o Sábio (n. em 
1337), foi regente durante o captiveiro de seu pae, João II, 
em Inglaterra (i 356- 1364), succedendo-lhe por sua morte 
(1364). Hábil politico, tendo sob suas ordens alguns fa- 
mosos generaes, como Clisson, Duguesclin e Boucicaut, re- 
conquistou sobre os inglezes parte dos territórios de que elles 
se haviam apossado no anterior reinado, e nos quaes se com- 
prehendia a Rochella, que reedificou e fortificou convenien- 
temente. 

Cit. a pagg. 22 — 61 — 118. 

Carlos VI, rei de França (n. em i368), era filho de Carlos V 
e de Joanna de Bourbon; rei em i38o, casou, em i385, com 
Isabel de Baviera, succedeu-lhe Carlos VII, o mais novo dos 
seus filhos varões, por morte dos dois primogénitos. Não foi 



— 2S2 — 

no tempo de Carlos VI (como diz o nosso auctor), porém no 
de Carlos V, seu pae, que Aubriot edificou a ponte de 5. Mi- 
guel. (V. Aubriot). 
Cit. a pag. 109. 

Carlos VII, rei de França, cognominado o Victorioso (n. 
em 1403) era filho de Carlos VI e de Isabel de Baviera; e 
veiu a succeder a seu pae (em 1422) por terem morrido antes 
d'este e sem posteridade os seus dois irmãos primogénitos : 
Lui^, duque de Guiemia e Delphim de França (n. em iSgô, 
m. em 141 5), e João, duque de Touraine (n. em iSgS, m. em 
1417). Casou Carlos VII com Maria d'Anjou, filha de Lui^, 
duque d'Anjou, que se intitulava rei da Sicília; d'este matri- 
monio nasceu Lt/ff XI. Foi Carlos VII que teve a gloria de 
expulsar do território os inglezes, reconquistando quasi todo 
o reino, que então dominavam. 

Cit. a pagg. 43 — 44 — 45 — 46. 

Carlos VIII, rei de França, filho de Lui:jf XI e de Carlota 
de Saboya, sua segunda mulher, herdou a coroa por morte 
de seu pae (em 1483), exercendo a regência durante a sua me- 
noridade, sua irmãa Anyia. Ao assumir o poder, (em 1491), 
formou-se contra elle uma poderosa liga á testa da qual estava 
Maximiliano d' Áustria, cuja filha elle rejeitara para contrahir 
matrimonio com Anna de Bretanha e juntar esta provincia á 
França. Tendo emprehendido a conquista de Nápoles, para 
fazer valer os antigos direitos da casa d'Anjou, reuniu quasi 
toda a Europa contra si, encontrando unicamente appoio em 
D. João II de Portugal. (V. Reduccion y Restituycion dei 
Reyno de Portugal, de Juan Bautisia Morelli, Turim, 1648, 
pag. 410). 

Cit. a pag. i5. 

Carlos IX, rei de França (n. em i55o, m, em 1574), filho de 
Henrique II e de Catharina de Medicis, succedeu a seu irmão 



283 



Francisco II, que morrera sem descendência em i56o. Não 
deixando elle próprio filhos legítimos do seu casamento com 
Isabel d' Áustria (iSyo), passou a coroa a seu irmão Henri- 
que III (em 1574) que tão pouco teve descendência. 
Cit. a pag. 47 — 97. 

Caron de Let, ou antes Carondelet, é o nome d'um fidalgo 
hespanhol que foi encarregado pela infanta Isabel Clara Eu- 
genia, quando governava as Flandres, de ir a Paris para 
tratar de assumptos relativos á ida pavai Bruxellas darainha- 
mãe Maria de Medicis. É a este caso que se refere Soares 
d'Abreu. 

Cit. a pag. 192. 

Cascaes (Marque^ de.^.J, é D. Álvaro Pires de Castro, 
7.° conde de Monsanto, que foi elevado a marquez de Cascaes 
por occasião de ser mandado a França como embaixador ex- 
traordinário afim de dar os pêsames da morte de Lui:( XIII 
á rainha viuva Anna d' Áustria. Esta embaixada do marquez 
de Cascaes foi muito celebrada pelo seu esplendor. 

Cit. a pag. 171. 

Castello Rodrigo (Marque^ de...), D. Manuel de Moura, 
era filho de Christovam de Moura, fidalgo portuguez que 
passara ao serviço de Filippe II, e que foi primeiro mar- 
quez de Castello Rodrigo. O segundo marquez era, com 
effeito, embaixador de Hespanha em Roma, por occasião da 
acclamação de D. João IV, e depois exerceu na AUemanha 
o mesmo cargo. 

Cit. a pagg. 5i. 

Castro (Dom Fran.co de. . .), embaixador em Roma, que 
depois fosse conde de Lemos e monge de S. Bento, como diz 
Soares d' Abreu, não pudemos averiguar quem seja ; tanto 
mais que Boccalino (que o nosso auctor cita), tendo nascido 



— 284 — 

em i556 e morrido em 1623, de quem foi contemporâneo é 
de D. Pedro Fernandes de Castro, marquez de Sarria e 
conde de Lemos (n. em iSyô, m. em 1622), que foi vice-rei de 
Nápoles. 

Cit. a pag. 196. 

Catharina de Medicis (Franco Barreto escreve Caterina), 
rainha de França, era filha de Lourenço de Medicis, duque de 
Urbino (n. em 1 5 19) e casou com Henrique 11, rei de França 
(i533). Por morte d'este (em iSSg) e do filho primogénito, 
Francisco II (em 1 56o), assumiu a regência durante a meno- 
ridade do segundo, Carlos IX (n. em i55o), que succedeu; 
exerceu a Rainha influencia preponderante durante o reinado 
d'este filho, governando ainda depois da morte delle, até á 
chegada de Henrique III, que estava reinando na Polónia. 
Catharina de Medicis morreu em 1 589. 

Cit. a pag. 3o — "i-j — 41 — 116. 

Catharina (Dona. . ., Franco Barreto escreve Caterina), é 
a duqueza de Bragança, avó de D. João /F; filha do filho 
mais novo de el Rei D. Manoel, o infante D. Duarte, e de 
D. Isabel de Bragança, filha do duque D. Jayme. D. Ca- 
tharina casou com o duque de Bragança D João /(em i5ó3); 
e d'este matrimonio nasceu o duque D. Theodosio II (em 
i568), pae do duque D. João II, que foi acclamado rei em i 
de Dezembro de 1640. Os direitos de D, Catharina, e dos 
seus descendentes, á successão no throno foram habilmente 
sustentados por numerosos jurisconsultos e escriptores, por- 
tuguezes e estrangeiros, 

Cit. a pag. 1 17. 

CAtULAC, Catolacum, nome latino do logar onde veiu a 
ser edificada a abbadia de S. Dini^. (V. S. Dini\). 
Cit. a pag. 87. 



— 285 — 

Cenis (monte), Franco Barreto escreve Senys, é um 
monte que faz parte da cadeia dos Alpes, na fronteira de 
Saboya, entre a França c a Itália. Não é exacto que o hère 
tenha, como diz o auctor, a sua origem junto ao monte Cenis, 
tem-n'auns3okilometros mais ao norte na vertente occidental 
do monte Iseran que, embora pertencendo ao mesmo systema 
orographico, é distincto do monte Cenis. 

Cit. a pag. io6. 

Cerralbo (Marquesa de. . .), é provável que Franco Bar- 
reto, comquanto escreva Serralvo, se refira á marqueza de 
Cerralbo; quanto ao filho e herdeiro é de suppor que seja o 
quarto marquez, D. Jiian António, que veiu a ser vice-rei da 
Catalunha e morreu em 1681. 

Não pudemos averiguar se, com eífeito, morreu em Flan- 
dres um marquez de Cerralbo, antigo governador das índias, 
em 1640 ou 1641. 

Cit. a pag. 40. 

Chabostière (M.r de ..), deve ser Arnaud Bruneau, ca- 
pitão no regimento de cavallaria á.QBucquoy, que é designado 
na Lista dos coronéis e capitães, por Arnaldo Bruneau S.o^de 
la Chabatiere, {Hist.a do Ex.q, Provas, t. i, pag. 307), cuja 
patente de capitão para o indicado regimento, datada de 26 
de Setembro de 1641, é passada em nome de Arnaud Bru- 
neau (loc. cit., pag. 3 18). Não vem no Rol das pessoas que 
vieram de França. 

Cit. a pag. 147. 

Chambord (Franco Barreto escreve Xamburg), magnifico 
castello rodeado por uma vasta floresta, junto á povoação 
do mesmo nome no departamento de Loir-et-Cher ; o cas- 
tello foi mandado edificar por Francisco I. 

Cit. a pag. 122. 



— 286 — 

Champagne (o auctor escreve Xampanha) é, sem a menor 
duvida Philippe Champagne, celebre pintor que nasceu em 
Bruxellas (em 1602) e veiu para França aperfeiçoar-se, estu- 
dando com Nicolas Poussin. Muito protegido por Luí^ XIII 
e Richelieu tornou-se conhcijido principalmente como pintor 
de retratos. O que elle fez de D. Miguel de Portugal, oífe- 
recido por este ao conde Brulon, não pode ser aquelle a que 
se refere o seu biographo: «No seu retrato de corpo inteiro, 
que he o que só ficou delle á casa de seu irmão, se vê a gen- 
tileza grave do seu aspecto e a grandeza proporcionada da 
sua estatura» {Instrucçam que o Conde de Vimioso. . . dá ao 
seu filho, etc. Lisboa, i744> pag. 54). 

Cit. a pag. 120. 

Champuis, (o auctor escreve Xampui), pequena aldeia no 
caminho de Beauvais a Abbeville, muito perto de Granvilliers, 
no departamento de Oise. 

Cit. a pagg. io3 — 104 — 106. 

Chanciler, e Chanselier. V. Séguier. 

Chantereyne (François de Huybert e não decerto Huict' 
bert. Senhor de. . .) é o segundo mencionado na Lista dos 
coronéis como S.of de Chanterigne e commandante de um 
dos regimentos de cavallaria (Histfi do Ex.o, Provas, t. i, 
pag. 307); no Rol das pessoas que vieram de França tem o 
n.» 27 e é designado por Mx de Chanteraine para ser coronel 
de cavallaria com a seguinte indicação complementar, mani- 
festamente errada : «Marechal general de cavalaria que faz o 
mesmo cargo que um sargento mayor, ou sargento de Batalha 
na infantaria». O Sr. Christovam Ayres apenas indica a data 
de 26 de Setembro de 1641 para a patente d'este coronel 
de cavallaria {loc. cit., pag. 3 18) sem comtudo citar mais do- 
cumento nenhum que lhe diga respeito, informando unica- 
mente que o coronel de Chantereine foi destinado á provincia 



— 287 — 

do Alemtejo em Novembro de 1G41 {Hist.^ do ExP, Provas, 
t. 11, pag. 154) e publicando a nota das patentes de dois dos 
capitães do regimento de Chantereyne, Henry de Belys e 
Louis de Chivray, datadas de 2b de Setembro de 1641 (Hist.<i 
do Ex.o, Provas, t. i, pag. 3iy). 
Cit. a pag. 147. 

Charron (Jacqiies de...). Sire de Monceaux escreveu 
Histoire universelle de toutes nations et spécialement des Gaii- 
lois ou Français. . . depiiis la création du monde jusqucs àl'an 
de Jésus-Christ 1621 (Paris 162 1). A obra resente-se da muita 
credulidade do auctor, que no meio dos factos históricos 
conta prophecias, regista a appariçao de cometas, etc. (V. 
Bourgeois et André: Les Sources de l' Histoire de France, 
i6iO-iji5, Paris 1913, pag. 274). 

Cit. a pagg. 47 — 80 — III, 

Chartrain (Pays . . .) Franco Barreto escreve Pais de 
Xartrê, de Xatren; ou Pays-de-Chartres, é a região atra- 
vessada pelo Eure e que tem por centro aquella velha ci- 
dade, quasi toda comprehendida no departamento de Eure- 
et-Loir, e também na antiga Beaiice. Não encontramos n'esta 
região localidede cujo nome justifique a referencia do au- 
ctor. 

Cit. a pagg. 49 e i25. 

Chartres^ (Franco Barreto escreve Xartrê e Xastres) ci- 
dade de França, que foi desde remotos tempos (século x) 
sede de um condado annexo aos de Champagne e de Blois; 
passando este depois (século xui) para a casa de Valois e 
sendo incorporado na coroa (1349); Francisco / alienou-o e 
Lui^ X/7/ (1623) readquiriu-o. Lui:^ X/F elevou o condado 
a ducado, dando-o á casa de Orléans como apanágio do pri- 
mogénito. 

Cit. a pagg. 48 — 49. 



— 288 — 

Chasteignier de i.a Roche-Posay (Henri Loiíis) cujo nome 
Franco Barreto escreve Xantanhier de la Roxepupiy (Luis), 
foi bispo de Poitiers de 1611 a iG5i. 

Cit. a pag. 33. 

Chatillon (Marechal de.. ., também Chatilhon, Chatilhão 
e Xatilhão) é Gaspar III de Coligny (n. em 1584), marechal 
de França, duque de Chatillon, representante de uma antiga 
e illustre família, e um dos primeiros fidalgos da corte de 
Li/if XIII, que foi encarregado de conduzir a nossa embai- 
xada na sua entrada solemne em Paris; acompanhavam-no, 
segundo diz Soares d' Abreu, dois filhos : o conde de Coligny 
e o conde d'Andelot. 

Cit. a pagg. 54 — 168 — 198 — 199. 

Chatillon-sur-Seine, sub-prefeitura no departamento de 
Côte-d'Or; cidade atravessada pelo rio Sena que alli se divide 
em vários braços, com numerosas pontes. 

Cit. a pag. 107. 

Chavigny (Monsiur de... ou O Secre/ario, também Xa- 
vigny, Chaviny e Chavery) é manifestamente Léon Le Bou- 
thillier, conde de Chavigny, secretario d'Estado. Era o 
homem de confiança de Richelieu e seu collaborador cons- 
tante com respeito á politica externa; e foi elle o principal 
negociador do tratado com Portugal que veiu a assignar-se 
em I de Junho de 1641. Exercia, com effeito, cumulativa- 
mente as funcçÓes de chemceller junto de Gastão, duque d'Or- 
léans, como diz Franco Barreto. 

Cit. a pagg. 86 — 102 — 141 — 148 — 165 — 167 — 187 — igt 
— 201. 

Chelant e de Torniele (Conde de. . .), sobre este titular 
apenas podemos dizer que o titulo de conde Tornielli per- 
tencia, ainda ha poucos annos, a um illustre diplomata italiano, 



- 289 - 

de família originaria de Saboya, que foi embaixador de Itália 
em Madrid e Paris ; nunca porém nos constou que elle con- 
tasse entre as suas ascendentes uma senhora portugueza, 
dama da Infanta D. Beatriz, filha de el-Rei D. Manoel. 
Cit. a pag. 204. 

Cher, (Franco Barreto escreve Xer). Affluente da margem 
esquerda do Loire, que nasce nas montanhas do departamento 
de Creuse, perto de Aujance, passa ao do seu nome, onde 
banha Montluçon, S.t Amand e Vier^on, entra no de Loir-et- 
Cher, que atravessa junto ao seu limite meridional, e vae 
acabar em Indre-et-Loire, depois de passar junto á cidade 
de Tours, a que se encosta pela parte do S. 

Cit. a pag. 125. 

Chevreuse (duque de... também Xevrosa, Cheverosa e 
Chevrosa), é Cláudio de Lorraine (n. em iSyS), filho de Hen- 
rique I, duque de Guise, conhecido pela alcunha de Bala/ré 
(n. em i55o, m. em i588). Exerceu o duque de Chevreuse 
altos cargos de corte, governando varias províncias durante 
a menoridade de Lui^ XIV e foi casado com Alaria de Rohan, 
filha de Hercules de Rohan, duque de Montba^on, muito va- 
lida de Anna d'Ausiria. Era, com effeito, como diz Soares 
d' Abreu, irmão do duque de Guise, Carlos de Lorraine, que 
morrera pouco antes (em 1640). 

Cit. a pagg. 57 — 60 — 119 — 168 — 199. 

Childeberto III, (Franco Barreto escreve Childiberto), 
cognominado o Justo (n. em 683, rei em 695, m. em 711) foi 
um dos últimos reis da primeira dynastia dos merovingios. 
Tendo sido este o XVII rei de França, d'elle até Philippe Au- 
gusto, que foi o XLIV, contam-se com effeito 28 reis a quem 
correspondem as 28 estatuas (incluindo as de ambos) a que 
se refere o nosso auctor. 

Cit. a pag. i II. 

19 



— 290 — 

Chiu-eurs-aux-Bois, no Loiret, cujo nome Franco Barreto 
escreve Xilot, é uma pequena povoação de i5oo habitantes, 
na orla septentrional da floresta de Orléans, e no caminho 
mais batido entre Pithiviers e esta cidade. 

Cit. a pag. 124. 

Chinaray. (V. Chivray). 

Chivray (Louis de.. . S.r du PlessisJ, vem inscripto : como 
Aí.'" de Chinaray na lista de Franco Barreto, e como Luis de 
Chiuray, Sx duplessis, na Lista dos Coronéis e Capitães {Hist.a 
do Ex.o, Provas, t. i, pag. 807), commandante de uma das 
companhias do regimento de cavallaria de Chantereyne. No 
Rol das pessoas que vieram na armada tem o n.° 56, diz-se 
ser muito recommendado do Grão Prior, e que é «bom gen- 
tilhomem, bravo homem, capitão de cavallaria». O Sr. Chris- 
iovam Ayres refere-se também {HistA do Ex.o, Provas, t. n, 
pag. 124) a este official dizendo que na correspondência de 
Lanier (de 20 de outubro de 1642) se faz referencia aos elo- 
gios que d'elle faz o Monteiro-mór, já então general da ca- 
vallaria no Alem te j o. Diz Lanier que elle é natural da pro- 
víncia de Anjou e parente de M.r du Plessis. É provável que 
fosse aparentado também com o Cardeal Richelieu. 

Cit. a pag. 147. 

CiNESios é o nome que Heródoto dá aos povos que depois 
se chamavam Cynetes, moradores na região que corresponde 
ao actual Algarve. 

Cit. a pag. 149. 

Clarens (M.r de...). Não encontramos este nome em 
documento algum dos relativos aos officiaes que vieram na 
armada do marquez de Bré^é. Poderiamos, no emtanto, iden- 
tificaro com um M.r de Craman que figura no Rol com o 
n." 6 e a designação de alferes do regimento de Gravelines 



— 291 — 

{Hist.a do Ex.o, Provas, 1. 1, pag. 309), sem comtudo termos 
argumento algum que nos justifique; e também com um M.r 
du Laurens, n.» 72 da mesma lista. (V. Laurens). 
Cit. a pag. 147. 

Clary, é Cléry-sur-Loire, ou Notre-Dame-de-Cléry, ca- 
beça de cantão do departamento de Loirei, i5 kilom. aS. O. 
de Orléans. 

Cit. a pag. 42. 

Cláudio, é o IV Imperador romano, Tiberius Claudius 
Drusus, tio de Calígula e seu successor, elevado ao império 
no anno 41 da nossa era. 

Cit. a pag. 3i. 

Cláudio. V. Universidade. 
Cit. a pag. 116. 

Clément (Jacques), (Franco Barreto escreve Jaques Cle- 
mente), é o nome d'um frade dominicano, mandatário da 
Liga catholica, que se formara para combater e desthronar 
Henrique III suspeito de transigência com o protestantismo, 
e que mandou assassinar este monarcha em 25 d'agosto de 
1589. O assassino, immediatamente morto, que tinha apenas 
25 annos, foi considerado como um martyr pelos catholicos 
exaltados, que até pretenderam faseFo canonizar. 

Cit. a pag. 80. 

Clemente III, foi eleito Papa em 1187, depois de Gregó- 
rio VIII, e morreu em 1191 ; contemporâneo de Filippe Au- 
gusto, foi elle quem proclamou a terceira crusada em que 
tiveram parte principal aquelle rei de França e o rei de In- 
glaterra Ricardo, Coração de Leão. É portanto admissível 
que Clemente III enviasse a Filippe Augusto quaesquer relí- 
quias, como refere Franco Barreto. 

Cit. a pag. 92. 



— 292 — 

Clemente V (Bertrand de Got) ; francez de origem, eleito 
Papa em i3o5, transportou para Avinhão a residência dos 
pontífices e foi extremamente favorável a Filippe IV, rei de 
França (Philippe-le-Bel), que muito contribuirá para a sua 
eleição (m. em i3i4). 

Cit. a pagg. 48—113. 

Glemonte (Collegio de...) deve ser o collegio de Cler- 
mont. 

Cit. a pag. ii5. 

CusRMONT, sub-prefeitura no departamento do Oise, e 
capital de um antigo condado, que data de 1054 e foi dado 
em 1269 a Roberto, filho de S. Lui^ e chefe da casa de 
Bourbon, unido á qual se conservou o condado. 

Cit. a pag. io5. 

Glotario II, (n. em 584, m. em 628) foi o antecessor e o pae 
de Dagoberto I, fundador de St. Denis; quanto porém ao 
avô Sadragisello, não encontrámos vestígio d'elle nem na 
arvore genealógica dos reis merovingios, de França, nem na 
dos duques de Aquitania. 

Cit. a pag. 87. 

Clóvis, (ou Clodoveu), deve ser Clóvis I, o Grande, pri- 
meiro rei de França que abraçou o christianismo, de quem 
justamente se pode dizer que foi o fundador e creador da 
nação franceza. Nascido em 465, succedeu a seu pae Chil- 
derico I (em 481), e, depois de ter vencido os allemães em 
Tolbiac (em 496), foi pouco a pouco conquistando em torno 
dos seus pequenos estados outros estados visinhos, e veiu 
assim a constituir sob o seu sceptro um reino poderoso, que 
os seus immediatos successores conservaram. Quanto a ser 
ou não o primeiro rei de França que curou as alporcas nada 
podemos dizer. 

Cit. a pag. 80. 



— 293 — 

Clóvis II, (n. em 632), filho e successor de Dagoberto I, 
foi um dos reis a quem a historia appellidou de fainéanís ; 
deixamos por conta do auctor os actos que lhe attribue, sem 
nos darmos ao trabalho de verificar a exactidão das suas 
affirmações, em que a lenda se confunde muitas vezes com a 
historia. 

Cit. a pag. 87. 

Clym, ou Clyn, é o Clain, rio que nasce perto de Confo- 
lens, na Charente (e portanto no Poitou e não no Limousin 
como diz o auctor); passa em Poitiers e vae lançar-se no 
Vienne, 4 kil. ao S. de Châtellerault. 

Cit. a pag. 3i. 

CoDROs, decerto se refere o nosso auctor a Codriis, ultimo 
rei de Athenas, (m. em 11 32 A. C), celebre pelo sacrificio 
voluntário que fez da própria vida na convicção de que assim 
alcançaria a victoria dos Athenienses sobre os Jonios. Não 
achando ninguém digno de reinar depois d'elle, os Athenienses 
aboliram a realeza. 

Cit. a pag. i33. 

CoLLErroR, e «colleiíor passado», é de suppor que seja 
monsignor Castracani, bispo de Nicastro, que fora coUector 
geral dos rendimentos apostólicos, expulso do Reino ainda 
em tempo do domínio hespanhol. Devemos suppor que, 
depois da expulsão, ficasse em Portugal um agente do colle- 
ctor e a esse escrevesse o núncio em Paris. É uma mera 
hypothese que formulamos por nos parecer verosímil. 

Cit. a pag. 52. 

Compendio, Compiègne. V. Campiena. 

Conde Capitão, deve ser o conde da Calheta, pois Eri- 
ceira menciona-o como tendo ido a Cascaes com o conde da 



— 294 — 

Vidigueira saudar em nome d'el-Rei o marquez de Bré^é. 
Ignoramos porque motivo Franco Barreto o designa por 
Conde Capitão, pois quem encontramos mencionado na His- 
toria Genealógica como Capitão da Guarda é D. Lourenço 
de Sou!{a (Calhari^). 
Cit. a pag. i33. 

GoNDK (Príncipe de...). Ao tempo da embaixada era 
Henrique II de Bourbon (n. em i588), filho de Henrique /de 
Bourbon e Maria de Clèves, primeiro principe do sangue, 
casado com Carlota de Montmorency, de quem teve dois 
filhos, Ltii^, ao tempo duque de Enghien, que succedeu ao 
pae como principe de Conde; António, que foi o tronco dos 
príncipes de Conti; e uma filha Anna Genoveva de Bourbon, 
que foi duqueza de Longueville pelo seu casamento com 
Henrique II d'Orléans. (V. Longueville). 

Cit. a pagg. 55 — loi — 119 — 167 — 201. 

CoNDÉ (Prince!{a de . . .), era, ao tempo da erribaixada, 
Carlota Margarida de Montmorency, (n. em i593), filha de 
Henrique I, duque de Montmorency e coiidestavel de França, 
e casada (em 1609) com Henrique II de Bourbon, principe de 
Conde, primeiro principe do sangue (n. em i588, m. em 1646). 

Cit. a pagg. 98 — 100 — 167 — 201. 

CoNFOLANT (cm Sabofa) ou antes Conflans, é uma antiga 
povoação situada na margem direita do Isère e esquerda 
do Arly, junto á confluência dos dois rios. Não está portanto, 
como diz o auctor, onde o Isère começa, mas onde este rio 
muda de direcção, para tomar a de S. O., dirigindo-se para o 
Rhodano. 

Cit. a pag. 106. 

Constantino V, (Porphyrogeneta I), nasceu em 770, foi 
proclamado imperador do Oriente em 780 e morreu em 797, 



— 295 — 

sendo portanto contemporâneo de Carlos Magno que a esse 
tempo já reunira a toda a monarchia franceza (77i)> ^ coroa 
de Lombardia e o patriciado de Roma (774), embora não 
viesse a ser imperador do Occidente senão em 800. É por- 
tanto perfeitamente crivei que as reliquias, a que o nosso 
auctor se refere, fossem ofFerecidas por Constantino a Carlos 
Magno; e por este depositadas na cathedral de Aix, de Alle- 
manha, que elle fundou e onde está sepultado. 
Cit. a pag. 92. 

CoQuiLLE (GuyJ, sieur de Romenay, é um insigne juris- 
consulto francez, (i523-i6o3), auctor de varias obras sobre a 
politica e amigo de Bacon e de VHôpital. 

Cit. a pag. 95. 

CoRBUEL, é Corbeil, sub-prefeitura no departamento de 
Seine-et-Oise, sobre a margem esquerda do Sena e junto da 
confluência do Essonne; íica 38 kilom. a montante de Paris. 
Cidade industrial, foi sede de um antigo condado. 

Cit. a pag. 107. 

CoRSON, é Courson, cabeça de cantão do departamento de 
Charente Inférieiíre, no caminho mais directo entre Niort e 
La Rochelle, a uns 27 kilom. d'esta cidade. 

Cit. a pag. i3o. 

Costa (P.f Paulo da.. .), da Companhia de Jesus. Com- 
panheiro do P.^ Ignacio de Mascarenhas na missão á Cata- 
lunha, enviada por D. João IV, foi o P.^ Paulo da Costa 
especialmente encarregado de conduzir a Portugal, reunin- 
do-os previamente na Rochella, portuguezes, francezes e ca- 
talães que quizessem vir servir contra a Hespanha. 

Cit. a pag. 186, 

Creusa, é o Creusc, rio que, depois de regar o departa- 



— 296 — 

mento em que nasce e a que dá o nome, vae juutar-se com o 
Vienne alguns kilometros a jusante de Châtellerault. 
Cit. a pag. 38. 

CtwHA (Nuno da. . .) era filho de Tristão da Cunha, que 
foi mandado como embaixador ao papa Leão X por el-Rei 
D. Manoel (em i5i4). Desde muito novo acompanhara o 
pae, na armada do seu commando enviada ao Oriente em 
i5o5; n'ella ia também Affonso de Albuquerque por quem 
Nuno da Cunha foi armado cavalleiro. Foi depois nomeado 
para governar a índia, onde se illustrou dando a morte a 
Badur, rei de Cambaya, e construindo as fortalezas de Diu e 
Baçaim. 

Cit. a pag. i5. 

CuRCios, refere-se certamente Barreto aM. Cartius, jovem 
romano celebre já pelas suas proezas, que a lenda conta ter-se 
lançado a um abysmo, repentinamente aberto no Fórum, em 
vista de os oráculos dizerem que o abysmo se cerraria nova- 
mente se Roma n'elle lançasse o que tinha de mais precioso. 
O abysmo fechou-se logo (em 36o A. C). 

Cit. a pag. i33. 

Dagoberto I fn. por 600, m. em 638). filho de Clotario II 
(e não, como diz Franco Barreto a pag. iii, áQ Hugo Capelo, 
que viveu trez séculos mais tarde), foi um dos mais notáveis 
d'entre os reis da primeira dynastia (merovingios). Fundou 
a celebre abbadia de 5. DiHíf, porém não a podia ter fundado 
em 641 (data posterior á sua morte), nem foi seu contempo- 
râneo o abbade Sugero a quem também se refere Franco 
Barreto. (V. Suger). 

Cit. a pagg. 87 e seg. — 1 1 1. 

Dante, de Ante ou Danse (Jean.. .) vem designado por 
S*". de erbauuillins ou de Herbaiuniliens ; é portanto muito 



— 297 - 

difficil averiguar os seus verdadeiros nomes. A Lista dos Co- 
ronéis e Capitães chama-lhe: João dante sx de erbauuillins e 
dá-o como capitão no regimento de cavallaria de Montjouant 
{Hist.a do Ex.o, Provas, 1. 1, pag. Boy). O Rol dos que vieram 
na armada, chama-lhe Mx Danse, sob o n.° 53, recommen- 
da-o para capitão de infanteria, mas dá o seu verdadeiro 
destino no regimento de Montjouant (loc. cit., pag. 3i3). Na 
lista das patentes chamam-lhe João Danse Sx de Herbaiuni- 
liens, sendo o despacho de 26 de Setembro de 1641 {loc. cit, 
pag. 319). Nada mais encontramos que lhe diga respeito. 
Cit. a pag. 147. 

Darc (Jacques . . ), ou antes d' Are, é o pae de Joanna 
d'Arc. Modesto lavrador de Domrémy, perto de Vaucou- 
leurs, na Lorena, cujos gados a filha pastoreava até á edade 
de 18 annos, em que, movida por extranha inspiração, se foi 
oíferecer a Carlos VII para o auxiliar na libertação da França. 

Cit. a pag. 45. 

Datis. V. Aíhis (Eustache Viole, S.r d'.. ). 

Decios, refere-se decerto Franco Barreto a Decius Mus, 
cônsul romano, que viveu no quarto século antes de Christo, 
e se tornou celebre pela heroicidade com que sacrificou a 
vida em defeza da pátria. 

Cit. a pag. i33. 

Deij>him, titulo de que usava o príncipe herdeiro da coroa 
de França desde que o delphim de Vienna, Humberto II (n. 
em i3i3), barão de Faucigny e conde d'Albon, não tendo 
descendência, cedera (em 1349) os seus direitos sobre as 
terras do Delphinado (Dauphiné) ao filho primogénito de 
Filippe de Valois, rei de França, João, duque de Normandia 
(n. em i3!9), que depois foi João II. A cedência tinha por 
condição que o herdeiro do throno usasse o titulo de Del- 



— 298 — 

phim de França. O príncipe que usava este titulo ao tempo 
da embaixada veiu a ser Luisf XIV. 

Gil. a pagg. 61 — 65 — 107 — i83 — 200. 

Delphinado, Dauphiné, antigo governo de França, que 
comprehende os actuaes departamentos de Isère e de Hautes- 
Alpés e uma parte do Drôme. Tendo constituído um estado 
independente, cujo soberano tinha o titulo de Delphim (Dau- 
phin), passou no meado do século xiv para a coroa de França, 
sob a condição de que o respectivo herdeiro usasse até ser 
rei o titulo de Delphim. 

Cit. a pag. 106. 

Deniez (Monsiur . . .), ou antes de Nier; na Lista dos Co- 
ronéis e Capitães dos Regimentos /rance!j[es {Hist.a do Ex.o, 
Provas, 1. 1, pag. 307) vem mencionado um João Heitor deni^, 
como capitão do regimento de Gravelines; no Rol das pes- 
soas que vieram na armada de França encontramos, sob 
o n.° 4, como capitão incerto um Mr de Benie:^, {loc. cit., 
pag. 309). Documento que diga respeito a qualquer d'estes 
nomes não achámos nenhum senão a patente de capitão de 
cavallaria no regimento de Gravelines {loc. cit., pag. 319), 
passada em 26 de Setembro de 1641, a favor de João Heitor 
Sr. de Nier; cremos pois ser este o verdadeiro nome. 

Cit. a pag. 147. 

Deportenoibe. V. Portenoire (M.r de). 

Desempont, não encontrámos nenhuma referencia a seu 
respeito a não ser que o identifiquemos com um Sr. de 
St. Paul, engenheiro que vinha na companhia do engenheiro- 
mór Mr. de Lassart, citado duas vezes no Rol das pessoas 
que vieram de França, uma sob o n.» 26, em que apparece só 
«5^ Paul com sete creados» e outra sob o n.» 55 e os se- 
guintes dizeres: «Ingenheiro de la Comp.» do Sr. de Lassart. 



— 299 — 

— Ms". de Lribaut sr. de st. Paul. Com dous criados. HG 
lugar Tenente na infantaria e alem disso primo engenheiro 
que sabe bem as mathematicas». {Hist.^ do Ex.o, Provas, 1. 1^ 
pagg. 3ii e 3i3). Se Desempont corresponde ou não a de 
st Paul não podemos dizer. 
Cit. a pag. 146. 

DoMREMY (Droemy, Damprenio e Dompremyo), villa do 
departamento dos Vosges, 10 kilom. ao N. de Neufchâteau, 
na margem esquerda do Meuse; é notável por ter nascido 
alli Joanna d' Are. 

Cit. a pag. 45. 

Duarte (Dom...), é o infante d'este nome (n. em i6o5), 
filho do duque de Bragança D. Theodosio e portanto irmão 
de D. João IV, que em 1634 partira para Vienna a offerecer 
os seus serviços ao Imperador, e tomara parte na guerra dos 
3o annos. Não tendo sido D. Duarte avizado a tempo da 
revolução de 1640, Filippe IV soUicitou e obteve que o im- 
perador Fernando II o mandasse prender e lh*o entregasse, 
ficando encarcerado até á sua morte (em 1649) no castello 
de Milão. Não é exacto que estivesse prisioneiro em Nuesiat 
(Neustadt) como diz o auctor (V. Ramos Coelho, Historia do 
Infante D. Duarte, 2 vol., Lisboa, 1879-80). 

Cit. a pag. 5i — 79 — 161 — 162 — 192 — 206. 

DuME, ou antes du Mé, era o commandante da náo Vice- 
almirante, o Cardeal, na armada do marquez de Bré^é. (V. 
Quadro Elem., t. iv, p. i, pag. 44). 

Cit. a pag. 144. 

DuMENuxET (Mr ), segundo escreve Franco Barreto, é 

decerto a mesma pessoa que vem mencionada simplesmente 
por Menillet na lista que o V^. de Santarém publicou no 
Quadro Elementar (t. iv, p. i, pag. 144). como sendo o com- 



— Soo — 

mandante da náo o Triumpho na armada do marquez de 
Bré:(é. 

Cit. a pag. 144. 

Durando (Guilhelmo . .) (n. em i23o, m. em 1296), foi um 
notável escriptor, bispo de Mende, auctor do Rationale divi- 
norum offlciorum e do Speculum judiciale. 

Cit. a pag. 126. 

DuRANT^ provavelmente Durand, um dos juizes do tribunal 
da Rochella, que foram cumprimentar os nossos embaixa- 
dores. 

Cit. a pag. 16. 

DirvER (Senhor de. . .); não é fácil adivinhar quem possa 
ser este presidente, decerto do Parlafnenío, porque nunca o 
teve o conselho de Estado ; também não acertamos em des- 
cubrir porque o auctor se refere ao segundo marido da mãe 
de um governador de Lusignan, com o qual nem ao menos 
se encontrou a embaixada. 

Cit. a pag. 3o. 

Eclusa; não encontramos, ao longo do rio Loire e na sua 
margem direita, que o auctor forçosamente seguiu, nenhuma 
povoação d'este nome ; parece-nos pois que elle quererá refe- 
rir-se a Escure, pequena aldeia á beira da estrada e do rio, a 
meio caminho entre Amboise e Blois. 

Cit. a pag. 39. 

Eleonor. V. Leonor de Guienna. 

Embaixaior de Génova, de quem diz o nosso aucto-r que 
estivera em Lisboa no tempo de Filippe III e conhecera 
D. João IV, ainda como duque de Barcellos, é personagem 
que não conseguimos identificar. 

Cit. a pag. 52. 



— 3o 1 — 

Embaixador de Hoi.i.anda, em Paris, a quem se refere 
Franco Barreto era Guilherme de Lyere, senhor de Oosíer- 
wijck, que fora nomeado (em i636) embaixador das Provin- 
das Unidas em Paris depois de ter exercido egual cargo em 
Veneza. (V. Waddington, La Republique des Provinces Unies, 
t. I, pag. 287). 

Cit. a pagg. 52 — 82. 

Embaixador de Inglaterra, que se chamava no dizer de 
Franco Barreto, Roberto Signe, conde de Leisestrie, é Ro- 
berto Sydney, conde de Leicester ; pois tal era o nome do 
embaixador de Inglaterra em Paris n'aquella data. (V. Notes 
on the Diplomatic Relations of Englatid & France i6o3-i688, 
de Firth & Lomas, Oxford, 1906, pag. 12). 

Cit. a pag. 52 — 82. 

Embaixador de Saboya. (V. Moreite, conde de). 

Embaixador de Veneza, era Angelo Coronaro, ao tempo em 
que a embaixada do Monteiro-mór estava em Paris. Refere-se 
a elle Soares d' Abreu a propósito de uns presentes por elle 
offerecidos. 

Cit. a pag. 184. 

Embaixadores em Inglaterra e Hollanda. Refere-se o 
nosso auctor aos nossos embaixadores enviados ás cortes de 
Inglaterra e de Hollanda. Eram elles : os que foram a In- 
glaterra, D. Antão de Almada e o dr. Francisco de Andrade 
Leitão; e o de Hollanda Tristão de Mendonça Furtado. 

Cit. a pag. 7 — 21 5. 

Embaixador. . . em Suécia, a quem se refere Soares d' Abreu 
deve ser Francisco de Sousa Coutinho, que esteve com efFeito 
na Suécia quando estava em Paris a embaixada do Monteiro- 



— 3o2 — 

mór, e usou de toda a sua influencia junto do chanceller 
Oxenstierna a favor do desditoso infante D. Duarte. 
Cit. a pag. 207. 

Ena, é o Aisne, importante affluente da margem esquerda do 
Oise, que se lhe junta poucos kilometros a montante de Com- 
piègne; nasce no departamento de Meuse, perto de Vaubé- 
court, atravessa em parte o de Mame, passando em S'. Mé- 
néhould, depois o de Ardennes, banhando Voupers e Rethel, 
e o do seu próprio nome, passando em Soissons e acabando 
no departamento de Oise. 

Cit. a pag. 108. 

Enghien (Duque de.. J, ou Anguien, como mais geralmente 
se escrevia ao tempo da embaixada, era Luij II de Bourbon 
(n. em 162 1), depois, por morte de seu pae, principe de Conde, 
notável general que ficou conhecido na historia de França 
por Le Grand Conde; era filho de Henrique II de Bourbon, 
principe de Conde, e de Caricia Margarida de Montmorency. 
A duqueza de Enghien (a que nos referimos em seguida) era 
uma Maillé-Bré^é, sobrinha de Richelieu. 

Cit. a pag. loi. 

Enghien fduquei(a de...), ou antes Anguien como mais 
geralmente se escrevia no seu tempo, era Clara-Clemencia de 
Maillé (n. em 1628), filha de Urbano de Maillé-Bré^é {W . Bré!(é, 
marechal). O titulo da duqueza de Anguien vinha a esta 
senhora do seu casamento com Lui^ de Bourbon, ao tempo 
duque de Enghien (ou Anguien) (n. em 162 1) depois principe 
de Conde. 

Cit. a pagg. 100 — loi. 

Entrudo dos Inglezes. Devido aos preconceitos anti-ca- 
tholicos, foi só em ij5i que a Inglaterra poz em uso a reforma 



— 3o3 — 

do calendário ordenada pelo Papa Gregório XIII em i582. 
Esta reforma foi acceite em Portugal desde o principio. 
Cit. a pag. 10. 

EscALLA (Monsr de la.. .), segundo diz Soares d' Abreu, 
devia ser presidente do conselho municipal da Rochella; não 
é mencionado por Franco Barreto nem d'elle encontramos 
noticia alguma; de resto é provável que o meu nome esteja 
mal escripto, sendo talvez o verdadeiro Mr. de VÉchelle. 

Cit. a pag. i86. 

Esgoto. V. Scot (John Duns. • .). 

EsoL, deve ser Essonne, povoação do departamento de 
Seine-et-Oise, sobre o rio do seu nome, que é affluente da 
margem esquerda do Sena, tendo a sua confluência em 
Corbeil; Essonne é notável pelas suas fabricas de papel e 
moagens de cereaes. 

Cit. a pag. 121. 

EsTissAC. V. Rochefoucauld. 
Cit. a pag. i85. 

Etampes, antiga cidade, actualmente sub-prefeitura no dis- 
tricto de Seine-et-Oise, sobre a estrada directa de Orléans a 
Paris e cerca de 5o kilometros ao sul d'esta cidade ; Etampes 
está, com effeito no paiz de Beauce, não no Gatinais. Foi 
sede de um condado creado em i327, e elevado a ducado por 
Francisco I. § 

Cit. a pag. 49. 

Favorino era um sophista gaulez que vivia no século 11 e 
escrevia em grego ; também citado por Fernão Lopes no pro- 
logo da 2." parte da Chronica de D. João I. As suas obras 
estão perdidas. 

Cit. a pag. 128. 



— 3o4 — 

Fernandes (Medamoysele . . .) é a filha de Gaspar Fer- 
nandes de Lião, que o pae designa por este modo em carta a 
Christovam Soares d' Abreu, na qual elle próprio assigna /rf 
de Lion. 

Git. a pag. i68. 

Fernando de . . . (Fr ...) é Fr. Fernando de la Houe, cor- 
respondente do infante D. Duarte a quem largamente se re- 
fere Ramos Coelho no seu livro tantas vezes citado, e a quem 
allude Soares d' Abreu. 

Git. a pagg.^igS e 193 n. i.« 

FiciNO pode talvez serMassilio Ficino (148 3-1499) theologo 
e philosopho italiano, que verteu para latim as obras de 
Platão. 

Git. a pag. 85. 

FiDiAS ou antes Phidias, que foi o mais notável esculptor 
da antiga Grécia, viveu no século de Péricles (v antes de J. 
G.) por quem foi muito apreciado. 

Git. a pag. 85. 

FiLipPE II, rei de Hespanha. (Franco Barreto escreve Phi- 
lippe) (y\. em 1527), casou (em iSSçj) com Isabel de França 
(n. em i545), filha de Henrique II e Catharina de Medicis, 
que foi sua terceira mulher (m. em i568); tendo sido a pri- 
meira a infanta D. Maria, filha de D. João III, de Portugal 
(n. em 1 527, m. em 1 545) e a segunda Maria, rainha de Ingla- 
terra (n. em i5i5, m. em i558). Ainda casou uma quarta vez 
(em 1570), com Anna-Maria d' Áustria (n. em 1549), de quem 
teve o \n{dsi\.t Filippe (n. em 1578) que veiu a succeder no 
throno (em 1598) sob a designação de Filippe III. 

Git. a pag. 117. 

Filippe IV, rei de Hespanha (n. em i6o5), subiu ao throno 



- 3o5 — 

de Hespanha e de Portugal em 1621, tendo casado antes (em 
161 5), com Isabel de França (n. em 1602), filha de Henri- 
que IV e de Maria de Medicis; por morte de Isabel (em 
1644.) casou com Marianna d' Áustria, filha de Fernando III, 
imperador d'Allemanha, de quem teve descendência. 
Cit. a pag. 100 e p assim. 

Flavy (Guilhelmo de...) segundo Franco Barreto, com- 
mandava em Compeyidio (Compiègne) quando Joanna d' Are 
defendia aquella praça, e é accusado pelo nosso auctor de a 
ter trahido. 

Cit. a pag. 47. 

Flechilha e Malagon (D. Duarte, Marque:^ de...), es- 
crevia ao conde' íie Brionne em 1623, segundo refere Soares 
d' Abreu; não conseguimos saber nada a seu respeito. 

Cit. a pag. 204. 

Fó ; é difficil identificar o logar a que o auctor se quer 
referir, podendo ser Fors, ou então Pont-de-Vaux, que são 
dois pequenos logares sobre a estrada de Grip a La-Mothe- 
S' Héraye que os nossos diplomatas seguiram. 

Cit. a pag. 25. 

Fonseca (Helena da. . .) é uma senhora de origem portu- 
gueza que recebeu na sua casa de Surgères a embaixada e 
a quem se referem tanto Franco Barreto (a pag. 25) como 
Soares d' Abreu (a pag. i88). Conclue-se, do que elles dijem, 
que era filha de Carlos da Fonseca, fidalgo portuguez, e foi 
casada duas vezes ; a primeira com um La Rochefoucauld, de 
quem teve um filho, Carlos, senhor de Montandré e Mon- 
guion (Montguyonf); e a segunda com um barão de Réole 
(La Réolle f), Miguel de Xavier, que se dizia parente do 
grande apostolo das índias, S. Francisco Xavier. Não seria 
de admirar que realmente o fosse por ser o Santo natural de 
ao 



— 3o6 — 

Xavier, na Navarra hespanhola, haver frequentes relações de 
família entre navarros hespanhoes e francezes, e ser La Réolle 
sobre o Garonne. 

Cit. a pag. 25 — 188. 

FoNTANÉ Condado, Fontenay-Le-Comie, sub-prefeitura no 
departamento de Vendée, situada junto ao rio d'este nome. 
Cit. a pag. 26. 

FoNTENEBLÔ é Foíiiainebleau, sub-prefeitura no departa- 
mento de Seine-et-Marne, a uns 60 kilometros de Paris. Re- 
sidência real desde o x século, o seu palácio tem sido suc- 
cessivamente augmentado e reedificado, principalmente por 
Francisco I, Lui^ XIV e Napoleão, e admiravelmente conser- 
vada a magnifica floresta que o rodeia. 

Cit. a pagg.^121 e segg. 

FoNTENELLEs, não cncoutramos em parte alguma este 
nome, nem mesmo outro parecido, a menos que o queiramos 
identificar com o n.° 88 do Rol das pessoas que vieram de 
França (Hist.^ do Ex.o, Provas, t. i, pag. 3i5) onde se lê 
Se auteuille, que não é nem pode ser nome francez, mas que 
se pode confundir com Fontenelle, escripto com muito má cal- 
ligraphia. 

Cit. a pag. 146. 

FoRBOE (Santa Catherina de...), deve ser S^^. Catherine 
de Fierbois, celebre logar de peregrinação. 
Cit. a pag. 46. 

FoRGETEz (Mr. de.. ). Não encontramos mencionado este 

nome em nenhuma lista ou documento. 
Cit. a pag. 146. 

Francisco de Valois (El Rey. . .) é Francisco I, rei de 



— 3o7 — 

França (n. em 1494), conde de Angoulême e duque de Valois 
(em i5i5), que succedeu no throno a Luij XII, seu primo, 
cuja filha primogénita, Claudia, desposara (em i5i4). Notável 
pelo seu amor das letras e das artes, não o foi menos pelti 
bravura e espirito cavalheiresco, de que deu provas nas suas 
campanhas contra Carlos V, de quem foi vencido e prisioneiro 
(m. em 1547). 

Cit. a pagg. 15 — 41— 66 — 95— 117— 118 — 121 — 122. 

FuRiLHÕEs, Farilhões, grupo de ilhéus que fazem parte do 
pequeno archipelago das Berlengas. (V. Brelengas). 
Cit. a pag. i32. 

Gallieno flmperador. . .), foi, com eíFeito, imperador ro- 
mano, succedendo ao imperador Valério, seu pae, que o 
associara no governo em 253 e foi feito prisioneiro em 260. 
Sendo Gallieno imperador foram invadidos pelos bárbaros a 
Gallia, a Grécia e o Oriente. Parece-nos porisso bastante 
duvidoso que este imperador mandasse edificar um palácio 
em Poitiers durante o seu breve governo (m. em 2C8, com 
35 annos). 

Cit. a pag. 33. 

Cantes, em francez Gand, em portuguez Gante, cidade da 
Bélgica, capital da Flandres-oriental. 
Cit. a pag. 40. 

Garcilasso, é o celebre poeta hespanhol Garcia Laso de 
la Vega, n. em Toledo, de illustre família, por i5o3; notável 
poeta, foi cognominado o Petrarca hespanhol e tomou parte 
em numerosas guerras, morrendo em 1 536, deante de Marse- 
lha, quando fazia parte do exercito com que Carlos V invadiu 
a França. 

Cit. a pag. 187. 



— 3o8 — 

Gascunha, (Gasconha), Gascogne; região da França que 
constituía a parte meridional da antiga Aquitania ou Guienna, 
e que veiu a constituir os departamentos de Haules-Pyrénées, 
Gers e Landes. 

Cit. a pag.' io3. 

Gastão João Bautista {MonsiurJ, é o irmão de Lui!j[ XIII 
(n. em 1608) Monsieur, duque d'Anjou (em 16 14) e d^Orléans 
(em 1626), casado em primeiras núpcias (1626) com Maria 
de Bourbon," duquesa de Motitpensier, de quem teve Anna 
d'Orléans, que succedeu a sua mãe no titulo; e em segundas 
núpcias com Margarida de Lorena de quem não teve descen- 
dência (m. em 1660). 

Cit. a pagg. 40 — 48 — 55 — 86 — 96 — 190 — 201. 

Gatonoes, Gatinoes, antes Gatinois, actualmente Gatinais. 
V. Montar gis, sua capital. 
Cit. a pagg. 49 — lai. 

Gaula, Gaule. O auctor parece querer referir-se á Gallia 
propriamente dita, ou Gallia céltica, comprehendida entre o 
Rhodano, o Garonna e o oceano Atlântico, para a distinguir 
da Aquitania que comprehendia a Gasconha. 

Cit. a pag. io3. 

Geofredo, o Dente grande; não conseguimos averiguar 
quem seja ao certo este filho de Melusina; se porém iden- 
tificarmos a mãe com Constança, princeza de Antiochia e 
mulher de Raymundo de Poitiers, (V. Melusina), teremos de 
procurar o filho entre os Lusignan; infelizmente o primeiro 
de quem encontramos noticia é um certo Hugo, que vivia 
em II 65, de quem descendem os reis de Chypre e de Jeru- 
salém. 

Cit. a pag. 32. 



— 3o9 — 

Gesvres (Marque^ de . .), cujo titulo Soares d' Abreu es- 
creve Gevre, deve ser Louis Potier, (n. em 1610), que serviu 
com distincção como marechal de campo e morreu no cerco 
de Thionville{em. 1643); Soares d'Abreu deve tero conhecido, 
eíFectivamente, como capitão das guardas (gardes du corpsj, 
pois consta que exerceu esse cargo. 

Cit. a pag. i83. 

GiGANTOMACHiA, pocma em oitava rima castelhana de 
Manuel de Gallegos, impresso em Lisboa em 1628. 
Cit. a pag. 6. 

GiRAUD (Monsieur . . . ) designado por Monsiur Giro, ou 
Girom, desempenhava as funcções de segundo introductor 
de embaixadores, como auxiliar do conde Bridon', não en- 
cotrámos noticia d'elle em parte alguma, senão nas referen- 
cias que lhe fazem FYanco Barreto e Soares d' Abreu. 

Cit. a pagg. 5o — io5 — 120 — 168. 

Grande Campo (O) ; deve ser um Mr. de Granchamps Bri- 
çon, assim designado sob o n.° 95 no Rol das pessoas que 
vieram na armada de Brézé, (V. Hist.^ do Ex.o, Provas, t. i, 
pag. 3 16), como sendo capitão no regimento de cavallaria 
commandado pelo barão de Gravelines. Nenhuma outra 
menção encontrámos a seu respeito, senão a nota de que foi 
recommendado ao auctor do Rol por M'". de la Vergne para 
capitão de infanteria ou de cavallaria. Não figura entre os 
capitães do regimento de Gravelines na lista respectiva {loc. 
cit., pag. 307). 

Cit. a pag. 146. 

Grão Prior (da ordem do Hospital ou de Malta).. V. La 
Porte. 

Graveunes (Jean-Pigrre de la Rocque, baron de...), 



— 3io — 

mencionado por Franco Barreto, tem o n.» 4 na Lista dos coro- 
néis. . . {Hista. do Exo., Provas, 1. 1, pag. Soy), e é o primeiro 
mencionado no Rol das pessoas que vieram de França, {loc. 
eit.y pag. 309) com indicação de que deve ser «Mestre de 
Campo ou Coronel em um Regimento de Cavallaria» e de 
que houve a seu respeito «carta de El-Rey». A sua patente 
de coronel, para um dos regimentos de cavallaria ligeira, é de 
26 de Setembro de 1641 [loc. cit., pag. 3 18). No tomo 11 das 
Provas (pag. i5o e seg.) publica o Sr. Christovam Ayres dois 
documentos que dizem respeito a este official, de 22 de 
Agosto de 1642 e i5 de Junho de 1643, em que elle é de- 
signado por marque^, continuando com louvável zelo no 
exercício do seu commando. Nada mais sabemos a seu res- 
peito. 

Cit. a pag. 82 e 147. 

Grenobla, Grenoble, antiga cidade da França na margem 
esquerda do Isère; hoje capital do departamento do mesmo 
nome e antes capital do Delphinado, cuja sorte seguiu até 
este ser incorporado na França. 

Cit. a pag. 106. 

Gressean, magistrado que fazia parte do tribunal da Ro- 
chella, um dos que foram cumprimentar os nossos embaixa- 
dores. • 

Cit. a pag. 16. 

Gritoe (M.*" de. . .); não encontramos o seu nome no Rol 
dos que vieram de França na armada de Brézé ; no emtanto, 
em documentos publicados pelo Sr. Christovam Ayres {Hist.a 
do Ex.o, Provas, 1. 11, pag. i3i e seg.), vê-se que elle serviu no 
regimento de cavallaria de Gravelines, como tenente, com os 
capitães Rocier (V. Rosières) e Duplecis (V, Chivray, Sr. du 
Plessis), e que foi promovido a capitão de Dragões, em 21 de 
Janeiro de 1647. 

Cit. a pag. 147. 



— 3ii — 

Guilherme IV, duque de Aquitania, foi o nono na serie 
dos duques e o segundo como conde de Poitiers por herança 
de seu pae Guilherme III, que falleceu em 963 ; em 990 abdicou 
e fez-se frade, morreu em 995. Não pode ter sido irmão de 
Melusina, a feiticeira de quem descendem os Lusignan (V. 
Melusina). 

Cit. a pag. 3o. 

GuiLLON (duquesa de. . .). V* Aiguillon. 
Cit. a pag. 167. 

GuiMiNE (antes Guémenée). V. Montba^on. 
Cit. a pag. 201. 

Guise (Duque de. . .), a quem se refere (a pag. 199) Soares 
d'Abreu, (que escreve Guisa), é o IV duque,^Car/os de Lorena 
(n. em iSyo), filho de Henrique I (le Balafré) e irmão de 
Cláudio de Lorena, duque de Chevreuse. Foi também prín- 
cipe de Joinville, conde d' Eu e duque de Joyeuse pelo seu 
casamento com Henriqueta Catharina, duqueza de Joyeuse. 
Succedeu-lhe seu filho Henrique II, V duque de Guise, adiante 
mencionado. 

Cit. a pag. 199. 

Guise, a quem se refere Franco Barreto (a pag. 119), (es- 
crevendo Guisa), é o V duque de Guise, Henrique II (n. em 
1614), da casa de Lorena, que succedera ao IV duque, Carlos, 
seu pae, (em 1640), como duque de Guise, príncipe de Join- 
ville e conde d^Eu. Casara (em 1689) com Anna de Gon- 
zaga, filha de Carlos de Gonzaga, duque de Mantua e de 
Nevers. O duque Henrique II morreu em 1664 sem descen- 
dência. 

Cit. a pag. 119. 

GuiTON, capitão do galeão Oquendo, em que regressaram 
ao Reino os embaixadoras, é designado pelo nosso auctor 



— 3l2 — 

como ugonote da Rochella. Não encontrámos acerca d'elle 
indicação alguma e o mesmo nos succedeu com respeito aos 
capitães dos outros navios, de alguns dos quaes mal nos 
é dado conjecturar qual pudesse ser o seu verdadeiro nome. 
Cit. a pag. i3i e 145. 

Gyen, Gien, sede de uma sub-prefeitura no departamento 
de Loiret, sobre a margem direita do Loire, a montante de 
Orléans, a cuja antiga província pertencia. 

Cit. a pag. 48. 

Harflur é Harfleur, pequena cidade do departamento do 
Sena-In/erior, situada na margem direita do rio e junto á sua 
foz. Antiga cidade fortificada e por vezes disputada nas guerras 
entre francezes e inglezes: perdeu de todo a sua importância 
e pode considerar-se hoje como um arrabalde do Havre. 

Cit. a pag. 107. 

Harum-al-Rachid, califa de Bagdad (n. em 765), succedeu 
no califado a seu irmão Muça-el-Hadi (em 786), e elevou o 
império dos califas do Oriente ao seu máximo esplendor ; 
enviou, com eíFeito, a Carlos Magno uma sumptuosa embai- 
xada acompanhada de valiosos presentes, com o fim de soUi- 
citar o auxilio do imperador do Occidente contra Irene e 
Nicephoro, successores de Constantino V no império de By- 
!j[ancio, com quem o Califa por vezes esteve em guerra (m. 
em 809). 
■ Cit. a pag. 94. 

Heliogabalo, (Franco Barreto escreve Heliog abalos), im- 
perador romano, filho illegitimo e successor de Caracalla, 
foi proclamado imperador em 217 (A. C), e ficou celebre 
pelos seus viclos, os seus desvarios e os seus crimes ; morreu 
cinco annos depois (em 212 A. C), assassinado pelos preto- 
rianos que o seu procedimento indignara. 

Cit.; a pag. 148. 



— 3i3 — 

Hen, é Ham, cabeça de cantão no departamento do Somme, 
situada na margem esquerda do rio d'este nome; tem apenas 
de notável o castello, que por vezes serviu de prisão a presos 
políticos. 

Cit. a pag. io5. 

Henault, é Hamautf actualmente província do reino da 
Bélgica, cuja capital é Mons. Condado independente do sé- 
culo V ao XI, uniu-se então ao de Flandres e passou com este 
para a casa de Borgonha e a casa d' Áustria. Parte d'elle 
veíu a ser incorporada na França, em lõSg e 1678, uníndo-se 
porém depois novamente aos Pai^es-Baixos, em 1814, e á 
Bélgica, em 18 3o. 

Cit. a pag. io3. 

Henrique 11, duque de Nonnandia (n. em 11 33), era filho 
de Mathilde de Inglaterra e de Godofredo Plantagenet, conde 
de Anjou e duque de Normandia. Henrique foi (em 1149) 
duque de Normandia por cedência paterna e por sua suc- 
cessão duque d' Anjou e do Maine (em ii5i); casando com 
Leonor de Guienna (em 11 52), adquiriu o du.ca.do d' Aquitania 
com o condado de Poitiers, que vieram a juntar-se com a 
coroa de Inglaterra, naiqual Mathilde e Henrique succederam 
a Estevão de Blois (em 1154). Cedeu então Henrique II o 
ducado de Normandia ao filho primogénito (em 1168) Hen- 
rique III e, morrendo este sem deixar posteridade (em ii83), 
retomou o pae para si o ducado e conservou-o até á sua 
morte (em 1189). Succedeu-lhe Ricardo, Coração de Leão, 
que foi rei d' Inglaterra, duque de Normandia e d' Aquitania, 
conde de Poitiers, d' Anjou e de Maine. 

Cit. a pag. 3i. 

Henrique II, rei de França (n. em iSig), era filho de 
Francisco 7 e de Claudia de França, filha de Lwif XII, e veíu a 
succeder a seu pae por ter morrido (em i536) seu irmão mais 



— 3i4 — 

velho Francisco; casara antes d'isso (em i533) com Catharina 
de Medicis, filha de Lourenço II de Medicis, duque de Urbino. 
Morreu em iSSg, succedendo-lhe seu filho Francisco II. 
Cit. a pagg. u6 — u8. 

Henrique III, rei de França (n. em 1 55i, m. em iSSg), filho 
de Henrique II e de Catharina de Medicis, foi eleito rei da 
Polónia (em iSyS), quando reinava em França seu irmão, 
Carlos IX. Por morte d'este, sem descendência legitima (m. 
em 1574), succedeu-lhe no throno paterno e resignou a coroa 
de Polónia. Foi elle, com effeito, o fundador da ordem do 
Espirito Santo, em 3i de Dezembro de iSyS, commemorando 
a sua ascensão ao throno de Polónia, e depois ao de França, 
no dia de Pentecostes, dia em que a egreja commemora a 
descida do Espirito Santo sobre os Apóstolos. 

Cit. a pagg. 3o — 43 — 96. 

Henrique IV, rei de França (n. em i553), fora antes rei 
de Navarra (em 1572), succedendo a Henrique III ultimo 
rei da casa de Valois, que morrera sem deixar posteridade 
(em 1589), e cuja irmãa Margarida de Valois, desposara 
(em 1572). É certo ter elle tomado Amiens aos hespanhoes, 
que n'aquelle mesmo anno (de 1597) tinham conquistado a 
cidade. 

Cit. a pagg. 33 — 37—41 —63 — 104— 109— 118 — 121— 122 
134. 

Henriqueta Maria de França. (Franco Barreto escreve 
Henrica) (n. em 1609) é a filha de Henrique IV e de Maria 
de Medicis que (em 1625) desposou Carlos I, rei de Ingla- 
terra, e cuja existência seguiu a sorte atribulada d'aquelle 
infeliz rei. Em 1641 é possível que Maria de Medicis estivesse 
na corte de Inglaterra onde ainda se conservava sua filha. 
Henriqueta Maria de França esteve algum tempo em Ingla- 
terra depois da restauração de Carlos II, seu filho, mas voltou 



— 3i5 — 

para o convento de Chaillot, que fundara, e morreu em França 
em 1669. 

Cit. a pag. 1 19. 

HiPERGERviLLA, é Augerville-la-Rivisre, pequena povoação 
no departamento de Loiret na margem esquerda do rio Es- 
sonne, com uma ponte sobre este rio, uns cinco kilometros 
a montante de Malesherbes ; ficava no caminho de Fontai- 
nebleau a Orléans por La Chapelle-la- Reine e Pithiviers. 
Convém não confundir este Augerville com Angerville, citada 
no itinerário que a nossa embaixada seguiu á ida para Paris, 

Cit. a pag. 124. 

HoNFLUR é Honfleur, cidade cabeça de cantão no depar- 
tamento de Calvados, situada na margem esquerda do Sena, 
junto á sua foz. Teve outr'ora importância como porto de 
mar e foi disputada durante as guerras com os inglezes e as 
luctas religiosas; está hoje muito dccahida por effeito da 
proximidade do Havre. 

Cit. a pag. 107. 

Hugo Capeto, rei de França, fundador da terceira dynastia 
(n. por 941), foi proclamado rei em 987, por morte de Lui^ V, 
ultimo representante da dynastia carlovingia, e em detrimento 
do tio d'aquelle, Carlos duque de Lorena, que disputava a 
coroa. Tendo consolidado a sua situação e mantido a uni- 
dade dos seus estados morreu, em 996, transmittindo a coroa 
a seu filho Roberto. Com respeito á faculdade de curar as 
alporcas nada podemos accrescentar ao que diz o auctor, nem 
mesmo confirmaFo. 

Cit. a pagg. 16 — 80 — III. 

HuRAULT (Philippe. . . conde de Chaverny), (i 508-1599), é 
decerto a quem se quer referir Franco Barreto sob o nome 
de Huralto Xevernio (Philippe); foi chanceller de França, 



— 3i6 — 

governador das províncias de Orléam e de Chartres, Étampes, 
Blois, Amboise, Dunois e Loudunois. 
Cit. a pag. 41. 

Iffante, o Infante. V. D. Duarte. 

Cit. a pag. 161 t p assim. 

Ilha de Adam, Ile-Adam, cabeça de cantão no departa- 
mento de Seine-et-Oise, na margem esquerda do Oise, a un 
5o kilometros de Paris. 

Cit. a pag. 108. 

Ilha de França, lie de France, antiga provincia situada 
em tomo de Paris, que comprehendia o departamento do 
Sena, e a maior parte dos de Seine-et-Oise, Seine-et-Marne, 
Oise e Aisne, bem como uma pequena porção dos de Loiret e 
Nièvre; d'ella se pode dizer que foi sempre o coração da 
França. 

Cit. a pagg. io3 — 107. 

Ilha de Rey, lie de Ré, ilha junto á costa de França 
(20 kil. por 7 kil.) a NO à.Q La Rochelle, que conjuntamente 
com a ilha de Oleron cobre e protege a entrada dos portos 
de La Rochelle e Rochefort. A sua povoação principal é, 
com eífeito, São Martinho ou antes St. Martin-de-Ré, na costa 
septentrional da ilha. 

Cit. a pag. 10. 

Imperador, é Fernando III {n. em 1608), imperador d'Alle- 
manha em 1637, que succedeu a seu pae Fernando II, em 
cujo reinado começara a guerra dos trinta annos, vendo-se 
Fernando III obrigado a terminaFa com a paz de Westphalia 
(em 1648). Foi este imperador que entregou o infante 
D. Duarte ao rei de Hespanha, seu cunhado, practicando um 



-3i7- 

acto, altameete reprehensivel, é certo, mas que as relações 
entre os dois ramos da casa d' Áustria facilmente explicam. 
Cit. a pag. i6a. 

Indre, ou LiNDRE (por Vlndré), affluente da margem es- 
querda do Loire, que nasce perto de S'. Sevère (o São Severo 
do auctor) e ao sul de La Châtre no antigo Berry, quasi no 
limite do departamento a que dá o nome com o de Creuse; 
depois de banhar Chateauroux e Chatillon-sur-Indre, entra 
no departamento de Indre-et-Loire e lança-se no Loire a ju- 
sante de Tours. 

Cit. a pag. ia5. 

Infanta Archiduqueza, é Isabel Clara Eugenia (n. em 
i566), filha de Filippe 11, que foi regente dos Pai^es-Baixos, 
e casou (em iSgg) com o Archiduque Alberto d' Áustria, filho 
de Maximiliano II, imperador d'Allemanha (n. em 1621). 
Cit. a pag. 192. 

loRGEO, Jargeau, antiga cidade fortificada na margem 
esquerda do Loire, i5 kilometros a S. E. de Orléans, cabeça 
de cantão do departamento de Loiret. Tomada pelos inglezes 
em 1420, perdida e readquirida por elles, foi definitivamente 
reconquistada por Joanna d' Are em 1429. 

Cit. a pag. 46. 

Isabel de França, rainha de Hespanha (n. em i5^S), era 
filha de Henrique II e Caiharina de Medicis; e casou (em 
1559) com Philippe II, rei de Hespanha, de quem foi terceira 
mulher (m. em i568). 

Cit. a pag. 117. 

Isara ou Lisara, Isère em francez, Isara em latim ; rio 
que o auctor confundio com o Oise por terem ambos o 
mesmo nome latino; o Isère nasce na encosta S O do monte 



3i8 



Iseran, na Saboya, antigo condado de Moriana (Maurienne) 
passa em Montmeillan, rega o departamento a que dá o nome, 
banha Grenoble, e lança-se no Rhodano, lo kilometros a ju- 
sante de Valence, no departamento de Drome. 
Git. a pag. io6. 

Jardin (Monsieur du...J. Franco Barreto chama Mon- 
siur de Jardim a um velho e rico negociante francez, que 
estivera em Portugal, e era possuidor de uma casa de campo 
no arrabalde da Villetie, onde recebeu os nossos embaixa- 
dores. Christovam Soares d' Abreu, nas Advertências para 
França, refere-se largamente a este M^. du Jardin. 

Git. a pagg. 53 — 191 e seg. — 212. 

Joana, rainha de Navarra, (n. em 1278), era filha de 
Henrique I, rei de Navarra e conde de Champagne, de quem 
foi successora; casou (em 1284) com Filippe IV de França, 
(Philippe-le-Bel), continuando porém a reger os seus estados 
de Navarra até a sua morte (i3o5). Foi, com effeito, ella a 
fundadora (em 1 3o4) do collegio de Navarra, que fazia parte 
da universidade de Paris e também foi conhecido por collegio 
de Champagne. 

Git. a pag. 114. 

JoANNA (a Poncella) é Joanna d'Arc, designada por La 
Pucelle d'Orléans, heroina lendária da guerra entre francezes 
e inglezes no século xv, personnificação do mais puro e desin- 
teressado patriotismo; foi ha pouco tempo beatificada. 

Git. a pag. 44 e segg. 

JuivuDi, é Jiivisy, pequena povoação do departamento de 
Seine-ei-Oise, sobre a margem do Orge affluente da margem 
esquerda do Sena, e situada perto d'este rio. 

Git. a pag. 121. 



— 3i9 — 

JuuÃo Apóstata, é o imperador romano Flavius Claiidius 
Julianus (n. em 33 1), sobrinho de Constantino, que (em 355) 
foi nomeado governador da Gallia e habitou alguns annos 
Paris (Lutecia). Proclamado imperador (em 36 1) pelas tropas 
do seu commando, abjurou do christianismo sem comiudo 
perseguir os christãos, e fez importantes conquistas na Ar- 
ménia e Mesopotâmia ; ferido em combate, morreu ao fim 
de dois annos de império. Foi homem austero, virtuoso e 
illustradissimo tendo deixado importantes escriptos. Deve 
ter sido elle, com efTeito, o constructor dos dois Castcllos 
(Chatelet) a que o nosso auctor se refere, e que certamente 
não foram construídos por Júlio César. 

Cit. a pag. 119. 

Lamego (Bispo de. . .), V. Portugal (D. Miguel de. . .). 

Lanier, residente de França em Portugal durante longos 
annos; segundo se deprehende do que diz (a pag. 2 12-21 3) 
Soares d'Abreu, já aqui estava em Setembro de 1641, no 
exercício de funcções administrativas. Franco Barreto de- 
signa-o como «do Concelho de Estado» (a pag. 146), e dá-o 
como vindo na armada do marquez de Bré^e. Em 1642 
passou a residente de França, substituindo Saint-Pé, e demo- 
rou-se em Portugal longos annos 

Cit. a pagg. 146 — 185 — 186 — 2i3. 

La Porte (Aniédée de. . .), frequentemente designado por 
Commendador de la Porte, era Grão-Prior de França na ordem 
de S. João de Jerusalém, intendente geral da navegação, 
governador da Rochella, Brouage e Aulnis, e tio de Richelieu 
por ser irmão de Su!(anna de la Porte, casada com Francisco 
du Plessis, senhor de Richelieu e mãe do Cardeal-Duque. 
Outro sobrinlio do Grão-Prior era Charles de la Porte, ma- 
rechal de La Meilleraye. Amédée de la Porte morreu em 
Paris em 3i de Outubro de 1644. (V. P. Anselme, Histoire 



— 320 — 

Généalogique de la Maison de France, t. iv, pag. 624). V. o 
que diz a seu respeito Soares d'Abreu a pag. i85. 

Cit. a pagg. 12 e segg. — i3i — 132 — 148— iSy — 161 — 177 
— 184 — 185 — 187 — 200. 

Laurens (Michel de. . .), talvez seja um Mx de Clarens 
que Franco Barreto menciona. Este Mr. du Laurens vinha, 
ao que parece, muito recommendado aos embaixadores pelo 
Marque^ (de la Mothe ?), e por Af'". de Lavergne, suppõe-se 
também ser parente de Lanier; e tudo isto consta do Rol 
{Hista. do Exo., Provas, t. i, pag. 314) onde tem o n.° 72. O 
sr. Chriitovam Ayres dá-nos ainda um documento em que 
este mesmo Laurens é promovido a capitão de cavallos, di- 
zendo-se que é recommendado pelo rei de França, em 23 de 
Junho de 1645 {Op. cit., t. 11, pag. 260). 

Cit. a pag. 147. 

La Vergne (Barão de.. .), mencionado como tal por Franco 
Barreto entre os francezes que acompanharam o marquez de 
Bré!(é; só encontramos comtudo o seu nome como Ms^. de 
la Vergne, sem titulo nobiliário, no Rol das pessoas que 
vieram na armada {Hista. do Exo., Provas, t. i, pag. 3 16), 
sob o n." 95, com a indicação de ser recommendado M.»" de 
Granchamps Briçon (sic), ao auctor do Rol para comman- 
dante de uma companhia de infanteria ou de cavallaria. 
Nenhuma outra noticia vimos a seu respeito entre os docu- 
mentos publicados na Hist<^. do Exo. 

Cit. a pag. 146. 

Lefó, Le Fau, é uma pequena aldeia próximo da margem 
direita do Indre. Nada tem que ver com Leret-ableré, isto 
é, com Bléré, na margem esquerda do Cher, e com Dierré, 
pouco afastado da margem direita d'este mesmo rio. O 
auctor confundiu tudo. 

Cit. a pag. 39. 



— 021 — 

Lemos (Dom Denis, Conde de. . ), cuja filha Dona Messia 
(sicj acompanhou a Saboya a infanta D. Beaíri:( (em i52i), 
não era decerto um fidalgo portuguez ; devia ser um fi- 
dalgo gallego, muito aparentado com familias portuguezas, 
e um dos antepassados do conde de Lemos, D. Pedro Fer- 
nandes de Castro (n. em 1576 e m em 1622 em Madrid), que 
foi vice-rei de Nápoles, e de um outro a quem foi confiada 
a guarda da fronteira da Galliza quando o duque d' Alba in- 
vadiu Portugal (em i58o). 

Cit. a pag. 204. 

Leonor de Guienna (Franco Barreto escreve Eleonor, (n. 
em 1122) é a filha primogénita de Guilherme X, duque de 
Guienna e conde de Poitiers, casada em primeiras núpcias 
com Lui:^ VII, rei de França (em 1 1 37) e, depois de repudiada 
por este (em 11 52), casada em segundas núpcias com Henri- 
que, duque de Normandia e conde d'Anjou, que foi feito rei 
d' Inglaterra (em 11 54), sob o titulo de Henrique II, tronco 
dos Plantagenets (V. Henrique II, duque de Normandia). 

Cit. a pag. 32, 

Leret, é Loiret, rio de brevissimo percurso, afluente da 
margem esquerda do Loire, que corre de leste para oeste 
poucos kilometros ao sul de Orléans e desemboca a jusante 
da cidade. 

Cit. a pag. 49. 

Leret-ableré, sob esta designação deve o auctor ter que- 
rido referir-se a duas povoações distinctas: Bléré, cabeça de 
cantão do departamento de Indre-eí-Loire, 10 kilometros ao 
S. de Amboise, na margem esquerda do Cher, onde havia 
uma ponte; e talvez Dierré, a dois ou três kilometros da 
margem direita do mesmo rio na direcção de Amboise. 

Cit. a pag. 39. 

21 



— 322 — 

Lexin; Vexiti? Nos dois Vexin, quer seja no france^, 
quer no normando, não encontramos localidade cujo nome se 
possa confundir com Meung, ou com Méhun, senão Melun, 
no Vexin-f rançais. (V. Vexin e Melun). 

Cit. a pag. 125. 

Lião (Gaspar Fernandes de. . .), negociante residente em 
Paris, natural de Flandres mas descendente de avós portu- 
guezes e francezes; homem muito estimado, que muito obse- 
quiou a embaixada do Monteiro-mór. Soares d' Abreu refere-se 
largamente aos seus serviços, dizendo que elle informava os 
embaixadores das visitas de corte que deviam fazer, receitava 
remédios para a doença do Dr. Coelho de Carvalho e dava 
até o seu voto acerca das tapeçarias com que os embaixa- 
dores haviam de ser presenteados. Damos cinco cartas suas 
no Documento IV; e indicações que lhe dizem respeito 
a pag. 164 n. 

Cit. a pagg. 164 e segg. — 192 — 212. 

LiLLA BuxART é LHle Bouchard, cabeça de cantão do de- 
partamento de Indre-el- Loire, situada n'uma ilha que forma 
o rio Vienne, logo abaixo da confluência do Manse e no 
caminho entre Tours e Richelieu. 

Cit. a pag. 127. 

LoERE é o rio Loire. Com um percurso de 1000 kilometros, 
atravessa muitas das mais ricas províncias do centro a oeste 
da França, sendo um dos seus rios mais importantes ; nasce 
nas serras de Montpe^at (limite da Haute-Loire e Ardèché), 
corre primeiro para o N e N O, depois para S O e O e vae 
desaguar no Oceano a jusante de Nantes. 

Cit. a pagg. 39 — 40 — 124. 

LoNGUEViLLE (também Longavilla e Longeville). Refere-se 



— 323 — 

Franco Barreto (pag. 55) ao palácio dos duques d'este titulo, 
que eram considerados príncipes do sangue real, descendentes 
do celebre Dunois (n. em 1402, rn. em 1468), bastardo d'Or- 
leans, e companheiro d'armas de Joanna d' Are. Era duque 
de Longueville, ao tempo da embaixada, Henrique II d'Or- 
leans (n. em i595), que, depois de ter exercido importantes 
cargos durante o reinado de Luij XIII, fez parte do conselho 
de regência na menoridade de Lui{XIV e foi plenipotenciário 
no congresso de Munster. Casou em primeiras núpcias com 
Lui^a de Bourbon, filha de Carlos de Bourbon, conde de 
Soissons e de Anna de Montafié (V. Suason) e depois com 
Anna Genoveva de Bourbon-Condé, por cuja instigação tomou 
grande parte nas luctas civis da Fronde (m. em i663). 
Cit. a pagg. 55 — 119 — 167. 

Longueville (Madamoiselle de.. .J era Maria de Orleans- 
Longueville (n. em iÇ>2,5), única filha do primeiro matrimonio 
de Henrique II d'Orléans (n. em 1595, m. em i663), duque ífe 
Longueville, com Lui^a de Bourbon- Soissons (n. em i6o3, 
m. em 1637), filha de Carlos de Bourbon, conde de Soissons 
e de Dreux, e de Anna, condessa de Montafié (m. em 1644). 
Com eíFeito, como diz Soares d' Abreu, A/.e//e de Longueville, 
que foi depois duqueza de Nemours, pelo seu casamento com 
Henrique de Saboya duque de Nemours (em 1657), era neta 
da condessa de Soissons, mãe do conde de Soissons, Luii[ de 
Bourbon. 

Cit. a pag. 201. 

I.OPE (Monsieur de. . . ), homem rico e intrigante, decerto 
judeu e Lopes, que Soares d' Abreu suspeita de ter compro- 
mettido junto de Richelieu o nosso ernbaixador naHoUanda, 
Tristão de Mendonça Furtado, referindo-se também a outros 
factos com o mesmo judeu passados e que não abonam a sua 
discreção. 

Cit. a pag. 192. 



— 324 — 

Lorena, Lorraine, antiga Lothringia, constituída em mo- 
narchia independente (em 855), depois simples ducado (em 
959) que se tornou hereditário (em 1048), veiu a ser uma 
provincia da França (em 1766). Gomprehendia ultimamente 
os departamentos de Meuse, Meurthe-et-Moselle e Vosges. 

Cit. a pag. 45. 

Lorena (Duque de...), era, em 1641, o XXVII duque, 
Nicolau-Francisco (n. em 1609), que fora cardeal e deixara de 
o ser para succeder ao XXVI duque, Carlos III (n. em 1604). 
Tivera este a coroa duccal (em 1624) por abdicação de seu 
pae o XXV duque, Francisco II (em 1624), e a transmittira 
dez annos depois ao duque Carlos III {i6'ò 4), a quem, sob 
este nome, se refere Soares d'Abreu. Quanto ao duque An- 
rique, é o XXIV, Henrique 77 (n. em i563), irmão primogénito 
do XXV duque Francisco II, que herdara de seu pae o du- 
cado (em 1608) e morrera em 1624. 

Cit. a pag. 204. 

Luc, não encontramos menção de localidade d'este nome 
nos dois departamentos que constituíam o Poitou; ha, com 
effeito Luc-sur-Mer no Calvados e Luc-en-Provence no Var; 
também não encontramos menção de nenhum ducado de Luc 
em França; em Itália é que havia um de Lucca, cujo nome 
francez é Lucques. 

Gít. a pag. 26. 

Lucas (Ruy Corrêa...), portuguez residente em Paris, a 
quem se refere Soares d' Abreu, sem comtudo dar qualquer 
indicação a seu respeito. 

Cit. a pag. 181. 

Lucena (Francisco de . .), por quem foram referendadas 
as instrucções para os embaixadores e decerto o seu auctor; 



— 325 — 

é o hábil secretario d'Estado de el-Rci D. JoÃo IV, que tão 
bem dirigiu a politica externa de Portugal em seguida á res- 
tauração. Ghamando-o a desempenhar o seu importante 
cargo em 3i de Janeiro de 1641, deu D. João IV uma elo- 
quente prova do seu espirito ponderado e tolerante; apro- 
veitava assim a experiência adquirida por aquelle ministro 
durante trinta annos de carreira publica e em especial na se- 
cretaria d'Estado em Madrid. Intrigas, rivalidades e invejas 
sacrificaram este bom funccionario e deram-lhe com morte 
violenta, no patíbulo, a paga dos serviços prestados ao paiz, 
Cit. a pagg. 79 — 211 — 212. 

Luciano é um conhecido escriptor grego (n. por 1 20, m. 
por 200) do segundo século da nossa era. Primeiro advogado 
em Antiochia, depois rhetorico e sophista, andou pela Ásia e 
pela Grécia, pela Itália e pela Gallia, recitando os seus dis- 
cursos e deixou vários e interessantes escriptos, em que se 
mostra philosopho espirituoso e arguto. 

Cit. a pag. 128. 

LinsuMOES, deve ser Loudumois, referindo-se a Loudun e 
sua comarca, no departamento de Vienne, sub-prefeitura, 
44 kilometros a N O de Poitiers, terras que estavam certa- 
mente comprehendidas no governo da província de Poitou. 

Git. a pag. 26. 

Luís, filho de Dagoberto I, fundador 5'. Denis, nunca 
existiu, que se saiba; os filhos d'aquelle rei foram Sigeberto, 
que lhe succedeu como rei da Austrasia (n. em 63o, rei em 632, 
m. em 65o) e Clóvis, rei de França (V. Clóvis); o auctor deve 
querer referir-se a Clóvis, cujo nome decerto ouviu mal ou 
não soube copiar. 

Cit. a pag. 95 — 121. 

LuTZ VII, rei de França (n. em iiao, rei em 1137), era filho 



— 326 — 

de Lui^ VI, de quem herdou a coroa; foi casado em primeiras 
núpcias com Leonor de Guienna (V. este nome), que lhe 
trouxe o ducado de Guienna e o condado de Poitiers; aporem 
repudiando-o perdeu esses importantes domínios que passa- 
ram para a coroa de Inglaterra com a dynastia dos Planta- 
genet, e vieram ser a causa da guerra dos cem annos. 
Cit. a pag. 32. 

Luís (que Franco Barreto designa por o saneio Rey Luis), 
é S. Liiij, IX do nome na serie dos reis de França (n. em 12 15), 
filho de Lwíf VIII e de Branca de Castella, que governou o 
reino durante a sua menoridade (1226-1236). Grande santo 
e grande rei, tomou parte n'uma primeira crusada por elle 
mesmo organizada (em 1248), esteve prisioneiro no Egypto, 
regressou a França, por morte da Rainha mãe, que exercia a 
regência; e ainda tentou uma nova crusada em 1270, mor- 
rendo de peste em Tunis n'esse mesmo anno. As suas vir- 
tudes, e particularmente o seu amor da justiça, foram mesmo 
em sua vida de tal modo apreciadas que logo lhe grangearam 
fama de santo. 

Cit. a pagg. 81 — 92 — 93 — 94 — 96 — 112 — ii3 — 114 — 
121 — 122 — 129. 

Luiz XI, rei de França, filho de Carlos VII e de Maria 
d'Anjou (n. em 1423), subiu ao throno por morte de seu pae 
(em 1461); foi um politico sagaz e astuto e um rei útil á 
França, comquanto as suas qualidades moraes o tomem pro- 
fundamente antipathico. Succedeu-lhe seu filho Carlos VIII 
(em 1483). Foi, com effeito, Luif XI, o instituidor da ordem 
de S. Miguel, creada no i.° d'Agosto de 1469, em honra 
d'aquelle santo patrono da França, como bem diz Franco 
Barreto. Liii^ XI fazia alarde constante da sua devoção, 
talvez para fazer perdoar a sua falta de escrúpulos. 

Cit. a pagg. 43 — 97. 



— 327 — 

Luiz XII (n. em 1462), primeiro rei do ramo Je Valois- 
Orleans, era bis-neto paterno de Carlos V, rei de França 
(n. em i337, m. em i38o); e veiu, por extincção da linha pri- 
mogénita e ausência de parente mais próximo, a succeder a 
Carlos VIII (n. em 1470) que morrera em 1498. Não tivemos 
ensejo de averiguar se foi, com eíTeito, este rei que mandou 
construir a ponte a que se refere o nosso auctor. 

Cit. a pagg. 41 — io8> 

Luiz XIII, rei de França, cognominado o Justo, era filho 
de Henrique IV e de sua segunda mulher Maria de Medicis, 
(n. em 1601), herdou a coroa por morte de seu pae em 1610, 
sendo a regência exercida por sua mãe durante a menoridade. 
Casou em 161 5 com Anna d' Áustria, filha de Filippe III de 
Hespanha (n. em 1601). 

Cit. a pag. 23 e p assim. 

LusiNHÁ (também Lusinhan) é Lusignan, cabeça de cantão 
no departamento de Vienne, 23 kilometros a S. O. de Poi- 
iiers. 

Cit. a pagg. 26 — 3o — 129. 

LusoN é Luçon, cidade, cabeça de cantão no departamento 
de Vendée e sub -prefeitura de Fontenay-Le-Comte, 26 kilo- 
metros a O. d'esta cidade e a 8 kilometros do mar. Foi an- 
tigo bispado, tendo sido o cardeal Richelieu, bispo de Luçon. 

Cit. a pag. 26. 

LuTHERO (Martinho), reformador da egreja, nasceu em 
Eisleben (Saxe) em 1483, foi frade agostinho e professor na 
universidade de Witemberg, enviado a Roma em i5io; mas 
descontente com o procedimento de Leão X com respeito á 
sua ordem, levantou a bandeira da revolta contestando vários 
dogmas da egreja catholica e sustentando a necessidade de 
a reformar. Pode dizer-se d'elle que foi o principal iniciador 



— 328 — 

« 

das grandes luctas que dividiram a egreja christaS (m. em 
1546). 

Cit. a pag. 37. 

Lymu|in é Limousin, antiga província de França, que tinha 
por capital a cidade de Lituoges e comprehendia o actual 
departamento de Corrè^e e parte do de Hauie-Vienne. 

Cit. a pag. io3. 

Lyra (Guilhelmo de..., barão de Dooster Wick) é Gui- 
lherme de Lyere, senhor de Oosterwijck, embaixador das 
Provincias-Unidas em Paris (V. Embaixador de Hollanda). 

Cit. a pagg. 52 — 82. 

Macedo (Manoel Freyre de, ..), é mencionado como es- 
tribeiro do Monteiro-mór. 
Cit. a pag. 5i. 

Macedo (Padre Francisco de...), é o P.^ Francisco de 
Santo Agostinho de Macedo, celebre polygrapho (1596-1681). 
Professou primeiro na Companhia de Jesus, donde passou 
para a ordem Franciscana. Foi incumbido por D. João IV 
de varias missões diplomáticas ; e o Papa Alexandre VII o 
nomeou mestre de controvérsia no Collegio de Propaganda 
Fidi e lente de historia ecclesiastica na Sapienza. Tendo 
perdido as graças do Pontífice, foi para Veneza, e a Republica 
lhe conferiu as honras de cidadão e a cadeira de philosophia 
moral na Universidade de Pádua. As obras do erudito fran- 
ciscano mencionadas por Franco Barreto são as seguintes : 
i) Panegyrico Apologético pro Lusitânia vindicata aservitute 
injusta, ab jugo iniquo, a tyrannida immani Castellae etc. 
(Paris, 1641, Lisboa. 1641, Barcelona, 1641); 2) Jus succe- 
dendi in Lusitaniae Regnum Dominae Catharinae (Paris, 
1641) ; a traducção portugueza foi feita em quinze dias e 
dedicada ao cardeal Richelieu, que segundo refere a Biblioteca 



— 329 — 

Lusitana, desejava ver os fundamentos por onde a coroa de 
Portugal não pertencia á de Castella ; 3) Apendix libri de 
actu et jure possidendi Serenissimi Regis Joannis IV. Sup- 
ponho que as «inscripções» referidas por Franco Barreto 
sejam os dois opúsculos citados por Barbosa Machado : Sta- 
tua equestris Ludovici XIII (Paris, 1641, Lisboa, 1641 e i683) 
e Cardinalis Júlio Ma^^arino pro recens donata purpura elo- 
gium (Paris, 1641, Lisboa, i683). 
Cit. a pagg. 117 — 182 e 182 n. 

Mac Swiney (Mauricius . . ) f (Mx de Machuy para Franco 
Barreto ; é certamente um dos officiaes mais difficeis de iden- 
tificar. Na Lista dos Coronéis e Capitães {Hist.a do Exfl, 
Provas, t. I, pag. 3o8), temos um coronel de infanteria Mau- 
ricio Maesiey^, que, por exclusão de partes, deve ser o nosso; 
os seus capitães são: Anrrique Marast sx de loges, Luis de 
la Mote sx de la Prelle e Guilhermo Giroult sx de la nardin. 
Se formos ao Rol das pessoas encontramos lá {loc. cit., 
pag. 3 16) ; Le Colonel Mac suny hirlandes; mas encontramos 
também: n.» 61 de la Perelle, capitam de Inf.ria no regto do 
Colonel Masfuy, olandez ; n.° 65 «de la Verdée (?), Capitam 
no reg.to de Macfuy; n.° 68 de Marast, Capitam no reg.to de 
Macfuy. A patente ainda nos induziria em maior confusão, 
porque é passada em nome de Mauricio Manssoy ; é de co- 
ronel de um dos terços de infanteria, com a mesma data, 26 
de Setembro de 1641, que as dos outros trez coronéis, Viole 
d'Athis, Hugo 0'Reilly e Walter Tirrel (ob. cit., 1. 11, pagg. 208 
e seg.). D'aqui concluímos que um offlcial irlandez, Mauri- 
cius Mac Swiney, foi nomeado coronel de infanteria e teve 
sob suas ordens trez capitães francezes : Henri de Marast 
sx de Loges ; Louis de la Motte, sx de la Pérelle e Guillaume 
Giroult sx de Lavardens. Se estes não eram os seus nomes 
deviam ser muito parecidos ; nada mais encontramos a seu 
respeito. 

Cit. a pag. 147. 



— 33o — 

Madama, é sem a menor duvida Christina de França, filha 
de Henrique IV t àt Maria de Medíeis (n. em 1606), que, 
tendo casado (em 1620) com Victor Amadeu I, duque de Sa- 
boya, foi, por morte do marido (em 1637), declarada regente 
e estava, em 1641, governando o ducado em nome de seu 
segundo filho, Carlos-Manoel II (n. em 1634), que succedera 
ao primogénito Francisco-Jacintho, fallecido um anno depois 
do pae (i638). 

Cit. a pag 86. 

Mademusella (Mademoiselle ou la Grande Mademoiselle). 
V. Montpensier (Duquesa de...). 
Cit. a pag. 55 — 100. 

Mahé (Sébastien de.. . Sf de la Souche), é o quinto na 
Lista dos Coronéis. . ., onde apparece como Sr. de la Souche, 
(Hist.a do Ex.o, Provas, 1. 1, pag. 807) ; no Rol das pessoas 
que vieram de França tem o n." 34, chamam-lhe simplesmente 
M.r de Mahé, com a nota: «Para dragões ou carabineiros 
por ordem de El-Rey Christianissimo e Ms.r de... (sic)», 
{loc. cit., pag. 3ii); a sua patente é de 26 de Setembro de 
1641 e para coronel de cavallaria ligeira {loc. cit., pag. 3i8). 
Do que o Sr. Christovam Ayres diz a seu respeito {Provas, 
t. II, pagg. 204 e segg), parece deduzir-se que M.^ de Mahé era 
recommendado por M.f de Chavigny, e que apesar d'isso se 
não poude conservar em Portugal em consequência do seu 
mau comportamento. É de notar que as patentes dos officiaes 
nomeados para o seu regimento designam-n'o por Sebastian 
de Mahé, S,r de Plessis (loc. cit., t. i, pag. 3ig e seg.). 

Cit. a pag. 147. 

Mailxy (Barão de...), não o encontramos mencionado 
nem no Rol das pessoas que vieram na armada do marquez 
de Bré^é nem nos variadíssimos documentos publicados pelo 



— 33i — 

Sr. Christovam Ayres nos trez volumes de Provas da sue 
Historia do Exercito Portugue^. 
Cit. a pag. 146. 

Maiolo, talvez possa identificar-se com o medico italiano 
Lorenjo Maggiolo (1440-1501). 
Cit. a pag. 85. 

Malezes deve ser Maillet^ais, cabeça de cantão no departa- 
mento de Vendée, 12 kilometros aL. áQ Fontenay-Le-Comte, 
a cuja sub-prefeitura pertence; foi sede de uma abbadia de 
benedictinos (extincta em 1648), porém não foi bispado, como 
diz o auctor. 

Cit. a pag. 26. 

Manta é Mantes, sub-prefeitura do departamento de Seine- 
et-Oise, na margem esquerda do Sena, bonita e antiga po- 
voação a uns 48 kilometros de Paris ; saqueada pelos Nor- 
mandos no século xi e successivamente conquistada por 
inglezes e francezes, ficou definitivamente em poder d'estes 
no meado do século xv. 

Cit. a pag. 107. 

Mantua. V. Nevers. 
Cit. a pag. 167. 

Marca (Monsiur de la. . .) ou Dovi Francisco de la Mar- 
cha, nome porque é designado (a pag. 70) o mesmo auctor 
de um Panegyrico de Richelieu. É de suppor que seja algum 
François de la Marche ou Delamarche, escriptor de escassa 
fama visto que o não encontramos citado, nem a elle nem á 
sua obra. 

Cit. a pagg. 59 — 70. 

Margarida de França, designada por Margarita (a 



^332 — 

pag. 117) por Franco Barreto, é a filha mais nova de Fran- 
cisco /e de Claudia de França, (n. em i523), que, (em iSSg), 
casou com Manoel Filisberto, duque de Saboya, um dos pre- 
tendentes ao throno de Portugal por ser filho da nossa In- 
fanta D. Beairi^, neto portanto de el-Rei D. Manoel; d'este 
matrimonio descenderam os duques de Saboya, sendo neta 
de Margarida de França a duqueza de Mantua, Margarida 
de Saboya, que era regente de Portugal em 1640. 
Git. a pag. 117. 

Margarida de Valois, que Soares d'Abreu designa (a 
pag. 181) por Raynha Margarita, é a filha de Henrique II, 
rei de França, e de Catharina de Medicis (n. em i552), que 
casou (em 1572) com Henrique de Bourbon, rei de Navarra 
e depois de França. Repudiada por este (em iSgg), falleceu 
sem descendência em 161 5, depois de ter residido em Paris, 
n'um palácio que lhe foi destinado, a expensas de Luis( XIII, 
seu enteado. 

Git. a' pag. 181. 

Maria de Medicis (n. em i5y3), filha de Francisco I de 
Medicis, grão-duque de Toscana, casou (em 1600) com Hen- 
rique IV, rei de França, e foi mãe de Zuíf XIII (n. em 1601). 
Por morte de Henrique /V assumiu a regência; mas entregou 
em grande parte o poder á sua compatriota Leonor Galigai 
e ao marido d'esta Concino Concini, exercendo-o elles por 
forma tal que Lwif XIII, apenas chegado á maioridade, teve 
de os expulsar da corte e pouco depois de exilar a rainha- 
mãe, que depois de ter estado em Bruxellas e em Londres 
veiu a morrer em Colónia em 1642. 

Git. a pagg. 56 — 109 — 119 — 192. 

Marigni (Enguerrando de.. ), ou de Marigny, foi pri- 
meiro ministro e valido do rei Filippe o Bello e feito por elle 



_ 333 — 

conde de Longueville : o que elle não foi é senhor de Cucy 
(Coucy), como diz Franco Barreto, que confunde Enguer- 
rand de Marigny (n. em 1260) com Enguerrand de Guines, 
senhor de Coucy. Marigny foi, por morte de Filippe, victima 
dos invejosos do seu poder e riqueza, condemnado sem ser 
ouvido e justiçado (em i3i5). 
Cit. a pag. 118. 

Marsilhac, não encontramos menção de nenhuma locali- 
dade proximamente com este nome no Poiíou, ha sim Mar- 
cillac, no Aveyron, Marcillat, no Allier, e Marcilhac, no Lot; 
e houve um principe de Marcillac, depois duque de La Ro- 
chefoucauld, notável escriptor do século xvii. 

Cit. a pag. 26. 

yíxsKMn (Mons.r. ..), é Giulio Ma^arini, ou Ma^i^arino, 
italiano, oriundo d'uma família siciliana protegida pelos prín- 
cipes Colonna (n. em 1602). Seguindo na sua mocidade a 
carreira das armas, fora agente de Richelieu na Itália, sendo 
por elle encarregado de varias missões diplomáticas em que 
muito se distinguiu. Em i632 deixou a vida militar e abraçou 
a carreira ecclesiastica, alcançando desde logo dois canoni- 
catos em egrejas de Roma, continuando porém a servir a 
França e indo para Paris, em 1640; foi então que Z-wíf XIIJ 
e Richelieu diligenciaram alcançar para elle a purpura cardi- 
nalícia, conseguindo que fosse feito^cardeal em 1641. Vê-se, 
pelo que diz Soares d' Abreu, que lhe apreciou as qualidades 
e previu o seu auspicioso futuro. 

Cit. a pagg. 2o3 — 204. 

Mascarenhas (P.^ Ignacio de. . .), da Companhia de Jesus 
(n. em 1607), irmão do conde de Santa Cru^, foi escolhido, 
logo em seguida á restauração, para ir entender-se com os 
catalães, revoltados contra o domínio castelhano, que encon- 
travam na França um decidido e poderoso auxilio. No seu 



— 334 — 

regresso ao Reino o P.e Mascarenhas veiu por França, tra- 
zendo comsigo da Catalunha um avultado contingente de 
officiaes e soldados portuguezes, que alli estavam servindo. 
Cit. a pagg. 21 — i86. 

Masirez M.f de. ..), que deve ser Pierre de B... (?), Sr. 
de Maceres; é um dos officiaes cujo nomeé mais difficil de- 
cifrar e cuja biographia militar, em Portugal, é mais pobre de 
documentos. A Lista dos Coronéis e Capitães {HistA do 
Ex.o, Provas, 1. 1, pag. 3o8), dá-o como coronel d'um regimento 
de dragões e chama-lhe : Pedro de Btefuril S.f de Ma^tres; 
o Rol das pessoas que vieram de França, sob o n.° 3i e a 
designação de coronel de dragões, escreve : Ms.^ de Ma^^eros 
{loc. cit., pag. 3ii), mas, no mesmo Rol, escreve o nome do 
seu regimento duas vezes Maceres e uma vez Ma^eros; no 
extracto da patente {loc. cit,, pag. 32o), que é de 26 de Se- 
tembro de 1641, chama-se-lhe Pedro de Berfueit, sx de Ma- 
geros. Eis o que sabemos a seu respeito. 

Cit. a pag. 147. 

Mehun sobre Yeura é Méhun-sur- Yèvre, cabeça de cantão 
do departamento do Cher, antigo Berry, i5 kilometros a N. 
O. de Bourges, que o auctor receia poder confundir-se com 
Meun, ou antes Meung-sur-Loire. 

Cit. a pag. 125. 

Mel-i.eraye (Marechal de la.. .), é o marechal de la Meil- 
íeraye (ou la Melleraye conforme elle próprio assignava), 
Carlos de la Porte (n. em 1602), sobrinho da mãe de Riche- 
lieu e do grão-prior La Porte; foi feito grão mestre da arti- 
Iheria em 1634, marechal em 1639 e duque em 1642, tendo 
passado por ser competentíssimo nas guerras de sitio, muito 
em uso nas campanhas do seu tempo. Morreu em 1664. 

Cit. a pag. 168. 



— 335 — 

Melleraye (Marechala de la..., ou Meilleraye), cujo 
nome Soares d'Abreu escreve Milheré, é Maria de Cossé- 
BrissaCy casada (em i63y) com Carlos II de la Porte, mare- 
chal, duque e grão mestre d'artilhena. A duqueza morreu 
em 17 IO com oitenta e nove annos. 

Cit. a pag. i85. 

Mello (Pedro de. . ■), filho do Monteiro-mór que o acom- 
panhou na sua embaixada e veiu a morrer em Paris, em 24 
de abril de 1641, com 20 annos de idade. A sua morte foi 
muito sentida pelo pessoal da embaixada, que o tinha em 
grande estima, e deu occasião a que fossem feitos ao Mon- 
teiro-mór, por parte de Luíf XIII, da Rainha, de Richelieu e 
da corte, as mais expressivas manifestações de consideração 
e de apreço. 

Cit. a pagg. 54I— 82 — 83 — 168. 

Melusina, que Franco Barreto diz ser irmãa de Guilher- 
me IV, duque d'Aquitania e fundadora da Rochella é uma 
personagem bastante phantastica, que passava por feiticeira 
e figura muito nos romances de cavaílaria e nas lendas do 
Poiíou. Se dermos credito á tradição que faz d'ella tronco 
dos Liisignan, reis de Chypre, teremos de a identificar com 
Constança, filha de Boemundo II, principe de Antiochia (m. 
em 1 1 3 1 ), e de sua mulher Alice, filha de Balduino II rei de 
Jerusalém (m. em ii3i); esta Constança-Melusina foi casada 
com Raymundo de Poitiers (m. em 1148), que era irmão de 
Guilherme X, ultimo duque de Aquitania (m. em 1137); foi 
este mesmo quem conquistou a Rochella sobre os seus pos- 
suidores d' então, os senhores de Maidéon. Do matrimonio 
de Raymundo e Constança descendem os Lusignan, príncipes 
d' Antiochia e reis de Chypre. 

Cit. a pagg. 22 — 3o — 32. 

Mena (ou Mans), Matne, antiga provincia de França, que 



— 336 -- 

hoje constitue os departamentos de Sarthe e de Mayenne, 
lendo por capital a cidade de Le Mans. 
Cit. a pag. io3. 

Mendes (Heitor), filho de Francisco Mendes de Brito. V. 
Brito. 

Cit. a pag. i3i. 

Mendonça {Tristão de..., outros escrevem Mendoça) é 
Tristão de Mendonça Furtado, que foi por embaixador á Hol- 
landa (em 1641). Filho de Pedro de Mendonça, governador 
de Chaúl, foi um dos conjurados da revolução de 1640; cha- 
mado a fazer parte do Conselho foi depois nomeado para a 
mais difficil de todas as embaixadas, a não ser talvez a de 
Roma; muito censurado pelos escriptores contemporâneos e 
pelos que d'elles copiaram, é de esperar que ainda venha a 
ser-lhe feita justiça cabal. 

Cit. a pagg. 7 — 21 5. 

Menillet. V. Dumenillet. 

Menna, não shbemos a que palácio se refira sob esta de- 
signação Franco Barreto. Poderia ser o palácio dos duques 
du Maine; mas o titulo de duque duMaine, restabelecido por 
Henrique II para seu filho Henrique, fora cedido por este a 
seu irmão o ultimo duque du Maine, Francisco, também 
duque d'Alençon, filho bastardo de Henrique II e de Diana 
de Poitiers, que morreu sem descendência (em 1584), incor- 
porando-se o ducado novamente na coroa. Em 1641 não 
havia portanto duque du Maine; é comtudo possível que a 
designação de Hotel du Maine se conservasse, comquanto a 
família a que pertencera estivesse de ha muito extincta. 

Cit. a pag. 119. 

Mentor, celebre cinzelador grego que viveu no século de 



-337- 

Péricles, eximio em trabalhar o bronze, a prata e o ouro; 
muitas das suas obras primas ornamentavam o templo de 
Diana em Epheso. 
Cit. a pag. 83. 

Mere (O. . .) é Pierre-Lemaire, que foi também chamado 
Poussin, por ter sido discipulo de Nicolas Poussin, celebre 
pintor (n. em iSgo, m. em i665) e verdadeiro fundador da es- 
cola franceza. Pierre-Lemaire (n. em iSgy, m. em lôSg), foi, 
com effeito, o auctor das afamadas perspectivas de Bagnolet 
e de Rueil, ha muito tempo destruídas. 

Cit. a pag. 86. 

Mesieres, antes Mepères. Ha duas povoações deste nome 
em França: uma cidade, capital do departamento das Ar- 
denues, sobre o Meuse; e uma villa, cabeça de cantão do 
departamento de Haute-Vienne; nenhuma d'ellas tem nada 
que ver com o rio Oise, apesar do que diz o auctor. 

Cit. a pag. io8. 

Messia (D.). V. Lemos (Conde de. . .). 
Cit. a pag. 204. 

Meulan (Mehun ?). Cabeça de cantão no departamento 
de Seine-et-Oise, situada na margem direita do Sena, poucos 
kilometros a jusante da confluência do Oise. Antigamente 
fortificada, Meulan era uma das principais povoações do 
Vexin-français. 

Cit. a pag. iiS. 

Meun-sobre-o-Loere, é certamente Meung-sur-Loire ou 
Méhun-sur- Loire, na margem direita d'este rio a jusante de 
Orléans, cabeça de cantão no departamento do Loiret. 

Cit. a pag. 125. 

23 



— 338 — 

MicHAEL Angeio é Miclielãngelo Bitonaroíti, archítecto, 
esculptor e pintor notabilissimo, que floresceu em Itália no 
fim do século xv e nos três primeiros quartéis do xvi (n. em 
1474, m. em i563); natural da Toscana foi altamente apre- 
ciado por Lourenço de Medíeis, o Magnificente, tendo depois 
da morte d'este seu generoso amigo e protector ido para 
Roma, onde os papas Júlio II, Leão X, Paulo III e Júlio III 
lhe permittiram dar largas ao seu variadíssimo talento e reali- 
zar as suas obras immoriaes, a todas as quaes sobresahe a 
basílica de S. Pedro. Tendo trabalhado muito pouco para 
França, não garantimos que em Richelieu houvesse obras 
suas. 

Git. a pag. 128. 

Miguel de Vasconceli.os, secretario d'estado junto da 
duqueza de Mantua, regente de Portugal em nome de Fi- 
lippe IV, profundamente detestado em consequência das suas 
exacções e violências; foi a única victima da revolução de 
I de Dezembro de 1640, morrendo ás mãos dos conspira- 
dores quando estes se apossavam da secretaria d'estado. 

Git. a pag. 56. 

MiLET (D. Gennão) é Simon-Germain Millet, benedictino 
francez (i 57 5- 1547) auctor de (inter alia) Le Trésor Sacré, 
ou inventaire des Sainies reliques et autres précieux joyaux 
de 1'église et du trésor de Saint-Denys (Paris, i638). 

Git. apagg. 89 — 91. 

MiRON, antes Myron, celebre estatuário grego, contempo- 
râneo de Phidias, que viveu no iv século antes de Ghristo. 
Git. a pag. 85. 

Mobile (Dom Vincelo.. .), não encontrámos noticia d'este 
agente do Collector, a que Franco Barreto se refere e cujo 
nome deve estar alterado; é de suppor que Vincelo seja Vin- 



— 339 — 

cen^o, quanto ao apellido não podemos formular nenhuma 
hypothese fundamentada. (V. Colleitor). 
Cit. a pag. 52. 

MoNCEAUx, actualmente Monceau; era ao tempo da em- 
baixada uma pequena aldeia, ao N. O. de Paris, onde havia 
um bello parque real. Hoje o parque é um jardim publico e 
a aldeia um dos melhores bairros da capital da França. Igno- 
ramos porque o auctor lhe chama Monte-de- Aguas. 

Cit. a pag. 122. 

MoNTARGis, hoje sub-prefeitura no departamento de Loirei, 
outr'ora principal povoação da região conhecida pelo nome 
de Gatinais, que fazia parte da província de Orléans (Orléa- 
naisj. 

Cit. a pag. 48. 

MoNTBAzoN (Duque de. . .), é Hercule de Rohan, casado 
(em 1628) com Marie de Bretagne, filha de Claiide de Bre- 
tagne, conde de Vertus. Este duque morreu em 1654 e a 
duqueza em lõSy; quanto ao príncipe de Guémené (e não 
Gumiinée) deve ser o filho primogénito e successor do mar- 
quez, que usaria o segundo titulo da casa. 

Cit. a pag. 201. 

MoNTMELiÁo é Montmeillan, povoação do departamento do 
Isère, na margem esquerda d'este rio, pouco a montante do 
ponto em que elle sahindo da Sabqyj, ainda não annexada, 
entrava no Delphinado e portanto na França. 

Cit. a pag. 106. 

MoNTiGNV (Commendador de...), commandante da náo 
almirante a Virgem, na armada do marquez de Bré^^é. (V. 
Quadro Elem., t. iv, p. i, pag. 44). É de notar que Franco 
Barreto menciona também uma capitania sem indicar o seu 



. — 340 — 

nome, designação que se não usava na marinha franceza, em- 
quanto o Quadro Elem. allude a náo almirante e vice-almi- 
rante; não lográmos conciliar as suas indicações. 
Cit. a pag. 143. 

MoNTjouANT (Claude de.. . Baron de CornauJ, que Franco 
Barreto designa por Monsiur de Monjovente, Barão, deve ser 
o terceiro inscripto na Lista dos coronéis . . . com o nome de 
Cláudio de Montjouuent Baron de Cornau {Hista. do Exo., 
Provas, t. I, pag. Soy); no Rol das pessoas que vieram de 
França. .. lê-se sob o n.° 10 o seguinte nome : Ms^. Le baron 
de Mouinuant con (sic) Verteman, accrescentando-se que 
trouxe dois creados, e alludindo a uma carta de M^. Trão de 
Hão (Fernandes de Lião) ; diz-se mais que é um bom mestre 
de campo de cavallaria {loc. cit., pag. 3 10); no extracto da 
patente, que é de 26 de Setembro de 1641 {loc. cit., pag. 3 18) 
é designado por Cláudio Montjouuant Baron de Corno, e 
destina-se-lhe um regimento de cavallaria ligeira. De outras 
noticias publicadas também pelo Sr. Christovam Ayres (t. 11, 
pag. 226 e seg.) deduz-se que este official se conservou em 
Portugal até 1648, tendo feito ainda a campanha d'esse anno. 

Cit. a pag. 147. 

MoNTPENSiER (Duquc^a de...), é Anua Maria Lui^a de 
Orleans (n. em 1627), filha de Gastão, duque de Orleans (n. 
em 1608), irmão de Luíf XIII, e de sua primeira mulher 
Maria de Bourbon, duqueza de Montpensier, de quem Anna 
Maria herdou titulos e bens. Esta duqueza de Montpensier 
era geralmente designada por Mademoiselle ou La Grande 
Mademoiselle, e ocupava, na ausência de seu pae, o primeiro 
legar na corte (m. em 1693). 

Cit. a pagg. 55 — 100 — 201. 

MoNTPESAT ou Montpe^at, montanhas onde o rio Loire 
tem a sua origem e que fazem parte do massiço das Céven- 



— 341 — 

nes, que separa a bacia do Rhodano da vertente do Atlân- 
tico. 

Cit. a pag. 3g. 

MoRETTo (Conde de...J, cujo nome Franco Barreto es- 
creve Morete, é manifestamente o representante do duque de 
Saboya, que vemos mencionado na correspondência deMj^^a- 
rins só por conde de Moretto, sem indicação do titulo de 
marquez de Chiusa que o auctor lhe attribue; quanto á desi- 
gnação de Mordomo de Madama, refere-se muito natural- 
mente Franco Barreto ao cargo de corte que o embaixador 
teria junto de Madame Royale, irmâa de Lui^ XIII, duqueza 
viuva de Saboya e regente do ducado na menoridade do 
filho. (V. Madama). 

Cit. a pagg. 52] — 86. 

MoRLAYE (Henri de la. . .), cavalleiro de Malta, foi muito 
recommendado aos nossos embaixadores pelo conde de Bru- 
lon, de quem era muito parente. Figura na Lista dos coronéis 
e capitães a pag. 3o8, e no Rol a pag. 3io com o n." 17, a sua 
patente é de 26 de Setembro de 1641 e para o regimento de 
dragões de Maceres, a que parece vir já destinado (Hista. do 
Exo., t. i, Provas). Dos documentos publicados no t. n, 
(pag. 181 e segg.), parece, porém, deduzir-se que H. de la 
Morlaye era irmão d'um Cavalleiro de Malta, que morreu, 
e a quem succedeu como capitão de cavallaria no regimento 
de Chantereine. Não sabemos como conciliar a Lista, o 
Rol, a patente e os documentos de 20 de Abril de 1643 
{Provas, t. II, pag. 182 e segg.); seria preciso para averiguar o 
caso confrontar vários documentos, coisa que não tivemos 
occasião de fazer. 

MosTREL (M.r de. ..), não encontramos este nome men- 
cionado em parte alguma. 
Cit. a pag. 146. 



— 342 — 

MoTTA, La-Mothe-Saint-Héraye, cabeça de cantão no de- 
partamento de Deux-Sèvres, situada na margem direita de 
Sèvre-Nioriaise a montante de Niort. 

Cit. a pagg. 25 — 26 — 129. 

MoTTE AiGRON (Scnhor dela.. .), deve ser Jacqiies Aigron, 
senhor de la Mothe, capitão de cavallaria e conselheiro da 
cúria presidiai (sic) da Rochella, um dos que foram cumpri- 
mentar os nossos embaixadores. (V. P.^ Arcè^e, Hisioire de 
la Rochelle, t. 11, pag. 542). 

Cit. a pagg. 16 — 17. 

MussY, Mussy VEvêque, ou Mussy-sur-Seine, cabeça de 
cantão no departamento do Aube; fica na margem esquerda 
do Sena, junto ao ponto onde este rio, sahindo do departa- 
mento de Cote d'Or, entra no do Aube. 

Cit. a pag. 107. 

Nemours (Duque de. ..) é Carlos Amadeu de Saboya, (n. 
em 1624), filho de Henrique I de Saboya, duque de Nemours, 
(n. em 1572), casado (em 1618), com Anna de Lorena, filha 
única do duque d'Aumale; e fallecido em i632. Tendo o 
duque Carlos Amadeu casado com Isabel, duqueza de Ven- 
dome, bis-neta de Henrique IV c de Gabriella d'Estrées, d'este 
matrimonio nasceu Maria Francisca Isabel "de Saboya, co- 
nhecida em França por M.^iie de Nemours, que foi rainha de 
Portugal. Por morte de Carlos Amadeu (m. em i652), suc- 
cedeu-!he como duque de Nemours seu irmão Henrique II 
(n. em 1625); que casou (em 1657) com M.eile de Longueville 
(Maria d'Orleans Longueville). 

Cit. a pagg. 104 — 199. 

Nevers (Princei^as Maria e Anna de. . .), devem ser as 
filhas de Carlos de Gon^aga-Clèves (n. em 1 58o), que herdara 
de sua mãe, Henrieite de Clèves, o titulo de duque de Nevers; 



— 343 — 

fora elle feito duque de Mantua (em 1C27) e morreu em 1637. 
Só este podia ser designado, em 1641, por veterano duque; 
pois o duque Carlos III (n. em 1629), tinha apenas 12 annos 
de edade, regendo em seu nome o ducado a duqueza viuva. 
O palácio de Nevers (a que se faz referencia a pag. 119) era 
naturalmente habitado pelas duas princezas, mencionadas a 
pag. 167. 

Cit. a pag. 1 19 — 167. 

NiORT, cidade capital do departamento de Deux-Sèvres, 
situada na margem esquerda de um dos rios que lhe dão o 
nome, a Sèvre-Niortaise. 

Cit. a pagg. 25 — 26. 

NojON é Noyon, cabeça de cantão no departamento do 
Oise, perto do rio, embora não banhada por elle, 22 kil. a 
N. E. de Compiègne. É uma antiquíssima cidade que foi du- 
rante algum tempo capital do império de Carlos Magno, e 
onde foi coroado Hugo Capeio. 

Cit. a pag 108. 

NojoN (Conde de, . .). Não encontrámos mencionado se- 
melhante titulo ; havia sim o titulo de conde de Noyon, mas 
esse era inherente ao cargo de bispo da diocese, bem como 
a dignidade de Par; o bispo-conde de Noyon era um dos 
raros pares ecclesiasticos que havia em França no antigo 
regimen. 

Cit. a pag. 83. 

Normandia, uma das mais ricas e mais importantes pro- 
víncias da França, que comprehendia os actuaes departa- 
mentos de Seine In/érieure, Eure, Calvados, Manche e uma 
parte do Orne. 

Cit. a pag. 107. 



-344- 

Noronha (D. Garcia de. . .J, sobrinho de Affonso de Albu- 
querque, acompanhou o tio nas suas mais gloriosas con- 
quistas mostrando valor, energia e aptidões de commando. 
Regressando ao reino foi mais tarde nomeado para governar 
a índia, succedendo a Nuno da Cunha. Desembarcando alli 
quando estava prestes a terminar o cerco de Diu, ainda 
partiu para soccorrer os defensores, mas chegou depois de 
levantado o cerco. Fez um mau governo, dando provas de 
grande ambição pessoal, que o levava a sacrificar em bene- 
ficio próprio os interesses que lhe estavam confiados. 

Cit. a pag. i5. 

Nova (o paul de). Não pudemos encontrar indicação al- 
guma acerca de semelhante paul. 
Cit. a pag. 107. 

NovAiLLER (Abbade de.. .), mencionado por Franco Bar- 
reto como tendo acompanhado o marquez de Bré\é, é 
pessoa cujo nome não encontramos no Rol das pessoas que 
vieram na armada, publicado na {Hisf^. do Exo., Provas, 
t. I, pag. Sog), nem em qualquer outra lista ou documento. 
De resto o nome deve estar adulterado, podendo ser Noailles 
ou Navailles, que são dois apellidos conhecidos, e muito 
illustre o primeiro. 

Cit. a pag. 146. 

NoYERS (Mr. de. . ) é François Sitblet de Noyers, que fora 
feito intendente de finanças em 1626 e passara a secretario 
d'Estado em i636, cargo que ainda conservava em 1641. Em 
1643 foi substituído por Michel le Tellier e morreu em 1645. 
Mai^arin, receando o seu prestigio e a sua possível influencia 
no animo da Rainha, fez quanto poude para afFastar da corte 
este perigoso rival. 

Cit. a pag. 202. 



— 345 — 

NuESTAT DE AusTRiA é Neustãdt de Áustria ou Wienerish- 
Neusíadi para onde, segundo Franco Barreto, foi levado o 
infante D. Duarte, irmão de D. João IV; mas n'isso enganou-se, 
pois está provado, segundo Ramos Coelho, que o Infante 
nunca lá esteve. 

Cit. a pag. 79. 

Nunes da Costa ^Duarte. . .), que era cônsul de Portugal 
em Hamburgo, foi um dos agentes que mais dedicadamente se 
empenharam na libertação do infante D. Duarte, como pode 
vêr-se pela sua correspondência com o conde da Vidigueira, 
tão frequentemente citada por Ramos Coelho na sua Historia 
do Infante D. Duarte. Deve ser este mesmo um Duarte Nunes 
mencionado n'uma carta de Gaspar Fernandes de Lião para 
Christovão Soares d' Abreu, como devendo escrever aos em- 
baixadores. 

Cit. a pag. 170 — 207. 

Oesa, Oise em francez, Oesis ou Isara em latim ; rio que 
nasce em Sélogne, na Bélgica, nos confins do departamento 
do Aisne, que atravessa, passando em Guise e La Fere; de- 
pois entra no departamento a que dá o nome, passa em 
Compiègne, e vai lançar-se no Sena em Conflans, departa- 
mento de Seine-et-Oise, depois de ter regado Pontoise. 

Cit. a pagg. 106 — 107 — 108. 

Oliveiros (Pêro de...), era o interprete da embaixada, 
como tal por vezes citado por Franco Barreto; mas nem o 
nosso auctor dá sobre elle qualquer indicação nem temos a 
seu respeito noticia alguma. O Monteiro-mór e o seu com- 
panheiro não entendiam o francez (vide pag. 17), o que acon- 
tecia a quasi todos os embaixadores portuguezes dos primeiros 
annos da Restauração. Francisco de Sousa Coutinho apren- 
deu a lingua na Hollanda, António de Sousa de Macedo es- 
crevia em francez quando estava em Inglaterra, mas não 



— 346 — 

consta onde o aprendesse. Nas suas Advertências, Christovão 
Soares d' Abreu aconselhava ao Conde da Vidigueira que se 
applicasse á lingua franceza «pêra entender tudo o que lhe 
dizem e manda dizer, porque estar ouvindo falar sem entender 
aquillo mesmo que a mim me importa, alem de ser cousa 
mui fria, não deixa de parecer falta» vide supra, pag. i8i. 
Cit. a pagg. 6 — 34 — 63. 

Olona, poderia corresponder a Olonne, velho burgo fortifi- 
cado da costa de França no departamento da Vendée; mas é 
mais provável que se refira a uma cidade marítima que lhe 
fica a 5 kil. de distancia, Sables d'Olonne, actualmente sub- 
prefeitura, a 67 kil. a N O de La Rochelle. 

Cit. a pag. 10. 

Orcheza, Orchè^e, pequena povoação a N O de Blois, que 
não sabemos porque merece ao auctor as honras de ser ci- 
tada. 

Cit. a pag. 42. 

Orliens, Orléans, importante cidade demais de 60.000 ha- 
bitantes, antiga capital da província e governo de Orléanais, 
actualmente capital do departamento de Loiret; fica situada 
na margem direita do rio Loire. 

Cit. a pagg. 34 — 45 — 46 — 49 — 1 24. 

0'Reilly (Hugh) era um oflficial irlandez, cujo nome 
tanto Franco Barreto como o auctor do Rol das pessoas 
que vieram de França com a embaixada escrevem Aurélio 
{HistA doEx.o, Provas, t. i, pag. 3 16); ao passo que na Lista 
dos Coronéis e Capitães e em todos os documentos ofBciaes 
que o Sr. Christovam Ayres cita ou transcreve, vem escripto 
Orelio {Hist.a do ExP, Provas, t. i, pag. 3o8; t, 11, pag. 209, 
5i2 e 5i3; t. iii, pag. 425 e seg.). Tudo nos leva a crer que 
o seu verdadeiro nome seja o que indicamos, por ser um 



— 347 - 

apellido muito conhecido da Irlanda. Sabemos que veiu para 
Portugal com sua mulher e mais sete pessoas de família na 
armada do marquez de Bré^é, que teve patente de coronel 
de infanteria em 26 de setembro de 1641, e que era recom- 
mendado pelo rei de França e pelo cardeal Richelieu. A 
principio destinado a servir no Alemtejo (Novembro de 1641), 
foi logo mandado para Traz-os-Montes (24 de janeiro de 
1642), levando comsigo os officiaes nomeados para o seu 
terço e ordem ao governador da Província para que organi- 
zasse este sem detença ouvindo sempre o conselho do coronel, 
que devia ser homem experimentado. 

Nenhum outro documento conhecemos a seu respeito 
senão um parecer do Conselho de Guerra de setembro de 
i655 [Hisf. do Ex.o., Provas, t. iii, pag, 425) acerca da pre- 
tenção que 0'Reilly manifestara, de vir servir novamente no 
exercito com o posto de Mestre de Campo, «que largou por 
acudir a seu Pay natural quando começarão as guerras em 
Inglaterra». A pretenção não foi deferida mas foi-lhe abonada 
uma ajuda de custo para poder regressar a França. 

Cit. a pag. 147. 

Orpheo, e outros personagens da mythologia grega, ou da 
historia mais ou menos fabulosa da Grécia, pareceu-nos inútil 
identificaros ou dar a respeito d'elles qualquer indicação, 
porque nada teem directamente com a nossa embaixada. 

Cit. a pag. 61 e p assim. 

Parabère, Conde, Visconde, Mademoiselle, de. .. V. Bo- 
dean; quanto á Condessa, V. Pardaillan. 
Cit. a pag. 27 e passim. 

Pardaillan d'Armagnac (Catharina, Condessa de.. ), cujo 
nome Franco Barreto escreve Pardilhan, e Soares d'Abreu 
Pardaillan e Pardelhan, era também, pelo seu casamento 
com Henrique de Baudéan, condessa de Parabère e marqueza 



— 348 — 

de la Mothe Saini-Héray.e. Foi por elles e em sua casa 
luxuosa e bizarramente hospedada a embaixada do Monteiro- 
mór tanto na ida como no regresso. 
Cit. a pagg. 27 e segg. — 189. 

Paris (Chevalier de.. .J é o Cavaleiro de Pario, Malíe^, 
que Franco Barreto menciona e com efifeito commandava a 
náo o Cysne na armada do marquez de Brézé. (V. Quadro 
Elem., t. IV, pag. 44). 

Cit. a pag. 144. 

Paronna, Péronne, sub-prefeitura do departamento do 
Somme, situada na margem direita d'este rio a montante de 
Amiens. Cidade muito antiga e fortificada, nunca foi tomada, 
apesar de ter passado ao dominio dos duques de Borgonha 
no século xv, depois do que voltou ao dominio da França. 

Cit. a pag. io5. 

PARRHASio,'celebre pintor grego que floresceu uns 420 annos 
antes de Christo, contemporâneo e rival de Zeuxis. 
Cit. a pag. 85. 

Patê deve ser Paíay, cabeça de cantão do departamento 
de Loireíf nas terras de Beauce, que faziam parte da antiga 
provincia de Orléans. Foi, com effeito o logar d'uma celebre 
batalha, que se realizou a 18 de junho de 1429, e na qual os 
francezes, conduzidos por Joanna d' Are e o celebre Dunois 
(João, conde de Longueville e de Dunois, filho bastardo de 
Z,MÍf, duque d'Orleans) desbarataram os inglezes e fizeram 
prisioneiro Talbot, um dos seus principaes caudilhos. 

Cit. a pag. 46. 

Penha de França (Nossa Senhora da. ..). A casa referida 
é a igreja do mesmo titulo, situada num monte sobranceiro 
á cidade de Lisboa. Estava então a cargo dos Eremitas de 



— 349 — 

N. S. da Graça; e alli se guardava uma imagem milagrosa da 
Virgem. (Vide Corographia Portuguesa do P.e Carvalho da 
Costa, t. III, pag 419). 
Cit. a pag. 9. 

Pepino- o-Breve, filho de Carlos Martel, succedeu a seu 
pae, com o mesmo titulo de maire du palais, no governo de 
Neustria e de Borgonha (em 741), e mais tarde, por desistên- 
cia de seu irmão Carlomano (em 747) também no de Austrasia. 
Foi finalmente, depois de ter promovido a deposição de Chil- 
derico III, coroado rei da França (em ySa), fundando assim 
a dynastia dos Carlovingios (m. em 768). 

Cit. a pag. 95. 

Philippe n, rei de França, mais conhecido na historia por 
Filippe-Augusto (n. em ii65, rei em 1180, m. em i223) e ce- 
lebre pela cruzada que conjuntamente com Ricardo Coração 
de Leão, rei de Inglaterra, elle organizou e commandou. Foi, 
com effeito, como diz Franco Barreto, avô de S. Lui^, rei 
de França. 

Cit. a pagg. 92 — 109 — III — 118. 

Philippe IV, rei de França, mais conhecido por Philippe- 
le-Bel (n. em 1268), era filho de Filippe III e Isabel de Ara- 
gão. Casando com Joanna de Navarra, filha e herdeira de 
Henrique I, rei de Navarra, que herdou esta coroa, foi rei de 
Navarra, em 1284, e rei de França, por herança de seu pae 
em 1285; morreu em i3o5. 

Cit. a pagg. 43 — 48 — 1 18. 

Picardia, Picardie, antiga província que comprehendia o 
actual departamento do Somme e parte do Aisne e tinha por 
capital Amiens. Successivamente dominada por Inglaterra, 
ou incorporada nas Flandres e no Ducado de Borgonha, foi 



— 35o ~ 

definitivamente reconquistada por Henrique IV de França 
no fim do século xvi, sobre os hespanhoes. 
Cit. a pagg. io3 — 104 — io5. 

PiNEDA (Juan de...) é um escriptor hespanhol que publicou 
La Monarquia ecclesiastica ó Historia universal dei Mundo, 
em i588 (Salamanca, 14 vol.). 

Cit. a pag. 45. 

PiCQUENY, Picquigny, cabeça de cantão no departamento 
do Somme, situada na margem esquerda d'este rio, a jusante 
de Amiens e a montante de Abbeville. 

Cit. a pag. io5. 

PiLiERS é nome que não encontramos mencionado em 
parte alguma; mas no Rol das pessoas que vieram na armada 
lê-se, sob o n.° yS, Boulieres sem mais nada, e não haverá 
difficuldade em acreditar que, ouvindo mal ou escrevendo 
mal, o redactor do Rol confundisse um nome com o outro 
{Hist.a do Exo., Provas, t. i, pag. 3i5). 

Cit. a pag. 146. 

PiviÉ deve ser Pithiviers, sub-prefeitura no departamento 
do Loirei, situada no caminho ainda hoje seguido entre Fon- 
tainebleau e Orléans, na margem esquerda do Essonne. 

Cit. a pag. 124. 

Plínio, o antigo ou o naturalista, é um dos mais notáveis 
escriptores scientificos da antiguidade, podendo dizer-se que 
tudo quanto conhecemos do que no seu tempo se sabia de 
geographia e de sciencias naturaes a elle o devemos, com- 
quanto se perdesse uma grande parte dos seus livros. Nas- 
cido em 23 da nossa era, morreu em 79 ao observar uma 
erupção do Vesúvio. 

Cit. a pag. 85. 



— 35i — 

Plutarcho, notável escriptor latino, cujos paralellos entre 
as vidas dos homens illustres da Grécia e de Roma nunca 
foram excedidos. O nosso auctor cita-o muito frequente- 
mente; assim a pag. 21, a propósito da vida de Rómulo, o 
trecho de Plutarcho a que se refere Franco Barreto é o se- 
guinte: «Inde posteris quoque morem perhibente traditum ut 
propinquos feminae et viros suos salutent osculo : quod illae, 
post ciassem inflammatam, deprecantes viros et iram eorum 
mulcentes, ita eos salutavissent et amplexi essent». Plutarchi 
Chaeronensis Omnhim quae exstant operum, pag. 18 (Paris, 
1624). E a pag. 35 refere-se ao seguinte: «et Anaxágoras, 
honoribus qui offerebantur recusatis, postulavit et ea qua 
decisisset e viris die pueris vocatio scholarum e dicendi con- 
cederetur». Plutarchi Precepta geretidae reipublicae em 
Plutarchi Chaeronensis Omnium quae exstant operum, t. 11, 
pag. 820 (Paris, 1624). 

Cit. a pag. 21 — 35 — 128. 

PoETÚ é o Poitou, antiga provincia e antigo governo de 
França, que tinha por capital Poitiers e se dividia em Alto e 
Baixo-Poitou, comprehendendo aquelle os departamentos de 
Deux-Sèvres e de Vienne, e este a Vendée; fazia parte da 
antiga Aquitania. 

Cit. a pagg. 25 — 33 — 127. 

Poitiers, também Potiers e Poetiers, muito antiga e im- 
portante cidade, capital da antiga provincia de Poitou e do 
actual departamento de Vienne; sob muitos titulos notável, 
populosa e culta, é uma das cidades que maiores recordações 
contém na historia da França. 

Cit. a pagg. 26 — 3i e segg. 

Pont-Antoni, Aniony ou Pont d'Antony, é uma pequena 
povoação do departamento do Sena, i3 kilometros ao S. de 
Paris, próximo de Sceaux, com uma ponte sobre o Bièvre, 



— 352 — 

na estrada de Orléans a Paris por Étampes, que se encontra 
pouco antes de chegar a Bourg-la-Reine. 
Cit. a pag. 49. 

Ponte de Arca, Pont-de-l'Arche, cabeça de cantão do de- 
partamento de Eure, fica na margem esquerda do Sena, pró- 
ximo e a jusante da confluência do Eure. Muito antiga 
povoação dá-lhe, o nome a ponte sobre o Sena. 

Cit. a pag. 107. 

Ponte de Ruão, deve ser le Poní-de-Ruan, pequena po- 
voação na margem esquerda do Indre, com uma ponte sobre 
este rio, que fica a meio caminho entre Tours e L'Jle Bou- 
chard, na antiga estrada d'aquella cidade a Richelieu. 

Cit. a pag. i-xj. 

PoNT-DoRMi deve ser Pont de Remy ou Pont-Remy, po- 
voação pouco importante na margem direita do rio Somme, 
próximo de Abbeville (departamento do Somme). Era logar 
fortificado, decerto por dominar a ponte que lhe deu o nome. 

Cit. a pag. 104, 

PoNTERÓ é manifestamente Le Portereau-de-Tutel, arra- 
balde de Orléans na margem direita do Loire, unido á cidade 
por uma ponte e hoje conhecido por faubourg-Saint-Mar- 
ceau. 

Cit. a pag. 44. 

PoNTHiú deve ser Ponthieu, região da baixa Picardia, pró- 
ximo da embocadura do Somme, que tinha por capital Abbe- 
ville, e foi constituída como condado no século x. No se- 
guinte passou á casa de Alençon, e mais tarde á Inglaterra e 
e á Borgonha, ficando definitivamente em poder da França por 
morte de Carlos o Temerário (1477). 

Cit. a pag. io5. 



— 353 — 

PoNTOESA, Pontoise, sub-prefeitura do districto de Seine- 
et-Oise, situada na confluência do Viosne com o Oise, era a 
antiga cidade principal do Vexin-Français, região da He-de- 
France, a N O de Paris, comprehendida^entre a margem di- 
reita do Oise e a margem direita do Sena. Cidade antiga e 
importante, foi por vezes habitada pela côrie, ainda no sé- 
culo XVII. 

Cit. a pag. io6 — io8. 

Portalegre (Conde de. . .), é incontestavelmente o quarto 
conde, D. João da Silva, filho de D. Manrique da Silva, fidalgo 
ao serviço da Hespanha mas de origem incontestavelmente 
portugueza, a quem Filippe II deu o titulo de conde de Por- 
talegre em recompensa dos serviços que lhe prestara na con- 
quista de Portugal e por ser sua mulher, D. Filippa da Silva, 
filha e herdeira do "h." conde de Portalegre, D. Álvaro Gomes 
da Silva, neto do primeiro conde. D. João da Silva foi 
também mordomo mór de Portugal por Filippe II, e como 
tal figurou nas cortes de Thomar ; morreu por 1601. 

Cit. a pagg. 172 e 172 n. 

PoRTENOiRE (Mr. de . . .), cujo Homc Franco iBarreto escreve 
Deportenoire, era o commandante de uma náo que o nosso 
auctor designa por Coiqogallo (sic) e devia chamar-se le Cocq 
(o gallo). (V. Quadro Elem., 1. 1, pag. 44). 

Cit. a pag. 144. 

PoRTEPiLA, Le Port-de-Pilles, pequena localidade na mar- 
gem esquerda do Creuse, poucos kilometros a montante da 
confluência d'este rio com o Vienne. 

Cit. a pag. 38. 

Portugal (D. Miguel de. , .), bispo de Lamego e embai- 
xador junto da Santa Sé, era irmão do conde de Vimioso, 
que depois foi marquez de Aguiar. Recebera elle instrucções 

23 



-- 354 — 

para passar por Paris e sollicitar o appoio da França junto 
do Papa, bem como as necessárias facilidades para poder 
realizar a sua viagem. Foi muito bem recebido, encontrando 
em Richelieu todo o auxilio que as circunstancias permittiram. 
Cit. a pagg. 86 — loi — 102 — io3 — 117 — lao — 206 — 2i5. 

Praxiteles, notável esculptor grego, que os críticos col- 
locam logo abaixo de Phidias, que o antecedeu na arte e o 
excedeu na celebridade (n. em 36o, m. 280 ap. antes de J. C). 

Cit. a pag. 85. 

Príncipe de Hespanha, no tempo de el-Rei D. Sebastião, a 
que se refere Soares[d'Abreu, deve ser D. Carlos (n. em i545, 
m. em i568), filho primogénito de Filippe II; porisso que este 
foi rei de Hespanha em i556, quando D. Sebastião tinha 
2 annos, e Filippe III nasceu no próprio anno de 1578, em 
que morreu o rei de Portugal. 

Cit. a pag. 195. 

Príncipe (O). V. Theodosio (D.). 

Ptolomeu Augustoritum, é de suppor que Franco Barreto 

quizesse referir-se á Geographia de Ptolomeu, sábio astró- 
nomo e geographo do segundo século da nossa era, e ao que 
elle tenha dito dos pictavos ou pictões, habitantes da região 
de Poitiers antes da conquista realizada pelos romanos. 
Cit. a pag. 3i. 

Rabam. V. Universidade. 
Cit. a pag. 116. 

Radolpho (Joseph de...). Não foi possível identificar 
este individuo. Guillandeau, (cit. a pag. i58), não relata a 
conversão de nenhum protestante durante a estada dos em- 
baixadores na Rochella. 

Cit. a pagg. 18 a 20. 



— 355 — 
Raynha (de França). V. Anna d' Áustria. 
Raynha mãe. V. Maria de Medicis. 

Remes, Reims, antiquíssima cidade, sede archiepiscopal 
desde remotissimos tempos, notável pela sua cathedral, admi- 
rável monumento de architectura onde eram ungidos os reis 
de França. 

Git. a pagg. 45— 47. 

Remigioux (Zenard de...), que Franco Barreto designa 
por Senhor de Remigius, era um tenente particular da cúria 
presidiai da Rochella, que vem mencionado pelo P.^ Arcè^e 
na Histoire de la Rochelle, (t. 11, pag. 540). Foi um dos encar- 
regados de ir cumprimentar os nossos embaixadores. 

Git. a pag. 16 — 17. 

Rey de Castelui. V. Filippe IV. 

RiCHELiEU, cidade, cabeça de cantão no departamento de 
Indre-et-Loire; de simples aldeia foi elevada a cidade ducal 
pelo cardeal Richelieu, que alli construiu a explendida resi- 
dência descripta pelo auctor e recentemente restaurada, depois 
de ter estado quasi em ruinas. 

Git. a pagg. 127 — 128 — lag. 

Richelieu (Armand-Jean-Duplessis, cardeal-duque de. . .), 
cujo nome Franco Barreto escreve Richieliu, Rucheliú e Ro- 
chilieu, foi duque de Richelieu e de Fronsac, cardeal da 
Santa Sé e par de França; (n. em i585) foi feito bispo de Luçon 
em 1607, secretario d'estado em 1616, cardeal em 1622 e pri- 
meiro ministro pouco tempo depois, tendo exercido esse cargo 
com poderes quasi discricionários até á sua morte, em De- 
zembro de 1642. Tendo sido um dos maiores estadistas que 
tem tido a França, foi também um dos mais devotados pro- 



— 356 — 

pugnadores da nossa independência, que sem elle talvez não 
tivesse podido manter-se. O palácio que o cardeal Richelieu 
mandou construir e a que o nosso auctor se refere é o Palais 
Royal, que elle legou a Luiz XIII e ainda hoje existe. 
Cit. a pag. i3 Q p assim. 

Roberto II, rei de França, era filho de Hugo Capelo, a 
quem se seguiu no throno (em 996) ; succedeu-lhe Henrique I, 
que por sua morte (em io3i) foi rei de França e duque de 
Borgonha. Era egualmente filho de Roberto II, outro Ro- 
berto, duque de Borgonha por cedência de Henrique seu irmão 
primogénito, e tronco dos duques da primeira raça. Foi este 
Roberto avô do conde D. Henrique, de quem directamente 
descendem os reis de Portugal. 

Cit. a pag. 16. 

Rocha do Clin, La Roche du Glun (f), pequena povoação 
da margem esquerda do Rhodano, perto da^confluencia do 
Isère, a que talvez o auctor queira alludir. 

Cit. a pag. 106. 

RocHELLA, La Rochelle, capital do departamento de Cha- 
rente-Inférieure; antiga cidade marítima fortificada, que até 
ao século xvii teve uma importante historia militar e politica, 
principalmente com respeito ás luctas religiosas; d'ella de- 
pendiam as terras de Aunis e Saintonge e as praças fortifi- 
cadas de Rochefort e Brouage. 

Cit. a pagg. 9 a 25 — 86 — 101 — io3 — 129 — i3o. 

RocHEFOUCAULD {Duque de la...), que Soares d' Abreu 
chama duque de Rochefocau, era o chefe de um familia illus- 
tre, a quem succedeu no titulo (em i65o) Francisco VI de la 
Rochefoucauld, seu filho, primeiro conhecido por Principe de 
Marcillac, que foi um notável escriptor. O titulo de Estissac 
andava na familia la Rochefoucauld e n'ella se conservou ; não 



— 357 — 

pudemos encontrar noticia alguma de irmão do duque que 
d'elle usasse em 1641. 
Cit. a pag. i85. 

RoísiÈREs (M.r de...) é Étienne Bault, ou Boule, Sr. de 
Rosières, que na Lista dos coronéis e capitães é designado 
como capitão do regimento de Gravelines, chamando-se-lhe 
Estevão Boule 5'". de Rosières (V. Hist.<^ do Ex.o^ Provas, 
t. I, pag. 307); no Rol dos que vieram, etc, tem o n." 12, por 
nome Rosières e a indicação de que deixou uma companhia 
de infanteria para vir servir em Portugal^(/oc. cit., pag. 3 10); 
a sua patente, de 26 de Setembro de 1641, destina-o ao regi- 
mento de Gravelines e chama-lhe Estevam Bault, S.r de 
Rosières [loc. cit., pag. 319). Nada mais consta a seu res- 
peito. 

Cit.|a pag. 147. 

Roldão, em francez Roland, em italiano Orlando, é o heroe 
mais famoso das canções de gesta e dos romances de caval- 
laria, sobrinho 'de Carlos Magno e um dos seus mais decan- 
tados guerreiros. Veiu a morrer em Roncesvalles, (em fran- 
cez Roncevaux), nos Pyrineus, em árduo e glorioso combate 
depois de ter chamado inutilmente"; os seus companheiros 
d'armas com os sons da sua trompa de guerra ; é a esse len- 
dário instrumento que se refere o auctor, sem] decerto o ter 
visto. 

Cit. a pag. 94. 

Romãs é Romans, cidade na margem direita do hère, cabeça 
de cantão do departamento de Dróme. 
Cit. a pag. 106. 

Rosna, Rhodano em portuguez, em francez Rhône é um dos 
maiores e mais importantes rios da França; nasce na Suissa, 
nos montes do Valais, forma o lago Léman ou de Genebra, 



— 358 — 

atravessa Lyão onde se lhe junta o Saône, passa em Vienne, 
Vcdence, Avinhão e Aries, dividindo-se depois em diíferentes 
braços antes de desembocar no mar Mediterrâneo. 
Cit. a pag. io6. 

RoxESURiON é LíZ Roche-sur-Yon, capital do departamento 
de Vendée, que foi também oííicialmente conhecida em diver- 
sas épocas por Bourbon- Vendée, Napoléonville, Napoléon-sur- 
Yon e Napoléon-Vendée; actualmente é designada pelo seu 
nome primitivo. 

Cit. a pag. 26. 

Ruam é Rouen, antiga e importante cidade na margem di- 
reita do Sena, actualmente capital do departamento de Seine- 
Inférieure. Era já cidade notável no tempo dos romanos; con- 
quistada pelos normandos no século ix tornou-se capital do 
ducado de Normandia, cuja sorte naturalmente seguiu; con- 
quistada aos inglezes no século xiii e novamente tomada por 
elles no século xv, alli foi julgada e justiçada Joanna d' Are 
(em 1431). 

Cit. a pagg. 47 — 107. 

RuBiAC ^M.r de...) é Jacques de Grille, S^. de Rubiac, 
Roubiac, Roliac, ou Bombiac, pois de todas as maneiras vemos 
escripto o seu nome, devendo ser Rubiac, como escreve 
Franco Barreto. Vem mencionado na Lista dos coronéis e 
capitães como capitão do regimento de cavallaria ligeira de 
Montjouant (V. Histfl do Ex.o, Provas, 1. 1, pag. 307), e no 
Rol dos que vieram na armada, com o n.° 2, e com o destino 
que realmente teve (V. loc. cit., pag. Sog) ; a sua patente de 
capitão para o indicado regimento é de 26 de Setembro de 
1641 (V. loc. cit-, pag. 319). Nada mais consta a seu respeito. 

Cit. a pag. 147. 

RuEL ou Rueil é a sede de uma communa do departa- 



-359- 

mento de Seine-eí-Oise, 12 kilometios a O de Paris e 10 a 
NE de Versailles, onde foi construído por Richelieu um 
magnifico castello, que o cardeal habitava com muita fre- 
quência, sobretudo quando a corte estava em St. Germain, 
em cujo caminho fica. 

Cit. a pagg. 67 — 83 a 86. 

Saboya (Príncipe do Sangue de. . .) é Carlos Amadeu de 
Saboya, duque de Nemours (V. Nemours). 
Cit. a pagg. 104 — 199. 

Sadragisello. Parece-nos muito duvidoso este duque de 
Aquitania, avô (diz o nosso auctor) átDagoberto; porque na 
realidade a Aquitania, que fora conquistada aos visigodos 
por Clóvis (em Soy) e incorporada no reino dos Francos, a 
este se conservou reunida até que o próprio Dagoberío a 
separou para a dar, como reino, a seu irmão Cariberto (628). 
Revertendo para a coroa de França (em 63 1) foi constituída 
em ducado, ainda por Dagoberto (63 1), a favor de seu so- 
brinho Boggis. 

Cit. a pag. 87. 

S. AiGNAM, ou antes Saint-Aignan, era com effeito bispo 
de Orleans em 451, por occasião da invasão capitaneada por 
Atiila e parece ter contribuído poderosamente para a defeza 
da cidade; veiu a fallecer em 453. 

Cit. a pag. 48. 

Saint-Ghamond ; sob a designação de Marque^ de Xomum, 
é provável que o auctor se queira referir a Melchior Mites, 
marquez de Saint-Chamond, Saint-Chamont, ou Saint-Chau- 
mont, (pois de todas as maneiras encontramos escripto o seu 
nome), que foi nomeado (em 1643) para succeder a Fonienay- 
Mareuil na embaixada de Roma, mas pouco tempo alli se 



— 36o — 

conservou por não ter sabido oppor-se á eleição de Innocen- 
cio X (V. Chéruel, Lettres de Ma:(arin, 1. 1, passim). 
Cit. a pag. 86. 

Saintonge, região marítima da França que constituía a 
parte occidental do antigo governo de Saintonge e Angou- 
mois, e hoje se acha comprehendida no departamento de 
Charente-Jnférieiire, tendo pelo norte o Aunis, o Angoumois 
pelo oriente e a Guiena propriamente dita pelo sul. 

Cit. a pag. 29. 

Santa Elena, SM Helena. Quer decerto o auctor refe- 
rir-se á ilha d'este nome, isolada no Oceano, entre Africa e 
America, único ponto de abrigo n'aquellas remotas paragens. 
Depois do captiveiro de Napoleão teria a referencia um sen- 
tido absolutamente contrario ao que o auctor parece querer 
dar-lhe. 

Cit. a pag. 129. 

Santa Marta, refere-se o auctor a Scévole e Louis de 
Sainte-Marthe, conhecidos escriptores francezes, irmãos gé- 
meos (n. em i5j), filhos de um alto funccionario e também 
conhecido escriptor Scévole de Sainte-Marthe. Escreveram, 
com effeito, a obra que Soares d' Abreu lhes attribue. 

Cit. a pag. 197. 

SÁo Christovam (Marque:^ de.. .). Segundo Guillandeau, 
escriptor do século xvii, (cit. a pag. i58), o seigneur de 
St. Christophe era da família dos Furgon, que em 1476 deu 
á Rochella um presidente da camará, ou maire. Somente 
não diz que este individuo fosse filho natural de Amadée de 
la Porte. Soares d' Abreu também lhe chama Marque!( e diz 
ser sobrinho (ou filho) do Grão Prior (V. pag. i85). 

Cit. a pagg. II — ao — ai— 157 — 185. 



— 36i — 

SÃO Diniz, Saint-Denis, sub-prefeitura do departamento 
do Sena, lo kilometros ao N de Paris, que hoje constitue 
um arrabalde da cidade; deve o seu nome á celebre abbadia 
fundada por Dagoberto (século vii), de que foi abbade Hugo 
Capeio, e em cuja egreja eram sepultados os reis de França 
a partir de Dagoberto I. 

Cit. a pagg. 87 a 95 — 107. 

São Diniz, apostolo das Gallias, tendo realizado em Paris 
numerosas conversões ao christianismo foi o primeiro bispo 
d'aquella cidade e alli mesmo soffreu martyrio, no anno 272 
da nossa era, com os seus companheiros Rústico e Eleuthe- 
tio, na coUina de Monímartre, que d'este acontecimento deriva 
o seu nome. Conta a lenda que S. Dinij, depois de decapi- 
tado, caminhou ainda, levando a cabeça nas mãos, até ao 
logar ond^mais tarde (63o ou 632) o rei Dagoberto mandou 
edificar a sumptuosa egreja do seu nome. 

Cit. a pagg. 88 — 93 — 108. 

Sancto Eleutherio, um dos companheiros de S. Dinij 
com elle martyrisado (em 272). (V. S. Dini\). 
Cit. a pag. 89. 

Sancto Eloy (n. ap. 588), foi, como diz Franco Barreto, 
extraordinariamente perito na arte da ourivesaria, que larga- 
mente practicou deixando obras notáveis; dispondo da con- 
fiança de Clotario II e do seu filho e successor Dagoberto I, 
exerceu junto d'este as funcções de ministro e contribuiu para 
as suas boas obras. Recolheu-se depois a um convento, foi 
feito (em 640) bispo de Noyon, e morreu em 659 com fama 
de santo que a egreja confirmou. 

Cit. a pag. 89. 

SÃO Cassiano (e não Graciano), é S'. Gatien, bispo de 
Tours, um dos apóstolos das Gallias, pelos annos 25o da 



— 362 — 

nossa era, que fez um grande numero de proselytos e foi 
canonisado. 

Cit. a pag. 125. 

Sam Germão (burgo de) é Saint-Germain (faubourg); an- 
tigo arrabalde de Paris, na margem esquerda do Sena, que já 
ao tempo em que o auctor escreve estava inteiramente com- 
prehendido na cidade. A rua de ToMrwon que ellecita {Tur- 
non escreve elie) ainda hoje existe com o mesmo nome. 

Cit. a pagg. 56 — 66. 

Sam Germão (ou Sam Germão em Laya) é Saint-Germain- 
en-Laye, cidade no departamento de Seine-et-Oise, i8 kilo- 
metros a N O de Paris e 1 1 kilometros ao N de Versailles, 
residência real desde 1370, edificada por Carlos V; foi esta 
successivamente melhorada e augmentada por Francisco I, 
Henrique IV e Lui{ XIII, que alli residia muito frequente- 
mente tendo lá nascido Lui^ XIV. 

Cit. a pagg. 56 — 60 a 63 — 66 — 80 — 81 — 84 — 99 — 100 
— loi — 107. 

S. Gião, nome por que geralmente se designava no sé- 
culo xvii a fortaleza de 5. Julião da Barra que, conjunta- 
mente com a da Cabeça Secca (Torre do Bugio), defendia a 
entrada do Tejo. 

Cit. a pag. 7. 

Santo Hilário, doutor da egreja e bispo de Poitiers, nasceu 
n'aquella cidade no principio do iv século da nossa era, de 
parentes nobres e pagãos; tendo, porém, estudado profunda- 
mente as doutrinas do christianismo abraçou-as e veiu a ser 
elevado ao episcopado pelos seus conterrâneos em 35o. De- 
fensor eloquente da religião christãa, figurou brilhantemente 
em vários concílios e deixou importantes escriptos. 

Cit. a pag. 126. 



— 363 — 

S. JoAM DE Lus é St. Jean-de-Lu\, pequeno porto ao fundo 
do golfo de Gasconha, i8 kilometros a S O de Bayonna q 
da foz do Adour a partir da qual a costa, tornando-se quasi 
rectilínea, deixa de offerecer abrigo até á entrada do Gironde. 

Cit. a pag. 21. 

S. JosEPH é S. José de Ribamar, pequena enseada na margem 
direita do Tejo, entre a ribeira d'Algés e o Dafundo, onde 
existia um celebre convento de frades arrabidos. 

Cit. a pag. 7. 

S. Luís (S. Luij, rei de França). V. Lui;^ IX. 

SÃO Lupo é Saint-Loup, cabeça de cantão no departamento 
de Deux-Sèvres, que fazia parte da antiga provincia de Poitou; 
velha cidade onde havia um importante castello. 

Cit. a pag. 46. 

SÃO Martinho nasceu (por 3 16 da nossa era) na antiga 
Pannonia, que actualmente faz parte da Hungria, e era filho 
de um tribuno militar. Tendo sido primeiro soldado, veiu a 
ser ordenado por Santo Hilário, bispo de Poitiers, e depois 
de ter vivido algum tempo como eremita, foi eleito bispo de 
Tours, tornando-se notável pela sua inextinguível caridade 
(m, em 397 ou 400). 

Cit. a pag. 126. 

S. QuiNTiM EM Vermandois é Saint-Qucntin, sub-prefeitura 
no departamento do Aisne, situada junto ao rio Sonime; foi 
a capital do antigo condado de Vermandois, creado por 
Carlos Magno para o seu segundo filho. A cidade de 
5' Quentin foi conquistada por Filippe II de Hespanha, por 
occasião da memorável batalha a que deu o nome (em i357), 
e reverteu para o domínio da França em iSSg. 

Cit, a pag. io5. 



— 364 — 

Sam Rústico, um dos companheiros de S. Diniif, com elle 
martyrisado (em 272). (V. S. Dini![). 
Cit. a pag. 89. 

SÃO Severo é Saint-Sevère-sur-Indre. V. Indre. 

Sam Valério é 5'. Valery-sur- Somme, porto de mar e ca- 
beça de cantão no departamento do Somme, na margem 
esquerda e próximo á foz do rio do mesmo nome. 

Cit. a pag. io5. 

Sardini (Alessandro,. .) deve ser o verdadeiro nome do 
italiano que Franco Barreto e Soares d' Abreu designam por 
visconde de Sardigni, visto que se achava, com effeito, 
em Paris pelo tempo da embaixada um chevalier de Sar- 
dini agente de Saboya, que vemos citado na correspondência 
de Ma^arin onde não é mencionado como visconde. Quanto 
ao titulo que segue, de conselheiro do Rei, pertence evidente- 
mente a outro personagem (pag. 86). 

Cit. a pag. 86 — loa — 177. 

ScisMATicos DA PÁTRIA chama o nosso auctor, o marque^ 
de Villa Real, o arcebispo de Braga, o duque de Caminha, o 
conde de Armamar,. D. Agostinho Manoel e outros, que por 
terem conspirado contra D. João IV, foram presos em 28 de 
Julho de 1641, sentenceados em 23 de Agosto e justiçados em 
28 do mesmo mez. 

Cit. a pag. i33. 

ScHOMBERG, que Franco Barreto escreve Scomberg, deve 
ser Carlos, duque de Schomberg (n. em 1601), filho de outro 
duque de Schomberg (Henrique) e ambos elles marechaes de 
França. O segundo, Carlos, commandou o exercito francez 
na Catalunha, mas perdeu o valimento por morte de Luif XIII 
e morreu em i656. Não era da mesma familia um outro 



— 365 — 

Schomberg, que serviu mais tarde em Portugal e na Catalu- 
nha, e também foi marechal. 
Cit. a pag. 119. 

ScoT, cujo nome Franco Barreto escreve Escoío, é John- 
Duns Scot, celebre philosopho, natural de Duns, próximo de 
Berwick, na Escócia (n. por 1275), que estudou em Oxford, 
entrou na ordem dos franciscanos de que foi um dos princi- 
paes ornamentos e professou com grande brilho nas universi- 
dades de Paris ( i3o4) e de Colónia, vindo a morrer n'esta ultima 
cidade (em iSoy); adversário de S. Thomaj d' Aquino e da 
sua escola philosophica e iheologica foi talvez, depois d'elle, 
o maior theologo da egreja. 

Cit. a pagg. 114 — 116. V 

Sebastião (el Rey Dom. . .), (n. em i554), era neto de el 
Rei D. João III e da Rainha Catharina d' Áustria, irmãa de 
Carlos V; foram seus pães o infante D. João, que morreu 
pouco antes do nascimento do filho, e D. Joanna d' Áustria, 
filha de Carlos V. D. Sebastião foi rei de Portugal, em iSSy, 
por morte de seu avô, exercendo a regência durante a sua 
menoridade a rainha D. Catharina e morreu em 1578 na 
desastrosa batalha de Alcacer-Quebir. 

Cit. a pag. 195. 

Secretario (de Philippe II de Castella), deve ser António 
Perej, pois parece ter sido o único dos seus ministros que 
junto do rei teve valimento e influencia; não temos, no em- 
tanto, conhecimento do dito a que o auctor faz referencia, 
aliás pouco clara. 

Cit. a pag. 68. 

SÉGUiER (PierreJ (n. em 1 588), duque de Villemor, conde 
de Gien, etc, feito chanceller de França em i635, foi um dos 
mais celebres entre os altos magistrados do seu tempo e um 



_ 366 — 

dos negociadores do tratado com Portugal que vem a assi- 
gnar-se em i de Junho de 1641. 

Cit. a pagg. 102— 141 — 143 — 201. 

Sena (e não Senna), Sequana em latim, em francez Seine, 
é um dos rios mais importantes da França, nasce próximo de 
Chanceaux no departamento de Cote-cfOr^ passa em Cha- 
tillon no mesmo departamento, atravessa o do Aube por 
Mussy, Bar, Trqyes e Nogent, depois o de Seine-et-Marne 
por Montereau, Melun e Corbeil, entra no departamento do 
seu nome, atravessa Paris e banha SK Denis; depois, no de 
Seine-et-Oise, banha 5'. Germain e Mantes ; no de Eure en- 
contra Vernon, Les Andelys e Pont-de-l'Ârche; e finalmente 
no departamento de Seine-ln/érieure atravessa Rouen, e vae 
lançar-se no mar entre Honfleur, na sua margem esquerda, 
e Harjleur, na sua margem direita. 

Cit. a pag. 107. 

Seneterre (Madamoiselle de...), ou melhor de Senneíerre, 
deve ser uma irmaa, e pode também ser uma filha, de Henri 
de la Ferté-Senneterre (ou Saint-Nectaire), (n. em 1600), 
que foi feito marquez e mais tarde duque de la Ferté e mare- 
chal de França (em i65i), depois de se ter distinguido em 
varias batalhas (m. em 1662). 

Cit. a pag. 201. 

Senys (monte). V. Cenis. 

Serralvo (Marquesa de. . .). V. Cerralbo. 

Setelarao (também Setelarão) é Chatellerault, sub-prefei- 
tura no departamento de Vienne, na margem do rio d'este 
nome, notável pela industria depannos, cutilaria e fabricação 
d' armas. A este respeito diz Frei Manoel Homem : «de Pui- 
liers fizemos jornada á cidade de Chatelro, ou Chatelaro, 



— 367 - 

lugar em que se fas o panno grosso que vai a Lisboa, a quem 
chamamos setelaiãou. (Vide Descripção da jornada e embai- 
xada extraordinária que /ef a França D. Álvaro Pires de 
Castro, conde de Monsanto, marque!( de Cascaes, etc, pag. 65. 
Paris 1644). 

Cit. a pagg. 26 — 36 a 38 — 129. 

Silveira (António da...) foi um dos mais brilhantes sol- 
dados d'entre os que se cubriram de gloria na defeza dos 
nossos domínios no Oriente. Tendo partido para a índia 
com D. Vasco da Gama, quando este para alli foi como vice- 
rei, cedo se tornou notável pelas suas façanhas, merecendo 
assim que lhe fosse confiada (em óSy) a defeza de Diu, que 
defendeu durante o apertado cerco de i538, em que tomaram 
parte não somente Índios mas turcos, vindos do Egypto, e 
que enchiam a Europa de terror. Foi immensa a fama adqui- 
rida pelo defensor de Diu, sendo certo que Francisco I de 
França lhe mandou fazer o retrato para o ter em Fontaine- 
bleau, como conta o nosso auctor. 

Cit. a pag. i5. 

SiNDiÉ é St. Dié, povoação de pequena importância na 
margem esquerda do Loire, entre Blois e Orléans, uns 10 a 
i5 kilometros a montante de Blois. 

Cit. a pagg. 40. 

SiNESio, metropolitano de Pentapolis (Cirenaica) vivia no 
século IV e ainda no v, e escreveu um elogio da calvície. 
Cit. a pag. 128. 

So\sso^% (Conde de. . .). O representante d'essa casa ao 
tempo da embaixada é Lui\ de Bourbon (n. em 1604), conde 
de Soissons, de Clcnnont e de Dreux (m. em 1641), filho de 
Carlos de Bourbon, terceiro filho de Lui^ I de Bourbon, prín- 
cipe de Conde e tronco da familia, de que os condes de Sois- 



— 368 — 

sons eram um ramo secundário. Era sua mãe Anna, condessa 
de Moyitafié adiante mencionada; uma de suas irmSas, que 
foi sua successora, era Maria de Bourbon Soissons, casada 
(em 1635) com Thoma^ Francisco de Saboya Carignan, outra 
sua irmãa, Lui^ade Bourbon Soissons, casara (em 1617) com 
o duque de Longueville e morrera em 1637. 
Cit, a pagg. 55 — 119 — 201. 

Soissons (Condessa de...), comquanto Franco Barreto 
escreva Suason e lhe chame princeza, deve ser Anna, condessa 
de Montafié, que desposara (em i6ot) Carlos de Bourbon, 
conde de Soissons e de Dreux, filho de Lui!( de Bourbon, 
príncipe de Conde. A filha, a quem o auctor se refere, deve 
ser Maria de Bourbon Soissons (n. em 1606), casada com 
TJioma^ Francisco de Saboya, príncipe de Carignan, e que 
n'aquelle mesmo anno, de 1641, veiu a ser condessa de Sois- 
sons por morte de seu irmão, Lui^ de Bourbon Soissons, sem 
descendência. 

Cit. a pagg. 100 — 167 — |20i. 

SoLONA é La Sologne, pequena região da antiga provincia 
de Orléans e do actual departamento de Loir-et-Cher junto 
a este rio; a sua principal povoação é Romoraniin. 

Cit. a pag. 44. 

SoMMA é o Somme, rio de França que dá o nome a um depar- 
tamento, por elle atravessado e no qual tem a sua foz, com- 
quanto nasça no do Aisne perto de St. Quentin entrando no 
do seu nome pouco a montante de Hatn, que lhe fica na 
margem esquerda; depois banha Péronne, atravessa Aniiens, 
passa em Picquigny (margem esquerda), Abbeville, SainU 
Valery e Crotoy que fica na margem direita junto á foz. 

Cit. a pag. io5. 

SoRBON (Roberto de.. ), cujo nome Franco Barreto es- 



— 369 — 

crcve Sorbona (n. em 1201), foi capelláo e confessor de 
5. Lui\ rei de França, notável orador e escriptor sagrado, 
cónego em Cambrai e depois em Paris onde fundou, em 
1252, uma associação de clérigos seculares destinada a faci- 
litar a sua vida em commum, afim de se dedicarem exclusiva- 
mente ao estudo e ao ensino. Essa simples sociedade parti- 
cular transformou-se com o andar dos tempos em faculdade 
de theologia da universidade de Paris, adquiriu celebridade 
europêa a partir do século xiv, combateu o protestantismo, 
recebeu de Richelieu um notável incremento, e ainda hoje 
subsiste como admirável instituição scientiiica. 
Cit. a pag. 1 14. 

SoRDiM. V. Sourdis (Bailio de,..) e Bordéus (Arcebispo 
de...)- 

SouRDis (Bailio de...) que Soares d' Abreu escreve Sordim, 
deve ser um bailli de Sourdis, parente do arcebispo de Bor- 
déus Henri de Sourdis (V. Bordéus) e cavalleiro de Malta, a 
quem estaria confiado o mando das galés na armada que o 
arcebispo superiormente commandava. Não vemos mencio- 
nado nenhum bailio de Sourdis entre os officiaes que vieram 
na armada de Bréi^é; portanto se este veiu a Sacavém foi 
n*outra occasião. 

Cit. a pag. ao6. 

Sousa de Macedo (Dr. António de. . .), doutor em direito 
e já apreciado escriptor quando se realizou a revolução de 
164X), foi nomeado para acompanhar D. Antão de Almada 
quando este foi chamado para ir na primeira embaixada a 
Inglaterra. Os importantes serviços prestados durante essa 
missão e depois d'ella, ficando em Londres Sousa de Macedo 
como residente até 1646, justificaram a sua nomeação de 
ministro na HoUanda e, depois, a de secretario d'Estado, 
cargo que exerceu durante o ministério de Castello Melhor. 

24 



— $70 — 

Sousa de Macedo foi um dos mais notáveis diplomatas por- 
tuguezes do século xvii, em que tantos houve distinctissimos. 
Cit. a pag. ai 3. 

SoYsoN e SuAsoN. V. Soissons (Conde e condessa de.,,). 

SuGERO, ou antes Suger foi um dos mais celebres abbades 
de St. Denis, contemporâneo e ministro de Lwtf VI (n. em 
1078, m. em 1 137) e de Luif^^VII (n. em 1 120, m. em 1 180), seu 
successor; e muito valido de ambos estes reis. Notável es- 
criptor, parece que foi elle o iniciador das Chronicas de 
Si. Denis, tão apreciadas dos que se dedicam ao estudo da 
historia de França na edade media. 

Cit. a pag. 87. 

SuLLY (Duque de...) é Maximilien de Béthune, duque de 
Sully, grande financeiro e notável ministro de Henrique IV 
de França, de quem foi companheiro, confidente e amigo 
desde a mocidade. Entre os numerosos e elevados cargos 
que exerceu, contava-se o de governador do Poitou, um dos 
poucos que conservou depois da morte do rei; morreu em 
1641. 

Cit. a pagg. ■^S — 37 — 1 19. 

SuRGiERA é Sur geres, cabeça de cantão no departamento 
de Charente-Inférieure. 
Cit. a pag. 25. 

Syiva (Dom Phillippe da. ..) é um irmão do Marque:^ de 
Gouvêa, que estando em Flandres, onde tivera já uma bri- 
lhante carreira militar e fora vencedor em Fleurus e Moguncia, 
tornou-se suspeito a Olivares por occasião da acclamação de 
D. João IV e esteve preso emGand, sendo depois solto; ulte- 
riormente commandou em chefe o exercito de Catalunha, 



-3,.- 

batendo La Mothe-Houdancourt (em 1G44) e morreu pouco 
depois. 

Cit. a pag. 40. 

Sylva (Ruy Gomes da...) foi valido de Filippe II., talvez 
por ser marido de D. Anna de Mendoi[a, conhecida na historia 
por princeza d'Eboli, que passa por ter sido a única mulher 
que teve influencia no espirito severo e taciturno do rei. 
Comprehende-se porisso que D. Sebastião mandasse cumpri- 
mentar Ruy Gomej da Sylva e o Duque d'Alba pelo seu 
embaixador, como conta Soares d' Abreu. 

Cit. a pag. 195. 

Sylva Pereira (Pêro da...) também Dom Pedro da Sylva; 
reportamo-nos ao que a seu respeito diz Soares d' Abreu, sem 
que sobre o assumpto tenhamos nada a accrescentar. 

Cit. a pagg. 2o5 — 206. 

Talmont, talvez melhor Tallemond, é um pequeno porto 
de mar da Charente-Inférieure, antigo burgo, que deu o seu 
nome a um principado da familia La Trémdille. 

Cit. a pag. 26. 

Tamericourt (Achim d'Avaux, S*: de...) foi um dos 
mais conhecidos e de mais larga carreira d'entre os oíficiaes 
francezes que vieram na armada do marquez de Bré^é; pois 
serviu no exercito portuguez perto de 20 annos e com incon- 
testável distincção. Na Lista dos coronéis e capitães é o 
primeiro mencionado, sob o nome de Achim de Auaulx Sr. 
de Temiricour, entre os capitães do regimento de cavallaria 
de Gravelines (Hsta. do Exo., Provas, t. i, pag. 307); na Lista 
das pessoas, etc, apparece-nos Mr. de Temericourt, sob o 
n.° 1 1, como capitão do mesmo regimento mas com a indi- 
cação de ser : «Lugar Tenente coronel de MonsJ de graue- 
Une» {loc. cit., pag. 3 10); a sua patente, de 26 de Setembro 



— 372 — 

de 1641 {loc. cit., pag. 319), chama-lhe Achini de Auaux 5/ 
de Tamaricour e attribue-lhe uma das companhias do regi- 
mento de cavallaria ligeira de Gravelines. O Sr. Christovam 
Ayres, porém, dá-nos (no 1. 11 das Provas, pag. 323 e segg.) 
numerosos documentos que lhe dizem respeito, o primeiro 
dos quaes é a sua nomeação de «commissario geral da caval- 
laria» da província de Traz-os-Montes (patente de 24 de Julho 
de 1646), passando ao Alemtejo com o mesmo posto em Fe- 
vereiro (patente de 26 de Fevereiro de 1647); logo depois é 
mandado exercer o cargo de tenente general da cavallaria no 
exercito do Alemtejo (26 de Junho de 1648), provido definiti- 
vamente n'aquelle alto cargo (20 de Maio de 1649), e final- 
mente nomeado «governador da cavallaria de ambos os par- 
tidos da Beira» (i5 de Dezembro de 1660). Finalmente em 
Outubro de 166 1 é auctorizado a ir ao estrangeiro na compa- 
nhia da Infanta D. Catharina, com seis mezes de licença, de- 
vendo regressar ao Reino. Parece, porém, que não regressou. 
Cit. a pag. 147. 

Tarantesa, Tarentaise, região da alta Saboya, ao N. do 
condado de Moriana, comprehendendo as bacias do curso 
superior do Isère e dos seus affluentes da margem esquerda 
até Albertville, onde o rio muda de direcção tomando a de 
SO. 

Cit. a pag. 106. 

Theodosio (O Príncipe D J, filho primogénito de 

D.João IV e D. Luii^a de Gusmão (n. em 1634). Gosou este 
principe de grande fama de intelligencia, cultura e virtude, 
que os jesuitas, seus mestres, altamente encareceram e que a 
sua morte prematura (em i653) concorreu para que fosse 
exaggerada. É certo, porém, que os seus méritos eram muito 
superiores aos de seus irmãos que reinaram em seu logar. 

Cit. a pag. 6. 



— 373 — 

Thessereau (M), pessoa em cuja casa, diz Guillandeaii, se 
alojou um dos embaixadores (decerto Coelho de Carvalho) 
por occasião da sua chegada a Rochella; Franco Barreto não 
o menciona, nem tão pouco ao tenente general que hospedou 
o outro embaixador, apenas se conclue da sua narrativa que 
foram alojados rfas mesmas casas na ida e no regresso. 

Cit. a pag. i58. 

Thou (O Presidente de. . .), cujo nome Franco Barreto 
também escreve Thu, é Jacques Augusíe de Thou (i553-i6i7) 
que foi um dos historiadores mais distinctos do século xvi. 
A sua grande obra, /. A. Thuani historia sui temporis, co- 
meçou a publicar-se em 1604. 

Cit. a pag. 3o — 116. 

Thurs é Thouars, cabeça de cantão do departamento de 
Deux-Sèvres, 28 kilometros a NE de Bressuire, a cuja cir- 
cumscripção pertence. 

Cit. a pag. 26. 

TiciANo, em francez Le Titien, é Tipano Vecelli, celebre 
pintor veneziano, fundador da chamada escola de Veneza, 
que morreu n'aquella cidade com mais de 90 annos, em 1576, 
tendo conservado as suas faculdades de trabalho até uma 
edade muito avançada. Foi muito protegido de Carlos V a 
quem dedicou as suas obras mais notáveis, muitas das quaes 
estão no museu de Madrid. Deixamos á responsabilidade do 
auctor a afíirmação de que houvesse em Richelieu quadros 
do Ticiano, bastante raros em França. 

Cit. a pag. 128. 

TiRRELL (W alter. . .), julgamos ser este o verdadeiro nome 
do official a quem Franco Barreto chama Monsieur de Tirei, 
e que na Lista dos coronéis e capitães {Hista. do Ex°., Provas, 
t. I, pag. 3o8) nos apparece como Gualtiero Tirrel, coronel 



-374- 

de infanteria. No Rol das pessoas que vieram de França não 
nos atrevemos a affirmar que seja elle um Mr. de Tirae que 
nos apparece sob o n.° 85, com mais seis officiaes e a indica- 
ção collectiva Estos bolvieron de f rainha (loc. cit., pag. 3i5); 
a nota da sua patente {ibid., t. ii, pag. 209) ciiama-lhe dõ 
Giialtero Tirei e é de coronel de infanteria. Nada mais en- 
contrámos a seu respeito. 
Cit. a pag. 147. 

Torre (Conde da. , .), é o primeiro conde, D. Fernando 
de Mascarenhas, filho de D. Manoel de Mascarenhas que es- 
teve com el Rei D. Sebastião em Alcácer e foi depois gover- 
nador de Ma^agão; o titulo de conde da Torre foi-lhe con- 
cedido (em i638) por Filippe III em recompensa dos serviços 
prestados em Africa; depois foi-lhe confiado o commando de 
uma armada mandada ao Brazil contra os hollandezes, expe- 
dição esta em que foi infeliz, sendo no regresso preso em 
S. Julião da Barra onde o veiu encontrar a revolução do i.° 
de Dezembro. Conseguindo alcançar que a praça se rendesse, 
foi-lhe este serviço recompensado com a nomeação de con- 
selheiro de Estado, tendo mais tarde importantes commandos 
militares (m. em i65i). 

Cit. a pag. 212. 

Trémoílle (Duque de la. ..), que Franco Barreto designa 
por Senhor de Trimulha, é Henri-Charles, príncipe de Ta- 
rente, representante de uma das mais antigas e mais illustres 
familias da França, que tem o seu solar na terra de La Tré- 
mdille em Poitou. 

Cit. a pag. 3o. 

TuRENA é a Touraine, antiga província de França, que 
actualmente corresponde ao departamento de Indre-et-Loire ; 
é uma das mais formosas regiões da França e das mais inte- 
ressantes pela sua historia e monumentos, 

Cit. a pag. 39. 



- 3,5 - 

Turim, Toury ou Thoury, é uma pequena povoação de 
Eure-et-Loire, nos confins do Loiret, sobre a estrada de Or- 
léans a Paris entre Artenay e Augerville, que fica a cerca de 
35 kilometros de Étampes. Fr. Manoel Homem, citando este 
logar chama-lhe Torim. 

Cit. a pag. 49. 

TimNO. V. Bruto. 
Cit. a pag. 125. 

TuRPiN, que Franco Barreto escreve Turpim, deve ser o 
arcebispo Turpin das chronicas de Carlos Magno, seu famoso 
companheiro d'armas, que primeiro foi monge de St. Denis 
e depois arcebispo de Reims, passando por ser o auctor pri- 
mitivo da famosa chronica, absolutamente destituida de valor 
histórico, mas que serviu de base á lenda. 

Cit. a pag. 94. 

TuRS é Tours, antiga e importante cidade, capital da antiga 
Touraine e hoje do departamento de Indre-et-Loire, uma 
das mais notáveis e interessantes cidades do centro da França; 
está situada na margem esquerda do Loire, pouco acima da 
confluência do Cher e fica comprehendida entre os dois, indo 
depois o Cher juntar-se ao Indre e ambos com o Loire. 

Cit. a pag. 125. 

Ulmi de S. Martinho deve ser Les Ormes de St. Martin, 
pequena povoação na margem direita do Vienne, poucos ki- 
lometros a montante da confluência do Creuse. 

Cit. a pag. 38. 

Universidade de Paris, não foi fundada por Carlos Magno, 
comquanto elle fosse um grande protector das lettras e esta 
instituição o tomasse por patrono ; fundou-a Philippe- Augusto 
(em 1200), sendo os seus primeiros estatutos redigidos (em 



— 376 — 

121 5) por um inglez Robert Courson (ou Cursou). Quanto 
aos sábios citados pelo nosso auctor devemos notar que 
Beda, ou antes Bede, que passou por ser o homem mais 
erudito do seu século, nasceu em Durharn (Inglaterra) em 
672 e morreu em 735; Alcuino (726?-8o4?) seu compatriota 
e discipulo, foi chamado por Carlos Magno para fundar varias 
escolas e dirigir a que elle mantinha no seu próprio palácio; 
Rabam (em latim Rhabanus Maurus) foi bispo de Moguncia, 
em 827, e discipulo de Alcuino, mas quasi não foi contempo- 
râneo de Carlos Magno, que morreu no anno em que elle se 
ordenou; Cláudio, não o pudemos identificar, e quanto a 
João, cognominado Scoto, que não foi contemporâneo de 
Carlos Magno, veja-se Scoto. 
Cit. a pag 116. 

Urbano VIII, é o Papa d'este nome, Maffeo Barberino ou 
Barberini, a quem foi dirigida a embaixada do bispo de La- 
mego, D. Miguel de Portugal, e que não a recebeu. Aquelle 
Pontífice, apesar de ter sido eleito graças ao appoio e á in- 
fluencia da França, estava na occasião da embaixada mal- 
quistado com Richelieu por questões da politica italiana, o 
que muito contribuiu para a sua attitude hostil com respeito 
a Portugal. 

Cit. a pag. 21 5. 

Valões é o Fíi/oíi, pequena região da Ile-de-France, actual- 
mente repartida entre os departamentos de Oise e Aisne; 
foi constituída em condado (em 1284) e origem da dynastia 
de Valois, que deu numerosos soberanos á França (1828 a 
1589) ; Carlos F/ elevou o condado a ducado para seu irmão 
Lwif d'Orléans (1402); Lui^ XIV deu esse ducado a seu 
irmão Philippe já então duque d'Orléans. 

Cit. a pag. 48. 

Vandoma é César, duque de Vendome, filho legitimado d5 



— 377 — 

Henrique IV e de Gabriella d'Esírées (n. em 1594), que 
casou (em 1609) com Francisca de Lorena, filha do duque 
de Mercoeur. César de Vendome tomou parte em todas as 
conspirações e movimentos revolucionários que houve no 
seu tempo; no próprio anno de 1641, sendo governador da 
Bretanha, foi elle accusado de ter cooperado n'uma combi- 
nação para assassinar Richelieu e fugiu para Inglaterra d'onde 
só voltou em 1643 (m. em i665). 
Cit. a pag. 119. 

Vauter (Isabel de. ..), sob esta designação quer decerto 
Franco Barreto referir-se alsabeau de Vouthon, mãe de Joanna 
<ÍArc, pois este era o seu nome. 

Cit. a pag. 45. 

VíRNOL deve ser Verneuil. O auctor quer decerto referir se 
ao castello de Verneuil, que está effectivamente sobre o Oise^ 
a uns 5o kilometros de Paris, próximo de Senlis. 

Cit. a pag. 108. 

Vernon, cabeça de cantão no departamento de Eure, si- 
tuada na margem esquerda do Sena, sobre o qual existe uma 
ponte em frente da povoação. 

Cit. a pag. 107. 

Vidigueira (Conde da...) era D. Vasco Luij da Gama, 
Almirante do mar das índias (n. em 16 12), que depois foi 
embaixador em Paris e primeiro marquez de Ni^a, um dos 
mais notáveis diplomatas portuguezes do seu tempo. Foi 
certamente na sua qualidade de almirante que el-Rei D. João IV 
o encarregou de ir receber e saudar da sua parte o marquez 
de Bré{é, que vinha com o caracter de embaixador. 

Cit. a pag. i33 — 171. 

Vexin-français é uma região da Ile-de-France a oeste de 



— 378 — 

Paris, que se prolonga para oeste com o Vexin-normand ; 
outr*ora fazia o conjuncto parte da Normandia, depois sepa- 
raram-se os dois, tomando a designação de Vexin-fr atiçais a 
parte oriental, cujas principais povoações se acham com- 
prehendidas no departamento de Seine-et-Oise. 
Cit. a pag. 125. 

ViENNA é o Vienne, affluente da margem esquerda do Loire, 
que nasce no limite septentrional do departamento de Cor- 
rè^e, atravessa o de Haute-Vienne, passando em Limoges 
que fica na sua margem direita, corta o N O da Charente por 
Chabannes e Cotifolens, depois rega o departamento do seu 
nome de S a N, passando em Chaíellerault, e vae terminar 
em Indre- et- Loire juntando-se com este ultimo rio em Candes. 

Cit. a pagg. 36 — 38 — 127. 

ViLLAMONTÉ ; SÓ por este nome, visivelmente mal reprodu- 
zido, não conseguimos descubrir a quem Ghristovam Soares 
d'Abreu quer referir-se. 

Cit. a pag. i85. 

ViLLAREAL (Matioel Fernandes. . .), era um christao novo 
ou judeu portuguez que residia em França como cônsul de 
Portugal e parece ter prestado bastantes serviços aos nossos 
embaixadores, como refere Soares d' Abreu nas Advertências 
(Doe. v); mais tarde, porém, foi denunciado á Inquisição por 
Frei Francisco de S^o. Agostinho de Macedo, e condemnado, 
por relapso, culpa que confessou, soíFrendo a pena de morte 
em Lisboa a 10 de Outubro de i652. A declaração que fez 
estando nas prisÕos do Santo OflBcio e a sentença vêem im- 
pressas no Diccionario Bibliographico de Innocencio da Silva, 
tomo XVI, pagg. 189 e seg. Vide o que a seu respeito diz a 
pag. i8i. Soares d' Abreu, que o designa por capitão. 

Cit. a pagg. 49 — 165 — 181 e 181 n. 2.* — 187 — 213. 



— 379 — 

ViLLAviçosA, OU Villã Viçosa, villa de Portugal na pro- 
víncia do Aleniiejo, onde os Duques de Bragança tinham a 
sua principal residência; magnifico palácio e vastas proprie- 
dades ruraes, que ainda hoje pertencem á casa de Bragança. 

Cit. a pag. 8a. 

ViLLETE é la Villette, então arrabalde de Paris, a N O da 
cidade, hoje um dos seus bairros, comprehendido dentro das 
fortificações e dos boulevards exteriores. 

Cit. a pagg. 53 — 54 — 55. 

Vimioso (Conde de ■ . .), era ao tempo da embaixada D. Af- 
fonso de Portugal (n. em 1591), filho de D. JLwíf de Portugal 
e D. Joanna de Mendonça, que foi feito marquez de Aguiar 
(em 1643) pelas constantes provas que dera do seu patrio- 
tismo e do seu valor. Tendo sido um dos primeiros a co- 
operar na revolução de 1640 e um dos que instaram com o 
duque de Bragança para que acceitasse a coroa, foi também 
um dos que mais contribuíram para fazer abortar a conspi- 
ração do arcebispo de Braga. 

Cit. a pag. 86. 

ViRON (Mariscai de. . .). V. Biron (Marechal de.. .). 
ViTEMBERG (Duquc dc...). V. Wurtemberg (Duque de . ■). 

VocoLOB. éVaucouleurs, cabeça de cantão no departamento 
do Meuse, situada na margem esquerda d'este rio e a uns 
3o kilometros a jusante de Domrémy, onde nasceu Joanna 
d^Arc. Consta ter sido em Vaucoideurs que ella offereceu os 
seus serviços em defeza da pátria. 

Cit. a pag. 45. 

Voga (monte), não conseguimos identificar este monte 
junto do qual nasce o Sena no dizer do auctor; é sabido 



— 38o - 

que a origem d'este rio é muito próximo de Champceau, (mais 
modernamente Chanceaux), nas montanhas da Cote d'Or e 
portanto no antigo ducado de Borgonha. 
Git. a pag. 107. 

VoLFRANCHE, localidade que não conseguimos identificar; 
citada pelo auctor como logar onde nasce o rio Creuse; «no 
pais de Berry (sicj». Devemos notar que o rio citado não 
nasce no Berry porém sim na Marche, mais ao sul. 

Git. a pag. 38. 

WuRTEMBERG (Duquc de . . .) deve ser Eberhardo III (n. 
em 16 14, duque em 1628), que os francezes contemporâneos 
frequentemente designam por duque, ou por príncipe, de Wir- 
temberg; era conde de Montbéliard em França e seguira o 
partido dos francezes na Guerra dos Trinta Annos. Achava-se 
effectivamente privado da posse dos seus estados da AUema- 
nha em 1641, e porisso ao serviço da França; em 1643 entre- 
gavam-lhe os francezes a defeza de Rothweil (m. em 1698). 

Git. a pag. 83. 

Xamburg, V. Chambord. 

Xamerat. V. Barbe^ières-Chemerault. 

Xampanha. V. Chatnpagne. 

Xampui. V. Champuis. 
Xantanhier. V. Chasíeignier. 
Xartré, Xastres. V. Chartres. 
Xartren (ou Xatren). V. Chartrain. 



- 38i — 

Xatilhon, também Xatillon, Chatilhão e Chatilhon. V. 
Chaíillon e Chatillon-sur-Seine. 

Xavigni, Chaviny e Chavery. V. Chavigny. 

Xentonge. V. Saintonge. 

Xer. V.Cher. 

Xevrosa, também Cheverosa e Chevrosa. V. Chevreuse. 

XiLOT. V. Chilleurs-aux-Bois. 

XoMUM. V. Sainí-Chamond. 

Zeuxis, celebre pintor grego que viveu no 5.» século antes 
de Christo (475-400), competidor de Parrhasio e, como este, 
muito apreciado dos seus contemporâneos. 

Cit. a pag. 85. 







ERRATAS 


Pág. 


linha 


onde se lê 


leia-se 


VI 


6 


Icrd 


lord 


7 


I 


Maria João 


Maria João 


49 


10 


despahcarão 


despacharão 


120 


2 


Architrenio 


Architrenio 


142 


II 


conhecida 


concluida 


» 


21 


como temos 


commetemos 


143 


16 


reiificação 


ratificação 


i58 


5 


Guillandeau. 


Guillaudeau. 


210 


22 


venda 


vinda 


3i3 


18 


duque 


conde 


328 


3 


37 


19 — 37 


» 


7 


io3 


3,_36— io3 


335 


i5 


54 


20 — 27 — 28 — 54 


35i 


6 


perhibente 


perhibent 


» 


12 


et 


ut 


» 


i3 


vocatio 


vacatio 


» 


» 


e dicendi 


edicendi 


» 


23 


25 — 33 


26-31-33 



índice 

Parecer do Sr. Joaquim Coelho de Carvalho v 

Prefacio ix 

Introducção xxv 

Relação da viagem i 

Documentos elucidativos i5i 

Personagens e logares citados 257 

Mappa do itinerário do Monteiro Mór 5 



25 




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Relação da embaixada a 
França era I64.I 




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